Os Super Agentes
5 Fim dos dias na Mansão Branca
– vamos lá rapazes, não tenho o dia todo! – disse o professor, a voz levemente alterada, dando tapinhas nas costas dos garotos com cada uma das mãos.
Daniel e Harry ainda se entreolhavam, cada um em silencio perguntando ao outro se realmente iriam fazer aquilo. Daniel não queria, sentiu que naquele momento seria incapaz de machucar Harry e em seguida se perguntou o porquê daquela recusa. E afinal de contas, que dano poderia causar a Harry se sua habilidade era trazer objetos que via em sonhos e naquele momento estava bem acordado mesmo estando exausto? Harry certamente lhe quebraria uma perna com uma mordida, ou lhe faria desmaiar com uma queixada ou mesmo levaria Daniel ao chão apenas usando os golpes que aprender com Aguiar.
Harry se aproximou e Daniel se preparou para levar um golpe quando as portas da sala se abriram com estrondo e Augustus e Amanda entraram apressados.
– posso saber o que está havendo aqui? – perguntou Augustus, fazendo sinal para que Daniel e Harry se afastassem.
– fique calmo Augustus, não é nada de mais.
– fique calmo você Ralph, seu sádico filho da mãe. – Augustus empurrara o professor e agora falava apontando um dedo no nariz de Ralph.
– qual é a sua? Só estava vendo as habilidades dos garotos.
– podia pedir que eles se sentassem e eles mesmos mostrassem individualmente como eles fizeram quando os conheci!
– não me faça rir! Esses garotos não tem técnica alguma de combate! Aguiar não os ensinou nada sobre lutar! O que eles vão fazer quando estiverem em missão? Sentar e tomar chá com o inimigo?
– isso não é da sua conta porque a partir de agora eu assumo o seu cargo.
– como é que é?
– acabo de chegar do escritório da Beth – respondeu Augustus tirando um papel do bolso e abrindo-o na frente de Ralph — Depois de muita conversa eu a convenci a me colocar no seu lugar porque já tenho mais tempo de convivência com eles do que você. Mas posso te assegurar que ela irá te mandar para um bom lugar, fique tranquilo.
– vocês estão bem? – perguntou Amanda a Daniel e Harry – o que houve com Sandeoul?
– explicamos depois – cochichou Harry.
Ralph tomou o papel das mãos de Augustus e o leu em silencio. Ao terminar, amassou-o e atirou o objeto no peito de Augustus.
– pois bem, fique a vontade com esses adolescentes merdinhas. Sabia que um deles apenas lê rápido? Isso é cômico. Boa sorte Augustus, espero que nossos inimigos sejam analfabetos – e então Ralph saiu da sala gargalhando alto.
– mas que grande idiota – disse Amanda indo até Augustus – você está bem?
– estou mais preocupado com os estragos que Ralph causou aqui. Meninos, o que aconteceu?
– acho que Harvey vai ficar bem e Sandeoul deve ter quebrado alguns dedos do pé ao me chutar nos dentes – respondeu Harry.
Augustus passou a mão no rosto, inconformado, e então foi até a enfermaria para ver como Sandeoul ficaria. Amanda o seguiu.
– acho melhor irmos com eles, talvez deem alguma coisa pra colocar nos lugares onde Sandeoul chutou você.
– tem razão, vamos.
Daniel e Harry saíram da sala escura e então andaram por um largo corredor que parecia levar a enfermaria.
– quem será de nós dois que teria ganho se não tivéssemos sido interrompidos pelo casal? – perguntou Harry, cortando o silencio.
– você, é claro. – respondeu Daniel.
– acho que não. Talvez sim.
– convencido.
– não, não é por isso.
– então?
– eu não conseguiria machucar você.
Daniel corou. E então viram que haviam andado o tempo todo na direção do dormitório e não na direção da enfermaria. Estavam na porta do quarto que eles dividiam com Harvey e Sandeoul.
– acho que erramos o caminho e... – Daniel foi interrompido quando Harry segurou sua mão e o arrastou para dentro do quarto, mas Harry congelou logo em seguida quando viu Harvey chorando sentado em sua cama.
– Harry? – perguntou Daniel.
– p-preciso pegar uma coisa. – mentiu Harry, soltando a mão de Daniel e indo até seu guarda roupa.
Daniel se perguntou o que estava acontecendo. O que se passava na cabeça de Harry. “deixa isso pra lá” – foi a melhor coisa que conseguiu pensar.
O restante do dia foi calmo e sem mais aulas. O pé de Sandeoul não sofrera muitos danos, o rapaz era forte, e teria que usar uma tipoia ortopédica por alguns dias. O rapaz ainda fez um pedido estranho: queria que Harvey viesse vê-lo, para pedir desculpas. Alisha disse alegremente a Daniel e Harry que conseguira fazer amizade com Sandeoul e acrescentou que por trás de toda aquela brutalidade e arrogância existia um garotinho doce, meio e com medo de ficar sozinho.
Depois desse dia Augustus e Amanda passaram a ficar na mansão em tempo integral. Os treinamentos com Aguiar se tornaram mais leves. Sandeoul largou o mau humor e agora falava com todos os companheiros de quarto e em especial com Alisha. Alguns dias depois Daniel telefonou para Brenda e esta estava desesperada por notícias. Assim como Daniel esperava, seu pai continuava a beber e cair no sopé da porta de casa e Brenda era a única que estava desesperada por notícias. Daniel sustentou a mentira do acampamento militar e teve que realmente desligar na cara de Brenda finalizando com u “volto logo, prometo!”.
Faltavam poucos dias para o treinamento finalizar. Em breve cada super agente voltaria para sua vida normal e só seriam chamados quando alguma missão surgisse. Augustus havia contado que aquele grupo do qual eles faziam parte era uma divisão do governo que trabalhava apenas com jovens com poderes peculiares como o deles, já que os tais Super Agentes eram algo muito maior; é claro que existiam os grupos que trabalhavam com pessoas que tinham poderes maiores e mais conhecidos como voar ou super força, e que aquele do qual Daniel e os outros faziam parte era como se fosse mais um galho da enorme árvore que esta organização secreta representava.
– mas antes de vocês irem – concluía Augustus em seu discurso no que parecia ser um dos últimos jantares na mansão branca – temos uma pequena missão para todos vocês.
Todos os rostos na mesa denotaram ansiedade. Amanda e Lizzard também ficaram felizes. Aguiar, Débora e Denver também estavam á mesa, alegres com os resultados obtidos com suas aulas. A parede de frente com a mesa se abriu, exibindo uma enorme tela de plasma, e um rosto mau humorado de bigodes surgiu em preto e branco na imensa televisão.
– este homem é Ricardo Renfles. Um contrabandista de quinta categoria mas que está dando muito trabalho para a polícia local. Mas a melhor parte é que ele não contrabandeia drogas apenas. Ele também trabalha com crianças recém nascidas que a equipe dele habilmente rouba de hospitais. Para nossa sorte, de acordo com nossa investigação, nosso amigo Ricardo tem uma leve queda por morenas, em especial indianas.
Augustos se apoiou na mesa com as duas mãos e encarou Alisha.
– você será nossa isca, Ali.
Alisha pareceu se sentir desconfortável com a ideia, mas logo fez ar de altiva e concordou afirmativamente com a cabeça.
– mas... – vociferou Sandeoul, mas Alisha segurou sua mão.
– sem mas Sandeoul – silenciou-o Augustus.
– vai ficar tudo bem – cochichou Alisha para o garoto.
– o show começa amanhã, ás 8 da noite. Deixo cada um de vocês em casa depois. – disse Augustus, de frente para a mesa e de costas para a foto do homem que deveria ser morto no dia seguinte, sorrindo de uma maneira um tanto sádica – tudo ficará bem.
Depois do jantar, Daniel ficou a olhar para o mar de uma das muitas varandas da mansão. A lua branca pintava de dourado o oceano imóvel e a floresta silenciosa embaixo dela. Não demorou muito para Harry aparecer ao seu lado.
– como você está? – perguntou para Daniel.
– apreensivo. E você?
– ansioso. Mal posso esperar por amanhã!
– já passou pela sua cabeça que vamos matar um homem? Tirar a vida de alguém?
– ele já deve ter tirado tantas. Não vai fazer diferença. Trabalhamos para o governo, relaxe.
– me perguntou quem terá encomendado a morte dele.
– e o que importa? Somos uma organização secreta, com certeza foi alguém tão mau quanto ele.
– tem razão, eu só não sabia que o governo trabalhava dessa forma.
– nunca confie no governo, já dizia minha mãe.
Daniel riu. Era incrível como Harry sempre o fazia rir, mas de uma maneira diferente, não como Brenda também fazia.
– quem irá matá-lo? – perguntou Daniel depois de um instante de silencio.
– quem sabe... Mas se você não tiver coragem, eu faço.
– você seria capaz de...?
– por que não? É o nosso trabalho Dan.
Daniel piscou duplamente depois de ouvir Harry o chamar apenas de Dan.
– o que foi? – perguntou Harry.
– achei engraçado você me chamar assim, só isso.
– posso te chamar assim sempre né? Posso Dan?
– cale a boca, claro que pode.
– legal... – Harry colocou os braços atrás da cabeça e ficou olhando para o céu também.
Daniel olhou pra baixo e viu Sandeoul e Alisha saindo para um passeio noturno pelo jardim. Pelo canto do olho viu algumas luzes de alguns quartos da mansão se apagando. Harvey certamente estaria na cama, pois gostava de dormir cedo. Os professores, Lizzard, Augustus e Amanda ainda estavam na sala de jantar conversando e bebericando vinho ao som de uma suave orquestra.
– Harry... – chamou Daniel.
– hm?
Aconteceu rápido demais. Daniel não sabia o que estava fazendo, mas também não se importava. Já fazia muito tempo em que estava pensando em tudo aquilo. Se jogou em cima de Harry e o beijou. Um beijo sem movimentos, apenas lábios grudados, e então sentiu as mãos de Harry em seus ombros, o afastando. Daniel não ficou para ver o estrago que havia feito. Entrou correndo de volta na mansão, deixando um Harry confuso na varanda.
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