Os Montgomery: A Rainha Perdida
4 Ela está aqui.
Notas iniciais
Andava pelos vales de um lugar que eu sabia ir e vir de olhos fechados. O vestido era meu único problema, me impedia de correr e ser livre. Eu gostava do cheiro das arvores, do vento no meu cabelo e da magia que saia dos meus dedos e principalmente, eu gostava do gosto do sangue. Vermelho e pulsante. Salgado e amargo. Eu gostava de sentir a vida correndo por minha garganta e se misturando com minha magia. Era poder, era eu.
– Charlotte? – Benjamin estalou os dedos para tirar Charlotte do transe. Uma memoria, um pensamento antigo havia tomado seu cérebro e ela estava em algum tipo de mundo paralelo. Ines havia falado que, em algumas situações, as lembranças iam vir de repente e ela deveria sempre lembrar que tudo aquilo era apenas uma memoria.
Charlotte estava presa, os pés pesavam tanto que ela não conseguia mover-se para frente, por mil anos ela viveu vidas e vidas que não lhe pertenciam, vivendo e morrendo para chegar aonde deveria estar e agora, era só atravessar a porta e lá estaria seu pai... Como na primeira lembrança que ela teve, era ele.
– Papai!!! – Eu corria em direção ao homem mais encantador do mundo. Meu pai era lindo, alto e tinha o tom de pele bronzeado, um pouco demais para um vampiro e seu sorriso era perfeito. Ele dizia que eu parecia com minha mãe, que meus cabelos eram iguais os dela e eu sorria feito uma menina assim como ela também sorria. Eu tinha orgulho de ouvir aquilo sempre.
– Minha filha, onde você estava? A barra do seu vestido está suja de lama...
Olhei para baixo e percebi como eu estava suja.
– Você é uma dama, Charlotte. – ele dizia sempre isso. – Tem 16 anos e precisa se comportar como rainha.
– Estava caçando, papai. Apenas isso.
Theodore segurou a mão dela e sorriu encorajando. Ele era alto assim como Peter e Ben, Charlotte pensou que eles eram seus irmãos agora e que eram uma família. Seu pai precisava de filhos para ajudar a comandar o império e ele os fizera.
Peter abriu a porta grande e entrou com Benjamin atrás. Theodore segurando a mão de Charlotte foi logo em seguida. Ela conhecia aquelas paredes, conhecia aquela casa, mas agora parecia diferente. Era como sempre foi, enorme, elegante e no meio do nada, mas agora parecia moderna e nova.
Ela entrou na sala onde havia as famosas festas dos Montgomery, olhou para parede e lá estavam retratos pintados de seus familiares. Todos os vampiros, todos poderosos, mas nenhum era poderoso como ela. Charlotte passava os olhos por todos quadros, mas havia um, que fez ela congelar e se desligar do tempo.
Um quadro pintado com seu pai, Irvina e ela. Como uma família antiga. Era sua mãe, retratada ali, linda e jovem. Os cabelos soltos, um sorriso de lado e um vestido branco longo de seda, estava em pé com um porte de rainha. Robert estava logo ao seu lado, em pé e serio como um rei e Charlotte era a filha sentada na cadeira, com um vestido azul e cabelos presos e uns fios rebeldes caídos.
Ficou olhando aquele retrato, ficou se perguntando como poderia ter um quadro daquele ali, era impossível, mas ao mesmo tempo ela queria entrar no quadro e ficar ali ao lado da mãe. Era tão linda. Tinha fome de vida em seus olhos, era livre, amava a magia.
– Não foi muito fácil fazer esse quadro. – uma voz apareceu ao seu lado. Ela sabia quem era, sabia que ele estaria ali pronto para ir ao seu encontro e ela também sabia que aquele quadro era a única coisa que ele tinha para dizer que era sua família.
Charlotte apena se virou e abraçou Robert, enterrando o rosto no peito do pai e sentindo o cheiro que ele sempre teve. Hortelã e shampoo. Ela não queria chorar, queria mostrar para ele que foi forte todos esses séculos, que morreu e viveu para retornar para sua família. Agora que tudo voltava para sua cabeça, ela percebeu que sentia falta do pai.
– Pai... – ela murmurou — Eu lembro papai, eu lembro de você.
Robert apertou ainda mais a menina, ele sentia-se tão completo por Charlotte ter voltado. Se afastou para olhar sua filha, ver como estava. Ela estava com os olhos com lagrimas tímidas querendo sair, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo que deixava uns fios fora do lugar. Robert não ficou feliz em ver a aparência da filha, estava com olheiras e pálida demais, parecia doente.
Charlotte olhou pro quadro novamente, parecia que Irvina olhava os dois e sorria aliviada.
– Inês retratou para mim antes de sumir no mundo. – ele disse. – Foi a única que conhecia sua mãe e você tão perfeitamente como eu.
– Ela era linda. – Charlotte disse baixo.
– Vamos, quero que você veja como esta nossa casa. – ele esticou a mão para pegar a dela — Você precisa trocar de roupas, você é uma dama.
– Século XXI, pai. – ela disse baixo.
A casa continuava muito grande e ela nunca soube o porquê de se morar no local como aquele. Mas vendo tudo, viu que todos os cômodos tinham alguém trabalhando. Eles entraram na sala de estar principal. Lá estava os três irmãos adotivos e mais algumas pessoas, Theo sorriu para ela e virou sua atenção para o livro novamente. Ben estava olhando a janela, de mãos para trás, em pé e Peter estava conversando com um homem loiro.
– Mestre – disse o homem loiro.
Robert disse para Charlotte sentar-se e ela sentou ao lado de Theodore, que largou o livro e se ajeitou para que ela ficasse confortável.
– Vejo que todos aqui, repararam que a futura rainha deste império de vampiros voltou a sua casa. Charlotte, minha filha, irá ficar aqui para tomar conta deste continente enquanto estarei na América por um tempo. Obviamente que, irei treina-la com a ajuda de vocês, meus fieis companheiros e com a ajuda de meus três filhos. Sei que as coisas estão acontecendo muito rápido, mas creio que os que estão comigo em longo prazo, estão cientes do que anda rondando meu reino, meu império. – Robert falou olhando para cada um ali. Charlotte pensou que iria ao menos ficar um pouco mais com o pai, queria saber o que ele tinha feito em todos esses anos, mas ao que parece, ela era só apenas o soldado que faltava no seu exercito.
Robert não queria envolver a filha nas batalhas que se seguiam desde que ela morreu. Ele queria coloca-la longe de todos e tudo que fosse a machucar, mas não podia. Ela era o motivo da guerra em questão. Desde o seu nascimento até hoje, Charlotte era caçada por vampiros, bruxas e qualquer ser sobrenatural, todos sabiam do seu poder e todos temiam que a menina fosse a ruina de todos. Ele precisava deixar claro que com a volta de Charlotte, ninguém poderia ficar sabendo até ela estar pronta.
– Peço que a volta de minha filha fique em silêncio. – ele disse e olhou para ela – Para sua própria segurança. Theodore, Benjamin e Peter... Grudem nela quando eu não estiver.
Charlotte se mexeu no sofá incomodada demais com aquilo. Quem ele pensa que é? Sentiu um fogo correndo pelas suas veias, ela não ter baba.
– Meu quarto ainda é o mesmo? – ela disse controlando a voz.
– Sim, Charlotte. – Robert disse.
Ela se levantou e foi em direção as escadas.
– Charlotte? – o pai a chamou. Ela fechou os olhos, e virou-se, ela sabia que ele estava repreendendo- a.
– Desculpa à todos. Como sabem, estou em transição e preciso descansar. Com licença. – e saiu.
Peter riu e se calou quando Robert olhou serio para ele.
– Ela é igual a mãe.
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Charlotte estava no seu antigo/novo quarto, estava tudo mudado. As paredes estavam num tom de creme, a cama de casal, guarda roupa e a janela enorme tinha uma cortina de tom vermelho. Foi até o guarda-roupa, tinha vestidos e saias.
– Mil anos passam e ele continua o mesmo. – ela disse pra si própria.
Olhou tudo e o quarto estava vazio. Como se todas as suas coisas tivessem sido jogadas fora. Sentou-se na cama e respirou. Olhou em volta e pensou no quadro lá de baixo, ela queria que a sua mãe retornasse também como ela retornou. Queria ver o sorriso dela e correr pelo pequeno bosque ao redor e fazer magia com ela, queria ter sua mãe de volta.
Pensou como queria seus pai humanos de volta também. Que merda era a vida, que inferno. De uma bêbada e fotografa para Rainha Vampira. Foi até o banheiro, tomou banho e vestiu um dos vestidos de seda que tinha no guarda-roupa. Percebeu que tinha um espelho , tirou o lençol que o cobria e se viu nele.
Era o mesmo vestido que Irvina foi retratada no quadro. Charlotte soltou os cabelos, respirou e fechou os olhos.
As palavras saíram como se já estivessem na ponta da língua há muito tempo.
– Invocatis mortis. Eu sei que você está aqui, mãe.
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