Notas iniciais
Esse deve ser o último capítulo seguido com essa personagem (ou não, vai saber).

Tóquio, Japão — 1980

— Saori, o que você acha? — A voz grossa, mas já idosa, de Mitsumasa ecoou pela sala.

Mii voltou seus olhos para Saori com extrema atenção. Como futura secretária pessoal da herdeira Kido, ela deveria saber ler a garota como ninguém naquela sala. Conseguia ver que Saori tinha um brilho nos olhos, mas seus lábios e mãos tentavam conter uma leve tensão que só um olho muito treinado era capaz de perceber. O leve aperto no punho era quase imperceptível, mas Mii já tinha aprendido onde ela deveria buscar sinais de desconforto.

— Vovô, mas qual exatamente é a minha função?

— Você vai analisar a documentação, fazer observações de campo, propor ideias, participar de reuniões, aprovar a execução… tudo que for relacionado à supervisão desses projetos.

— Então eu vou supervisionar os projetos?

— Sim.

— Mas sob supervisão de um time seu? Com alguém validando o meu carimbo?

Ele suspirou. Já Mii se deixou guiar pelo cheiro de chá-preto que saia do bule perto deles, procurando seguir seu percurso em silêncio e mantendo seus ouvidos atentos. Estava claro que aquela conversa demoraria mais um pouco, e Saori com certeza iria querer mais chá.

— Saori, legalmente, você não pode trabalhar. Oficialmente, você está apenas observando e simulando para aprender. Se você soubesse a quantidade de papéis que os advogados escreveram para que eu pudesse te dar essa chance…

— Mas a Mii — Saori apontou para a garota pegando a bandeja — trabalha, e ela é só um pouco mais velha do que eu.

Mii parou por um segundo ao ouvir o próprio nome antes de seguir. Talvez fosse melhor não ter os ouvidos atentos naquela hora.

— Legalmente não trabalha, ela te acompanha e observa. Sob supervisão do Tatsumi ou outro responsável.

— E qual é a diferença, na prática?

— Na prática, a única pessoa que vai desvalidar o seu carimbo sou eu. Os funcionários estarão lá para te auxiliar. Você não disse que queria experimentar coordenar projetos da Fundação para sua professora?

— Sim, é uma chatice só ler o que é cada um…

— Ninguém coordena projetos sozinhos. Eles vão te ajudar com documentação, informação, conselhos… o que for necessário.

— Então a supervisão é minha?

— Exatamente, Saori. Os seus professores falam que você progride muito bem nos estudos. Está na hora de colocarmos em prática, não?

Mii olhou para ela enquanto preparava mais chá. Se sentia um pouco intimidada quando Saori assumia uma postura mais altiva, mesmo que não fosse direcionada a ela. Os olhos da herdeira Kido brilhavam como era raro de se ver desde que os órfãos chegaram na mansão.

— Você promete? — A pergunta, com um tom ingênuo, parecia incompatível com a presença dela.

— Mas é claro, Saori. Tenho grandes expectativas para você.

Saori abriu um sorriso largo, e Mii sentiu, ao mesmo tempo, uma paz e uma pressão naquela sala. Na verdade, era comum que o ambiente alternasse entre um e outro com Saori. Às vezes, sentia que o olhar dela podia ser tão penetrante que seria capaz de ver a alma dos outros. Mii focou no rosto, estampando felicidade, da outra garota, sem perceber que ela mesma havia começado a sorrir.

— Eu vou atender a todas as expectativas. Quando eu vou receber mais detalhes desses projetos?

— Amanhã eu te levarei para conhecer a funcionária que vai ser seu braço direito no primeiro deles. Uma chuugakkou(1) que vamos construir em um projeto em parceria com a Igreja Católica. Até lá, você pode se adiantar lendo os documentos desta pasta.

Kido então entregou a pasta à garota.

— E eu sou livre pra decidir, né?

— Com bom senso, sim.

Saori seguiu com um sorriso tão largo que parecia que ela transbordaria pela sala.

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— Você acredita, Mii? Eu vou gerenciar um projeto! Ge-ren-ci-ar!

Depois que Mitsumasa saiu, Saori realmente pediu mais chá. Como já era praxe quando ficavam sozinhas, as duas dividiam a mesa e as xícaras.

— É muito bom que o senhor Mitsumasa esteja dando essa oportunidade que você tanto queria. Mas, senhorita Saori, não é algo muito complexo?

— É! Mais ou menos. Mas essa é a graça, Mii! Vai ser muito melhor que ficar aqui no tédio só estudando e ouvindo aqueles meninos quebrando tudo lá fora!

— Falaram que eles vão embora em breve…

— Mas continuam aí! Aliás…

— Aliás?

— Talvez eu possa descobrir algo sobre esse projeto desses meninos. Embora eu duvide que o vovô deixe alguma brecha.

— Não é muito arriscado, senhorita Saori?

Saori se retraiu. A atmosfera ficou, de repente, pesada. Mii não sabia explicar, era como se a senhorita Kido tivesse uma pressão no peito que fosse contagiosa e se espalhasse pelo entorno. Uma sensação claustrofóbica que se chocava com o tamanho daquela sala.

— Tem algo estranho com esses garotos, — era raro ver Saori tão séria — eu sinto isso desde que eles chegaram. E nada parece bater com os arquivos da Fundação que tenha acesso. É uma sensação estranha, e eles aparecem em sonhos confusos. E o vovô não me fala nada…

Mii pensou no que falar. Era verdade que Saori tinha começado a ter noites piores desde a chegada daqueles meninos.

— O que você acha que pode ser?

— Não sei. Eu estou buscando formas de descobrir. Mas ó…

— O quê?

— Você é a única pessoa pra quem eu estou falando isso. Não é pra contar pra ninguém.

— Tudo bem. Você quer que eu te ajude a descobrir?

— Não, Mii. Você é a primeira pessoa pra quem meu avô acharia que eu pediria ajuda. Então você é a única pessoa que ele não pode suspeitar.

— Entendi…

— Mas saiba eu confio em você. — Saori fixou os olhos em Mii por alguns instantes e falou num tom quase solene. De repente, pousou o olhar na pasta na mesa, e todo o ar pesado que parecia suspenso na sala desapareceu. — Agora, vamos ler o que tem aqui!

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— Me chamo Betina Reiter. É uma honra conhecê-la e poder trabalhar com você, senhorita Kido. — Betina se apresentou com uma profunda reverência.

Tendo passado anos como acompanhante e prostituta de luxo em Yokohama, Betina tinha pouca dificuldade com certos protocolos de etiqueta da elite japonesa. O que a preocupava de verdade é que, do pouco que pode ouvir sobre Saori Kido, ela não era fácil. Se já seria estranho trabalhar para uma criança tão nova, seria ainda mais desconfortável se a garota fosse difícil e, pior, se fizesse muitas perguntas sobre sua origem.

Saori pousou os olhos nela por alguns segundos num silêncio desconfortável. Betina sentiu uma palpitação e calafrios.

— Prazer. — Saori assentiu de leve com a cabeça — Você é uma bolsista da Fundação, certo?

— Isso. Eu vim há alguns anos em um projeto da Fundação Graad.

— É um crescimento impressionante o da sua ficha…

Betina não sabia se aquilo era um elogio ou um desafio. Mesmo assim, ela inclinou a cabeça e assentiu.

— Obrigada, senhorita Kido. Minha função é acompanhá-la em campo e servir de ponte entre a senhorita, a escola e o resto da equipe. Uma espécie de mão direita.

— Isso é o que nós vamos ver.

Betina sentiu o coração na boca. O perfume daquela sala de repente parecia pesado. Ela nem tinha começado, e já estava falhando?

— Senhorita Kido, se algo não a agrada, posso pedir para me substituírem e…

— Você veio da Alemanha há 3 anos, certo? — Saori a cortou.

— Sim.

— Mas você fala de um jeito estranho.

— Estranho como?

— Tem algo… diferente.

— Quem vem da Europa tem dificuldade em aprender japonês… Ao menos, depois de virar adulto. — Betina então olhou em direção à Mii, que estava dois passo para trás e dois passo para o lado direito de Saori. — Tenho certeza que para a sua secretária o aprendizado é muito mais rápido. Ou mesmo para você, que deve ter vindo bem pequena.

Mii reagiu de sobressalto. Ela nunca tinha visto alguém no Japão fazer menção ao fato de que Saori, com seus olhos claros, não tinha traços tipicamente japoneses. Saori parecia impassível, mas desviou levemente o olhar por uma fração de segundo antes de responder em um tom firme:

— Não é o seu sotaque.

Saori manteve olhar fixo nela. Contraiu de leve os olhos, e continuou:

— Você é que nem eles, não é? Tem muitas coisas para esconder. Então eu vou te avisar: eu posso ser muito tolerante com erros sinceros, omissões, e até mesmo falta de modos. — Saori deu uma meia-passada e inclinou o corpo para frente. — Mas não ouse mentir pra mim.

Betina já tinha visto e vivido coisas inimagináveis, mas nunca havia sentido uma presença tão excruciante e impositiva quanto a de Saori. Ela teve medo. Mas era um tipo de medo muito diferente do que sentia nos bordéis em Yokohama. De repente, se viu em um tabuleiro de fogo-cruzado entre Mitsumasa e Saori Kido.

— S-Senhorita Kido, eu não pretendo mentir para você. — Betina se recompôs. Uma criança de sete anos não pode ser pior que tudo que ela já viu.

— É o que eu espero. — Saori então virou-se para Mii. — Mii, instrua a Betina sobre qual é a melhor forma de me contatar, quando ela precisar.

O ambiente, de repente, pareceu voltar à normalidade.

— Sim, senhorita. Dona Reiter, aqui tem toda a documentação que a senhora vai precisar. Como a senhorita Saori é muito ocupada, o contato com ela fora de eventos presenciais geralmente vai ser feito comigo.

Betina então virou-se para Saori.

— A senhorita tem certeza que quer continuar? Não tenho dúvidas que há muitas outras pessoas competentes na Fundação e que estariam a altura da sua confiança.

Saori deu um meio sorriso com o canto da boca.

— Eu vou te dar um desconto, moça, mas só porque você me chamou de europeia. Ninguém mais na Fundação teria coragem de fazer isso.

Notas finais
(1) Escola de Ensino Fundamental II (o antigo “ginasial”). Como sempre: se gostou dá um joinha, deixe seus comentários, se inscreva no canal e ative o sininho. Comentários são sempre bem-vindos!