Os Sete Amores
2 Pragma
Notas iniciais
Pragma é o amor baseado na dedicação ao bem maior; o tipo de sentimento profundo de amor e compromisso que nos leva a fazer a coisa certa.
Kibutsuji Muzan é o grande senhor dos demônios, o primeiro de seu tipo e o único capaz de transformar pessoas em demônios, sendo também o mais forte de todos, com séculos de existência. Ele tem sob suas mãos as vidas de todos os demônios sob suas ordens e estabeleceu um grupo, os Jūnikizuki e é o maior inimigo do Esquadrão de Exterminadores, mas nenhum caçador esteve perto de lhe encontrar pessoalmente ou saber sobre sua identidade. Por conta disso, ele pode viver sua vida imortal com certa segurança e dedicando seu tempo em suas pesquisas e buscas pelo Lírio Aranha Azul, a única forma de torna-lo capaz de andar a luz do sol e, dessa forma, acabar com qualquer fraqueza sua. Muzan viveu muitas identidades diferentes em diversas regiões do Japão, e daquela vez, com o país abrindo as portas para a tecnologia e cultura ocidental, ele vestiu uma nova faceta e passou a viver como outra pessoa.
Foi com o nome de Kibutsuji Tsukihiko que ele conheceu uma bela mulher chamada Rei, na qual se apaixonou perdidamente pelo homem que Muzan dizia ser. O demônio viu naquela mulher uma oportunidade perfeita para se passar por um humano comum, visto que Rei era um tanto ingênua e medrosa, mas bastante amorosa e doce, e já que ela era tão apaixonada por si, iria usá-la como um divertimento pessoal e disfarce. Um dia, a chamou para sair, e depois de alguns encontros, eles começaram um romance, que terminou com ele pedindo sua mão em casamento. Rei e Tsukihiko se casaram depois de pouco mais de um ano juntos e ela se tornou a senhora Kibutsuji, e com isso, ambos se mudaram para Asakusa, Tokyo, para viverem sua lua de mel e vida como casados, sendo este um dos lugares que o oni estava interessado pelo avanço tecnológico do local e como isso poderia beneficiá-lo. No entanto, depois de alguns meses, Muzan percebeu que sua mulher parecia meio infeliz, mesmo estando ao seu lado, da pessoa que ela dizia amar mais do que a própria. E quando foi perguntar a razão de sua tristeza, ele ficou um pouco surpreso; Rei queria ter um filho.
Quando Muzan e Rei tiveram sua primeira vez e viu a mulher desnuda, não pode deixar de perceber uma cicatriz grande em seu quadril, um pouco acima do começo dos pelos pubianos da mulher, e tal marca parecia antiga. Depois do ato, ele perguntou a ela sobre a cicatriz, e a mesma disse que, quando criança, sofreu um acidente com uma estaca de madeira e fez uma cirurgia complicada; saiu viva da operação, no entanto, seu útero não pode ser salvo e, junto a ele, seus ovários também foram retirados. Em outras palavras, Rei era infértil desde aquela época. Aquela informação era realmente inesperada para Muzan, no entanto, ficou contente em saber do fato; seria ruim e desgastante para si acabar casando com uma mulher querendo um filho e ele não pudendo lhe dar uma criança. Imaginava se fosse o caso com Rei e ela decidisse trai-lo ou algo do tipo – sua reputação seria manchada e ele ficaria com o orgulho e honra feridos se as pessoas soubessem sobre um adultério, especialmente seus demônios.
Muzan odiava crianças, as achava problemáticas e irritantes, mas se Rei queria um filho, iria fazer isso por ela, e tal criança seria mais uma peça do seu disfarce perfeito. Sendo assim, eles decidiram que iriam adotar alguma criança que fosse pequena; foram a um orfanato e Rei ficou livre para se ligar mais a algum dos remelentos do local, ele apenas ficou esperando por ela na porta e vendo outros casais conversando com as crianças. Ao fundo, ele viu sua esposa conversando com uma menina bem pequena, não deveria ter mais do que três anos, então foi até elas, e o olhar de Rei dizia tudo; aquela seria a escolha dela, aquela seria a filha deles. Conversaram com uma das responsáveis do lugar, pagaram pela adoção da garota e saíram com ela no colo no final do dia, sua pequena flor, como Rei a chamou.
A garotinha era bastante apegada a si e muito grudenta, vivia no seu pé e fazia perguntas demais, e no começo daquela convivência, teve muitas vezes que Muzan queria cortar aquele pescoço e calar a boca da humana, mas ele estava disposto e assumiu a responsabilidade de criar um filho, então teria paciência com aquele ser estressante. Os anos se passaram e agora ela tinha quase sete anos, e o demônio aprendeu a fingir um amor tanto por sua filha e reforçar o falso amor por sua mulher; se ele iria encenar aquele papel, teria de fazê-lo bem. Era desgastante e fazia-o querer deixar tudo de lado e devorar as duas algumas vezes, mas sua vida estava tão confortável daquela forma que ele apenas deixaria como estava por enquanto.
— Querido, pode levar nossa florzinha para a cama? Ela adormeceu no jardim novamente. – A voz suave de Rei surgiu da porta de seu escritório junto com a mesma. – Algo errado? – Ela perguntou ao se aproximar e ver seu marido com um olhar pensativo mirando fixamente a janela. Muzan a encarou e negou com um sorriso.
— Não, está tudo bem. Apenas pensando em quanto sou sortudo por tê-las em minha vida. – Ele se levantou e deu um breve beijo nos lábios da mulher; saiu do cômodo e atravessou a casa até o jardim, pegando a filha no colo e voltando para dentro da residência, a colocando na cama e cobrindo o pequeno e frágil corpo.
— Crianças crescem rápido, não é? Lembro-me como se fosse ontem quando ela ainda usava fraldas. – Rei disse ao seu lado e acariciando os cabelos da menina.
— Realmente. Nossa flor está ficando maior a cada dia e um dia será a mais bela do jardim. – Comentou com uma falsa sensibilidade e compaixão pela criança. Os adultos se levantaram e saíram do quarto da filha, indo para o próprio para dormirem, ou apenas Rei no caso, já que Muzan ainda tinha trabalho a fazer.
O pai dos demônios poderia não sentir nenhum amor por nada além de si mesmo, e não tinha compaixão por aquelas humanas que chamava de esposa e filha; no entanto, ele estava comprometido em fazer aquela mentira familiar dar certo, faria isso por elas.
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