Notas iniciais
Ethan está mais confuso que nunca depois de tantos acontecimentos inexplicáveis. Uma pista o leva mais perto de descobrir o paradeiro da pedra vermelha. A noite na floresta traz consigo uma revelação.

A noite se fechava à sua volta. Sua intuição de lobo seguia cautelosamente o caminho indicado. Os objetos estavam dispostos bem diante dele, esperando para serem escolhidos. Dotado de segurança e convicção, o jovem lobo sabia exatamente o que fazer. Ele estudou cada gesto com precisão. Não podia cometer nenhum erro sequer, por menor que fosse, ou isso custaria a sua vida. Ele sabia que o fim estava perto. Subitamente, a escuridão o envolveu por completo. Não conseguia visualizar mais nada além de dois pontos cor de sangue ao longe, submersos em meio à negritude. Tudo aconteceu muito rápido diante dos seus olhos. Ele não teve tempo suficiente para pensar ou reagir. Em questão de segundos, num salto de fúria e impiedade, um lobo negro emergiu das sombras, rosnando ferozmente, os olhos vermelhos e comprimidos, como se guardassem — naquelas duas minúsculas esferas — toda a raiva do mundo.


Ethan despertou, sobressaltado. Olhou o relógio no criado-mudo. Quatro horas da tarde. Ele havia caído no sono, outra vez. Ultimamente, estava dormindo muito pouco durante a noite. Sua rotina de lobo não lhe permitia o contrário. Seus cochilos vespertinos eram a única maneira de compensar o sono acumulado. Os detalhes do pesadelo invadiram de forma súbita os seus pensamentos. Ele acabara de ter o sonho mais aterrador e enigmático de sua vida. Por mais que se esforçasse, não conseguia compreender o significado escondido por trás de toda aquela simbologia. Alguns elementos tinham presença constante em seus sonhos: a noite úmida e nebulosa, a pretidão em volta, a alcateia, o lobo negro... Mas outros eram completamente novos. Ethan fixou a mente naqueles objetos à sua frente. Não conseguia distingui-los. Era como se sua visão estivesse um tanto embaçada, impedindo-o de enxergar com clareza. Não saberia dizer a natureza, o formato ou até mesmo a quantidade dos itens. Mas ele sabia que estavam ali, e que seriam usados para uma finalidade nobre. O garoto surpreendeu-se com a confiança que se apoderava dele no sonho, a firmeza dos seus passos e gestos. Era como se seguisse um procedimento.


Havia dias que não ia ao colégio. Sua mente estava mais perturbada do que nunca, e era difícil para ele processar tantos acontecimentos bizarros. Depois daquele dia em que Bridgit descobriu os ferimentos em seu corpo, Ethan percebeu que faltava pouco para alguém mais suspeitar, e por isso decidiu não ir mais às aulas, até que toda essa confusão terminasse. No começo, havia milhares de chamadas perdidas de Bridgit em seu celular. Porém, com o tempo, ela deixou de procurá-lo. Ethan retornou as ligações várias vezes, mas ela não atendia. O garoto se sentiu péssimo por desapontar a amiga, se é que ainda podia chamá-la assim. A amizade entre os dois havia esfriado bruscamente. Ele daria qualquer coisa para recuperar a confiança dela.


As feridas em seu corpo haviam cicatrizado mais rápido do que esperava. Talvez o DNA de lobo tenha dado uma ajudinha. Em poucos dias, o sangramento havia estancado, e os cortes profundos, sarados completamente. Só restavam alguns ematomas, uns poucos locais de vermelhidão e duas ou três cicatrizes imperceptíveis. Ethan ficou surpreso com essa super capacidade de recuperação.


Súbita e inesperadamente, alguém começou a golpear a porta da rua. O garoto pulou da cama. Olhou pela janela do quarto, mas não conseguiu reconhecer quem era. Não esperava visitas. Seu pai só chegava tarde da noite, e além do mais, ele tinha as chaves. Os golpes se tornavam cada vez mais fortes. Ethan esgueirou-se escada abaixo, respirou fundo e abriu a porta. Um cara alto, musculoso e ligeiramente calvo se estendia à sua frente. Usava jeans, uma camiseta regata e tinha uma barba irregular, meio grisalha. Ethan nunca havia visto aquele homem em toda sua vida.


"Cadê o Joe?" — berrou o homem, bruscamente.


O garoto congelou. Ele não conseguiu dizer nenhuma palavra. O cara agarrou-o pela gola da camisa e cuspiu de forma áspera:


"Ficou mudo, garoto? Eu fiz uma pergunta!" — seus olhos transmitiam uma fúria imensurável.


Ethan tomou fôlego e finalmente conseguiu falar:


"Ele não tá em casa." — declarou firmemente.


O homem avançou para dentro da casa e começou a procurar por todos os lados.


"Você acha que eu sou idiota?" — bradou rispidamente. — "Pensam que podem me enganar? Você é igualzinho a ele, mentiroso, enganador..." — ele se movia freneticamente de um lado a outro.


"Cadê o Joe?" — ele voltou a perguntar, o grito estridente. — "Aquele desgraçado... ele não tinha o direito de mexer nas minhas mercadorias! Eu sou um cara honesto, não tenho nada a esconder." — ele esbravejou, batendo no peito.


Ethan já estava ficando apreensivo. "Eu já disse que ele não tá em casa!" — exclamou o garoto, a voz firme e inabalável.


O homem percebeu que o menino estava falando a verdade.


"Quando aquele traidor voltar, diz pra ele que o Mike esteve aqui."


Em segundos, o cara avançou para fora da casa, batendo a porta com um gesto grosseiro. Pela janela da sala, Ethan observou-o se afastar em uma caminhonete. Não bastavam os problemas que suportava, agora tinha que aguentar os problemas do pai nas costas. Devia ser mais um desses casos policiais em que o pai vivia metido. Naquele instante, a única coisa que precisava era de um banho quente para afogar as preocupações.


Ele subiu as escadas, foi para seu quarto e se jogou no chuveiro. A sensação da água quente escorrendo pela sua pele era inigualável. Ele desejou que aquele momento durasse para sempre. Ali era um lugar seguro, onde nada nem ninguém lhe podia fazer dano. Ao sair do banho, ele sacudiu o cabelo com as mãos, amarrou a toalha ao redor do quadril e foi até o guarda-roupa buscar algo para vestir.


Ele abriu uma das gavetas e começou a revirar por dentro. De repente, suas mãos encontraram um objeto de couro, escondido em meio às suas roupas. Ele puxou para ver o que era. Uma carteira, que não lhe pertencia. Dentro dela, havia um ingresso antigo para o jogo dos Mets, um clips de papel, um chiclete e algumas notas de dez. Havia também uma carta de habilitação. Ethan puxou-a cuidadosamente, ansioso para descobrir a identidade do dono da carteira. Jeffrey Collins.


Ethan ficou paralisado por alguns segundos. Seu rosto transmitia uma expressão de incredulidade. Ele começou a interligar os fatos. No dia em que a pedra rubi desapareceu, alguém havia entrado em seu quarto e revirado suas coisas. E esse alguém era o Jeffrey. Ele havia deixado cair sua carteira enquanto procurava a pedra.


Ethan não podia acreditar que um de seus grandes amigos havia traído ele dessa forma. Ele se perguntou se o Jeffrey sabia de toda a verdade. "Por quanto tempo ele tem me seguido?", indagou a si mesmo. Agora ele sabia com quem estava a pedra rubi. Precisava recuperá-la urgentemente. Ele se lembrou que seu amigo tinha aula à tarde no colégio. Era a oportunidade perfeita para confrontá-lo. Ethan vestiu-se apresuradamente e saiu de casa.


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No pátio da escola, ele ficou esperando Jeffrey aparecer. Escondeu-se entre os arbustos, para que ninguém o visse. A aula estava demorando mais do que o esperado. Ethan já estava ficando impaciente. Quando finalmente seu amigo apareceu, ele esperou que se aproximasse e saltou em sua frente.


"Hey, cara! Você sumiu! O que aconteceu?" — indagou Jeff, preocupado.


"Não se faça de inocente. Como você pôde fazer isso comigo?" — perguntou Ethan, indignado.


"Do que você tá falando?" — ele estava começando a ficar perplexo.


"Isso te lembra alguma coisa?" — Ethan puxou a carteira do bolso.


"Minha carteira, cara... eu tava louco procurando!" — exclamou Jeffrey, agarrando o objeto. — "Onde você achou?"


O jovem lobo estava ficando irritado. Ele agarrou o amigo pela gola da camisa.


"Onde tá a pedra? Hã? Onde você escondeu ela?" — indagou Ethan, tão alto que quase gritava.


"Não sei de que pedra você tá falando, cara!" — retrucou Jeff, apreensivo.


Quando outros alunos começaram a direcionar a atenção para eles, Ethan se afastou e foi embora, deixando o amigo alarmado e cheio de indagações.


Ao chegar em casa, ele tentou colocar as ideias no lugar. Estava muito irrequieto. Trancado em seu quarto, tudo parecia girar à sua volta. Sentiu uma forte tontura e não conseguia evitar a sensação de náusea. Seu estômago revirava por dentro. Ethan percebeu que toda essa confusão estava afastando-o de seus amigos, arrancando-os um a um de sua vida. Ele não podia permitir que isso acontecesse. Sentia falta de Bridgit, de seus risos, suas histórias, suas piadas internas... Precisava reavivar essa amizade.


Já estava escurecendo. Foi então que ele teve uma grande ideia, algo que lhe custava muito, mas que era necessário. Ele agarrou o celular e enviou uma mensagem a Bridgit. "Tenho que te mostrar uma coisa. Hoje, à meia-noite, na floresta."


Ele estava mais decidido do que nunca. Contaria toda a verdade a Bridgit. Não conseguia mais suportar tanta dor. Queria que a amiga presenciasse sua transformação, assim tudo seria esclarecido de uma vez. Ele se perguntou se ela realmente viria. Talvez ela não recebesse a mensagem, ou talvez estivesse com tanta raiva que não queria vê-lo nem pintado de ouro. Era uma dúvida que lhe afligia. Porém, àquela altura, só lhe restava esperar.


Alguns minutos antes da meia-noite, ele saiu de casa e adentrou a escuridão da floresta. A brisa gelada o acalmava. Ele sentiu seus músculos relaxarem e toda a tensão se esvaneceu. O jovem lobo caminhou lentamente entre as folhagens, esperando o momento da metamorfose. A hora se acercava e nem sinal de Bridgit. Ethan sentiu-se abatido. Queria muito que a amiga estivesse ali. Já estava na hora de ela saber toda a verdade. Não suportaria esperar nem mais um dia.


De repente, ele começou a sentir as mudanças no seu corpo. A transformação estava ocorrendo. Pelos surgiam ao seu redor, seus membros eram substituídos por suas patas... Nesse instante, ele ouviu um farfalhar das árvores. Alguém se aproximava. Ao olhar para trás, ele não acreditou no que viu. Bridgit estava ali, a alguns metros de distância, encarando-o com uma expressão aterrorizada no rosto. Mas ela não estava sozinha. Isobel encarava-o com a mesma expressão de assombro. Ambas exalavam temor e incredulidade. Naquele momento, Ethan sentiu-se completamente exposto. Não esperava que as coisas acontecessem daquela forma. As duas amigas ainda o encaravam firmemente. Ele teria muito que explicar. Finalmente seu segredo foi revelado.