Os Retalhadores de Áries II
30 — Final: Algumas semanas depois...
— Final: Alguns meses depois...
Lire estava presa. Kin, Arashi e os outros receberam um tempo de folga dos trabalhos para resolver os processos criminais, depor contra a ex-primeira-ministra e lidar com os traumas decorrentes do que viveram. Ninguém precisou mais dessas férias do que Kin e Yue. Apesar de ter sido perdoada antes mesmo de ver Yue, Kin pedia desculpas toda vez que a via. As lembranças, ora em sonhos, ora em devaneios, ainda não pararam de perturbar a loira.
Por ter tido a casa destruída pelos que quiseram fazer justiça com as próprias mãos, Yue passou a morar junto a Kin e Haru. Sora, que só havia pisado ali uma vez, agora ia umas três vezes por semana. Kin torcia o nariz no início, dizia não gostar dele, mas não demorou muito para aceitá-lo e, por fim, mudar de ideia a seu respeito. Claro que não confessou isso a ninguém. Haru, alguns anos mais velho graças a Naomi, pouco ficava em casa. Ficava fora treinando. Às vezes com Sora, outras com Toshinari. Muitas sozinho.
Quando ouviu que Órion retornara a boa ordem, Mahina decidiu levar o bebê para a madrinha e o padrinho verem. Foi uma tarde memorável. Uma das poucas vezes que viu Arashi sorrir — e olha que o conhecia desde criança. Subiu para ver Yue e deixou os dois ministros a sós com o pequeno Kenichi. O casal se esqueceu de tudo. Ainda que sem trabalhar há meses, os dois vestiam as roupas do serviço. Para ela, saia preta, botas e camiseta branca com o símbolo de Áries; para ele, calça preta, botas e uma camiseta idêntica à dela.
Sentada na sala, a vinte passos de distância da cadeira em que Arashi estava, Kin segurava o menininho pelas mãos. Prometia-lhe uma dúzia de coisas. Jurava dar os presentes mais caros, voar com ele quando, nas palavras dela, "ganhasse cinco aninhos a mais", ensiná-lo a lutar. Dizia tudo em sussurro para o baixinho, mesmo sabendo que Arashi escutava tudo. Ao notar que ele os apreciava sem esboçar reação, que não tirava deles seus olhos azuis claros como o céu sem nuvens, Kin retribuiu o olhar. Deu uma piscadela e jogou os cachos para atrás do ombro com a mão.
— Agora vai andando na direção daquele fofoqueiro lá, vai. — Falou para o afilhado, apontando o guerreiro glacial.
Cambaleando, hesitante, o menininho fez o que a madrinha mandou. Sem demorar muito para chegar lá. Impressionando-os. Não tinha nem cinco meses de idade e já andava com tanta destreza? Os dois suspeitaram que haveria de ser um retalhador. Guardaram essa observação para si, pois não sabiam o que Mahina iria achar disso. Com exceção dessa surpresa, Arashi continuou sem falar e reagir. Estendeu as mãos para Kenichi e segurou-o quando o alcançou. O garoto sorriu e festejou.
Arashi o pegou e virou-o para Kin. Mirando-a em cada palavra, redarguiu:
— Você herdou o nome de um dos retalhadores mais fortes que eu já conheci e tem a madrinha mais bonita, mais amorosa e com o melhor coração do mundo todo. E nós nunca vamos deixar que algo de mau te aconteça. Agora vai lá contar pra fofoqueira que tá olhando pra gente.
Vermelha como um tomate, Kin riu e estendeu os braços. Foi quando ela abraçou o baixinho que Yue, Haru, Mahina e Sora desceram as escadas. Ia dizer algo, mas Haru pareceu-lhe sério e, sobre os ombros, tinha uma mochila. Estava arrumado para sair. Todos os quatro estavam de cara fechada. De aspecto, entretanto, Yue soava mais triste do que sisuda. Os dois jovens ministros de Órion se puseram de pé.
Mas Arashi já suspeitava do que estava acontecendo. Na verdade, estranhou só ocorrer agora.
— Haru... — Disse, apenas.
Kin era a única que não estava entendendo nada. Irritada por isso, quis saber:
— O que é? Gente, por que essas caras?
Haru terminou de descer os degraus. Ajeitou a alça da mochila acima da jaqueta preta que trajava e olhou a irmã nos olhos.
— Vou ficar um tempo longe do Reino de Órion. Quero conhecer o mundo. — Informou. Kin recebeu a notícia com choque, como quem come algo indigesto. Entregou Kenichi para Mahina. Haru prosseguiu: — Percebi que, não importa o quanto eu treine, não vou conseguir o que eu quero aqui.
Todos fizeram silêncio. Kin não podia acreditar que aquelas palavras haviam sido ditas por seu irmão. Haru falando daquele jeito? Tão decidido e adulto? "O que você fez com meu irmãozinho, Naomi?", perguntou em pensamentos. De coração partido. Se não sentiu raiva da francesa quando soube quanto ela o envelheceu para salvá-lo, estava sentindo agora. Chorando, andando a passos lentos, foi até Haru e abraçou-o. Ele estava um pouco mais alto do que ela.
Ainda sem soltá-lo, perguntou:
— Como você pode dizer que não pode ter o que quer aqui, meu irmãozinho? Sua família está aqui. Seus amigos. Você vai nos abandonar?
Haru a abraçou de volta. Faltou pouco para desistir de partir, mas respirou fundo. Seguiu determinado em seu intento.
— Qual é, Kin. Não me entenda errado. — Pediu. Afastando-se um passo, enxugou a lágrima dela com o polegar e disse: — Não estou abandonando vocês! Não posso crescer de verdade se continuar à sua sombra. Eu tenho que fazer isso... por mim, por você. — Argumentava. Olhando em volta, viu Yue e acrescentou: — Por vocês. Arashi, você me entende, já esteve no meu lugar.
O guerreiro glacial cruzou os braços. Claramente discordava.
— Aquilo era diferente. — Se expressou. — Minha irmã corria risco de vida, eu não tive escolha, mas você... — Dizendo isso, avançou alguns passos na direção dele. — Se quer minha opinião, acho que você está procurando a saída mais fácil.
Haru pensou nas palavras dele.
— Tá bem, pode ser a saída mais fácil. — Concordou. Passou por eles, andou até a porta, parou e adicionou: — Mas isso não quer dizer que seja a errada. Eu vou voltar. Vou voltar mais forte.
A frieza dele enfureceu Kin.
— Sabe, eu tenho algumas fotos do nosso pai lá em cima. — Falou, voltando-se para ele. Haru se deteve antes de girar a maçaneta. — Sempre achei vocês dois iguaizinhos fisicamente, mas agora... Nossa, agora você está fazendo a mesma coisa que ele fez, está me abandonando! Eu tive esse medo por um tempo, mas achei que fosse só coisa da minha cabeça, por causa da semelhança física! Mas você é igual a ele! — Exclamou. Viu Haru abaixar a cabeça. — Esse tempo todo, eu fiquei pensando o que eu teria dito se tivesse visto ele indo embora. Pensei que ia pedir pra ele ficar, que ia chorar, mas acabei de entender que se alguém quer ir embora, você não pode fazer nada. Só pode ver. Então, vá em frente! Não vou te pedir pra ficar e nem pra voltar!
Ninguém dizia nada. Arashi achou a última frase de Kin um tanto pesada, sabia que ela se arrependeria de tê-la dito, mas era tarde demais para tentar contê-la. Yue não estava muito melhor do que Kin, só não dizia nada. Haru, quieto, girou a maçaneta e saiu porta a fora. Sora saiu do lugar, ia segui-lo, mas Arashi acenou com a mão. Ele se susteve onde estava. Olhando Yue, entendeu por que o guerreiro glacial o parou. Precisava ficar ao lado dela.
Do lado de fora, antes de alçar voo, Haru fitou a casa. "Pode ser a última vez que eu a vejo", pensou, melancólico. O dia se despedia com o mais belo ocaso que ele já vira, a noite começava a cair e, com ela, vinha o frio. Sua infância, sua irmã acordando cedo para alimentá-lo, Mari vigiando-o na ausência de Kin, todas essas memórias voltaram e o comoveram de novo. Porém, já fora longe demais para voltar atrás. Iria fazer o que disse: se fortalecer e voltar por elas. As amava muito.
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