Os Segredos dos Seus Braços
39 O Pôr-do-Sol
Notas iniciais
Cap. 39
Biloxi, Mississipi
1902
Alice acordou mais cedo do que o habitual. A luz do sol estava mais intenso e a manhã estava mais fria. Ou talvez, o frio fosse apenas em seu próprio corpo, sempre tão febril.
A jovem abriu as pálpebras pesadas e úmidas, e logo sentiu o peso sobe seu ombro. Ao olhar, viu que Jasper dormia profundamente. Sua expressão, mesmo inconsciente, parecia cansada, exausta. E Alice sentiu-se culpada instantaneamente por aquilo.
Era tanto peso sobre os ombros de seu pobre marido.
Ela depositou um singelo beijo sobre a testa, algo que não foi suficientemente capaz de acordá-lo e então passou a encarar o teto de seu quarto silenciosamente em palavras, embora sua cabeça gritasse. Ficou assim por um longo tempo antes de ser interrompida de seus pensamentos.
— No que está pensando? – a voz dele lhe indagou. Ainda parecia sonolento.
Alice voltou à ele, ajeitando-se um pouco mais no colchão para encará-lo olho à olho.
— Sempre achei que pudesse ler meus pensamentos – ela sorriu para ele, evitando ter que verbalizar todas as suas preocupações.
— Bem – ele se apoiou no cotovelo, colocando a mão no vão de seus seios, acariciando seu colo com delicadeza – Posso não ler seus pensamentos, mas posso saber o que sente – disse, não entrando no clima descontraído que ela tentara criar – E sei que está com medo – ele pensou em completar dizendo que o medo dela jamais superaria o seu próprio, mas achou que isso poderia tornar as coisas mais complicadas.
Alice suspirou, deixando as falsas expressões calmas desaparecerem e a preocupação real voltar.
— Sim, estou com medo – ela murmurou – Tenho medo de morrer.... – ela engoliu em seco, levando a mão até o rosto dele. Sentiu a usual ardência na garganta, sinal de que o choro pensava em dar o ar de sua graça novamente – Tenho medo de morrer justo agora – ele pareceu não compreender o que ela tentou falar com os olhos ao dizer aquilo para ele, mas não a questionou.
— Não fique com medo – foi o que ele disse, e ela quase acreditou em suas palavras – Vai dar tudo certo – lhe garantiu.
— Eu sinto que é uma questão de tempo – ela lhe cortou, não esperando se apegar em falsas ilusões milagrosas. Ninguém escapava daquela mal. Era mais forte do que todos – Sinto que estamos adiando o inevitável!
Jasper apertou a mandíbula enquanto a encarava. Ela supôs que ele não gostara nenhum um pouco de seu negativismo.
— Tudo está pronto para você na Capital – ele a interpôs também, um pouco mais sério do que antes – Vamos hoje até a casa de meu pai para pedirmos a carruagem motorizada dele – disse, lembrando-se que seu pai havia adquirido aquele objeto estranho há alguns meses – Assim vamos mais rápido até Florence para pegarmos o trem até a Capital – quando ela pensou em interferir em seu monólogo outra vez, Jasper a calou – E se você continuar com esses pensamentos, então teremos um problema muito sério, Alice – disse ele como uma ameaça e então levantou-se da cama para ir até o banheiro.
~•#○#•~
Logo após o almoço, Jasper e Alice se dirigiram até a casa de Félix Witlock. Jasper sabia que seu pai não concordava com o que ele chamava de insanidade em fazer de tudo para Alice se curar. Ele sabia que o pai não tinha fé em sua recuperação. Mas não podia deixar o orgulho tomar conta de si, naquele momento. Precisava do automóvel, ao menos.
Não tinha por que Félix lhe negar ao menos aquilo.
— Olá Sra. Denali – Jasper cumprimentou a mulher risonha assim que adentraram a sala de estar da casa rústica – O Sr. meu pai está por aqui?
— Ah, olá Sr. e Sra. Witlock, que bom ve-los! O Sr. seu pai está no escritório, pode ficar à vontade.
Jasper assentiu a mulher e então voltou-se para Alice.
— Alice, minha cara, poderia me esperar por um momento? – disse ele segurando suas mãos suadas entre as suas – Creio que precisaremos ter uma conversa em particular, meu pai e eu.
Alice mordeu os lábios, assentindo.
— Claro, fique a vontade – disse ela. Ele lhe deu um beijo no meio dos lábios, fazendo a serviçal virar o rosto, encabulada. E então saiu da sala como um jato.
— Ora, mas sente-se Sra., para que não se canse – disse a atenciosa mulher.
Alice lhe deu um sorriso amarelo, pensando consigo mesma que não era sentando-se que ela ficaria menos cansada.
—
Jasper entrou no escritório de seu pai sem muita cerimonia. Ele bebia whisky em sua poltrona de centro, enquanto ao fundo algo de Bettowen entoava. O homem estava com os olhos fechados, acompanhando o movimento das melodias com a cabeça.
Porém, voltou-se para sua visita assim que Jasper fechara a porta atrás de si.
— Oh, meu filho, há quanto tempo, hãm? – ele disse sorrindo cordialmente, levantando-se de sua cadeira de couro marrom. Ele não tocou no assunto de que não se viam desde o dia anterior, onde havia acontecido tal desalento na festa do prefeito – Como está?
Jasper depositou as mãos na cintura sem desarmar sua postura.
— Bem, não tão bem quanto gostaria. Alice está mal, meu pai – disse ele sem rodeios.
Felix Witlock não parou seus movimentos de andar em torno de sua mesa de pinho, embora seu olhar vacilasse um pouco.
— Bem, me lastimo muito por isso – fez seu pai – Sabe que não desejo nada de ruim para Alice. Ao contrário, de fato a estimo – continuou, mas seu tom tornou-se um pouco mais sério – Mas se veio até aqui para me pedir dinheiro, Jasper, sabe que perdeu seu tempo, meu caro filho, pois meus pensamentos não mudaram com relação aos seus planos, eu penso que...
— Não vim até aqui pedir o seu dinheiro, meu pai – Jasper o cortou com a voz dura.
Félix finalmente parou o que fazia e prestou devida atenção à conversa.
— Oras, mas vejo que não faço ideia de sua visita, então – o homem disse, de fato confuso e curioso.
— Não vim lhe pedir dinheiro algum meu pai, mas.... bem, preciso daquele seu... seu automótvel de motor – disse ele, estalando a língua – Preciso chegar até a estação de Florença para embarcar no trem com Alice, e com ele poderíamos ir bem mais rápido – ele gesticulou com as mãos, dando um passo em direção ao seu pai. Imaginava que a qualquer momento teria que implorar, embora seu pai não fosse tao mesquinho a esse ponto – Sabe muito bem que o que Alice menos tem é... é tempo – ele engoliu em seco, desviando seus olhos por outras direções que não fosse sua frente.
Félix pareceu pensar a respeito por um tempo, antes de bebericar sua bebida esquecida por um tempo e dar de ombros.
— Bem, não estou utilizando ele, de modo que não me seria esforço deixa-lo com você para que possam ir para Florençe – disse ele casualmente, como se tratassem de algo superficial – Fique a vontade, meu filho. Sabe que ele logo será seu, de fato – disse o homem, sorrindo.
— Oras, meu pai, não diga isso – Jasper o cortou – Sabe que não me importo com essas coisas que diz que herdarei. Prefiro que continuem sob sua posse, pois significará que ainda está entre nós – deu de ombros, sendo sincero em suas palavras.
Félix riu sob o bigode, acenando com a cabeça. Olhou para o filho e percebeu o cansaço aparente em todo seu corpo. As olheiras de preocupação. O desgosto estampado em suas expressões.
Por fugazes segundos, ele seu viu em seu lugar muitos anos antes.
E na verdade era isso que o fazia ser tão contrário à luta de Jasper quanto à Alice. Ele havia feito a mesma coisa com Elizabeth e, no final, havia sido tudo em vão.
— E conseguiu todo o dinheiro que ainda faltava para pagar todas as despesas do tratamento de Alice na Capital? — perguntou o homem, largando seu corpo meios vazio sobre a mesa – Pelo que bem me recordo, ainda lhe faltava boas moedas, não?
Jasper suspirou. Passou uma das mãos pelo rosto, tentando apagar os sinais de tristeza que carregava.
— Bem, falta uma pequena quantia, mas para iniciarmos tudo com tranquilidade tenho sim o suficiente.
O homem pareceu surpreso.
— Oh, diz seriamente? – indagou ele – E o que fez para levantar tanto dinheiro em tao pouco tempo?
Sem muito pensar à respeito, Jasper umedeceu os lábios um pouco ressecados pelo tempo que fazia.
— Vendi todos os meus cavalos, meu pai – respondeu Jasper à pergunta desgostosa de seu pai. No momento em questão que não havia sido muito tempo, Jasper havia ficado um tanto triste por ter que se livrar de toda a sua coleção. Porém, o dinheiro que a venda deles lhe rendera fora suficiente para que ele esquecesse aquilo rapidamente e ficasse grato. Cobriria quase tudo o que faltava. Mas, quando faltasse, ele sabia que daria um jeito.
Pela vida de Alice, ele faria o que fosse preciso.
Sr. Félix Witlook virou-se para encarar seu filho assim que escutara aquilo. O espanto e a descrença em seus olhos reluziram ferozmente à luz das lâmpadas do escritório da residência de seu pai.
— Você o que? – ele indagou, pouco acreditando na indiferença, na tranquilidade e na naturalidade com que Jasper contava aquele fato. Não estava zangado, realmente. Seu estado de espírito estava mais para...estupefato, talvez. Apenas ele e Elizabeth sabiam da enorme paixão que Jasper tinha por cavalos desde que aprendera a pronunciar essa palavra.
Jasper deu de ombros, compreendendo o choque de seu pai. Para ele, aquele fato já havia se tornado banal, mas para Félix, definitivamente, era algo pouco fácil de se acreditar.
— Foi o que escutou, meu pai – disse ele, o tom de voz acusando seu cansaço. Queria ir embora dali de uma vez, para que tomassem o rumo da capital. Quanto antes chegassem lá, melhor seria para Alice. Mas precisava do tal veiculo motorizado que seu pai havia importado, para que chegassem mais rápido. Além do que, Jasper havia dado uma das carruagens à Carlisle e Esme, e a segundo que possuíra, havia vendido – Vendi todos os meu cavalos – dera de ombros outra vez, sentindo aquele ato tornar-se corriqueiro – Desde os de corrida ate os de linho, de criação – colocou um pouco mais de ênfase em suas palavras – Bem, exceto Ramos, que foi presente do Senhor e de minha mãe. Mas abrimão de todos os outros. Todos.
Aquela informação havia sido de absoluta surpresa para Félix. Porem, ele, bem no íntimo de seus pensamentos, imaginara que algo assim poderia vir a acontecer hora ou outra.
— E por que fez isso? Não havia outra solução? Você adorava aqueles cavalos – seu pai dissera, olhando para a pintura na parede, logo atrás de Jasper. Temeu encarar seu filho e não o reconhecer mais. Em ver ali um homem, muito mais do que ele próprio era ou um dia havia sido – Tinha verdadeira adoração por eles desde sempre! – exclamou sem muita vontade, desviando, finalmente, os olhos para encarar o filho dentro dos dele próprio.
Jasper ficara em silencio por alguns segundos, apertando a mandibula firmemente. Ele viu seu coração começar a bater um pouco fora do ritmo habitual apenas ao se lembrar dela, de seu nome...de seu cheiro.
E ele teve mais certeza ainda de seus sentimentos.
Havia se tornado uma verdade irrefutável, inquestionáveol, imutável e permanente.
— Por que eu a amo— disse simplesmente, porem a firmeza em sua voz fizera seu pai calar-se pelos próximos segundos que se seguiram às suas palavras. O estomago se revirara, mas era em pura aprovação – Por que eu a amo mais que tudo, meu pai e não posso deixa-la morrer– a verdade absoluta e obvia de suas palavras quase o fizera sorrir. Mas seu estado de espirito era o de preocupação, e ele não conseguia sorrir muito ultimamente – Amo Alice mais do que qualquer um no mundo...mais do que a qualquer coisa que exista – continuou, a fim de faze-lo entender de uma vez todos os seus motivos – E eu faria qualquer coisa para vê-la bem, curada... Por que eu sinto que morreria se algo de pior acontecesse à ela! – ele fechou as mãos em punhos inconscientemente – Por que eu jamais vou me importar com nada da maneira como me importo com Alice – ele engoliu em seco – Cavalos ou casas ou o dinheiro que for jamais chegarão aos pés dela em minha vida – ele parou novamente por um tempo, olhando bem fundo nos olhos, aparentemente passivos e compreensivos, de seu velho pai – Eu estou completamente apaixonado por ela.
Tanto Jasper quanto Sr. Félix não disseram nada mais após ele ter terminado de falar. O escritório ficara em silencio, mas o sorriso sereno que seu pai dera para ele revelou à Jasper muito mais do que palavras revelariam. Naquele momento, ele reconhecia seu pai. E gostava do que via nele.
Porem, depois de ficarem em silencio por um tempo, Jasper viu algo pela sua visão periférica. Era um borrão que estava prostrado à sua esquerda, bem à porta do enorme escritório da residência do Sr. Witlook.
Com o coração batendo dolorosamente no peito, Jasper virou sua cabeça vagarosamente em direção ao borrão na porta. Foi então que, tanto ele quanto seu pai, viram Alice em pé na porta, ainda segurava a maçaneta de bronze. Os olhos de Jasper focaram-se nos amados olhos castanhos dela, incapaz de falar qualquer coisa ou desviar-se dali.
E Alice o encarava incrédula com o que acabara de escutar ali. O ar não entrava mais normalmente em seus pulmões cansados. Ela precisou puxa-lo com força, enquanto seu estomago e sua cabeça deram tantas voltas que ela começou a sentir que as coisas ao seu redor começaram a mover-se.
E em seus olhos, uma enorme poça de água se acumulou de repente, turvando sua visão.
— Jasper... – Jasper escutou Alice sussurrarpara si mesma.
Ainda respirando ruidosamente, Alice não conseguiu mais sentir o chão firme abaixo de seus pés. As paredes, Sr. Witlook, as pinturas, Jasper e tudo o mais começaram a girar incessantemente à sua volta. Ela fora ficando tonta, as pernas perdiam suas forças gradativamente.
Ela iria desmaiar. Mas, dessa vez, ela não iria se opor de forma alguma...
E então seus olhos se fecharam devagar, tudo fora ficando escuro e ela se entregou.
— ALICE!? – Jasper exclamou alto, assimque viu que ela iria desmaiar. Tanto ele quanto Sr. Witlook correram até ela na porta do escritório, ambos temendo o pior.
Jasper chegara a tempo de segurá-la pelas costas pouco antes dela chocar-se contra o chão gelado de pedra – Oh meu Deus! – ele murmurou, acomodando ela em seus braços, tirando os cabelos que havia se grudado à sua testa suada com a mão tremula, destapando seu rosto delicado, revelando a beleza que o enibriava.
Não sentiu vergonha pelo tamanho medo que sentira.
Muito menos pela vontade que se abateu sobre ele de chorar em desespero.
— Tudo vai ficar bem – ela escutou a voz que ela conhecia tão bem lhe dizer perto do ouvido, embora ela escutasse muito distantemente – Me entendeu? – murmurou novamente – Vai ficar tudo bem...
E ela não se lembrara de mais nada.
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Biloxi, Mississippi
1902
Alice sentiu os músculos duros e doloridos lhe acordando. Podia escutar sua propria respiração ruidosa e o peito pesado. Pouco se lembrava de onde estava ou do que quer que havia acontecido. Mas, podia reconhecer a maciez de sua cama. Fora retrocedendo seus passos na ultima noite mentalmente. Seus flashes
Sabia que havia estado na casa de Félix, e que fora obrigada a comer canja ate se embriagar. Se lembrava, inclusive, de ter estado dentro do carro novo do pai dele. Se lembrava, também, de ter sido carregada através de seu portão ranhoso, quando haviam chegado, e pelas escadas e corredores. Se lembrou dos flashes de alguém lhe tirando as vestes com movimentos precisos, porém com certa delicadeza.
Alice sentiu os lábios se repuxarem ao se lembrar daquela parte. Tocou inconscientemente sua barriga e sentiu o tecido de sua camisola, ainda com os olhos preguiçosos fechados. Deduziu, então, com todo esse cansaço e o que os flashes haviam revelados, que provavelmente havia feito amor com Jasper outra vez e... Jasper!
Assim que se lembrou dele em absolutamente todos os momentos da ultima noite, sentiu uma respiração quente rente à sua, próximo de seu rosto, e uma mão grande segurava seu ombro descoberto. Fora automático o coração disparar no peito e seus olhos se abrirem no mesmo segundo. Ali estava ele, dormindo bem à sua frente. Parecia cansado como o inferno, vestindo as mesmas roupas da ultima noite.
Agora vinham como um jato as lembranças dos acontecimentos. Haviam ido até a casa de seu sogro por que Jasper precisava falar urgentemente com ele. Enquanto eles conversavam à portas fechadas dentro do escritório, as serviçais de Sr. Witlook lhe enchiam de canja – obviamente sob ordens de Jasper. Ela se lembrou do momento em que começou a se sentir pior. Os sentidos iam ficando turvos e ela sentia que a qualquer momento desmaiaria. Quando havia ido até o escritório para avisar Jasper do que estava sentindo, escutou a conversa dos dois...
Alice começou a respirar com mais força, erroneamente. Se lembrava perfeitamente de todas as palavras que havia escutado. Ele vendera seus cavalos preferidos por ela... ele dissera que ela era a pessoa mais importante do mundo... ele...ele havia dito que a amava.
— Ah Deus... – ela apenas moveu os lábios, não emitindo som algum. Podia até sentir os olhos querendo ficar turvos. Não entendeu a vontade que sentiu de chorar novamente por aquilo.
Teria ele dito aquilo no calor do momento?
Ele podia estar realmente...de verdade...apaixonado por ela? Desde quando, Santo Deus? Pensou ela, atorduada. Embora não estivesse conseguindo acreditar naquilo, a satisfação que se abatera sobre ela fora tao grande que ela até mesmo se esquecera de suas dores. Poderia escutar aquilo outra vez.
E outra e outra, também.
Ela engoliu em seco, tentando conter o fechamento de sua garganta. Além de seu choro iminente, ela sentiu uma enxurrada de vontade de beijá-lo. E de deitar sua cabeça em seu peito. E, ela podia fazer aquilo. As palavras que ele dissera, diziam que ela podia.
Como se ele fosse sua anestesia, ela ficou encarando-o dormir. Como ele podia ficar mais belo para ela a cada dia? Era uma questão que Alice sabia a resposta, porém não queria e não podia aceitar. Seu coração doía em ter que negar aquilo de uma forma ou de outra, mas ela deveria ser forte.
Era por ele.
Era tudo por ele.
Sempre fora por ele.
Enquanto ela tentava conter a alegria e a tristeza, juntas ao mesmo tempo, ele começou a dar sinais de que despertaria hora ou outra. Depois de alguns minutos, os cílios grandes dele começaram a se mover, as sobrancelhas se remexeram levemente e os lábios moveram como se fossem falar algo, mas nada disse. Então os olhos sonolentos dele foram despertando, lentos por conta da luz que entrava pela janela.
Estavam avermelhados, talvez pelo cansaço dele. Focaram em Alice, bem á sua frente, olhando-o fixamente. E neste momento ele soube o que ela perguntava apenas com os olhos. Assim, levou sua mão até sua bochecha e lhe acariciou a face com carinho.
— Não estou mentindo, Alice – ele murmurou, sério – Falei de verdade, cada palavra – continuou, indo e voltando, retendo-se em seus lábios ressecados, embora ainda atrativos para ele – Eu te amo – a certeza transbordava em cada letra de sua frase.
Alice reuniu todas as suas reservas fracas de força. Desde o âmago de suas estruturas, até a racionalidade de sua razão. A lembrança da gravidade de sua doença lhe destruiu, muito mais intensamente, naquele momento. Consumiu cada fibra de sua vivacidade e agora ameaçava faze-la perder aquilo que havia conquistado, seu tesouro mais precioso.
Com uma impiedade que a fizera ter que segurar as lágrimas outra vez.
Talvez ela houvesse sido uma pessoa deveras má, ela pensou. O castigo era pesado demais. Porém, ela precisava ser forte e pensar nele.
Engoliu ruidosamente antes de colocar sua propria mão sobre a mão dele, ainda em seu rosto.
— Eu não o amo – ela disse, tentando manter a voz firme como o chão. Tentou, também, olha-lo no fundo dos olhos, mas algo a impediu. Preferiu manter-se segura em sua boca – E tampouco o amarei – conteve um pouco a respiração para que não sentisse repulsa.
Jasper sentiu as palavras dela perfurarem seus ouvidos, como arames farpados.
A dor fora aguda, mas já esperava por aquilo. Alice não o amava, nunca havia o amado e jamais amaria. Era uma causa perdida.
Porém, ele podia amar pelos dois.
— Tudo bem – foi o que ele disse, a voz lotada de decepção. Mas ele sorriu levemente, e aquilo fez Alice querer se morder – Amarei por nós dois.
— Você não deveria ter vendido os seus cavalos – ela lhe disse, tentando mudar o rumo daquele assunto depressivo. Ele deveria ficar decepcionado com ela, não conformado – Você gostava muito deles – de algum modo, ela se sentia culpada.
— Não me importa – respondeu Jasper, e seu tom demonstrava que ele pouco se importava mesmo – Estou fazendo por você o que você queria – continuou, movendo sua mão até seu pescoço esguio – Queria um casamento com alguém que a amasse. Então, viva com isso. Nosso casamento é de verdade, agora – ele sorriu. Parecia sereno, lívido.
Parecia lindo.
Alice suspirou.
Não disse nada mais, pois temia que se dissesse qualquer coisa trairia a si mesma. Depois que havia levantado e tomado seu café da manhã, embora já fosse meados do horário do almoço, puseram-se de volta ao quarto para começar a ajeitar os detalhes da viagem, o que faltava nas bagagens.
Jasper foi quem mais se ocupou com isso pois Alice sentiu-se mal e voltou a deitar-se. Já havia acordado com febre, e esta havia piorado um pouco mais. Sentiu-se enjoada por muitas horas afins. Jasper precisava sair à rua vez ou outra durante todas as horas, pois precisava deixar todos os assuntos da fazendo em ordem antes de se ausentar por...bem indeterminado.
Custava-o muito sair de perto dela, mas Alice precisava ser persuasiva em tempos como aquele. E um tanto insistente.
Jasper poderia ser teimoso como o inferno. Mas era muito mais preocupado do que isso.
Pois duas vezes enquanto ele estava ausente, ela precisou correr o mais que suas forças conseguiam para vomitar o pouco que consiga comer.
Em umas dessas vezes, ela pode ver sangue.
Suando frio, Alice enrolou-se em uma manta e saiu para fora de seu aposento. Parecia que suas dimensões diminuíam conforme os minutos se passavam. Desceu as escadas um pouco tonta. Respirava com um pouco de sofreguidão. Parecia que havia algo entalado em sua garganta. Se esgueirou pelas portas dos fundos silenciosamente, como um fantasma.
Ventava fracamente. A grama verde se estendia à sua frente como um oceano. Desaparecia no horizonte da propriedade enorme e a vivacidade de sua cor e seu discreto movimento pareceram lhe emprestar um pouco mais de vida.
Alice sorriu, gostando daquela sensação. Quando poderia tê-la outra vez? Voltaria a sentir a brisa que sempre passava sossegada por seu quintal?
Afinal, voltaria a sentir qualquer brisa que fosse?
Era intrigante pensar daquela forma. Embora lhe doesse e a conformação não tomava seu coração, ela precisava aceitar. Era inevitável. Talvez, encher-se de esperanças para algo tão pouco provável era um tolice a qual ela deveria deixar de mão. Sempre acreditou em saídas milagrosas e finais românticos.
Mas tudo que havia acontecido em sua vida nos últimos tempos havia lhe mostrado que sua vida não era um monte de paginas de livros.
Enquanto andava em direção ao pequeno bosque, onde havia um declive, ela pensou em todas vezes que teve intenção de descer aquele declive verde e descobrir o que havia lá embaixo. Talvez fosse sua ultima chance de conhece-lo.
Ela andou naquela direção lentamente, a cabeça cheia de coisas demais para pensar com uma cabeça só. E enquanto ela passava o pequeno bosque e descia o declive, Jasper abria o portão de ferro ranhoso, andando em sua caminhada que havia se tornado apressada. Jogou o casaco de couro marrom e o chapéu em algum lugar do sofá e subiu as escadas de dois degraus à dois.
Sentiu-se mal em ter deixado ela sozinha ali por tantas vezes naquele dia. Ao menos, agora, podia ficar tranquilo, junto com ela, até que fosse o momento de irem embora.
Ele abriu a porta do quarto já abrindo o primeiro botão de sua camisa. Talvez pudesse dividir um banho gelado para acalmar a constante febre baixa que ela tinha. Porem, quando chegou ao vestíbulo deles ela não estava lá. Jasper murmurou uma palavra pouca cortes. Odiava quando Alice desaparecia daquela maneira.
Procurou ela na casa de banho e depois desde para o restante da casa. Ela não estava por ali. Enquanto ele ia até a janela dianteira, para olhar a rua e talvez reconhecer sua figura indo ou vindo, Consoelo entrou com seus passos arrastados, trazendo um pouco de agua para colocar no vaso de flor.
— Oh, Consoelo, viu a Sra. Witlock? – ele indagou impaciente e ansioso. Não parecia bem, o pobre homem. Trazia olheiras inéditas e os cabelos revoltos de tanto que ele passava as mãos nervosamente por eles.
O cansaço podia ser visto há quilômetros.
— Ah, Sr., vi a Sra. Saindo para o jardim lá atrás, há algum tempo.
Jasper assentiu, murmurando um obrigado antes de se dirigir para a porta dos fundos. Saiu para o jardim, buscando sua figura pequena e pálida entre todo aquele jardim.
Alice se enrolou um pouco mais em sua mante, sentindo um pouco a brisa esfriar por conta do riacho à sua frente. Estava sentada em uma enorme pedra, observando a pequena cachoeira que agitava um pouco as águas cristalina daquele riacho. Como pode não ter ido até ali muito antes?
Ela fechou os olho, aspirando longamente o ar mais puro que sentiu nos últimos tempos. Foi nesse momento também que escutou botas esmagando folhas secas e galhos. Alguém atravessara o bosque onde ela havia atravessa para chegar ali. Olhou para cima, onde havia o pequeno morro. Não demorou para Jasper parecer bem ali, procurando com olhos astutos e um pouco irritados.
— Até que enfim a encontrei! – ele bufou, depositando as mãos na cintura – Me preocupei, sabia disso?
Alice sorriu fracamente. Não iria reclamar. Não iria brigar. Gostava da atenção dele, de seus mimos e de sua preocupação, admitiu no final.
Na verdade, gostava de muito mais dele.
Mas não diria nada daquilo. Não enquanto ele descia o morro e se aproximava dela, ainda com o vinco em sua testa.
— Me desculpo por preocupa-lo – disse por fim – Eu quis vir conhecer. E descobri que deveria ter querido conhecer antes – ela suspirou novamente, olhando-o – É lindo – disse ela, embora, talvez, não se referisse a paisagem, na realidade.
Ele lhe sorriu, aproximando-se dela na pedra. Se prostrou frente a ela, encobrindo a imagem da cachoeira que ela tinha.
— Como está se sentindo? – ele perguntou pela enésima vez apenas naquele dia. Segurava seu rosto entre as mãos, o amor enchendo seus olhos. A amava tanto que tinha essa esperança, a de perguntar se ela estava bem e ela responder verdadeiramente que sim.
Alice o encarou. Os intensos olhos verde envelhecido brilhavam amarelados por conta do sol do fim do dia. Os lábios estavam entreabertos, avermelhados e brilhantes...tão convidativos que chamavam a sua atenção como um imã a um metal. Eram tão macios quando um pedaço de algodão. E eram doces. E eram total, e completamente dela.
Ao menos por enquanto, ela suspirou novamente, mas com sentimentos diferentes dos que tivera momentos antes.
Ela tocou seu rosto com a mão. A barba por fazer deixava sua pele áspera. Lhe dava cocegas, e ela não pode evitar sorrir. Ele pareceu ter gostado de seu sorriso, pois grunhiu muito fracamente, arrastando uma de suas mãos até sua nuca, enquanto a outra se enroscava em seu cabelo negro. Aproximou-se mais dela, perigosamente, roçando seus lábios aos dela. Mas não a beijou. Sentiu seu cheiro, e ficou ali, respirando ao mesmo tempo que ela respirava.
— Não vai me beijar? – ela murmurou, olhando ele por sobre os cílios compridos. As pálpebras dele estavam abaixadas, como se ele olhasse pra seus lábios. Logo seus lábios se repuxaram em um sorriso torto.
— Meu desejo de beijar você rivaliza mortalmente com a deliciosa sensação de ficar assim, sentindo sua respiração – em sua nuca, seus dedos se moveram, acariciando-a – Veja como sofro, meu amor – zombou ele.
Alice sorriu, pouco acostumada com aquela forma dele se referir a ela, mas imitou a ele e roçou sua boca à boca macia e entreaberta. Pressionou-os, sentindo a umidade que vinha da boca dele apagar o seco de sua própria. Sua língua quente estava ali tão logo quanto a mão dele de seu cabelo escorregar até sua cintura. Recebeu a dela, naquela dança majestosa que lhes roubava o ar.
Ele a beijou profundamente, com tanto cuidado que Alice suspirou, prendeu os dedos nos cachos loiros de sua nuca. Deus, como gostava de beija-lo. E a perspectiva de não voltar a faze-lo lhe quebrava o resto de seu coração.
Quando o ar começou a faltar, ele precisou interromper aquele beijo, um tanto contrariado. Apenas se olharam por um tempo, enquanto ele se encostava em suas pernas, estendidas sobre a pedra.
— Não respondeu à minha pergunta – disse ele, ajeitando seus cabelos atrás da orelha dela.
— Não espera me beijar desse jeito e ainda achar que pode ter a resposta para alguma pergunta.
Eles riram junto. Ele mordeu os lábios, encarando-a bem no centro dos olhos castanhos.
— Bem, é uma pena, pois dependendo de sua resposta nós poderíamos fazer uma coisa divertida.
Os olhos dela faiscaram.
— Bem, e qual era a pergunta em questão?
— Está se sentindo bem? — embora ele tivesse uma expressão amena e tranquila, sua pergunta jamais deixava de ser séria.
— O suficiente para fazer algo divertido – disse ela.
— Quer tomar um banho de rio comigo? – indagou, apontando para o pequeno riacho logo atrás de si – Acho que seria bom para sua febre. A temperatura ali só esfria mesmo ao entrar da noite – ele apontou rapidamente para o sol que já ameaçava se esconder atrás das montanhas distantes – Com esse sol, a temperatura deve estar na medida.
Alice tinha consciência do enorme sorriso que apareceu em sua face, e a empolgação que lhe aqueceu o coração.
— Eu adoraria – disse simplesmente.
Então ele deslizou as mãos por seus ombros para tirar-lhe a manta em que se enrolava. Logo terminou de abrir o restante dos botões de sua camisa que havia começado antes. Ajudou-a a descer da enorme pedra e a retirar suas vestes suadas. A deixou nua, ali, ao ar livre, fazendo suas bochechas arderem e corarem. Logo ele estava nu também, seu corpo maravilhosamente masculino atraindo os olhos cobiçosos dela como sempre faziam. Cada curva de músculo, cada junção de pele e carne. Sua intimidade mostrando-se outra vez, parecendo responder á ideia de vê-la nua outra vez.
Ele a guiou para dentro da água cristalina, sua temperatura da forma como ele havia descrito.
— Jasper, não tenho habilidades nenhuma dentro da água que não a da banheira – disse ela, enquanto pisava com cuidado nas pedras lisas, segurando fortemente a mao dele – Na realidade, creio que me pareço uma pedra quando caio – riu nervosamente, sabendo que não era exagero seu. Assim que estavam quase no meio do riacho, Jasper a puxou para si, apertando seu corpo contra o seu e a sustentando um pouco acima do chão de areia.
— Cuido de você, meu amor – disse ele, rodeando os quadris dela com os braços bem presos. Havia ternura em seus olhos ao olhar para si, mas Alice era bem consciente da eletricidade invisível que havia entre seus corpos, bem onde seus seios descobertos apertava-se no peito quente dele.
— Era implicância – disse ela em um momento, acariciando os rios loiros que ele tinha.
— Está falando do que?
— Seus cabelos – ela respondeu – Eu sempre gostei deles. É o único que eu já conheci que fica bem com cabelos desgrenhados.
Ele riu, dando um rápido e estalado beijo em sua boca.
— Eu sabia. Sei que me achou irresistível desde o primeiro momento em que me viu, minha cara – disse convencido, recebendo uma revirada de olhos como resposta.
Alice apenas murmurou um convencido, mas admitiu para si mesma no silencio de sua cabeça que aquela era a mais pura realidade.
— Vá Alice, incline-se para trás – disse ele, apertando mais a pressão de suas mãos em sua cintura e lombar – Feche os olhos.
Alice fez o que ele havia lhe dito, sentindo como ele a segurava com força enquanto metade de seu corpo flutuava na água. Ela abriu os braços na água, estendendo-os longe do tronco, passeando os dedos pelas pequenas ondinhas que formavam. Fechou os olhos, e sentiu que podia estar voando.
Jasper girou lentamente, levando o corpo leve dela conforme o fazia. Tinha uma bela visão de seu tronco nu. Gostava de vê-la mais contente, mesmo que durasse pouco tempo. Ela já tinha motivos de sobra para entristecer-se e o futuro lhes guardava dias piores. Ele não podia tomar a doença dela para si próprio, pois o faria se pudesse. Não podia curá-la com toda a sua vontade, tampouco.
Queria lhe tirar a dor, e queria lhe tirar a possibilidade de perde-la de suas vistas.
Mas nada disso era possível. Então podia fazer de seu último dia algo bom. Em um momento, ele puxou seu corpo de volta para si, enquanto aumentava o ritmo de seus giros. Alice riu alto, rodando seus braços no pescoço dele e apertando com tanta força que temeu sufoca-lo.
Quando ele parou, seu corpo escorregou um pouco para baixo, deixando seus olhos no mesmo nível.
— É a primeira vez que consigo olhar para você sem precisar olhar para cima – disse ela, rindo de sua marcante falta de tamanho – Posso suportar admitir que sou baixinha.
Jasper pegou uma de suas pernas dentro da água e a fez cruzar em sua lombar. Dentro da água, ela era mais leve ainda.
— Talvez eu que seja alto demais – disse, e o murmúrio de sua voz pareceu tão tentador e sensual para Alice que sua nuca arrepiou-se. Ela o olhou, assim, tao próximo dela. Era tão lindo que lhe roubava as falas.
Ele franziu o cenho pelo modo como ela o olhava. Havia desejo, mas havia mais. Havia adoração, admiração. Se não o amava, que sentido teria seu olhar, afinal?
— Parece perfeito, apenas isso – disse antes de beijar a boca esticada no belo sorriso que ela adorava.
Ficaram por um bom tempo ali, brincando dentro do riacho. Riram, aproveitaram, se amaram, se divertiram. Era um último dia para se permitir rir. Rolaram pela relva, gritaram à beira do precipício e sentiram na pele úmida o sol quase totalmente desaparecido entre as montanhas.
— Jasper? – ela o chamou enquanto ele dava um rápido mergulho para tirar grama de seu cabelo.
— Sim?
— Podemos voltar, estou me sentindo um pouco zonza – ela sentiu a moleza que sempre a atormentava voltar lentamente para seu corpo. A trégua que havia lhe dado havia chegado ao fim.
Jasper assentiu com a expressão séria. A ajudou a colocar as roupas e a enrolou em sua manta. Refizeram todo o caminho em silencio, devagar. Alice escorava-se nele quando seus sentidos zig-zagueavam frente seus olhos. O peito pesou outra vez e ela sentia que teria uma noite difícil. Escondeu dele os tremores que havia em suas mãos e o fato de sentir vontade de vomitar.
E se vomitasse sangue outra vez?
Eles trocaram de roupas e desceram novamente. Sentaram no banco que havia no quintal da frente. Ele vislumbrava o mesmo por do sol todos os dias, privilegiado. Esquecido ali.
O enorme e alaranjado sol descia lentamente, um pouco mais a cada segundo. Ela encostou a cabeça no ombro dele, sentindo muito fracamente o calor gostoso que entrava por seus poros. Saia do glorioso sol e os banhava. Embora estivesse morrendo por dentro, ela sorriu, aninhando-se mais á ele, multiplicando o calor eu sentia ao estar próximo ao corpo dele.
Podia escutar seu coração batendo.
Não sabia se voltaria a ver o por do sol, mas queria guardar aquele até enquanto pudesse retornar à lembrança.
~•~#○#~•~
Já era tarde da noite. Estavam deitados na cama, abraçados, aninhados juntos. Alice buscou ar com grande dificuldade, enquanto sentia seu corpo queimar aos poucos, seus músculos dolorosos e sua mente vazia e seu coração apertado. Sentiu, novamente, seu corpo adormecido, completamente esgotado.
Jasper estava deitado logo abaixo de si, a testa e os cachos dourados brilhando à luz fraca das velas. Seu peito subia e descia conforme ele respirava.
Seu corpo semi nu, um glorioso instrumento de poder masculino, sob sua mão, era apreciado por ela enquanto ambos estavam em silencio. Ela estremeceu mais uma vez enquanto degustava, mais uma vez com os olhos, de sua beleza.
Jasper era glorioso, neste quesito.
Ela ergueu um pouco a cabeça e viu o momento em que os olhos dele se abriram e se encontraram com os delas, ela não conseguiu desviar. Foi deitando-se vagarosamente ao lado do corpo dele, enquanto os olhos profundos dele sobre ela não a abandonaram. Ela depositou a cabeça sobre as mãos, no travesseiro, vendo-o suspirar quando o calor do corpo dela o abandonou.
Alice bem sabia que era mesmo por isso. Pois era como ela sentia-se, também.
‑ Acomode-se mais perto – a voz grogue dele cortou o silêncio do quarto. Foi o primeiro a cortar o silencio imperial. Alice estava calada, pensativa, há um certo tempo. Jasper podia entender que ela estivesse preocupada com a viagem do dia seguinte e com o inicio dos pesados tratamentos, mas Alice estava calada até demais.
— No que está pensando? – indagou ele para a meia luz do quarto, a mesma pergunta que havia feito na manha anterior. Sua voz estremecida parecia estremecer no silencio inoportuno – Não me prive de sua voz, pequena – emendou, dando um tímido sorriso consigo mesmo.
Alice notou o sorriso em sua voz, mas não disse nada a esse respeito.
— Jasper, posso lhe pedir uma coisa? – disse ela, as palavras pensadas, contidas. Ficou em um longo silencio depois.
Um vinco na testa de Jasper apareceu, quando ele a olhou no escuro, conseguindo vem apenas o pouco brilho dos seus olhos olhando para o nada.
— Claro, Alice – disse, embora o bom humor e a tranquilidade pareceu terem evaporado de si – Pode pedir o que quiser — porém, ela não disse. Continuou em silencio, e aquilo o inquietou amargamente – Alice? Vamos, diga, não me mate assim.
— Jazz... Jasper, me prometa uma coisa – ela umedeceu os lábios lentamente, fechando os olhos em seguida. Se lembrou de dizer para ele o quanto tinha medo de morrer. Mas a verdade era que não podia se dar aquele luxo. Precisava encarar a realidade, e precisava se inteirar de que Jasper suportaria. Seus sentimentos quanto a admitir seu medo pelo manto da morte haviam mudado drasticamente desde que ele havia admitido seu amor por ela. Vestiu uma capa de dureza e enfrentamento – Me prometa que ficará bem. Me prometa que ficará em... em paz.
Jasper enrijeceu em seu lugar, o movimento de respiração de seu peito alterando seu ritmo. E Alice foi a primeira consciente daquilo.
— O que está querendo insinuar, Alice? – disse ele, sua voz um pouco dura – Claro que ficarei bem. Nós ficaremos bem. Ficaremos juntos!
Alice suspirou pesadamente. Não queria ter aquela conversa, mas era necessário. Era justo com Jasper.
— Jasper... isso matou todas as pessoas que atingiu – ela murmurou – E comigo não será diferente – ela fechou rapidamente os olhos, ao sentir que se umedeciam – E quando isso acontecer... quando eu... eu for....quero que fique bem. Que ao menos tente, sim?
Jasper inclinou-se, sentando-se na cama. Alice teve que rolar até cair com a cabeça no travesseiro. Ele a encarou fixamente no meio escuro.
— Você não vai morrer, Alice! – ele grunhiu, embora não gostasse de falar daquela maneira com ela – Você ficará bem! Me entendeu?
Alice meneou a cabeça enquanto ele falava aquilo.
— Minhas costelas doem, meu corpo inteiro dói, meu pulmão... Deus, não sei até quando conseguirei manter os olhos abertos – disse, engolindo o no na garganta. Antes de haverem se deitado, ela havia vomitado sangue outra vez – Não teremos um futuro, Jasper... Não consigo mais fazer projeções de eu ao seu lado em um futuro próximo.
Você precisa aceitar... precisa aceitar que está chegando o fim.
— Alice, pare! Eu vou cuidar de você! Lhe prometo isso, não sairei do seu lado, apenas se for para mo rrer – sua voz estava rouca, e seu tom seco e frio.
Alice sentiu um nó no peito outra vez ao escutá-lo falar sobre morrer. Não por si, mas por ele. Não gostava de imaginar aquilo e, de uma maneira mórbida, ela estava quase feliz pela situação deles não ser ao contrário, pois era egoísta demais para suportar aquilo.
Parecia que Jasper jamais parava de se sacrificar por causa dela.
Ela sentiu-se mal. Não queria ser um peso para ele, uma responsabilidade deveras exaustiva.
O que seguiu foi um interminável minuto em silencio de ambas as partes. Mas quando Alice voltou a falar, trazia controle em sua voz aveludada, acentuada ainda mais pela negritude do vestíbulo.
—Eu quero que encontre outra esposa para viver, Jasper. Alguém que.... que o ame – ela sussurrou, a frieza de sua voz saindo depois de muito esforço. Olhava para ele hipnotiza. O fascínio dele que a prende. Mesmo com a ausência de uma luminosidade decente, ela reconhecia sua beleza.
Jasper pareceu ficar ainda mais rígido, ainda mais frio e ainda mais irritado. Ajoelhou-se na cama, pendendo uma pera para fora e apontou-se o dedo.
— Era exatamente por isso que eu não queria que você soubesse! – ele disse entre dentes, fulminando-a no escuro.
Mas ela ignorou seu temperamento e sua braveza e continuou. Não sossegaria enquanto não escutasse de sua própria boca que prometeria aquilo à ela.
— Eu quero que encontre uma boa mulher, que o faça feliz e dê-lhe tudo o que você merece... – sua voz saiu em um fio morto, e imperceptível para ele, seus olhos arderam tanto que ela precisou piscar um pouco mais rápido — Eu espero que você seja feliz, sabe. Me prometa isso, Jasper?
Porém, ele não respondeu-lhe nada. O que diria, afinal? Que não queria outra mulher, queria apenas a ela. E que não seria capaz de ser feliz se fosse com outra. Nada disso a faria mudar de ideia quanto a ele seguir em frente. Nem muito menos a convenceria de seu amor descartável.
Sentiu tanta dor ao ficar olhando para ela que a odiou por aquele momento. Sua garganta ardeu, seus olhos ficaram pesados. Aquela era uma das raras vezes em que precisava chorar. Era a primeira mulher que amava, e a segunda mulher de sua vida que perderia para uma doença maldita.
Jasper sentiu cólera em seu estomago ao olhar para Alice, bem ali, deitada em seu travesseiro, lhe dando um de seus belos sorrisos. Cansado, mas o mais encantador que ele já vira em uma mulher.
Sentiria falta daquele sorriso para o resto de seus malditos dias. E antes que ele começasse a chorar feito um maricas, Jasper levantou-se da cama vestindo apenas suas calças de algodão, e saiu do quarto, batendo a porta em um baqui oco atrás de si. Não olhou para trás até que estivesse do lado de fora da casa. Desnorteado em seu quintal.
Não viu para onde foi, não viu quando parou. Mas ao se dar conta, estava parado frente ao banco ao qual estivera com ela mais cedo para verem o por do sol. Começou a soluçar, a visão nublando-se como uma tempestade. O peito apertou tanto que ele respirou com dificuldade.
Seu controle usual fora esquecido. Ele não pôde mais suportar. Quando percebeu, escorriam lagrimas sucessivas de seus olhos, e ele chorou como um garoto que já não era mais. Chorou pelo vazio que antecipava a perda da melhor coisa que havia acontecido em sua vida.
E era no outro dia, que o pesadelo iria começar de verdade.
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