Os Retalhadores de Áries II

29 — O derradeiro duelo


O derradeiro duelo

— Eu juro, Kin e Lire, pela Terra, as Estrelas e o Oceano, que em tempo nenhum estas pazes serão rompidas, venha o que vier! Mesmo que o dilúvio caia de novo sobre a terra ou que num instante o alto céu se funda com as vias mais profundas do inferno, nada mudará este intento! Como este cetro é a minha palavra! — E, tendo dito isso, Keiko mostrou o cetro aos presentes — Que jamais há de dar novos ramos, nem sombra há de dar-nos, pois separado do tronco na selva já foi antes disto, vindo a perder o contato com a terra, a casca e as folhas, e que os líderes que me antecederam empunharam quando em função de juízes!

O dia em que haveria de ser decidido o destino do Reino de Órion enfim viera. Gigantesca, cinza e de concreto, a arena do confronto estava limpa e pronta para as duas que pela primeira vez, sem saber, concordavam com uma coisa: que o local escolhido era muito simples para um encontro tão relevante. Mas isso não importava tanto. Importante mesmo, para ambas, era que uma das duas terminaria o dia prostrada. E nisso voltavam a discordar.

Não havia medo nos olhos e no coração de Kin. Contrariamente ao que ela própria pensou, havia confiança e sede de lutar. Não apenas porque odiava sua adversária, mas também porque não se lembrava mais da sensação de entrar numa batalha de verdade. Uma até a morte. Se sentia uma leoa retornando ao seu habitat, uma ave que tivera a asa quebrada e voava, agora, pela primeira vez. Sentia os braços e as pernas tremerem de empolgação, como a água que ferveu por tanto tempo que começou a borbulhar.

O estado de espírito de Lire não era muito diferente, mas o que o causava era seu ódio por Kin. Cria com todo o seu ser que naquela manhã o veria cevado. Muitos sentimentos gritavam em seu peito, no entanto. Uma mistura estranha de euforia por destruir sua maior inimiga com o medo de ter ido longe demais ao revelar publicamente inimizade ao Reino de Órion e o receio das consequências do fim de tal potência. Nada mais, entretanto, iria impedi-la de ir até o fim. Fora muito longe para recuar.

Além de quatro testemunhas e de Keiko, somente um sombrio céu nublado e os ventos frios vieram assistir ao confronto. Michio e Zero testemunhavam por Lire; um ancião do conselho e Gray, por Kin. Gray nunca fora visto tão sério e calado. Analisava Lire. Não era o cabeça-oca superficial que gostava de interpretar no seu dia a dia, insistia em atuar nesse papel porque achava conveniente ser subestimado. Preferia surpreender a desapontar.

Um gênio no combate corpo a corpo, guerreiro experiente apesar de tão novo, Gray não precisava ver o desfecho de um conflito para saber quem venceria. Podia julgar isso olhando como os contendores agiam antes do início. "Os vencedores", ele dizia, "têm o mesmo jeito de olhar, de falar, de andar. Os perdedores também". Se pré-julgou corretamente mais uma vez — e nunca errou —, a sorte não estava do lado de Kin. "Então, Kin", se indagou, "por que você está tão confiante?"

As lutadoras, como duas leoas disputando o corpo de uma corça abatida na mata, não desviavam o olhar uma da outra. Em silêncio. Keiko recuou vários passos, saiu do meio delas. No exato segundo que ela deixou o caminho livre, ambas, armadas, partiram para o ataque. Tal qual o esperado, a lâmina de Kin cortou no meio a de Lire, mas, como Gray previu, o combate não se encerrou ali. Lire se moveu com rapidez para baixo e se esquivou do golpe de Kin, cerrou o punho e socou-a no pulso. Desarmou-a. Atacou-a com um soco, com mais um, com mais dois e Kin, desajeitadamente, evitou todos. Por fim, Lire girou ameaçando desferir um chute. Kin, assustada, retrocedeu rapidamente, mas o blefe de Lire deu certo e, no segundo movimento, o pé de Lire deu no rosto dela. Kin voou longe.

— De pé, Kin! — Dizia Lire, entusiasmada. A adversária permanecia deitada. Aparentemente inconsciente. — Vamos, não quero te ver morta tão cedo! Você ainda vai sofrer bastante... — Prometia, soltando as ataduras dos braços. Vestia uma simples camisa preta, um short preto e, como Kin, prendera os cabelos em rabo de cavalo.

O sorriso abandonou a face da guerreira bellatrixana quando os olhos dela notaram o fulgor que a rival irradiava. "Não posso permitir que ela dispare!", foi seu pensamento, antes de investir desesperadamente sobre Kin. No entanto, ao chegar lá, a luz que vinha das mãos da loira se apagou. Lire se desconcertou por um segundo e levou um gancho de direita bem no queixo. Assim surpreendida, saltou atarantada para trás. Sua empolgação dobrou de intensidade. Com esse gesto, Kin deixou mais claro que não se renderia do que se tivesse feito um discurso. "Como você quiser", Lire comentou, em pensamentos.

A iniciativa, em seguida, partiu de Kin. Ela desferiu contra o pescoço de Lire seu mais veloz e poderoso ataque com espada, mas não acertou. Lire se mostrou mais ágil. Kin continuou avançando, com centenas de arremetidas similares, um mais célere e forte do que o anterior. Com nenhuma delas logrou seu intento: acabar com Lire e vingar-se de todo o mal que ela lhe fez. Mas não desistia, prosseguia tentando e dando mais de si em cada golpe novo. Sem perceberem, deram a volta em toda a arena. Lire sempre a desviar, Kin, a atacar.

Quando estavam para completar a segunda volta, Lire se adiantou, deteve o braço com o qual Kin empunhava a espada e a esmurrou no meio da cara. Sangue desceu das narinas da ministra de Órion. Lire arrebatou a espada de sua mão, se livrou dela e mirou outro soco contra sua face. Kin, dessa vez, conseguiu se esquivar, mas teve que escudar-se atrás dos próprios braços quando Lire, que não desperdiçava um instante, chutou. A dor que sentiu nos braços foi muito maior do que a que imaginou que sentiria.

Ela é mais rápida do que eu! — Kin refletia, assombrada. Olhando a vermelhidão que tomara seus braços, soube do seguinte: — Se esse chute tivesse acertado meu rosto, eu não estaria acordada agora... e se eu não pensar em alguma coisa rápido, ela vai me matar...!

O duelo cativou completamente a atenção de Gray. Ele não pensava em nada e nem olhava para mais nada.

Já sabe que ela é mais forte do que você, Kin... — Concluiu, atento às duas. — O que vai fazer agora?

Kin retrocedeu vinte passos, cerrou um dos punhos e deu um murro no chão da arena. Destruiu-a por completo. Os estilhaços cobriram o campo de batalha, a poeira subiu e embargou a visão de todos. "Que clichê, Kin", Lire avaliava mentalmente a estratégia de sua odiada contendora. Além de previsível, não achou muito inteligente. Kin também não enxergaria através da poeira, afinal de contas. Achava que Kin se circundaria de sua radiante luz dourada para afastar a poeira dos olhos e ver naquele ambiente. Então se preparou para isso.

Como previu, a fulva luz apareceu. Uma hipótese, porém, a inquietou. "E se ela estiver preparando o disparo de luz?", imaginou. Conhecia os poderes de Kin quase tão bem quanto conhecia os seus, então sabia que o tiro de luz dela demorava para ser efetivado. Uma vez disparado, contudo, ninguém era capaz de desviar-se dele. Nem de sobreviver a ele. Portanto, temendo ser isso o que ela aprontava, atacou. Mas socou o nada. Confusa, baixou a guarda e acabou por ser apunhalada no peito. Mas conseguiu impedir a arma de chegar ao seu coração. Por muito pouco.

Embora seriamente ferida fisicamente, Lire não se permitiu abalar. Manteve a calma. Fingiu que fora mortalmente contundida e esperou a poeira se dissipar. Ao ser capaz de ver Kin com nitidez, levou a mão à garganta dela. Agarrou-a com toda a força e içou-a no ar. "Matar você estrangulada...", sorriu, fitando-a. "Não foi como eu pensei, mas até que não parece ruim!"

— Kin, Kin...! Sempre impressiona! Você chegou bem perto de me vencer mais uma vez! — Elogiava-a, legitimamente impressionada. — Mas você morrerá agora! Acabou!

— Kin! — Gray gritava por ela, lá do outro lado. Fortemente tentado a interceder na luta. Chegou mesmo a lançar mão numa de suas adagas para ir salvar a amiga, mas o ancião, a seu lado, segurou-o pelo ombro. O reprimiu.

Kin não cedia, enfrentava-a com tudo de si. Entrementes, lembrava-se da vez que viu sua mãe em situação similar. Santsuki agarrara o pescoço de Yume e a alçara do chão. Nas palavras dele, a odiava tanto que poderia estraçalhar as fauces dela com os dedos. Yume, tal qual Kin agora, estava bastante escoriada antes de ser pega. Mas não deu ao infeliz a chance de vê-la morta pelas mãos dele. Brigou ferozmente. Ele, que só se satisfaria se a matasse na presença de Azin, acabou por soltá-la.

A poderosa primeira-ministra de Órion voltou os lacrimejantes olhos para o céu. Haru e Yue lhe vieram aos pensamentos. Também pensou em todo o Reino de Órion. Em Mari. Arashi. "Não!", foi sua resposta para Lire. "Você não vai ter nem o prazer de me ver derrotada, Lire!", disse em pensamentos o que Yume bradou para Santsuki. Assim, voltou a lutar. Segurou com força a mão que a asfixiava. O machucado que Kin lhe infligiu enfraqueceu-a e graças a isso, graças a dor dela, a loirinha se libertou. Caiu tossindo violentamente.

Lire removeu do machucado a lâmina que Kin usou para perfurá-la e fez alguns cortes no ar. Saboreava o momento.

— Eu não esperava menos de você... Mas não vai escapar! — Disse, erguendo a arma. E quando ia degolá-la, uma espada a rendeu. Toda composta de gelo.

Você não vai escapar, Lire. — Arashi a corrigiu, aproximando-a mais do pescoço da guerreira de Bellatrix. Era o suposto ancião que veio como testemunha de Kin, assumira o rosto dele graças aos poderes de Haru. Revelado o ardil, se livrou do manto branco com o qual se cobrira. — Largue a arma. Você sabe que eu só digo isso uma vez.

Michio se enfureceu.

— Malditos! Isso foi uma armação! — Bradou, de onde estava. Voltado para Keiko, exigiu: — Guardiã, faça alguma coisa! Ele não pode intervir! Além disso, ele é um criminoso nacionalmente procurado!

Keiko não ficaria calada ouvindo aquilo.

— Uau! Acharam mesmo que iriam conseguir se dar bem nessa, não é mesmo, Michio? — Foi a réplica da guardiã. — Já sei que vocês dois estavam por trás de tudo, já sei da Akeno! E você, Lire, se juntará a ela hoje mesmo!

E, de repente, Lire começou a gargalhar. Arashi não perdeu a compostura, detinha a idêntica expressão facial de quando se revelou. Não afastou a arma um milímetro de distância do pescoço dela. Kin não conseguia imaginar como sua rival escaparia daquela, mas vê-la reagir daquele jeito e agir com tanta segurança deu-lhe um péssimo pressentimento.

— Dá um fim nela, Arashi! Rápido! — Gritou. Tarde demais, porém.

Michio usou uma de suas técnicas e logrou apartar Arashi de Lire. Logo após distanciar o guerreiro glacial de sua irmã, juntou-se a ela, que não tirava os olhos de Kin. No minuto que Michio saiu do lado de Lire para combater Arashi, Zero tomou o lugar que ele ocupava. Os dois, agora, miravam Kin. Ela ainda estava fraca demais para se levantar sozinha e ainda não voltara a respirar normalmente.

Mas encarava Lire com bravura. Tão desafiadora quanto anos atrás, quando venceu-a.

— Lire, não tem jeito de você sair por cima nessa... — Disse, ao vê-la alegre. — Você não tem mais um exército, não tem mais um reino... Jogou tudo fora por causa de uma vingança idiota, perdeu tudo por causa da sua obsessão!

A bellatrixana pôs a mão no queixo, como se pensasse em algo.

— Eu planejei te matar e me teletransportar daqui com a ajuda do Zero, então não, querida! Nem tudo está perdido!

Zero tocou o topo da cabeça de Lire com a mão e começou a eletrocutá-la. Para espanto de quase todos. Michio e Arashi, curiosos e estupefatos, fizeram uma breve trégua para olhá-los. A potência do choque foi duplicada, triplicada, quadruplicada. Quintuplicada. Lire não caía e nem gritava. Como Kin outrora, porfiava por permanecer de pé. Agastado, Zero deu seu máximo. Kin, usando o braço, guardou os olhos do clarão que vinha deles. Não sabia o que mais a alarmara: a traição, a resistência de Lire ou a crueldade dos choques.

Vendo-a enfim iniciar a desfalecer, Zero sorriu.

— Desculpe, amor... — Falou. — Mas houve uma mudança de planos.

Michio ia intervir, mas Arashi entrou na frente.

— Ou você tenta chegar lá e eu te mato pelas costas, ou fica e eu só te prendo. — Apresentou as alternativas. — Faça uma escolha inteligente pelo menos hoje, Michio.

Os lampejos findaram. Lire foi à lona. Seu corpo exalava fumaça e ela não movia um dedo. Keiko chegou para examiná-la.

— Você a matou? — Perguntou, olhando a distância.

— Não, ela vai ficar bem. — Replicou. Pensou um pouco. — Talvez tenha perda de memória temporária, talvez fique sem falar ou ver por alguns dias, mas isso passa.

Keiko deu a mão a Kin e, apoiando-a em si, colocou-a de pé.

— A senhora já sabia que ele ia fazer isso? — Kin quis saber.

— Duvidei, por um segundo. — Respondeu, encarando-o. — Mas já tínhamos combinado.

Gray uniu-se aos três e ajudou Keiko a sustentar Kin.

— Zero concordou com deixar uma escuta minha nele. Foi ele quem fez a Lire confessar, no hospital. — Explicou Gray.

Arashi, frente a frente com o irmão de Lire, apontou-os. Olhou para Kin e sussurrou, de onde estava: "vencemos". Ela entendeu e retorquiu com um sorriso. Com a espada apoiada no ombro, enfitou Michio e questionou-o:

— E então, Michio? Vai resistir ou vai cooperar?

A única saída era a sujeição.