Notas iniciais
Depois de buscas incessantes, e contando com o apoio de suas amigas, Ethan consegue desvendar parte dos mistérios. Revelações simultâneas o ajudam a chegar mais perto da verdade.

'Dizer a verdade é uma coisa dolorosa. Ser forçado a dizer mentiras é muito pior.' "As palavras sábias de Oscar Wilde parecem se encaixar perfeitamente na minha condição deplorável. A verdade pode ser aterradora, pode provocar feridas ou agravar as que já existem. Pode afastar aqueles que você ama e enfraquecer os vínculos mais fortes. Mas a mentira é mais sorrateira. Não se contenta com as feridas, ela abre chagas mais profundas, ela corroe por dentro, nunca está satisfeita... Ela rompe os laços mais íntimos, muitos dos quais são impossíveis de ser refeitos. Ela é sufocante, e quando você se dá conta, está agonizando, implorando por um pouco de ar. Essa é uma das coisas que eu tenho aprendido ultimamente. Não sei explicar o que senti quando mostrei a verdade a Bridgit e Isobel. Talvez fosse alívio, talvez inquietude, ou um pouco dos dois. Quando vi as duas ali, diante de mim, senti uma onda de impotência e constrangimento. Não sabia exatamente o que fazer. Segui o impulso mais forte e comecei a me afastar. A última coisa que eu queria naquele momento era assustá-las. Me pus a correr através dos pinheiros, a terra fria e úmida sob minhas patas, a respiração pesada, a escuridão da noite me envolvendo. Depois disso, não as vi mais. Me senti profundamente constrangido por ter escondido a verdade durante tanto tempo. O primeiro sinal do amanhecer veio como uma chuva de conforto para mim. Deitado no chão gelado e macio, me dei conta de que já era dia quando os raios dourados do sol atingiram o meu rosto. As tímidas faíscas ofuscavam meus olhos. Estar ali, por sobre o orvalho, era a sensação mais acolhedora. Poderia passar o resto do dia deitado ali, com os pensamentos em off, sem me preocupar com tudo que havia acontecido ou com o que ainda estava por vir. Mas eu tinha que me levantar. Já devia ser umas seis da manhã. Precisava chamar Bridgit e Isobel e aclarar as coisas. Não conseguia pensar em nada mais. Tinha que explicar tudo a elas o quanto antes”.

Ele se levantou. Sua regata branca e seu jeans desbotado estavam todos sujos de terra. Antes de mais nada, precisava de um banho. Ele subiu e se jogou no chuveiro, a água quente, mais uma vez, acalmando seu corpo. Vestiu um jeans azul escuro mais confortável e uma camiseta cinza de manga longa. Sentou-se na beirada da cama e começou a enviar mensagens para as duas amigas, quase freneticamente. Depois de alguns minutos, e sem obter resposta, Ethan telefonou para cada uma delas, mas nenhuma atendeu. “Talvez ainda estejam dormindo”, ele pensou. “Ou talvez não queiram falar comigo”.

Quando finalmente conseguiu entrar em contato, depois de várias tentativas e chamadas perdidas, já passava de meio-dia. Demorou muito até que elas chegassem. Ethan já estava ficando impaciente. Ele desceu e ficou sentado no degrau da varanda, esperando, enquanto acariciava o pelo de Sam, que estava dormindo. As duas chegaram juntas. O olhar de Ethan ficou paralisado quando as viu. Elas ainda estavam hesitantes em aproximar-se. Bridgit usava um vestido curto e florido, uma jaqueta jeans e duas botinhas de couro. Seu olhar estava vago e distante. Isobel, como sempre, com seu estilo despojado, vestia uma calça de moletom cinza, uma camiseta branca com algo estampado nela e um par de tênis. Usava os cabelos presos em um rabo-de-cavalo. Ela olhou fixamente nos olhos do amigo. Ainda estava perplexa. Elas não disseram uma palavra sequer. Ethan teve que tomar coragem para falar. Ele respirou fundo e disse:

“Preciso explicar o que aconteceu ontem à noite.”

Foi difícil convencê-las a entrar e escutar o que ele tinha a dizer. Bridgit estava quase indo embora. Por dentro, ela sentia uma angústia muito forte. Estava confusa. Mas Isobel a convenceu de ficar.

“Eu vou explicar tudo pra vocês”, declarou Ethan. “Precisamos subir.”

As duas entraram na casa do amigo e subiram para o seu quarto. A primeira a falar foi Isobel:

“E então... você vai contar toda a verdade ou vai continuar mentindo pra a gente?”, indagou ela, com um ar desafiador.

“Eu sinto muito”, respondeu Ethan. “Sinto muito por ter mentido... Eu só... eu não queria envolver vocês nisso.”

Demorou alguns segundos até que Isobel respondesse. Bridgit permanecia calada.

“Eu não sei explicar exatamente o que vi na noite passada, mas eu sei que foi real. E eu mal posso acreditar!”, exclamou ela, atônita. Depois de uma pausa, ela respirou fundo e continuou: “Como isso foi acontecer?” Seus olhos estavam alvoroçados, saltando de um lado a outro, como se buscassem uma resposta imediata. Ela estava mais apreensiva do que nunca.

Finalmente, ele contou tudo. Ou melhor, quase tudo. Contou sobre a noite na floresta, quando tudo começou. Disse que estava procurando Sam, e foi então que deparou-se com uma clareira. Era noite de lua cheia. O luar estava tão intenso que ofuscou seus olhos. Contou sobre o forte impacto que sentiu. E então a metamorfose. Mas omitiu o encontro com o lobo negro e a luta fatal entre eles, e não contou nada sobre a pedra vermelha. Não queria deixá-las mais assustadas do que já estavam.

O silêncio preencheu o ar. Isobel ficou muda por alguns segundos. Bridgit permaneceu sem dizer uma palavra. Ambas tinham uma expressão indescritível no rosto, uma mistura de preocupação e assombro. Era muito para assimilar. Ethan não sabia mais o que dizer. Seu coração estava batendo a mil por hora. Mais uma vez, Isobel tomou coragem e quebrou o silêncio. Ela olhou profundamente nos olhos do amigo:

“Ethan... seja lá o que tenha acontecido, nós vamos descobrir isso juntos. Todos nós. Não vamos deixar você sozinho nessa”, garantiu ela, com firmeza no olhar. “Por mais bizarro e louco que isso tudo seja, tem que haver uma boa explicação, e nós vamos encontrar.”

O jovem lobo se sentiu grato pelo apoio da amiga. Mas, ao mesmo tempo, sentiu um calafrio ao pensar que poderia estar colocando em risco a vida das duas.

“Sem dúvida alguma, deve ter informação sobre isso na internet. Alguma história, uma lenda, qualquer coisa...”, declarou Isobel, confiante. Ela avançou em direção à pequena mesa de estudos, sentou-se e começou a usar o computador do amigo.

“Boa sorte com isso!”, exclamou o garoto. “Eu já busquei um milhão de vezes e a única coisa que encontrei foram lendas gregas ou romanas, algo do tipo, de milhares de anos atrás, que não significam nada. Pra falar a verdade, nada disso faz sentido pra mim!”

Bridgit lançou um olhar de reprovação para Ethan. “Você já viu essa garota usando a internet antes?”, perguntou sua melhor amiga. “Ela poderia hackear o computador do presidente se ela quisesse. Com certeza vamos encontrar algo”, afirmou Bridgit ironicamente, os olhos semicerrados.

“Aquela velha e doce ironia”, pensou o garoto. Ele ficou contente por ouvir a voz de sua amiga outra vez, depois de tanto tempo.

Isobel digitou “lendas homem lobo” no site de busca. Clicou no segundo link e começou a ler, nada diferente do que Ethan já havia lido antes.

“O homem lobo, também conhecido como licantropo, é uma criatura lendária presente em diversas culturas em todo o mundo. Alguns atribuem sua origem à mitologia grega, e outros dizem que nasceu na Itália, no berço da civilização romana. Suas habilidades mais notáveis são a força, a rapidez, os bons reflexos, os sentidos aguçados, a astúcia e a ferocidade. Essas características o transformavam em uma das criaturas mais temidas nos vilarejos europeus durante a Idade Média, mais precisamente nos séculos XIV e XV, levando a população a praticar verdadeiros extermínios para extirpar a ameaça de suas terras. Segundo a lenda, o homem lobo pode permanecer na sua forma animal durante algumas poucas horas, geralmente nas noites de lua cheia. Alguns sofrem metamorfose involuntária, mudando de forma durante a noite e reassumindo sua aparência humana à primeira luz do dia. Outros possuem a habilidade de transformar-se voluntariamente, transmutando-se em lobos a qualquer momento.”

“Viu só?”, indagou Ethan. “Isso não faz sentido. É como se metade da história não se encaixasse na minha situação. Aí diz que eles se transformam nas noites de lua cheia, mas comigo é diferente. Eu mudo de forma todos os dias, exatamente à meia-noite. Minha transformação é involuntária, é algo que eu não consigo controlar. Mas, pra ser sincero, eu acho muito difícil poder mudar de forma a qualquer hora, eu diria até que é impossível. E outra coisa, na maioria dos textos que eu li eles se referem a essas criaturas como lobisomens. E claramente se nota que não é o meu caso. Quer dizer, eu não sou um lobisomem. Como viram, eu me transformo totalmente em lobo. E eu poderia enumerar mais uma dezena de brechas que encontrei e que me fazem acreditar que tudo isso é incoerente.”

As duas garotas refletiram por alguns segundos.

“É... tem razão”, assentiu Isobel. “Mas acho que se a gente procurar melhor e se ater mais aos detalhes, vamos conseguir encontrar uma conexão entre os fatos”, garantiu ela, confiante.

Depois de milhares de buscas, eles ainda não haviam encontrado nenhuma informação relevante. Estavam todos sentados, absortos na tela do computador. Isobel lia cada texto com muita ênfase, na esperança de descobrir, em meio aos detalhes, algo revelador. Agora estava lendo alguma coisa sobre os lobos da Suécia, algo que, para Ethan, parecia totalmente fora de contexto. Ele já estava ficando entediado.

“Na Suécia, os homens-lobo, também chamados Varulv, pertenciam à linhagem mais pura de sua espécie. Seu rito de sucessão se realizava na última lua cheia do ano, a cada vinte anos. O lobo 'gammal', ou ancião, passava o seu reinado ao 'ung lärling', que quer dizer 'jovem aprendiz', um filho legítimo do Gammal. Durante o ritual, o jovem lobo só poderia suceder ao ancião se conseguisse decifrar os códigos diante dele, como uma espécie de quebra-cabeças. Do contrário, estaria condenado a esperar por mais duas décadas até o próximo ritual. A cerimônia consistia em depositar quatro objetos simbólicos sobre os quatro pilares correspondentes, sempre interpretando o código para não cometer nenhum erro."

Subitamente, Ethan começou a se identificar com aquela passagem. Tinha a impressão de que já havia escutado ou visto aquilo antes, em algum lugar, não sabia onde. Ele se esforçou ao máximo para lembrar, tentando puxar a informação do canto mais profundo de sua consciência. De repente, se lembrou do seu sonho, aquele em que parecia realizar algum procedimento, com toda a cautela do mundo, como se disso dependesse a sua vida. Era tudo exatamente igual! Os objetos que precisava escolher, os pilares… O garoto ficou assustado com a semelhança.

Ele começou a refletir profundamente, tentando encontrar uma conexão maior entre seu sonho e a história que acabara de ouvir. Isobel continuava lendo.

“A natureza de três dos quatro objetos ainda é desconhecida. O objeto mais importante, e também o mais cobiçado entre os homens-lobo, é a chamada ‘röd sten’, que quer dizer ‘pedra vermelha’. É uma espécie de ‘caixa de Pandora’. Ela absorve e armazena a força vital da floresta, resguardando em seu interior a essência de todos os animais selvagens. O seu brilho característico se deve ao…”

Nesse momento, Isobel foi interrompida por Ethan.

“Espera um pouco…”, pediu o garoto, os olhos bem atentos, o coração palpitando. “O que foi que você disse algumas linhas antes? Sobre uma pedra…”

“O objeto mais cobiçado, a pedra vermelha”, repetiu Isobel.

“Não pode ser!”, exclamou o jovem lobo.

Ele não podia acreditar. Acabara de ouvir as respostas para muitas das perguntas que tinham confundido sua mente nos últimos dias. Era como uma grande revelação. Ethan estava boquiaberto. Não conseguia colocar os pensamentos no lugar, estava tudo alvoroçado. Ainda era difícil acreditar que aquela história se referia à pedra vermelha, a que o garoto havia segurado em suas mãos, e cujo brilho intenso lhe transmitiu uma sensação indescritível. Não podia entender qual era a relação entre uma lenda sueca e a sua própria realidade, e a parte do ritual de sucessão ainda não fazia sentido algum para ele.

“O que há de errado? Você já viu essa pedra antes?”, indagou Bridgit. Ela percebeu que o amigo estava escondendo algo. “Ethan, fica difícil te ajudar quando você não está nos contando tudo.”

O garoto se sentiu constrangido por não contar toda a verdade. Ele decidiu então abrir o jogo. Contou sobre a pedra rubi que encontrara na floresta, que a havia deixado em seu quarto e que depois ela havia sumido. Contou também sobre o lobo negro e seu ataque feroz e inesperado, sua fúria inigualável e os ferimentos terríveis que deixara no corpo de Ethan. Confessou que, para ele, existia alguma relação entre o desaparecimento da pedra e o lobo que o atacara. Como se fosse algum tipo de vingança por ele ter encontrado uma relíquia tão preciosa.

Bridgit e Isobel ficaram estarrecidas com tudo que havia sucedido. Foi então que elas entenderam a gravidade do caso. Ethan se deu conta de que havia muito mais coisas ocultas que eles precisavam compreender.

“Então aqueles ferimentos, aqueles cortes horríveis no seu corpo… agora tudo faz sentido”, afirmou Bridgit, aterrorizada. Seus olhos estavam mais vivos que nunca, e seu rosto exalava temor.

“Eu sinto muito por não ter contado a verdade antes. Tinha medo de envolver vocês nessa história”, declarou Ethan. Ele deu uma pequena pausa e depois continuou: “Tem algo muito estranho acontecendo, e precisamos descobrir mais detalhes.”

Ele reparou na página onde o texto estava publicado. Era um site que ele nunca havia visto antes. Eles começaram a vasculhar tudo em busca de mais informações. Era como uma espécie de blog ou comunidade. No topo da página, aparecia um emblema. Havia um fórum com vários comentários, e no canto superior direito, uma lista de integrantes, com suas fotos de perfil.

“Quer dizer então que existem mais pessoas que sabem sobre isso além de nós?”, indagou Bridgit, atônita.

“Tenho a estranha sensação de que isso não é nada bom”, afirmou o garoto.

Isobel deslizou por todo o fórum, esperando encontrar algo relevante. Eles se depararam com uma exibição de fotos que um dos integrantes havia publicado. Fotos de dezenas de homens-lobo, de todo tipo de pelagem e estatura, sozinhos ou em alcateias. De repente, apareceu uma foto de um lobo de pelo escuro, dentes muito afiados e olhos cor de sangue, imerso na escuridão da noite. Nesse instante, Ethan sentiu um arrepio percorrer toda a sua espinha.

“É ele!”, exclamou o garoto. “O lobo negro”, ele engoliu em seco.

As duas garotas estremeceram. Elas observavam a foto com muita atenção.

“Então esse é o lobo que te atacou?”, perguntou Isobel.

Ethan assentiu. Aquele era o momento ideal para contar a elas sobre sua suspeita de quem poderia ser o lobo negro. Ele ainda não havia tocado nesse ponto.

“Alguns dias depois do sumiço da pedra, eu encontrei uma carteira na minha gaveta. Dentro dela havia uma carta de habilitação. E adivinha de quem era? Jeffrey Collins.”

Isobel e Bridgit escutavam, incrédulas.

“Você acha que o Jeffrey tem alguma coisa a ver com isso?”, Bridgit estava intrigada.

“Eu tenho quase certeza. Se não, como é que a carteira dele teria vindo parar aqui? Pra falar a verdade, as minhas suspeitas vão muito além disso. Eu não acho que ele está só envolvido”, Ethan deu uma pausa antes de continuar: “Eu acho que ele é o lobo negro.”

As duas garotas prenderam a respiração. Estavam aterrorizadas.

“Se você realmente estiver certo, precisamos falar com ele, agora mesmo”, declarou Isobel.

Os três concordaram e saíram para confrontar Jeffrey. Ethan estava irrequieto. Tinha a impressão de que havia muitos mistérios ocultos, muita coisa fora de seu alcance, e tinha medo do que poderia suceder quando descobrisse.