Os Sem Nome
20 Partidas
Tóquio, Japão — 1980
Junko ponderava quanto grau de improviso havia no que elas estavam fazendo. Houve um certo preparo antes da chegada dos garotos, embora o número de meninos fosse muito maior que qualquer um pudesse ter imaginado. Mas, de repente, eles iriam embora. Na verdade, originalmente eles iriam embora até antes, mas o surto de sarna alterou toda a logística.
Depois que a menina Kido ficou ocupada com sua nova diversão, algum projeto que Mitsumasa havia dado nas mãos dela, ela parecia menos incomodada. Ela, Yoshiko, Aisha e Ayumi sabiam que a garota buscava informações por meio das crianças. Não porque Saori fosse indiscreta, pelo contrário, mas Takeshi já não disfarçava tão bem. Se, por um lado, contrariar a herdeira da casa não era algo que aquelas crianças foram ensinadas a fazer, ninguém sabia o quão arriscada era a posição do garoto, muito menos de como Aisha ficaria caso Mitsumasa soubesse de algo. Bem, não era como se elas, meras empregadas da família, soubessem muito sobre a Fundação para além das ordens que lhes eram dadas.
Estava claro, no entanto, que Saori conseguia alguma coisa. Não o suficiente, pois parecia impaciente. Os órfãos partiam em blocos. Um ônibus, e uns 20 garotos foram levados. Uns dias depois, outro ônibus. Mesmo com seu novo “projeto”, Saori sempre estava em casa nos dias que eles iam embora, e ela sempre acompanhava a movimentação de longe. Ela sabia de antemão os dias de partida. Fora isso, Yoshiko tinha uma fonte confiável que confirmava que Saori sabia de algumas coisas. Poucas, mas sabia. Por isso elas tentavam controlar o fluxo de informações que poderiam chegar até qualquer uma das crianças. O problema não era Saori saber, era a reação do Kido caso descobrisse que a neta conseguia informações. A punição não seria para ela.
A herdeira também não era a única que buscava informações; vez ou outra uma garota que dizia ser irmã de um dos órfãos aparecia pelos portões de serviço, pedindo informações. Com pena dela, por vezes repassavam coisa ou outra sobre o irmão.
Com menos garotos, a rotina deveria ficar menos pesada, mas agora elas tinham que participar da logística de “descarte” daqueles jovens. Era outro tipo de estresse.
Enquanto percorria o alojamento para recolher roupas de camas, colchões e o que quer que restasse em quartos agora vazios, Junko sentia um aperto do qual se obrigava a tentar ignorar.
— Ô tia… — uma voz a interrompeu.
— Já falei pra não me chamar assim…
— Ah… eu só queria saber… a gente vai de ônibus pra esses lugares do sorteio?
— O senhor Tatsumi é o responsável por orientar vocês. Essas são informações dos projetos da Fundação, nós não sabemos nada.
— Ah, mas aquele careca é um chato e não explica nada direito!!
— … Bem, todos esses lugares são no exterior, não são? Então o ônibus deve levar vocês para algum aeroporto ou algo assim.
— Será que vão me deixar ver minha irmã antes de ir?
Junko olhou para os olhos castanhos do garoto, e quase cedeu.
— Não sei. Pergunte ao Tatsumi — não era mentira que ela formalmente não sabia, mas a resposta era óbvia.
Antes que qualquer tensão pudesse se estabelecer, uma voz interrompeu.
— Ei, Seiya!
— Huh? Shiryu?
— Parece que vamos ter um tempo livre. Vamos jogar bola, não quer vir?
— Aquela chata não vai reclamar?
— Parece que o avô dela deixou…
— Ah, bem feito!! Mas só se eu não ficar no time do Hyoga, ele é um perna de pau!
— Haha, ainda vamos escolher os times.
Antes de sair, o garoto agora animado voltou-se para Junko uma última vez.
— Ei, tia, aqueles garotos que moram aqui não podem jogar uma partida com a gente?
Junko prendeu o ar por um breve momento. A orientação era que os garotos só tinham contato com funcionários autorizados da ala. Mesmo nesses últimos dias, nos quais eles frequentemente tinham momentos de descanso.
— Ah… é que eles têm que estudar para as provas do semestre — mentiu.
— Puxa, que chatice!! Um deles parece bom de bola!
Vendo o jovem se afastar, animado, Junko ficou sozinha.
— “Aquela chata”...? — sorriu sem perceber.
Voltando ao seu trabalho, o cheiro que sentia naquele alojamento não era mais de suor, nem de vômito, ou de enxofre de sabão para sarna, mas o cheiro estéril da limpeza feita em quartos agora vazios. Os risos, os gritos, os choros, tudo aquilo diminuía com a passagem dos dias.
Entrou num quarto desocupado e começou a recolher as coisas. Percebeu, porém, algo entre o colchão e a parede. Ajoelhou-se para pegar. Uma pedra. Pequena. Dos jardins, certamente. Algum garoto deveria ter pego — e esquecido — como totem.
Sentou-se e olhou a pedra por alguns instantes. Sabia que era tudo ali muito esquisito, muito confidencial. Sentindo a brisa e o barulho dos gritos de criança ao fundo, olhou em direção aos garotos se divertindo. Apesar de tudo, eles ainda eram crianças.
Voltou seu olhar então em direção ao cômodo onde ficava o quarto de Saori. Ela também era criança. E talvez fosse, de fato, um pouco “chata”. Uma algoz, para eles. Um símbolo de salvação, para todas as empregadas da casa. Uma herdeira que parecia querer entender a extensão dos planos do avô, de quem ela um dia receberia um império. Uma garota criada para comandar, mas que possuía um magnetismo capaz de encantar qualquer um. Saori poderia se tornar qualquer coisa, e o que Junko mais temia é que ela se tornasse uma Kido.
Sentada no colchão, Junko olhou a pedra em sua mão, sentindo a aspereza com o dedo. A frieza aos poucos desaparecia da pedra com o toque, mas a firmeza seguia ali. Foi a fortaleza de alguém. De um garoto que sonha como qualquer outro. Um garoto que devia estar indo para a escola, como fazia a filha dela e os filhos de Aisha e de Ayumi. Um garoto que aprendeu cedo o significado da bondade que a família Kido por vezes estende a quem tanto precisa. Eles, talvez, não fossem muito diferentes de todas elas ali. Mas elas tinham nas mãos o sangue que eram obrigadas a limpar todos os dias. O sangue que eles carregavam era só o deles próprios.
Um barulho. Alguma coisa quebrada pela bola. Uma leve brisa. Risos, gritos, e mais risos. Respirou fundo. Por enquanto, ainda havia um bom número de garotos ali. Mas em breve, as últimas levas de rapazes iriam embora. E aí viria o desmonte final da área criada para abrigá-los. Seria como se eles nunca tivessem existido ali. Naquela mansão, as paredes têm ouvidos o tempo todo. Mas só têm olhos, boca, ou memória de longo prazo quando necessário.
Fale com o autor