Notas iniciais
Olá pessoal, nossa aventura continua com muito mais ação desta vez e algumas verdades sendo expostas finalmente acerca de Lucas e sua vida. Conhecemos mais alguns personagens importantes e é isto aí. Trilha sonora nas notas finais, pessoal! Boa leitura!

II – Lanças de Visgo

O bote do cachorro gerou toda uma onda de frio e neblina que veio junto. Lucas esquivou por um tris, mas não parou de correr. Botou todo o atletismo que tinha nos pés para trabalhar e tentou ganhar o máximo de distância do bicho.

Mas, como é de se imaginar, um cachorro de seis metros de comprimento e dois de largura não tinha exatamente dificuldades em alcançar um garoto assustado de dezenove anos morrendo de frio.

O segundo bote veio com força, Lucas, no entanto, tropeçou calçada adentro e esquivou da besta, que passou voando e se chocou com nada mais, nada menos, que o quiosque de lanches que o garoto encontrara antes.

A besta rosnou alto e derrubou tudo em seu caminho. Lucas se amparou, ofegante e já de pé no meio da nebulosa chuva grossa. Em parte, preocupado se o senhor dos pastéis ainda estava lá dentro.

Sua parte racional, no entanto, aproveitou a confusão criada pelo cão – agora coberto por repolho, destroços e ketchup – e deu no pé pelo asfalto encharcado.

Lucas não pensava ou sequer respirava direito, toda a energia em seu corpo havia sido distribuída para as pernas. Ele correu pelo centro da cidade ouvindo os ganidos na distância e sons de sirenes disparando, motos correndo pelas ruas e carros passantes bem escassos, graças à queda de energia e a tempestade que pairava sobre a cidade.

Ele se distanciou tanto quanto pôde, se enfiando por becos e tentando achar seu caminho de volta.

O garoto respirou fundo e tentou processar a situação.

Um rottweiler estava perseguindo-o e Florianópolis tinha virado um filme de terror cujo protagonista – um estudante universitário de Educação Física e famosinho de internet – tropeçava até sua morte derradeira.

Aquilo não era a coisa mais estranha que o mundo já vira – mas a questão é que toda a estranheza geralmente ficava bem distante da realidade de Lucas. Ele podia se lembrar muito bem de como geral ficara chocado com o Incidente em Nova York ou a Queda de Sokóvia anos antes. E o número de indivíduos aprimorados no Brasil também não era nada para se ignorar.

Mas Lucas adorava fingir que vivia em uma bolhinha perfeita de ilusão – ele só não contava com o cão de caça dos infernos simplesmente estourá-la tão violentamente.

Ele estava apavorado demais para raciocinar.

E, tão pronto o ganido surgiu beco abaixo, Lucas já estava correndo novamente.

Ele cruzou a estrada e passou rente a um poste, aonde a cabeça do animal coberto de condimentos simplesmente encontrou um alvo. O bicho deu uma dentada tão violenta que o metal se partiu em destroços. Lucas ergueu as mãos e se virou, bem a tempo de ver um cano de metal pesado caindo em sua direção.

O garoto caiu no chão com tudo e sentiu que seria nocauteado pelo peso do poste. Mas, meio-segundo depois, ele percebeu que ainda estava bem vivo.

O cão, metros a esquerda, gania para ele, mas mantendo uma distância de meia rua. Lucas logo entendeu o porquê.

Seus dedos envolviam a extensão negra do poste, iluminada apenas por um fátuo brilho azul. E foi ali que ele percebeu: Seu braço esquerdo estava, uma vez mais, coberto por figuras diversas que ele agora recordava como parte das decorações místicas de sua mãe.

Runas, ela as chamava.

E, como acontecera na academia, Lucas já não sentia peso algum.

Ele se levantou ainda empunhando o poste como um bastão de beisebol e disse: — Ok, e-eu tenho um poste e não tenho medo de usá-lo, ouviu?!

Ele recebeu um rosnado feroz em resposta. O bicho avançou mostrando os dentes com linhas de baba e fúria iluminando os olhos em um tom rubro nebuloso, como sangue resplandecente.

Um calafrio subiu pela espinha de Lucas e ele, instintivamente, moveu o poste com tudo, ouvindo apenas o baque do golpe e vendo o vulto da besta ser arremessada uns dez metros para a esquerda, chocando-se com um carro estacionado e disparando um alarme alto o bastante para assustar Lucas em um ofego.

Ele quase comemorou ao ver o monstro caído, mas seu sangue gelou ao vê-lo se recompor sobre o capô amassado e oferecer apenas um rosnado ainda pior como resposta. O cão monstruoso partiu em sua direção mais veloz do que antes, o pelo coberto de vidro, destruição e catupiry.

Lucas queria ter se movido a tempo, mas o terror dos ganidos da besta o tinham paralisado de algum jeito que ele não entendia. Ele tremeu e sentiu o os dentes do cão abrirem-se em um abocanhar voraz.

Lucas usou toda a sua força de vontade e todo o senso de autopreservação que tinha no seu sangue para conseguir se mover no último segundo. Ele nem pensou – apenas tentou o impensável.

Seu punho se fechou e encontrou o focinho da criatura, que ganiu ao ser repelido para a direita e cair ao chão, desnorteado. Lucas se assustou tanto com o seu feito e o sangue que tinha nos nós de seus dedos, que apenas disparou e correu com tudo.

As runas cintilantes em seu corpo emitiam uma fraca luz azulada. Seus passos pareciam mil vezes mais firmes e impactantes. O cachorro louco, já de pé, investia em seu encalço com a lateral do rosto coberta em sangue e as presas tortas. Ele não parecia nem um pouco feliz.

Lucas viu a besta saltar para um bote voraz, mas, por algum motivo, ele sentiu o ataque chegando. O garoto rolou para a direita e se levantou em seguida, dando de cara com o bicho, que o atacou.

Ele mal teve tempo de reagir – apenas segurou o focinho do bicho com toda a força que tinha. Ele o manteve aberto, mesmo que o bafo do rottweiler do Inferno fosse tão terrível quanto chorume de mil anos e suas patas brigassem contra as pernas de Lucas em um esforço contra o asfalto.

— M-ME LARGA, CARALHO! AAAH!

O bicho rosnou, a baba caindo contra o rosto iluminado de Lucas e as garras encontrando o torso coberto pelo casaco. Ele as sentiu raspando com violência, mas nada maior que arranhões surgiam – isso além da luz que também emanava de seu peito.

Lucas ofegou mais e mais, tentando subjugar o bicho sem muito sucesso. Ele quase não teve tempo de processar que o cão já tinha destroçado sua parte de cima e que toda a metade esquerda de seu corpo parecia o estúdio de um tatuador Viking que trabalhava com tinta luminescente.

O cão avançou com mais força, a respiração de Lucas começou a ficar mais intensa e a força em seus músculos, a vacilar. As runas tatuadas em espirais e figuras nórdicas diversas pareceram começar a entrar em curto, cada vez mais fracas, tal qual a força do garoto, que se esvaía.

Não, não, não, agora não, porra! – a mente dele gritava em um looping.

— SAI! M-ME SOLTA! AHH! – ele continuou a gritar, dessa vez, com todo o seu fôlego. A chuva, a baba e o cão raivoso sobre si eram um tanto demais para a cabeça de Lucas Hódrson processar de uma vez só. – SAI DE MIM!

O cão não pareceu se importar e avançou com tudo.

As runas apagaram.

E tudo o que Lucas viu no segundo seguinte foram dentes assomando sobre sua cara.

— Varða!

Uma voz emanou da distância, a pronúncia estranha rasgou o ar em luz dourada.

O cão foi jogado longe com uma rajada de luz, um frescor de menta coroava o ar chuvoso com verde e dourado, cobrindo um Lucas agora exausto com seu brilho.

— Eu te expulso, Garm, filho de Fenrir! – gritou uma voz familiar a esquerda de Lucas, que virou o rosto e ofegou forte para a visão que tinha.

Era sua mãe, parada a frente de seu celta azul e portando uma vara de madeira com uma ponta brilhando feito fogo. Os olhos dela, antes escuros como os de Lucas, agora reluziam com um brilho esmeralda, os cabelos curtos parecendo ouro puro.

O cão ganiu novamente, mais cauteloso do que antes.

— Filho, se levante. – disse Greta, se aproximando de Lucas, que se levantou cambaleante. Confuso, sem nem uma pista sequer do que estava rolando, mas ainda se aninhando na figura menor da mãe, que se voltou para o cão de nome Garm. – Ouse se aproximar novamente, warg, e eu mesma dou cabo de você.

Garm não pareceu gostar da ameaça e se aproximou.

Greta moveu o cajado, pendendo-o para frente e, então, falando algo que Lucas não compreendeu.

Fogo se ergueu a sua frente, uma parede inteira dele. Verde e luminoso com nuances douradas. O bicho ganiu e recuou, a neblina e a chuva voltando a se acumular apenas de seu lado da rua. Ele fitou mãe e filho uma vez mais, para então, dar meia volta e correr, levando consigo a tempestade e o frio glacial que abraçara a cidade de súbito.

As luzes logo voltaram a vida, uma a uma, em um ritmo preguiçoso.

Greta sentiu Lucas se afastar, trêmulo, enquanto encarava as próprias mãos e o poste largado no chão. Ele estava prestes a dizer algo, mas perdeu a capacidade assim que estudou a face séria de sua mãe e o cajado que ela tinha em mãos, bem ao estilo Gandalf, de Senhor dos Anéis.

— A-a gente precisa convers-

E antes que ele dissesse uma palavra mais, seus olhos giraram nas órbitas.

Lucas desabou para a inconsciência e Greta o abraçou, afobada e preocupada.

Tudo estava saindo de seu controle, então.

Quem fez isso contigo? – a voz retumbou na escuridão, carregada de poder e pesada como uma cumulonimbus. O cão se aproximou, mancando e ganindo para a silhueta.

Uma mão grande coberta pelas sombras encontrou seu pelo lustroso, limpando parte dos condimentos e sujeira. O cão se aninhou entre as largas pernas do dono, cobertas por uma calça militar larga e cinzenta.

Os coturnos pesados bateram no chão com impaciência, a figura continuou a acariciar seu cachorro. O reluzir rubro das íris da silhueta lançaram luz sobre o cenário do galpão onde uma mancha enorme de sangue cobria os tapetes.

O homem se ajeitou em caixas e observou os corpos que jorravam o líquido e manchavam tudo. Toda uma gangue jazia diante de seus pés, seus narizes já não respiravam ar ou aspiravam a cocaína que tanto ansiavam, seus corações vis cheios de maldade já não buscavam matar-se entre si. Financiadores da desgraça, destruiriam vidas sem pensar duas vezes e, ainda assim, destruiriam a si mesmos no processo.

Ele os tinha feito um favor, diria o colosso. Seu sangue tinha o alimentado e seu nobre, terrível e sombrio machado coberto de sangue.

Uma pena que eles estavam mortos demais para apreciar aquilo.

— Quanto ao visgo, Garm?

O cão emitiu um ganido alongado e recebeu o carinho com mais vigor.

O queixo barbado assentiu para frente e para trás. Seu corpo ganhou um resplandecer escarlate paulatinamente, espalhando-se como serpentes e vinhas tatuadas em corpo escuro e reluzente como o bronze mais fosco. Runas dançaram por bíceps do tamanho de canos de bazuca e se estenderam por seus braços firmes. O homem então se pôs de pé, um passo após o outro.

O gelo vermelho que se formou no chão refletiu os rostos petrificados em medo dos criminosos assassinados, assim como a silhueta dantesca do imortal de ombros largos como um armário. A lâmina grossa pendia em suas mãos, sempre faminta como o inverno devorador.

— Hora de fazer visitas, então.

Os passos dele ecoaram pelo galpão, enquanto a noite, o frio e a tempestade o seguiam.

— Por quanto tempo eu-...? – a frase foi picotada pela agulhada de dor interna que Lucas recebeu.

Sua cabeça latejava e o mundo girava um tanto. Ele olhou ao redor semicerrando os olhos, a luz na mesa de ferro o incomodava. Estava na garagem, o carro estacionado logo a frente, com sua mãe remexendo no cômodo da mesa de leitura que ela tinha alocada próxima ao sofá onde ele estava estirado.

O cajado de Gandalf estava bem ao lado de Greta, que o encarava com uma expressão tão neutra quanto a Figueira na praça. Sua postura, mais reta e centrada do que ele jamais vira antes.

— Mãe? – a voz dele pareceu cautelosa demais para alguém que tinha certeza que o coração estava prestes a explodir para fora do peito.

O cão, a neblina e o brilho mágico de fogo vieram à tona de uma vez só. O jeito que seu corpo cintilou na ocasião e a força que sentiu em seu corpo também viajaram por suas lembranças.

Lucas se sentou e ofegou sem intenção, já cerrando os punhos.

— O que está acontecendo?! – ele gritou naquele instante. – Por que um rottweiler gigante me atacou?

Ela massageou as têmporas e desviou o olhar. Lucas se levantou de imediato e ouviu o respirar alongado da mãe se arrastar pela mesa. Quando o garoto finalmente chegou ao seu lado, avistou os objetos dispostos nela – O cajado e o objeto viking esquisito. Havia também alguns outros, como uma espécie de casulo demarcado com símbolos rúnicos antigos, feito de algum metal enegrecido e velho, tudo largado sob a luz da lanterna.

— Me conte. – ele pediu, tão sério quanto conseguiu, quase um ofego.

Sua mãe o fitou nos olhos e disse: — Você é especial, Lucas. Mais singular do que jamais conseguiria imaginar. Único.

— Presumo que isso devesse explicar as tatuagens e o cachorro?

— Não, é muita coisa para se explicar. – ela respirou fundo e massageou as têmporas novamente. – Mas é simples até, se tu acreditar cem por cento no que digo, é claro.

— Excede o nível de loucura que vi hoje? – ele não pretendeu soar rude, mas o olhar de sua mãe simplesmente lhe estapeou. A seriedade congelada em seu rosto era clara: Ele não fazia ideia de onde estava se metendo.

E, quando ele ouviu o que se seguiu, desejou mesmo não saber mais de nada.

— Você é meio-asgardiano, Lucas. – Greta disparou, fitando a cara do filho. Ela fechou os olhos por um instante, tentando esquecer os olhos arregalados dele e o jeito que o garoto deu para trás de súbito. – Metade humano, metade aesir.

— Tipo...Um semideus? Tipo Hércules? – ele não tinha certeza sobre o porquê suas mãos tremiam. – Mãe, não, isso não-

Ele encarou o cajado e os artefatos esquisitos dispostos na mesa.

— Tu é asgardiana?! Poxa, pra quê esconder isso de mim?! Quem era o cachorro?! Ele também era asgardiano?!

— Se acalma! Tá maluco, é? – Greta negou. – Não sou asgardiana, seu pai é!

E o arquejo do menino rendeu um “Porra” baixo da mulher, que coçou os curtos cabelos.

— Meu pai?! – o corpo do garoto tremeu de cima a baixo. – Meu pai é um deus?!

— Não um deus, tipo, DEUS! Mas...No sentido com d minúsculo, sim. – ela balançou a cabeça e se arrependeu de ter dito aquilo de imediato.

— Então ele está vivo? Deuses são imortais, né?

— Imortais? Um baita exagero. – ela se levantou e tocou os ombros do filho. – Olha no meu olho, garoto. – ele o fez, tentando segurar a respiração ofegante e o ímpeto de fazê-la se afogar em mil perguntas diferentes. – Você corre perigo....E-e sei que você quer me perguntar tudo o que pode, mas, devo lhe alertar...

— Por que mentiu para mim?! Por que você não me contou que papai estava vivo?!

Os dedos dela pressionaram os ombros dele com tanta força que pareciam ferro.

— Hódr não é alguém que devesse ser pai de ninguém. – os olhos dela estavam arregalados, como os de uma coruja que tinha sido amedrontada. – Ele só conhece duas coisas: Morte e desgraça. Quando ele e...— ela hesitou, apertou os ombros do filho uma vez mais e o assistiu se espiralando na história como quem se enrolava em uma corda grossa e pesada demais. — ...eu, planejamos tomar Asgard para si. Pô-la nos caminhos imperialistas gloriosos de novo, ele só queria saber disso e daquilo, do poder que ganharia. Ele matou o próprio irmão para isso e então, quando achava que não podia ser parado—

— Vocês o QUÊ?! – Lucas se afastou, assustado.

Greta tremia, recuando para sua mesa e agarrando a varinha em mãos com toda tristeza do mundo. Ela fitou Lucas de um jeito culpado e soluçou, retomando o rompante sem sentido de histórias de um reino distante de deuses e monstros.

— Odin enviou seus melhores. Nós não tínhamos chance, não havia seidr em minha língua que parasse o Pai-de-Todos. – ela negou com a cabeça, seus olhos se iluminaram com o reflexo da chama verde na ponta de seu cajado. – Eu fui fulminada diante de seu pai, a carne queimou tudo em meus ossos até só o fiapo de meu espírito sobrar. Hódr, em um ato desgraçado e desonroso para si mesmo, saltou para a Bifrost e se isolou em Midgard, aqui, na Terra. Nem mesmo o Sentinela Heimdall poderia nos achar, graças ao meu encanto.

Ela remexeu no vegvísir com as unhas, como se fosse um brinquedo velho.

— Mas você está aqui, viva! E-e...O que vocês fizeram de tão errado?

— Nós fomos idiotas. Eu era só uma bruxa vanir e meu nome, naquela carne, era Gullveig. — Greta narrou, passando a mão no cabeço como se ainda o sentisse queimar com a luz da lança mágica do Pai-de-Todos. – Seu pai me achou depois de uma guerra intensa, logo após de Odin ter conquistado todos os reinos. Ele jamais fora reconhecido como deveria nas batalhas, os asgardianos o achavam sombrio demais, terrível. Ele era como um gigante de gelo, não um deus, não como o irmão brilhante e heroico dele, Báldr.

— Bruxas, deuses e...Meu pai é do mal?

O olhar de Greta foi ilegível. Ela parecia frágil demais para mais um comentário do garoto. A mulher apenas suspirou e falou: — A ambição e a inveja destroem até o coração mais puro, especialmente quando se têm milênios de vida para a corrupção se alojar. – Greta balançou a cabeça em uma negativa pesarosa. Seu coração pesava como chumbo. — E eu já tinha isso de sobra quando seu pai me encontrou. Éramos dois desajustados, eu com os vanir que não entendiam o valor oculto e a real profundidade por trás da feitiçaria sombria, e ele, com os aesir, que o jogavam de lado como a sombra que era.

Lucas nada disse, estava tentando assimilar tudo aquilo. Ele podia ouvir o eco de cada palavra se somar a uma multidão falante em sua mente, cada vez mais barulhenta e preenchida, tomando o espaço de seu bom-senso e só deixando o pavor ser compreendido.

Ele sentia que estava prestes a surtar.

— O par perfeito para tentar um plano horrendo. Um irmão assassinado por inveja e pela única erva-daninha soturna que o podia ferir, coletada no mais profundo poço de gelo em Jötunheim. A arma mais perigosa então forjada nas mãos do guerreiro com o coração mais maculado. – ela negou com a cabeça e deu uma risada sôfrega. – O que poderia dar errado?

— Você morreu, mas...

— Eu tenho muitos truques. – ela o interrompeu e gesticulou com a varinha para si mesma. – Corpo mortal, espírito imortal, ainda assim, mortal. Báldr sempre me achava a cada encarnação, a gente vivia como podia, escondidos dos olhos do Pai-de-Todos. Mas ele já estava manchado demais. Hódr só queria vingança. Demorei vidas para perceber que...Nunca tive um esposo, só um soldado com uma guerra dentro da cabeça. – ela sentou-se na cadeira novamente e fitou o filho nos olhos. – E sabe o que um soldado mais quer? Armas.

— Como a que você criou com ele, para matar...meu tio.

— Isso. Formidável. – ela pareceu até apaixonada ao dizer isso. Suas palavras enviaram um calafrio para a espinha do garoto. – Visgo, a chamávamos.

— N-nome horrendo. – ele pontuou, ainda atordoado com a quantidade lancinante de informações. Ele fitou a mãe de soslaio e disse: — Os deuses não fizeram nada com ela?

— Claro que sim. O Pai-de-Todos a jogou na Terra antes de nós, só compreendi éons depois que aquela foi a maior razão pela qual Hódr quis tanto fugir, e não, minha morte. – ela deu de ombros, se resignando e ainda chorosa. — Sem ela, não havia chance de enfrenta-lo.

— Ele a achou? Ele...Voltaria para destruir Asgard?

— Destruir Asgard, destruir Midgard, desde que ele tivesse a espada de novo, não faria diferença. Hódr faria todo mundo enxergar o guerreiro terrível que ele era, custe o que custasse. – ela suspirou e cerrou os punhos, fitando um ponto inespecífico na sala. – Mas jamais a achou. Até que ele me fez gastar cada gota de magia que tinha para achar uma arma melhor.

— Você o fez?

— Não há armas na Terra capazes de desafiar o uru de Asgard, nada igual. Ele partiu em toda viagem e guerra que conseguiu, século após século, nada era tão poderoso...Exceto o que ocorreu em nosso último encontro.

— Que seria...?

— Você, Lucas. – ela explicou, dando de ombros. – Seu nascimento era o maior trunfo dele. Por um tempo, ele até foi um marido para mim...Até eu perceber sua real intenção.

Lucas ficou trêmulo como nunca.

— O que? – enfim perguntou, tenso como se seu esqueleto fosse de cristal.

— Ele queria te usar. Outro guerreiro asgardiano para a coleção. E então, ele teria outro, e outro, e outro. – ela abaixou o rosto e tremeu fortemente. Lucas caminhou até a mulher, incerto se deveria tocá-la naquele instante ou não. — Eu podia ver em seus sonhos o que queria, o exército que formaria, mesmo que se esperasse anos, meu encanto ainda nos ocultaria de Odin.

— Ele te manteria refém em toda encarnação. – o pensamento aterrorizou Lucas. – M-meu pai faria de você...

— Fugi, então. Nos ocultei, para terras longe do olho rubro dele. O deixei cego para nós quando você era uma criança. Mas, é claro, eu não sou a única que conhece magia. – ela negou com a cabeça. – Há sangue do deus do inverno e das sombras em você, seria impossível mantê-lo enquanto meio-asgardiano.

— Então...?

— As tatuagens são um feitiço. Eu suprimi todo seu lado aesir por décadas. – ela admitiu, como se dizer aquilo quebrasse seu coração. – Eu tirei todo vestígio dele de você e fugi para um lugar que ele nunca acharia. Um lugar que ele nunca soube que eu conhecia a existência.

— Florianópolis? – perguntou o garoto.

Ela assentiu e complementou: — O lugar onde a Visgo foi lançada.

— Mas...Pensei que vocês não soubessem onde ela havia sido jogada.

— Também pensava isso, até Hódr me fazer usar tudo para localizá-la, lembra?

— E você mentiu para ele.

Ela assentiu, uma sombra de esperteza vagando por seu olhar. Sua postura mais confiante de si do que Lucas se recordava.

Esperou um minuto.

E então, dois.

Greta foi até o garoto e se sentou ao no sofá da garagem, puxando-o junto a si.

— O cachorro...

— Garm, é um warg. Um lobo de Helheim.

Lucas parecia prestes a comentar que estava mais para vira-lata do que lobo, mas acabou engolindo o comentário no meio de seu redemoinho de informações.

— E a espada?

— É mais como uma lança-espada, na verdade. É complicado. – ela suspirou. – Não faço ideia do porquê o Pai-de-Todos a lançou aqui ao invés de jogá-la em seu cofre em Asgard.

— Minha mente vai derreter no próximo nome viking que tu falar.

— Viking? Que horrível a nomenclatura.

— É isso que te preocupa aqui?!

— Não. – a voz ficou seca de repente. – Ele está vindo.

— Como ele descobriu?

— Meu feitiço está se esvaindo, se modificando conforme você cresce e o desafia. – ela murmurou e fitou o filho de soslaio, ainda brincando com o cajado em mãos. – Se eu o refizer, no entanto, a gente pode vazar daqui e ele não nos achará.

— M-mas, mãe... – Lucas se pôs de pé. — ...E minha vida, meus amigos?!

Ela o olhou como se fosse uma criança mimada.

— Posso alterar sua memór—

— O QUÊ?! NÃO! – Lucas recuou. – Eu finalmente descobri a verdade e você vem com essa?!

— Não seja infantil! Eu fiz tudo o que fiz para te manter longe daquela besta, e faria de novo! Ninguém toca em meu filho, entendeu?!

Lucas deu um passo para trás, repassando mentalmente o modo sinistro como a frase tinha saído da boca de sua mãe. O brilho emanado pelo cajado lançou sombras em seu rosto.

De repente, não ficou difícil imaginá-la como uma deusa-bruxa inescrupulosa, capaz de tudo.

— N-não faça isso.

— Talvez seja para seu melhor. – ela se levantou e os músculos de Lucas se tensionaram.

Assim que ele a observou remexendo no cajado, todo seu corpo se acendeu em um clarão azul. Espirais rúnicas e tatuagens dos símbolos mais variados dançaram sobre sua carne, seus olhos cintilaram em azul-gelo e os músculos que tinha pareciam mais firmes, como aço.

— NÃO! – ele berrou, tomando o cajado da mulher e jogando-o contra a parede, ofegando logo em seguida. Greta o fitou desolada, apenas para vê-lo avançar contra a porta que daria para dentro de casa, vendo-a ser arrancada em um só movimento.

Lucas deu para trás, vendo o que havia feito.

Sua mãe, então, fez menção de aproximar-se.

E então, ele correu até a porta da frente. Greta o seguiu e gritou: — LUCAS, PARE!

Mas seu grito não o encontrou, ela apenas conseguiu ver seu vulto em um salto na rua, sumindo nos céus da manhã mais fria do verão em Florianópolis.

A mulher gritou às portas e se jogou ao chão, irritada.

Quando o cérebro de Lucas ganhou juízo, ele compreendeu que estava no meio do ar e prestes a cair para sua prematura morte.

No meio do caminho ao asfalto, teve tempo de contemplar seu próprio testamento e burrice. Ele deveria ter vivido melhor, talvez dito a verdade mais vezes e, quem sabe, o Universo o teria recompensado com o conhecimento de que ele era meio-deus este tempo inteiro. Talvez até mesmo pudesse fazer algo maneiro com aqueles poderes.

Naquele instante, no entanto, ele só via o chão chegar. A luz em seu corpo resplandecia como se fosse alguma espécie de laser de boate. Nuvens espiralavam em sua vista e o chão e aproximava com uma velocidade assustadora.

Alguém com certeza havia esticado os segundos, a morte realmente não deveria se arrastar tanto.

E então ele despencou, caindo no meio de uma rua há alguns quarteirões da sua casa.

THUD.

Seu corpo encontrou o chão.

Lucas já era.

Ou era isso que ele achava que aconteceria.

O garoto abriu seus olhos, sentindo a metade do corpo dormente. Ele piscou algumas vezes, vendo que tinha aterrissado de mau jeito através de uma árvore, fulminando seus galhos todos no trajeto. No lugar que a parte direita de seu torso encontrara o chão, havia uma cratera de terra, gravetos e folhas de uma figueira inocente.

Ele se desculparia para a árvore, mas estava ocupado demais se dando conta que não quebrava nem um osso sequer.

— Foda. – sua boca articulou a palavra da melhor forma que pôde, as mãos trêmulas e sujas. No bolso do casaco, felizmente intacto, ele encontrou seu celular com metade da carga, o que já era um milagre por si só.

O garoto se colocou de pé, limpando a sujeira como conseguiu e não demorou dois segundos para perceber aonde estava.

— Ah, merda!

O casarão branco e azul em estilo colonial, um jardim tão grande que parecia uma vila inteira e uma piscina adiante com vista da varanda da casa. Nada mais, nada menos, que a Residência Galharda.

O lar de sua barulhenta namorada.

— Ei! – uma voz conhecida emanou do andar de cima. Avistando-o no meio de uma cratera cheia de galhos e sujeira, se projetava da janela a garota, risonha. – Tentou escalar de novo?

Ele limpou a garganta com uma tossida bem sofrida. O turbilhão de emoções em seu peito graças a sua recém descoberta foram girando como no turbilhão de uma descarga. Um sorriso bem sôfrego se formou no rosto de Lucas e ele falou, na maior cara de pau: — É, só que dessa vez me fodi gostoso. Meio que fiz uma poda.

Ele gesticulou com o braço, como se estivesse doendo.

— Metade dos galhos já foram embora só ontem com a tempestade que teve, gatão. Vem se limpar. Tá com fome? É cedo, sabia?! – Luíza deu uma risada que poderia acabar com um dia nublado ou acender um forno à lenha em um dia frio. Ela era calorosa assim mesmo, as vezes como uma lareira confortável, outras, como uma usina termonuclear. – Sua barulheira toda que me acordou!

Ela foi para dentro e sumiu.

E reapareceu uns três minutos depois, na porta lateral do casarão: — Vem, vamos dar um jeito nisso aí.

Lucas continuou a sorrir, mas sentiu um gosto ferroso na boca, seus músculos pareciam ser feitos de algo frio e tenso, assim como o coração em seu peito.

Ele nem precisou pensar muito para saber do que se tratava.

Aquilo era mágoa.

O cabelo de Luíza, com a luz que entrava pelas janelas da cozinha, tomava uma coloração meio achocolatada. Ela ergueu a face com sardas salpicadas e sorriu para ele, mordiscando uma colher de pau coberta de brigadeiro com um cheiro de Nutella forte. Sua camisa de pijama rosé tinha um canivete estampado.

Ele, já tendo trocado de roupa graças ao guarda-roupa do irmão de Luíza e tomado um banho breve, chegou nela sem muito a dizer. A garota sorriu para ele.

— Metallica, é claro. – ela gesticulou para a camiseta preta e shorts jeans que o garoto usava. – Tão sua cara.

— Feliz aniversário. – ele declarou, em alto e bom som.

Luíza deu um guincho de felicidade que daria inveja à alguma arara. Ela saltitou até Lucas e deu-lhe um beijo que pareceu mais demorado do que realmente era.

O garoto jamais pensou que odiaria sentir o gosto de brigadeiro logo pela manhã. A culpa e a mágoa misturadas certamente não eram como granulado.

Ele a abraçou tão ternamente quanto conseguiu e separou-se dela alguns segundos depois. Ela deu um beijo em sua bochecha e se sentou à bancada de granito, puxando um banquinho de madeira rica. Havia decoração distribuídas até pela cozinha e um armário todinho feito para souvenires das várias viagens da família. A prataria reluzia elegantemente e as panelas Flavorstone coroavam suas cabeças, dependurando-se de um arranjo de cozinha perfeitamente grande o suficientemente para acomodá-las.

Na terceira selfie tirada por Luíza para colocarem nas redes sociais, ela voltou a falar.

— Fiquei surpresa com seu sumiço essa semana. Certeza que não vai tomar uma sabática de última hora e me dar bolo hoje?

Ele deixou um suspiro alongado deixar seus pulmões, que não passou despercebido pela garota. Ela o fitou com uma boa dose de apreensão, ele tentou sorrir como apaziguador, mas não pareceu funcionar.

— Eu vou sim, de boa! – tentou reforçar.

— O que vem rolando? Fala sério, Lucas. – ela lambeu a colher, o que foi sensual sem o mínimo intento.

Ele então teve a tentação de sempre. Contar que era gay e havia traído o relacionamento instrumental de Instagram dos dois com Gustavo por mais vezes do que deveria ser capaz de contar.

Mas no momento, outra dor de cabeça veio no lugar. Uma mais urgente, pesada e terrível.

— Descobri quem meu pai era, de verdade.

— Puta merda. – aquilo saiu mais veloz dela do que ela conseguiu prever. – Quer dizer, isso não deveria ser bom? Você nunca fala dele.

— Nem mamãe falava. E, sinceramente, preferia não saber de nada.

O silêncio surpreendeu o garoto, pois ele durou por mais de um minuto e meio. Ele lambeu os beiços e encarou a garota, que foi até a prateleira, pegou cereais, pôs um leite para esquentar no micro-ondas e se virou para o loiro tingido.

— Sinto muito se foi ruim. – a voz dela saiu como um piado. – Se quiser falar mais disso, sinta-se à vontade.

E ela voltou a fazer silêncio, preparando lentamente uma tigela para o rapaz e convidando-o sentar-se à mesa. Ele não fez cerimônia e devorou a tigela cheia de cereais, ainda comendo pão e ovos que trataram de preparar. As palavras, no entanto, pararam de ser trocadas. O brigadeiro foi uma sobremesa estranha. O dia era estranho.

— Ele era um criminoso. – articulou, dando de ombros quando a garota se virou com surpresa para ele. – E abusava de minha mãe...Ela também falou umas besteiras mas...Parando pra pensar. – um suspiro alongado deixou seu interior, arrastando umas lágrimas quentes para seu rosto. – A-acho que ela deve ter passado por muita coisa. D-duvido que tenha alguma intenção de me magoar...Embora tenha conseguido.

— Meu Deus, e-eu...- e então ela o abraçou, fazendo-o largar o pão francês na metade recheado com ovos mexidos e queijo derretido. Ele, no entanto, apreciou o momento e não conseguiu não tremer. Luíza podia ser muita coisa insuportável aos olhos dele, mas naquele instante aquilo pouco importou. – Eu espero que você e tua mãe conversem, se acertem, ok?

— Tá, é...Valeu. – ele desvencilhou-se do abraço e observou para os pratos de comida. A porta da frente abriu-se à alguns cômodos de distância, anunciando a chegada da governanta, que gritou um bom dia bastante sonoro. – É...Talvez eu devesse vazar.

Ele se colocou de pé, Luíza deu de ombros e disse: — Você quem sabe. Querendo ficar aqui até a noite, te empresto um traje mais jeitoso e a gente se acerta depois. Meu irmão deixou um monte quando foi pra Portugal.

Lucas não soube como reagir, parcialmente porque a ideia de passar um dia inteiro com Luíza poderia ser aterradora e parcialmente por não esperar tanta gentileza.

— N-não vai incomodar?

Ela só deu de ombros e disse: — Capaz.

A garota pegou as tigelas e pediu para a secretária, que chegava na cozinha, lavar.

— Edília, nós vamos estar lá em cima qualquer coisa, viu? Vem, Lucas!

— Com licença. – disse o garoto, passando pela mulher diminuta, que apenas acenou para os dois, vendo-os indo para a sala de estar e deixando a bagunça para trás.

O almoço e a tarde foram estranhamente agradáveis. Apesar das múltiplas ligações em seu telefone e dos ocasionais beijos molhados, Lucas estava mais do que confortável com a tal da “namorada”.

Seu coração, no entanto, parecia pedra.

E ele tratou de pesar bem quando Luíza e ele estavam se agarrando uma vez mais.

— O que há? – ela perguntou, a mão dentro da camisa, acariciando os lados do garoto com carinho. Ele abaixou a cabeça, Luíza logo recuou para perto da janela com vista para o jardim, fitando os pôsteres sobre a larga cama dela. – Eu não sou idiota, Lucas. Você tá estranho e não é de hoje.

Lucas se ajeitou na cama e abaixou a camisa emprestada, seu olhar vagueou para a TV ligada no Multishow e os vários clipes que passavam. O Sol já começava a se por no horizonte e os decoradores da festa tinham passado o dia todo trabalhando. Havia balões até na árvore destroçada.

— Cê tá me ignorando agora é?!

— Não, não! – Lucas fechou os olhos por um segundo. – É só que tô em outro lugar, sabe? Aqui só tem o corpo.

— Deus do Céu. – ela suspirou e se aproximou, saindo da sacada. Sua mão encontrou a lateral do rosto dele em uma carícia, até que ela passou a tirar a parte de cima da roupa, deixando-o tenso.

A garota o fitou e ergueu uma sobrancelha: — Não vou pular em cima de ti. Só vou me arrumar.

Ela se inclinou em um beijo terno, se afastou e fitou-o firmemente nos olhos: — Tu pode confiar em mim, Bonitão. Qualquer coisa, vou ouvir.

E se afastou, indo até o guarda-roupas e agarrando uma toalha.

— Vai com aquele vestido rosa que me mostrou né? – ele tentou mudar o tópico.

A garota riu para ele e gritou para um dos funcionários de arrumação virem para o banheiro junto. Ela acenou para ele e se foi porta afora, deixando-o livre para contemplar o pôr-do-Sol laranja e róseo que tingia o céu de Florianópolis.

Seu celular vibrou novamente, mas o gesso frio dentro de Lucas o impedia de se mover.

Greta parou em frente a casa de Gustavo, achando-o de saída com as mãos no bolso e um olhar incomodado no rosto.

— Ei, Gustavo!

Um brilho assustado cruzou o olhar claro do garoto, as mechas louras se moveram com o súbito movimento de revirada para encarar a mulher com face de choro que deixava o carro.

— Sim, sou...Espere, você é a mãe do Lucas, não é?

— Isso. – ela assentiu e se colocou ao lado do garoto, que era alguns centímetros mais alto que ela. Havia alguma espécie de nervosismo incerto no olhar vagante dele, mas Greta estava ocupada demais com sua própria cabeça. – V-você viu o meu filho?

— Não. – a resposta veio automática, gelada, tal qual a expressão, que se petrificou. – Não nos falamos.

— Ah...É que ele tinha comentado uma vez e me mostrado a foto daquela viagem de vocês. E agora não o acho e—

— Tentou a Luíza? – Gustavo replicou, as mãos se remexendo com o dedilhar de uma ansiedade para vazar dali. – Ela provavelmente deve saber onde ele se enfiou.

Greta semicerrou os olhos. Havia algo naquelas palavras que mesmo ela, recheada de preocupação e consternada com o perigo que seu filho sofria, percebera. Elas soavam como ressentimento.

— Não tenho o número daquela... – Gustavo não conseguiu discernir o resto da fala dela, parecia alguma língua diferente, como alemão. – Tu tem?

Gustavo negou com a cabeça.

— A casa dela fica a alguns quarteirões. Vai ter festa hoje, bem capaz dele ter ficado lá já.

A mãe assentiu, fitando o zênite do meio-dia de relance.

— Faz sentido. – a voz dela amargou, ela tentou ligar para o filho, mas foi logo ignorada. Gustavo continuou a observá-la, como se em dúvida se deveria deixa-la ou ouvir mais. Lucas certamente estava encrencado. – Bem, obrigada.

— Ele está bem? – Gustavo não resistiu.

O olhar de Greta foi inescrutável.

— Sim. Vai ficar, ao menos.

— Ah...Certo. Bom te ver, sra. Hódrson.

Ele seguiu caminho, segurando sua bolsa marrom entre os dedos e subindo a rua apressado.

Greta se virou com o celular ainda ligando para o filho, não querendo processar sua própria estupidez. Era óbvio que ele iria correr para o rabo da saia da namorada sem personalidade dele. Lucas estava correndo de seu lado imortal, era apenas esperado que isso o levasse ao mais mundano dentre os mortais.

Sem resposta.

Sem sinal.

Ela encarou o trânsito e o céu. Nuvens tomaram tudo e o cheiro de chuva eminente lhe alcançou. Outra queda de energia, o vento frio uivou pela cidade enquanto os carros se dispersavam.

Greta acelerou para longe da tempestade nascente. Ela odiava o que vinha depois do frio.

A noite foi ganhando espaço lentamente. O espelho embaçado pelo vapor foi sendo limpo pelos dedos de Lucas, que se sem cueca e com a toalha em mãos, os respingos pendendo dos fiapos tingidos de loiro que repousavam sobre sua cabeça.

Ele raspou as unhas sobre sua pele escura, um fátuo tom azul reluziu com tatuagens espirais de runas nórdicas e símbolos vikings antigos, como um escâner que ia dos pés a sua cabeça. Seu olho lampejou, os músculos, tensos como geleiras.

Ele deu a volta, se admirando e vendo o luzejo viajar sobre o tronco, a coxa e o contorno do glúteo e seguindo por metade de seu corpo inteiro até a ponta dos pés.

— Ei, preciso de meu acompanhante para hoje ainda! – disse a voz de trás da porta branca. Luíza já estava impaciente. – Vou deixar tua roupa aqui, trate de se vestir, viu?!

Sua luz azul sumira, as runas também.

Passos de tamancos mais finos que Lucas pensava possível foram ouvidos a distância, somando-se ao barulho branco de algo eletrônico que parecia um insulto aos tímpanos dele – eles tinham sido esculpidos por Rock e Metal, sabem como é.

O garoto saiu do banheiro já vestindo sua cueca branca apenas, a mandíbula tensa e o olhar vagando pelo quarto elegante da namorada. Suas mãos juntaram o terno azul-escuro com estrelas nas manga e a parte escura de dentro, como um breu. Ele se encarou no espelho, onde um par de sapatos sociais marrons o aguardavam.

Um suspiro se perdeu enquanto a música parecia mais alta a cada segundo. Outro lampejo azul e frio fez seu corpo tremer.

Ele encarou seu celular começando a vibrar com uma ligação.

O garoto largou seu traje e, prontamente, o esmagou entre os dedos luzentes. O frio o arrodeou como a raiva que sentia, geando os cacos inofensivos de uma tela com o nome “Gustavo” já sumindo longe de sua vista.

Lucas se encarou no espelho e voltou o olhar para o chão reluzente. A cabeça latejou com arrependimento e as lágrimas queriam surgir.

Ele simplesmente não fora ensinado a encarar verdade alguma.

— Você realmente está um gato! – disse Luíza, a sua espera e perto das escadas. O sorriso ornado de um batom chocolate lustroso.

Ele enfiou as mãos no bolso do terno e lançou um sorriso sôfrego. Se ela percebeu, o garoto não percebeu, apenas enlaçou sua mão e posou para um boomerang com a língua a mostra, feliz como nunca enquanto a animação que cheirava a algo doce no ar misturada à música incessante o dava náuseas.

O vestido dela moveu-se como uma nuvem arrojada e rosada de algodão doce. Seus tamancos eram pink concentrado e vivo, o cabelo um coque decorado de brilhantes que combinavam com suas sombras rosa-e-prata nos olhos.

A decoração chegava ser pueril, se revelando como um céu se abrindo, colorido com leds dançantes e uma pista luminosa na área da piscina. Havia muitos os aguardando abaixo, conversando e já bebendo, servidos por funcionários do bufê mais caro que Lucas conhecia.

Os convidados assistiram-nos descendo os degraus juntos a luz do lustre enorme da sala, já cantando “Parabéns Pra Você”, filmando-os com os seus starkphones e festejando. Lucas e ela saltitaram juntos para a festa, rindo e conversando alto, competindo com o barulho das caixas de som.

Beijos e beijos, alguns passos de dança que constrangeram Lucas – o quadradinho era o pior para ele – e bebida. Muita bebida.

Ele repetiu doses de gin tônica. Socializou com Cecília, coreografando vídeos curtos para seus Instagrams e posou com a namorada para uma fotografia com outros influenciadores.

Luíza fazia a linha divertida, já ele com o charme a acompanhava exibindo os músculos e cara de marrento. Um dos fotógrafos quase o tateou por completo mesmo ao lado de sua namorada, que fingia não se importar magistralmente.

As garotas logo a sequestraram para fazerem mais de sua rotina "She’s so crazy, love her!” que envolvia bancar a “diferentona” tentando equilibrar uma lata de gin na cabeça e fazer uma coreografia ridícula.

Sorrisos falsos e músicas com batidas pouco importantes.

Mais bebida.

Gente chata cujo papo revolvia em torno de quem estava escondendo algo sobre a sexualidade de fulano, ou então, sobre o próximo grande evento que literalmente todo influenciador deveria ir.

Mais e mais bebida.

Um vídeo de Thor socando um chitauri na genitália arrancou algumas risadas de Lucas. Subitamente o fazendo ficar pensativo – será que Thor conhecera seu pai? Ele era tão horrível assim mesmo?

Os questionamentos deram mil voltas em sua cabeça, Lucas cambaleou para longe. Seus passos chapinharam pelo jardim, a música intensa distraindo todo mundo, Luíza dançava a beira da piscina e alguém em um canto longe enchia o peito de fumaça de algum cigarro aromatizado mais doce do que deveria ser permitido.

Passos seguiram os de Lucas, que se achou na onda de embriaguez debaixo da árvore destruída, o frasco de Whisky a mãos.

— Precisamos conversar. – a voz era imperiosa, mas suave e perfeitamente sóbria.

A bebida lhe foi arrancada das mãos e, assim que os olhos de Lucas encontraram a face séria de um garoto com cachos dourados, todo um flash azul reluziu em seu ser.

Gustavo recuou instintivamente, Lucas, no entanto, apenas piscou – um segundo de seu sangue asgardiano correndo por suas veias já tinha limpado toda sombra de embriaguez de si.

— G-Gustavo. – ele mastigou o nome, tremendo a ponta dos dedos e separando as costas do tronco. O ar da noite se interpôs entre ambos, colorido por um rosa-e-azul, Lucas se viu resfolegando em nuvens de gelo seco. – Oi.

— O que foi essa luz?

— O que você quer?! – a reposta veio como um raio. – É a porra de um led idiota.

Nem o mais idiota acreditaria naquilo, Gustavo não comprou, mas apenas se agachou diante de Lucas e falou vagarosamente: — Sua mãe me procurou.

A face desgostosa de Lucas deve ter parecido uma carranca, porque Gustavo deu para trás com a cabeça, verificando a distância de onde estavam da alma da festa.

— O que está acontecendo entre vocês?

— Pensei que você não queria mais saber de mim.

Gustavo não respondeu. Seu olhar foi para longe, dando tempo de Lucas admirar o traje dele: Uma camisa de longas mangas azul estampada com folhas douradas e calças de um tom marinho. Despojado e atlético como era, o garoto se misturava aos flashes azuis e a piscina não muito longe dali.

— Ela parecia preocupada. O que você fez? – Gustavo o fitou novamente.

Um dar de ombros despreocupado foi sua resposta, o olhar de Gustavo não foi para longe de novo. Lucas fechou os olhos e respirou fundo, dizendo em seguida: — A gente discutiu feio.

Gustavo aguardou por mais, mas Lucas apenas se levantou. As costas tensas, como se estivesse aguardando um bote de um animal à espreita, os olhos focados no rapaz.

— Não precisa se preocupar, a gente vai se ajeitar.

— Você nunca foi bom mentindo para mim. – Gustavo se pôs na mesma altura do outro, as faces esquadrinhadas pelos olhos de cada um, separadas por meio metro e pelo mesmo ar.

As palavras de Gustavo foram ficando mais quietas, eles nem fitaram os arredores. Um tremor subiu pela espinha de Lucas ao perceber a antecipação de um beijo entre ambos.

A música virou barulho branco e indistinto.

Quando Lucas percebeu que havia inclinado e encontrado os lábios de Gustavo, já tinha as mãos ao redor de sua nuca e sua mente já estava cheia de gelo seco. De repente tudo parecia fácil.

Ele queria ter pensado em pedir desculpas, talvez devesse mesmo ter se assumido antes como ele insistiu tanto. Talvez ele estivesse deixando para trás toda uma vida de oportunidades quando decidiu engatar a fachada do namoro com Luíza.

Nenhum lábio deveria ser tão macio, nenhuma boca deveria ser capaz de fazer Lucas se sentir tão quente por dentro. Os

Mas Gustavo certamente não dava a mínima para o que nenhuma boca devia ser capaz ou não de fazer.

Ele o beijou mais, as mãos de Gustavo apertando sua cintura, os olhos fechados inebriados enquanto o coração de ambos parecia saltitar no mesmo ritmo intenso da batida.

Lucas nunca pensou que fosse gostar de música eletrônica, de repente, ele a amava.

O rosto de ambos deslizou para longe, relutantes, beijos se encontravam a meio caminho enquanto a separação vinha lenta e dolorosamente. Gustavo tinha lágrimas nos olhos, Lucas as limpou e sorriu para ele.

— Merda, acho que te am-

— LUCAS?! – e imediatamente o pensamento de Lucas foi de “UAU EU AMO ESSE GAROTO” para “Ah, é claro, eu tenho uma namorada!”.

Essa noite ia ser longa.

Notas finais
E aí pessoal, o que acharam? *Trilha Sonora* — O cão dos infernos/Eyes of the Wolf - https://www.youtube.com/watch?v=bbFb5nR19b8 — Greta abre o jogo/Canaid Lia Fáil - https://www.youtube.com/watch?v=4i_lQNnsGZU — Um dia com Luíza/Minha Menina - https://www.youtube.com/watch?v=XIbJylD_c84 — O dono do vira-lata/Hellwalker - https://www.youtube.com/watch?v=hI3NfZgfjRU — A festa de Luíza/Modo Turbo - https://youtu.be/oPz1UHbphD8 — Gustavo & Lucas - https://youtu.be/vPR_9bu-bnc Até mais!