Os Protetores - Aesir
3 Sombras do Inverno
Notas iniciais
III — Sombras do Inverno
Quando Lucas percebeu que sua namorada aniversariante estava de olhos bem abertos, encarando-o se engraçar com o loiro de seus sonhos sob a árvore arruinada no jardim, sua mente entrou em curto.
Ele encarou Gustavo Amarantes – bonito em azul, de braços cruzados e um olhar que existia entre a ternura e o “eu quero tanto socar sua cara, isso é sua culpa, sabia?”.
E então, sua namorada, Luíza Galharda, cujos cabelos de caramelo já haviam virado uma bagunça divertida e o vestido rosa tinha uma mancha no torso, amaldiçoado fosse o Corote.
Eloquentemente, ele articulou um sonoro: — Érrrr....Oi.
Luíza procedeu com um grito agudo e pisoteou seu caminho todo até os dois, Gustavo dando para trás enquanto comentava o quão maluca aquela garota parecia. Ela gesticulava animosamente e bufava sem parar.
— Eu posso explicar!
— Aposto que sim! – ela rugiu e colocou as mãos na cabeça. – Na minha festa, sério?! Meu Deus! Você—
Lucas tocou o ombro dela, mas levou um tapa ardido logo em seguida e abaixou o olhar. Gustavo murmurou um “Você mereceu essa” que soou mais divertido do que deveria.
A garota vociferou novamente a frente dele.
— Eu te convidei porque vocês eram amigos! – Luíza apontou para o loiro, que deu de ombros, ainda divertindo-se com tudo indo água abaixo. Recostado na árvore como quem assistia a um espetáculo.
— Nós somos amigos? – Gustavo voltou o olhar para Lucas, que estava congelado no lugar. A voz afetada e o tom teatral desceram sobre Lucas.
— Vai se foder, Gustavo. – murmurou, subitamente trêmulo. – Luíza, eu estive mentindo, é-é que eu sou—
A palavra travou na sua garganta. Um tremor viajou por todo o seu corpo. A coragem lhe havia abandonado e as lágrimas inundaram tudo. Ele tentou falar mais uma vez, mas um bolo de hesitação se formou em sua garganta. Ele estremeceu e tentou não perceber o olhar sério do loiro, logo vendo aquilo virar decepção amarga diante de si.
Entre ambos, o garoto quis morrer.
Luíza estava prestes a gritar o que Lucas era, quando algo agourento procedeu.
Primeiro foram as luzes.
Uma a uma, cada holofote na festa ia se apagando, cobrindo a silhueta enorme da residência com uma sombra. Segundos depois, neblina sibilou sob os pés de todos, fazendo um arquejo coletivo ser ouvido logo engolido por um uivo emergente que invocou todos os calafrios que o garoto não sabia que tinha em seu corpo.
O olhar de Lucas foi até o telhado, onde a figura de um cão enorme gania alto. Suas presas enormes visíveis com a luz remanescente da lua cheia que o tingia de prateado junto com a névoa que descia de seus pés.
Olhos vermelhos cintilaram na escuridão da noite. Gustavo e Luíza estremeceram diante do rapaz.
— Puta que pariu. – Lucas murmurou, cerrando os punhos e se voltando para os dois ao seu redor. – CORRAM!
O povo não correu.
Não de imediato, é claro, todo mundo estava ocupado reclamando da falta de energia, filmando o escândalo no celular ou reclamando especificamente da falta de Wi-Fi.
Luíza gritou alto de medo.
E em seguida, o cão do inferno saltou para a vista da varanda com um estrondo e ganiu alto o suficiente para todos entrarem adequadamente em pânico.
Lucas empurrou Gustavo e Luíza sem pensar – seu corpo se iluminando com runas e espirais, tatuagens paranormais de puro vigor reluzindo ao toque assim que ambos se encontraram no gramado já há metros de distância, confusos pelo arremesso.
— V-você tá bem?! – Gustavo perguntou.
Um tapa encontrou seu rosto e a mão dela se estendeu para ele, que aceitou e correu, vendo Garm, o Warg de Helheim, se jogar contra Lucas de uma vez só.
O garoto foi arrastado pelo gramado, a atenção deslizando entre o povo que gritava, a mandíbula do bicho se fechando em seu braço e os dois donos de seus beijos fugindo por suas vidas enquanto pânico generalizado tomava conta de tudo.
Era simplesmente informação demais e o fato do cérebro de Lucas não virar gelatina meramente ao processar isso era uma milagre por si só.
— Aaargh! – Lucas, iluminado em azul gelo, agarrou o focinho do rottweiler e rolou no gramado. Flashes de câmeras de pessoas próximas iluminaram o ar bem quando o cão foi arremessado pela porta de vidro da sala, transformando a mesa de centro em escombros, confete e amontoados de latas de Skol Beats.
Garm mastigou uma lata ao meio e ganiu, correndo na direção do garoto, que mal conseguiu articular um “Caralho!” antes de sofrer o impacto da investida e sentir os dentes do bicho se encravarem no seu abdômen.
— ALGUÉM AJUDE ELE! – gritou Luíza, de algum ponto inespecífico.
Lucas duvidava que alguém tivesse uma coleira grande o suficiente para um cão-do-inferno. Enquanto era arrastado por cima da mesa de bufê e jogado feito um boneco de pano, o garoto pensou “Essa noite não poderia ser pior”.
Para sua surpresa, ela ficou.
Bem quando o bicho o deitou na porrada com as garras e o peso de um caminhão inteiro, arrastando-o festa adentro pelo chão enquanto as sombras e a neblina aumentavam pelas frestas de sua vista. Fiapos nebulosos tomavam a decoração enquanto o povo gritava para longe, cobrindo o rastro de sangue vermelho deixado pelo garoto, os dentes fisgando sua carne densa, tentando rompê-lo.
Lucas ofegou, seu corpo já cessando de luzir e uma onda nauseante de dor o abraçando pela barriga, pescoço e antebraços. O cansaço o imobilizou e a face coberta de sangue e confete do cachorro do diabo sobre si significava tudo que havia de errado em sua vida.
As mentiras tinham voltado para acabar com ele.
Era seu fim.
— ONDE ESTÁ A VISGO?!
A voz emanou da escuridão, o gorgolejo de raiva emitido pelo warg se misturando a ela. O hálito azedo de Garm tornava as palavras cáusticas e venenosas, lembrando-o que, debaixo de sua origem de semideus, Lucas nada mais era que um mortal assustado cuja mãe o tinha mentido sua origem durante toda sua vida.
Ele ficou tentado a chorar, mas o peso da pata do cão em seu peito mal o permitia soluçar.
— ACHE-A PARA MIM, OU TUA MÃE PERECERÁS, MORTAL! FALHE COMIGO, E TODO ENTE QUERIDO TEU ENCONTRARÁ O MESMO DERRADEIRO DESTINO!
Um tremor incontrolável tomou o corpo de Lucas.
Demorou um pouco para Garm perceber que se tratava da risada mais sôfrega que ele já testemunhara em séculos.
Lucas cuspiu sangue, colorindo o pelo preto tingido pela neblina se formava diante de si. Ele continuou a rir e chorar como um desesperado. Sua vida era ridícula, aquela porra de cachorro tinha um sotaque Shakespereano e mal hálito.
Era o pior jeito de morrer.
O cão leitor de Hamlet não gostou de ser ignorado e desceu o rosto para uma mordida. O sangue nas veias de Lucas correu a toda velocidade e ele aceitou: É o fim para mim, minha mãe mentirosa e todo o resto.
Mas a heroica e otária aniversariante tinha que se meter.
— VAI SE FODERRR! — ela berrou, lançando pó químico com um extintor bem no meio do bote.
O cão berrou obscenidades que ofenderiam toda a população da Europa no século XVI e balançou a cabeça de um lado para o outro, desnorteado e coberto por bicarbonato de sódio.
Lucas se levantou em um sobressalto, o cão bateu o rosto em uma mesa e ganiu para o vento. Alguns repórteres e blogueiros de Instagram ainda filmavam tudo no limiar da festa. A mais idiota deles – Luíza Galharda, sua estúpida e corajosa criatura, pensou o garoto – estava do lado dele. O cabelo despenteado, o laço tombando para um lado na cabeça enquanto rastros de maquiagem criadas por choro cobriam sua face embasbacada.
— C-CORRE DAQUI! – gritou Lucas, ofegando.
— VOCÊ TÁ SANGRANDO, CORRE TAMBÉM! – E ela disparou para dentro da casa, sumindo da área coberta que dava na piscina e passando pelo bolo meio comido, soltando um muxoxo desgostoso ao ver tudo arruinado.
Lucas fitou o cão, que balançou sua cara e ganiu ferozmente em sua direção. Nenhuma palavra mais ecoou das sombras. Ele não parecia estar no humor para recitar Sonhos de Uma Noite de Verão também.
— TEU PAI ANIQUILIRÁ TUDO O QUE CONHECES, MORTAL!
Lucas cerrou os punhos e grunhiu irritado, clamando sua força interior em um urro gutural de poder.
E não funcionou.
Nenhum flash, nenhuma onda de força. O feitiço de Greta deixou sua essência asgardiana de castigo uma vez mais. Ele queria gritar, dessa vez, com sua mãe.
Lucas percebeu que queria gritar com muita gente.
Mas, guardando seu fôlego, ele correu com tudo, tropeçando no sofá enquanto o lobo rumava em sua direção, ganindo alto e destruindo a sala de estar. Lucas derrubou um quadro de família que pendia-se perto da escada, cuja face de Garm simplesmente abriu um buraco bem no meio dele.
O cão o perseguiu, incomodado com o novo adereço e rosnando alto.
Lucas subiu todos degraus e virou-se a tempo de ver o cão saltando em um bote voraz. As presas brilhando com ódio, a luz visível apenas emanando dos punhos cerrados do garoto.
Luz azul.
Um milésimo de pensamento lhe bastou. Seu corpo se retesou firmemente e entregou um soco bem dado na barriga da besta. O movimento destro e direto, cheio de poder como um estampido e um ganido esganado da fera, que foi arremessada em uma massa de neblina, gritos lupinos de dor e obras de arte despedaçadas.
Garm foi lançado com tanta força longe que seu corpo acertou o lustre da sala que pendia sobre a área. Faíscas e cristais voaram pelo ar, ele despencou junto com o warg graças ao impacto, encontrando a forma destruída do bolo em um som digno de uma bola de demolição trabalhando.
Lucas não contou quanto tempo ficou ofegando parado, as tatuagens azuis sendo sua única fonte de luz até a energia voltar e névoa recuar. Ele observou a loucura generalizada e a casa arruinada de sua provável ex-namorada.
Bolo, cachorro e destroços transformaram a sala em um lixão.
Seu corpo tremia, a incerteza e o medo tomando conta de seus pensamentos.
Ele conseguiu distinguir o som de sirenes ao longe. Seu olhar vagueou pela mansão abandonada em busca de uma saída, até enxergar o quarto da garota, de onde saíra para a festa.
Lucas caminhou até a borda e fitou a área arruinada do jardim, os poucos ainda presentes apontaram para o garoto. Ele deu um salto e sumiu na noite, para tão longe quanto conseguiu.
— Mãe?! — Lucas passou pela porta, nervoso.
O olhar logo fixou-se na forma do sofá, que estava revirado. Neblina tomava o chão e as luzes todas estavam apagadas. Ele testou o interruptor, sem muito sucesso.
O garoto rumou pela sala e viu que tudo estava destruído. A porta para a garagem tinha tombado, mesmo no escuro ele podia ver marcas negras e rubras espalhadas por toda parte.
O altar Ásatru da mãe destruído e coberto de sangue.
Confronto. Seu pai a achara.
Lucas correu até o quarto de sua mãe, achando o armário dela tombado e letras na parede, iluminadas pela luz lunar entre nuvens.
Runas, desenhadas com sangue rubro e humano.
A mente de Lucas pareceu entrar em curto por um segundo. Um tremor raivoso viajou por seu corpo e um cheiro férreo invadiu suas narinas, seguido do aroma de chuva fria e uma presença pesada.
E, diante dele, ao invés de runas e um chão coberto por neblina e destroços, havia um homem coberto pelo breu e pelo ar leitoso da névoa.
— Hódr. — a voz de Lucas ecoou no quarto, o tom rubro das runas tingia a metade luminosa da sombra larga e musculosa que estava diante de si. Ele nem percebia seu tremor ou o jeito que seus dentes rangiam: — Onde está minha mãe?!
— Você assassinou meu cachorro. – a voz dele não pareceu ofendida, só levemente impressionada. – Herdou algum talento, vejo.
— ONDE ELA ESTÁ?! – ele berrou, dando um passo adiante e esmigalhando o armário com um soco só. Lascas voaram com poeira e um grunhido.
Ele ofegou ferozmente diante da visagem.
Seu pai feito de névoa soltou um som que poderia tanto um suspiro como um rosnado.
— Não teste minha paciência. Ela, pelo Visgo. Sei que ela te confiou isto. — olhos rubros cheios de ambição lançaram luz para dentro do quarto. – Gullveig tem seus jogos. Eu tenho os meus. Só lamento vê-lo longe de mim...Subestimei a extensão da covardia dela, tomar o guerreiro de seu destino é bem a cara de uma bruxa medrosa.
Lucas tremeu, vendo espirais e serpentes tatuadas reluzirem como bronze avermelhado no corpo da aparição. Hódr assomava sobre ele, facilmente passando de dois metros de altura, uma barba espessa tingida de vermelho.
— Não tenho nada para você. – Lucas falou, mesmo sabendo que a lâmina perigosa se encontrava em algum lugar da cidade. Uma sensação insistente em seu pescoço o fazia piscar de nervosismo, como se ele estivesse deixando passar algo. — Não sei onde está!
— Ainda. – prometeu o titânico pai sombrio de Lucas, um sorriso sádico e sincero pareceu surgir na aparição, como que em admiração a sua ousadia. – Talvez isso o faça mudar de ideia.
— LUCAS! – a voz de sua mãe ecoou pela sombra, que se deformou em réstias tingidas de verde, até se tornarem a forma caída de Greta, trêmula, suas roupas rasgadas nas extremidades, uma sombra familiar e volumosa a suas costas. – NÃO O ESCUTE, NÃO DÊ A ARMA A ELE! O PAI-DE-TODOS GARANTIU, SOMENTE OS DIG—
— Mãe, eu—
— AH! – Greta urrou, seu corpo sendo lançado ao chão novamente com um tapa com as costas da mão de Hódr. Uma onda de fúria e temor congelou Lucas. O sangue de sua mãe, na sombra, parecia o mesmo luzejo que Hódr emanava. – M-meu garoto....Tenha c-coragem...
Lucas sentiu seus joelhos encontrarem o chão, trêmulo e vazio. A forma da sombra tornou a seu pai e disse: — Até o amanhecer.
E desvaneceu.
Lucas estava ocupado surtando pelos minutos seguintes.
Sua vida tinha não sido apenas virado de pernas para o ar – alguém havia desligado a gravidade e ele estava flutuando para o espaço sem controle algum enquanto o ar ia ficando cada vez mais rarefeito em seu peito. Uma dor lancinante o paralisava no meio dos destroços de confronto, como se uma lâmina gelada perfurasse seu coração e fosse girada pelo seu diabólico pai.
Gritar era um luxo que ele não conseguia ter. O desespero era maior que sua voz. Como da vez na praia, quando sua mãe e ele foram nadar e uma onda o levou para o fundo. Lucas afundou em confusão e seu grito era tomado por água salgada.
Greta, na areia, o abraçava forte depois de vê-lo acordado. Só um susto, na ocasião, mas o desespero persistia. Ela o abraçava e protegia, beijando o rosto do garoto enquanto ele tremia diante da imensidão do oceano, o cheiro de maresia retornando às narinas junto com as memórias.
Ele estava afogando e sem ninguém para amparar-se dessa vez.
O som languido de seu choro se arrastou pelo chão, assim como suas pernas deslizaram, as costas contra a parede e olhos escuros fitando o nada específico do quarto.
Um clarão iluminou a noite, o barulho de chuva torrencial se misturou então a um som inesperado vindo de uma silhueta ainda não percebida pelo garoto, bem na porta.
— Dia ruim?
Lucas luzejou em um clarão digno de um relâmpago, uma onda fria de vento jogou todo destroço no chão ao redor do garoto para longe. A figura recuou para dentro do corredor com um grito afeminado.
Um suspiro rastejou seu caminho garganta afora de Lucas.
Era Luíza.
A garota andou até estar diante de Lucas. Ela estava de cabelo solto, o casaco era um pesadelo cor-de-rosa com capuz e um coração vermelho-e-preto. Outro relâmpago lançou luz na face sem maquiagem da garota. O jeans surrado e olhar perdido perscrutaram a forma acabada do garoto.
O celular estava em mãos, na outra, ela tinha a forma arruinada do seu celular antigo, amassado.
— Você sumiu depois do cachorrão.
Lucas a fitou com confusão nos olhos.
— Acho que precisamos conversar sobre umas coisas. – ela falou, observando a catástrofe que era o lar dele com uma face angustiada. – Q-que tal irmos para outro lugar?
— É perigoso. – ele murmurou, mas recebeu uma risada nervosa da garota como resposta. – O que é engraçado?
— Ah, suponho que nada, mas...Caramba Lucas, o que diabos tá acontecendo? – ela riu de novo, como se não soubesse como processar o jeito fenomenal que seu aniversário foi para o brejo. – Você é um herói, caralho! Isso é incrível!
Lucas não tinha nem forças para dizer o quão pouco heroico estava se sentindo. Ele nem sabia o porquê dela estar ali – tão bem ele sabia, a garota havia testemunhado sua traição e quase morrera pelo cão-do-inferno que o perseguia.
Era tudo culpa dele.
Luíza chutou uma lasca de madeira e pegou um objeto: Um amuleto rúnico antigo, com várias setas e pontas tortas como tridentes, cada um apontando para o lado.
— Uma bússola Viking, um rottweiler do mal e superpoderes. – murmurou para si mesma. A expressão no rosto da influenciadora digital mais esquisita que Lucas conhecia endureceu em algo parecido como determinação inconsequente.— É, a gente realmente precisa conversar, guri.
Lucas não chiou – aceitou a ajuda e se levantou com ela, parando diante do espelho quebrado na sala e reparando que seu terno já era.
— Deixa ver se eu entendi. – Luíza seguiu seu raciocínio dando uma sugada barulhenta de seu milk-shake de café e morango. O povo ainda se mexia na porta da lanchonete, vindo de uma balada próxima.
Eram depois da meia-noite quando Luíza e ele se reuniram na Adolfo Konder. A quantidade de gente pela rua indicava que a queda de energia tinha afetado ao menos parte da cidade, mas não a 1007, cujo letreiro néon ainda atraía jovens feito mariposas diante de uma vela.
— Teu pai, malvado, é um criminoso alienígena-deus e sua mãe, a professora, é a reencarnação de uma deusa asgardiana. O cachorro do mal se chama—
— Garm – interrompeu e deu uma mordiscada em suas batatas. Assentindo e fitando os arredores, já estava em sua terceira porção de fritas. A fome que vinha depois de usar tanto seu lado aesir era surreal.
— Isso. E você tem que achar um visgo para eles?
— A Visgo. Uma espada. Lança-espada, sei lá.
— Tá, bosta de nome. – ela murmurou e deu outra sugada que pareceu levar mais meio-século para acabar. O quão grande era aquele Milk-Shake afinal? – Mas vem cá...E se você não der o que ele quer?
Lucas teve vontade de gritar assim que a pergunta foi feita.
Sua cabeça recaiu para frente e ele negou diante de suas batatas do jeito mais “Tenha pena de mim” que conseguiu.
— Não quero descobrir o que vem depois. – murmurou. – Um monstro tá com minha mãe, Luíza. E-eu...Não sei o que fazer.
— Imagino. – simpatizou ela, dando de ombros. – A gente pode...Sei lá, tentar achar a espada.
Ele a olhou atravessado.
— A gente? Luíza...
— Ei! Você subitamente se tornou a coisa mais interessante em um raio de mil quilômetros, Hódrson. Você salvou minha vida e me traiu na mesma noite. Eu tô a porra de um caco! E se tu não me deixar fazer parte disso, tenho absoluta certeza que eu vou SURTAR!
Umas garotas passaram olhando para Luíza, que nem pestanejou ao erguer o dedo do meio para elas. Lucas fechou os olhos e massageou suas têmporas. Um silêncio desconfortável tomou lugar às falas deles.
Lucas respirou fundo mais uma vez e tornou a falar.
— Me perdoe. E-eu...Tô com tanta coisa na coisa que nem parei para—
— Lucas, tá tudo bem. – ela tocou o ombro dele, apertando-o.
— Não tá, não! Te traí por meses e tudo o mais! Fui um otário com o Gustavo e contigo! E ainda surtei, larguei minha mãe no instante onde ela finalmente me contou quem eu era! – ele cerrou os punhos e encarou a garota. Seu capuz cinzento recaiu para trás, as letras vermelhas da SUPREME impressas no casaco pareceram sangue coagulado aos olhos de Luíza. – Eu sou um covarde do caralho!
Aquilo saiu entredentes, Luíza apenas suspirou e deu de ombros, completamente perdida.
— Tu é realmente um otário... — admitiu ela, dando de ombros. — Mas, Lucas, se tem alguém para fazer algo nessa situação...
— Fazer como?!
— Meu Deus, sei lá! – ela tirou a runa estranha de madeira e jogou-a no meio da mesa. – Para de reclamar e faz alguma coisa, caralho! Não me enche não que tô a um tris de enfiar essa bússola viking no teu rabo! Só pra ver se o Gustavo vai atrás dela também!
Lucas piscou. A sensação de calafrio viajou por sua espinha como uma corrente elétrica assim que ele encostou no objeto.
— Bússola?
— É...Tipo daquelas tattoos que o povo faz. – ela tomou um gole violento sem canudo. Pousando o copo a frente, finalmente vazio, havia um bigode de creme sobre seu lábio. – Meio que é para não se sentir perdido ou algo assim. É um troço islandês na verdade. Achar seu caminho de volta para cas—Quê cara é essa, Lucas?
— Minha mãe é uma bruxa. – ele raciocinou e remexeu no objeto. – Talvez eu possa acha-la.
— Não seria a coisa mais doida da noite. – ela fitou o pedaço de madeira como se ele fosse explodir, afastando-se vagarosamente e olhando a chuva além da cobertura da lanchonete. A fila da balada toda reclusa na calçada da melhor maneira que achavam. – E depois o quê?
— E depois eu... – Lucas não sabia como completar: “Ralo o pé com minha mãe daqui” e “Derroto meu pai em combate mano-a-mano” não pareciam boa ideia. — ...dou um jeito.
Luíza não retrucou.
Ela apoiou o rosto na mão e, com a mão livre, tirou uma foto sorrateira de Lucas enquanto ele remexia no vegvísir. O garoto a fitou, notando o semblante triste da garota seguido por sua risada sôfrega e aguda.
— E eu achando que minha vida era um furacão por ter um namorado ausente e ridículo. E por ter que bancar a forçada na câmera dia após dia.
— Forçada, você? – a vontade de rir foi irresistível. – Luíza, você é a coisa mais espontânea e verdadeira nessa tempestade inteira.
Um trovão, aparentemente esperando sua deixa, soou em algum lugar enquanto a conversa se seguia. A chuva aumentou como nunca, dispersando até mesmo os que queriam entrar na boate do outro lado da rua.
— Obrigado. Por ser incrível e mais madura do que jamais vou ser.
Aquilo arrancou uma risada genuína da garota. Ela se levantou, andou até o menino e o abraçou forte. O calor fez bem a Lucas, que se derreteu feito manteiga. Uma onda súbita de choro subiu por sua garganta, subitamente percebendo que aquele deveria ser o momento mais verdadeiro que vivera até então. E justo com uma das pessoas que ele tinha mais prejudicado.
— Amo você. – disse ele, decidindo chorar de vez e puxando ela para o sofá rebaixado. Os dois tremeram por alguns longos segundos, até se separarem e fitarem o objeto entre os dedos de Lucas.
Ele suspirou e disse quase como em uma súplica: — Onde você tá, mãe?
Uma chama verde brotou na madeira, na seta noroeste.
Lucas piscou e fitou Luíza, que já tinha um sorriso assustado estampando sua face idiota.
Quando o carro parou diante da Praça XV, Lucas engoliu em seco. Sob a luz de dentro do veículo, ele aguardou o coração parar de bater feito britadeira antes de tomar alguma decisão. Estupidez e impulsividade levaram ele até ali, ele precisava proceder diferente.
— Sabe que não tem que vir, né? É perigoso.
— Sei. – Luíza não disse mais nada, talvez tivesse ganhado algum senso de autopreservação, afinal. – Mas...
Ela tirou o celular e o cutucou com o ombro.
— Selfie antes de resgatar sua mãe?
— Qual o seu problema?! Garota, eu-
— Ei, se tudo der certo, pode ser a história da sua vida. – e ela procedeu com um flash da câmera frontal, fazendo um joinha com a mão livre bem na frente da cara emburrada de Lucas. – Ademais, guri, se tudo der errado, quero lembrar que tu não morreu um completo idiota. Que tentou ser um herói até o final, sabe?
Lucas estava para comentar que ela era péssima tranquilizando ele. Mas ele percebeu logo de cara que seu comentário não era verdade, se não fosse pela companhia e por tudo que Luíza havia feito até aquele instante, sua mente haveria fundido como gelo ao sol.
A palavra herói também não assentou muito bem dentro dele. Era como vestir um suéter largo demais que te fazia desaparecer. Lucas estava só assustado e queria sua mãe de volta.
Lucas deixou um suspiro longo sair de si enquanto os olhos fitavam o movimento esporádico na praça. Havia alguns jovens perdidos bebendo vinho e um carro ou outro cruzando a área, nada muito grande naquela madrugada sem noção.
A neblina, no entanto, estava bem ali – um véu branco feito dos medos de Lucas. Ele podia apostar que seu pai era a origem daquilo e tentou assimilar o conceito de que o homem que ele não conhecera por tantos anos acabou por se provar somente uma ameaça.
Ele queria ter tido tempo, conhecido e se decepcionado propriamente. Mas Hódr não era um pai e sua mãe fizera questão de ressaltar aquilo. Não havia nada paternal sobre o senhor-de-guerra asgardiano que o concebeu. Não havia abraços para serem reclamados ou dias dos pais para serem revividos. Aquele espaço vazio na vida de Lucas continuaria a ser preenchido por uma sombra – a única diferença é que o garoto conhecia o formato e as runas sangrentas que se iluminavam nela.
Era hora de ser mais que um covarde e caminhar para dentro dessa sombra, então.
Ele abraçou Luíza espontaneamente, quase como um movimento automático. Ela o aconchegou e soluçou, estava trêmula e com olhos marejados pouco em seguida.
— Acho que vou f-ficar aqui. – ela murmurou.
Lucas assentiu e beijou a testa da garota, se afastando e dizendo o mais honesto: — Me desculpe e muito obrigado. – de toda sua vida.
Um sorriso sôfrego depois, ele abriu a porta e caminhou até a borda da praça, observando a forma da igreja escadaria acima e a multidão volumosa que era a Figueira, sustentada por barras de ferro e tomada pelo frio da noite.
Ele segurou a bússola Viking e a moveu, vendo que a chama ainda apontava para a Figueira, bruxuleando no ar contra o vento.
Lucas caminhou até o círculo de bancos e a grade que o separava do tronco e sentiu o vento balançar seu casaco a cada passo dado. A chama pulsava e crescia, reluzindo em suas mãos como um pequeno farol de luz, sufocando o âmbar das luzes nos postes espalhados pela praça.
Ele ignorou um casal no círculo e saltou para dentro da Figueira sem muita dificuldade, de coração apertado e o medo gelando as veias, o garoto assistiu a chama saltar quase como si mesmo. O susto foi tanto que ele caiu para trás e o casal correu, confusos com a claridade súbita no tronco.
Um vulto e um luzejo se espalharam como um halo, iluminando a copa inteira por um segundo inteiro. Vento soprou em uma temperatura cálida naquele ponto específico.
A neblina recuava, quase chiando para longe da luz e o sopro de verão perdido no sul do Brasil.
Eu sou Baldr – a voz emanou, a chama verde e dourada tomou o aspecto luzente de um humanoide translúcido sobre a base do tronco. Suas palavras bruxuleavam pelo ar, emanando um tom dourado aconchegante. – Fui morto por meu irmão em seu rompante de conquista. É você o herói corajoso que o Visgo deseja clamar?
— E-eu...Não entendo. O-onde está minha mãe? – a mente de Lucas ignorou o fato de que estava falando com o fantasma de seu tio morto.
Aquele que tinha sido destruído pela ambição de seu pai e pelas maquinações de sua mãe. Lucas não entendia porquê o fantasma não parecia irritado ou perturbado, somente sentia um vento cálido e acolhedor o envolver. – Pensei que a bússola fosse me trazer até ela.
O vegvísir é um guia caprichoso. Gullveig é esperta e sabia que você seria a única esperança dela e de todos nós, Lucas. — Baldr falou, como se cada palavra que dissesse fizesse sentido. O fantasma bruxuleou em uma forma mais firme, até que Lucas conseguiu um vislumbre de sua forma verdadeira: Um jovem musculoso em armadura dourada, um sorriso bondoso e cachos ondulados suaves como uma brisa de verão. Seus olhos eram como sóis em miniatura, runas vivas dançavam por sua forma, a armadura que vestia tinha um grande vegvísir encrustada no peitoral estampando. – Quando a Visgo me tomou a vida, o Pai-de-Todos a encantou antes de atirá-la a Midgard. Somente um valioso guerreiro, tão digno e cheio de luz quanto eu poderia empunhá-la. Alguém com coragem, que daria sua própria vida para ser aquilo que se deve ser quando o dever chama.
— E-eu...Acho que você tá falando com o cara errado.
Eu não poderia estar mais certo, Lucas Filho-de-Hódr. – o sorriso de Baldr era como o céu nublado rachando em filetes de luz. Cheio de esperança e calor. – Você é Æsir como eu fui. Aceite o fardo da glória que seu pai jamais conseguiria alcançar, se achar que tem coragem.
A vontade de Lucas dizer “Eu sou um covarde do caralho” foi bem grande, sério. Mas ele se viu inclinando-se tronco acima meio-segundo depois, estendendo a mão para o deus luminoso enquanto sentia o calor o envolver, mantendo o frio distante por alguns segundos.
Um último sorriso iluminou a estrutura amadeirada e retorcida quando os dedos deles se encontraram em um último vulto. Um som de algo se partindo encheu o ambiente e, expelida pelo tronco da árvore e descansando na palma de Lucas, estava a forma alongada de uma empunhadura de metal escuro.
O garoto arrancou-a com um movimento só e contemplou o objeto.
Era alongado e frio ao toque, mais ou menos do tamanho de um bastão de beisebol. Perfeito e simétrico, mas com uma única inscrição rúnica — que ele sabia que significava Visgo por puro instinto – e rodeada por vinhas negras que pulsavam com um luzir fátuo colorido em tom cobalto. Havia duas pontas com vãos horizontais, mas nenhuma lâmina nelas.
Lucas trocou o peso entre os pés e caminhou para fora do cercado, a arma era pesada, mas não insuportável de se carregar e perfeitamente balanceada. Mas ele não via como aquilo poderia dar força a seu pai ao nível de desafiar outros deuses.
— Bom garoto. – uma voz tempesteou ao longe.
Lucas piscou junto com as luzes na praça, uma a uma, elas foram se apagando em sequência enquanto uma camada leitosa de névoa jorrava da silhueta que, a cada passo, trovejava. Os presentes na praça estavam ainda assustados, a maioria corria, os jovens mais idiotas filmavam com uma distância que o garoto desconfiou não ser suficiente, não com o tamanho daquele cara.
Seu corpo ficou ereto e tenso como uma corrente de guincho. Ele testemunhou a forma aterradora de um homem com facilmente dois metros e meio de altura, largo como um armário e robusto como um tanque de guerra. Em sua mão, a forma alongada de um cabo com uma lâmina de machado retorcida na ponta cintilava como obsidiana.
O cabelo era uma bagunça longa com ossos entrelaçados, olhos vermelhos como ágatas aquecidas observaram a forma diminuta de Lucas, que se sentia imobilizado, pelo medo e o frio absurdo que fazia ao redor do cara, era como se o inverno tivesse tomado esteroides junto com o gigante, cujo peito mal se ajustava a um peitoral de couro lustroso que usava, estampado com runas similares as dos braços dele, mas tatuadas de um jeito sinistro: Como se alguém as tivesse rabiscado desordenadamente, com sangue.
— Você é Hódr. – Lucas segurou Visgo contra si e deu um passo para trás. Ele encarou o rosto do deus, vendo uma versão distorcida da faceta gentil e poderosa de Baldr. Ele era algo como olhar para a lua refletida em piche congelado – difícil de se fitar, quase...errado. Um asgardiano deveria ser tão grande? Lucas desconfiou que não.
— Passe a arma se deseja ver sua mãe uma última vez. – a voz de Hódr parecia ter um tom que Lucas não conseguia assimilar. Demorou meia parte de um minuto inteiro para o garoto perceber que os olhos luzentes do homem não estavam focados nele, mas na arma, como um gato seguindo um ponto vermelho na parede.
O tom era desejo, uma necessidade alimentada por éons.
Lucas logo compreendeu que, para seu pai, ele não era nada comparado àquilo em suas mãos, só o fato dele falar com o garoto já era bondade por demais. Tão bem Lucas sabia, ele poderia esmagá-lo em um golpe daquele machado (que era grande e parecia afiado o bastante para ceifar a Figueira em um corte limpo) e sair andando por aí com seu mais novo brinquedo nórdico de destruição em massa.
O garoto, testando sua sorte e lutando contra a vontade que tinha de gritar o quão péssimo de um pai Hódr era, apenas fitou-o nos olhos com toda sua coragem e disse: — Onde ela está?!
A face de Hódr endureceu por dois segundos. Ele moveu o machado para o lado e a névoa rugiu, brilhando em vermelho ao seu redor graças a suas runas já semi-acesas. A forma diminuta de uma mulher trêmula e ferida na cabeça se fez ao lado do asgardiano.
— L-Lucas!...- Greta tossiu e tremeu. O garoto deu um passo a frente instintivamente, apenas para ver o machado ser posicionado atrás da cabeça da mãe e um sorriso cruel se formar na face barbada de seu pai maligno. – V-você conseguiu...Você-
— Um passo mais. – avisou Hódr, o ar envolvendo suas palavras com neblina tingida pela luz rubra emanada pelas runas em seu corpo, pulsantes como o desejo venenoso que despejava junto à própria fala. Seu tom chegava a ser doentio com os olhos fixando-se na lâmina.— Temos um acordo?
Lucas tremeu da cabeça aos pés e, ao encarar sua mãe. Ele não conseguiu ler sua expressão: Era aquilo medo de ser decapitada? Algum ardil divino que ela planejava? Aceitação de que seu filho jamais seria capaz de superar o pesadelo que era seu abusivo e louco pai?
A parte mais idiota da mente de Lucas (uns bons setenta porcento) queria arremessar a Visgo longe e dizer “PEGA!” para tentar correr com sua mãe para longe do deus das sombras e do frio.
Frente ao terror que era seu pai, o sotaque irritante do Cão do Inferno mais cedo era até reconfortante.
— Responda, Lucas, ou os destruirei ambos.
Ele engoliu em seco, trocando o olhar entre seus pais no escuro da noite.
— Você só sabe destruir. – Lucas concluiu com uma certeza que era sua e somente sua. – É isso que devo ser, um destruidor, a seu serviço?
O sorriso de Hódr se voltou para Greta, que permanecia inescrutável e quieta diante do marido enorme.
— O garoto não é burro.
Um “Não graças a você” não-verbal perpassou o rosto da mulher antes que ela retomasse a expressão habitual. Ela voltou-se para o filho, abraçando o próprio casaco pelo frio e assentindo com a face neutra intacta.
— Mas a destruição de Asgard é toda minha. Assim como todo o resto será. – Hódr encostou o machado na cabeça de Greta, que fechou os olhos por alguns segundos. – Mas, pode dobrar o joelho e jurar servidão, vai poupar esta vidinha mortal de sua querida mãe.
Greta o fitou novamente, como se esperasse algo.
Lucas suspirou e estendeu a Visgo adiante, trêmulo e incerto.
— Nos deixe em paz. – o garoto não fazia ideia do que estava fazendo. Hódr o avaliou, aguardando algo mais. Por mais um minuto eles se encararam, até que o tremor de Lucas ganhou lágrimas e o medo fez uns cinco nós em sua garganta, que soluçava sem parar. – M-mãe, m-me desculpe.
Greta negou com a cabeça, resoluta.
Hódr abaixou o machado e agarrou a haste de ferro mágico da mão do garoto. Ele avaliou o objeto, encostou-o no rosto e deixou suas runas sanguinolentas pulsarem de animação.
Greta caminhou adiante, deixando seu lado e indo até Lucas, que a abraçou com força e tremeu como vara verde. Ambos tremiam, ambos choravam. O ar frio os abraçava ameaçando dar-lhes uma geladura só de estarem tão perto.
— M-Mãe eu...
— Vamos! – ela ordenou, trocando o olhar entre o gigante observando a arma e seu filho. – Vamos logo!
Ela queria sumir dali, agarrar seu filho e conjurar um feitiço grande o bastante para tirar a memória de ambos. Algo que passasse um pano em toda aquela catástrofe. Quando Hódr notasse, já seria tarde demais, ela mesma conseguia sentir só de olhar para arma. Era apenas questão de tempo.
Mas Lucas não se mexia. Ele fitava a haste metálica entre os dedos de seu pai, cada vez mais inquieto. As sombras se inclinavam na direção da arma, o ar se preenchia com a luz rubra de suas runas e rodopiava em neblina ao seu redor.
Nada a ativava, nada gerava sua preciosa lâmina.
— NÃO...O QUE VOCÊ FEZ?!
Hódr fitava Greta, vendo-o aturdido por sua preciosa Visgo simplesmente rejeitá-lo. A maldição de Baldr lhe recaía, o truque supremo de Odin.
— LUCAS, VAMOS! – ela puxou o garoto, mas ele estava trêmulo, paralisado e...brilhando em runas.
Ele chorava e negava com a cabeça, completamente absorto em algo que parecia misturar culpa, frio e medo.
— Mãe, e-eu... – ele queria falar. As mentiras dele estavam por toda parte, cada soluço era uma delas querendo ser regurgitada. A verdade de quem ele era, de quem Baldr queria que ele fosse, o que seu pai jamais poderia ser. – E-eu sou...
Greta queria gritar mais, mas a garganta travou ao ver a forma enorme de Hódr avançar para cima de ambos, brandindo seu machado sangrento e faminto – Fimbulwinter, Greta recordava-se do nome – na direção de Lucas com toda sua violência.
Um CLANG alto se fez forma.
A mão de Lucas estava estendida, a haste da Visgo repousando entre seus dedos, tendo sido arrancada em um flash do agarrar de Hódr, que observava atônito: Seu filho travava o golpe com ela. Trêmulo, um covarde, mortal, choroso como uma atriz de filme antigo – mas reluzente como um Æsir.
Os olhos de Lucas, incrivelmente, não se moveram. E, fitando sua mãe, a verdade de quem ele deveria ser tempesteou para fora de si como uma brisa de inverno: — M-mãe...eu sou viado!
Alívio não deveria ter vindo ali, naquele instante. O entrave deveria estar matando-o, Lucas tinha certeza que morreria no segundo seguinte, ele jamais seria forte o suficiente para suportar seu pai-deus poderoso em combate.
Ao menos ele morreria sendo quem ele deveria ser – si mesmo. Um homossexual, enrustido, covarde, meio-asgardiano, mas honesto.
Lucas abraçou sua verdade.
O ar rodopiou ao seu redor e o frio zuniu com força.
Um brilho de compreensão tomou forma no rosto de Greta, ela tremeu e chorou ao mesmo tempo, assentindo com o rosto e se afastando do garoto. O ar carregou suas lágrimas e as congelou em um redemoinho branco que se formava ao redor de Lucas, as runas luzentes dele brilhavam feito um farol de cobalto puro.
A arma reluzia com suas inscrições, o vento levantava o garoto em meio a um entrave e Hódr tentava separar-se inutilmente.
— Não, não, NÃO!
Vento se expandiu em uma lufada de poder, o som de um estampido de pressão se espalhou como um trovejo.
O frio opressivo e rubro de Hódr recuou assim como ele, que foi jogado dezenas de metros praça afora enquanto uma tempestade de gelo e relâmpagos reluzia, tendo Lucas como o epicentro.
O olho de uma tempestade toda sua.
O garoto se viu metros erguido no ar, o inverno a arrancar seu traje e sombras invernais serpentearem no vento da noite, cobrindo seu corpo.
Um estampido de poder explodiu o furacão em uma rajada branca, azul e prateada. As árvores estavam cobertas por geada enquanto Lucas finalmente pousava, reluzindo como cobalto escuro. Metade de seu rosto coberto por runas, um olho com um brilho de safira e uma armadura negra, com seu vegvísir estampando o peitoral de ferro e couro.
Ele avistou uma pequena capa azul se movendo atrás de si com o vento. A força corria em suas veias e viajava pelas runas e espirais que seus braços exibiam. Poder puro, a força dos deuses, a força de ser quem ele realmente era.
Um Æsir corajoso.
Um mortal amedrontado.
Um idiota, às vezes.
E um herói.
— COMO?! ELA É MINHA! – Hódr, coberto de uma camada branca e ainda luzindo em vermelho, empunhou seu machado e grunhiu alto como nem Garm faria. – COMO OUSA TOMÁ-LA PARA SI?!
Lucas sentiu como se a gravidade fosse sua. Ele empunhou a arma com ambas mãos, lâminas de gelo se projetavam de cada ponta – finas e transparentes, cada uma reluzindo com um fátuo tom azulado nas extremidades de quase um metro.
O ar se condensou quando o garoto abriu a boca e cerrou os olhos, encarando a forma ofegante de seu pai dantesco. Lucas fitou a arma e sua mãe, conseguindo soltar o sorriso mais sincero de sua vida uma vez mais. Ele lacrimejou e o oxigênio gelou ao seu redor, mil partículas em câmera lenta rodopiando em harmonia, formando um véu branco iluminado por suas runas.
— Ela nunca foi sua.
Hódr urrou em sua direção, uma tempestade gelo e sombras servindo de capa para o asgardiano. Ele pisoteou seu caminho praça adentro, indo em rota de colisão com Lucas, cada estrondo um passo.
O garoto fez o mesmo, empunhando sua nova arma e sentindo seus pés, agora cobertos por grevas de batalha do mesmo material que a armadura, ganharem chão em direção ao seu monstruoso pai.
Era hora de acabar aquilo
Eles cruzaram a praça velozmente e, bem quando se chocariam, Lucas ouviu o som: — VAI LUCAS!!!
Luíza, filmando tudo, escondida em um arbusto urrou.
O garoto sorriu bem a tempo de ver sua lâmina gelada encontrar a de seu pai.
O ar vibrou com o choque e a força dos músculos de ambos. O vento brigou em duas frentes frias inimigas e se expandiu em um show de luzes.
Lucas estava pronto.
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