Notas iniciais
Outro acontecimento mórbido assombra a cidade de Fort Woods. Isobel, Bridgit e Ethan se esforçam para encontrar uma ligação entre os fatos e impedir as atrocidades. Eles recorrem a um desconhecido que parece guardar muitos segredos.

O lugar estava vazio. A brisa gélida soprava por entre as árvores. O Volvo preto estacionou lentamente. O garoto desceu do carro. Precisava abastecer. Ele ficou parado, quase imóvel, enquanto a bomba de gasolina enchia o tanque. Ao longe, ouviu-se um rosnar, quase imperceptível. O garoto virou a cabeça, sobressaltado. Olhou ao redor, mas não encontrou nada. O rosnado ficou mais intenso, o som rouco e pesado preenchendo o ar. O jovem rapaz virou-se outra vez, alarmado. Sua respiração estava pesada, e seus olhos, petrificados, como se detectassem um perigo iminente. O grunhido feroz ressonava em seus ouvidos. Ele ouviu passos fortes e logo um arfar. Virou-se para trás subitamente, na tentativa de defender-se. Mas já era tarde demais. Em questão de segundos, a fera o atacou, impiedosamente, revelando as garras afiadas. O garoto caiu no chão, a roupa rasgada, o sangue brilhante escorrendo. Ele não teve tempo de gritar. O único som que se ouvia era o rugido impetuoso e o farfalhar das árvores, enquanto o animal desaparecia na escuridão da floresta.

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Ethan estava pronto para sair. O banho gelado havia tirado toda a carga da noite passada. Bruce não queria deixá-los ir. Estava determinado a fazer qualquer coisa para descobrir a verdade sobre a morte da namorada. Sua obsessão era tremenda. Estava tomado por uma fúria sem medidas. Ele só os deixou ir quando Ethan prometeu que contaria tudo que acontecera naquela noite. Agora, o jovem lobo começava a se arrepender da promessa que havia feito. Não queria envolver mais pessoas nessa história. Já bastava Bridgit e Isobel. E além do mais, Bruce era impetuoso, estava obcecado com a ideia de matar o assassino de Stacy, e qualquer ação precipitada poderia colocar a vida de todos em risco.

O garoto não conseguia parar de pensar naquele garçom e nos segredos que ele poderia estar escondendo. A tatuagem no braço dele era idêntica ao emblema na página da internet. Ethan se lembrava muito bem. Ele estava convencido de que o garçom tinha algum envolvimento com aquela comunidade. Na noite anterior, o rapaz agira como se não quisesse ser descoberto. Ethan precisava descobrir quem ele era e fazê-lo revelar tudo que sabia sobre os homens-lobo.

Na escola, o clima ainda era de aflição e luto. Fazia pouco mais de vinte e quatro horas que o incidente fatal havia ocorrido. Era muito raro um acontecimento tão soturno como aquele na cidade. A desolação e o medo estavam se espalhando como um vírus na população.

No refeitório, Ethan e suas duas amigas discutiam sobre o estranho fato de não terem conseguido abrir a página da internet na noite anterior. Antes, eles conseguiam acessar normalmente, mas agora, parecia que algo estava bloqueando o acesso. Ou pior, é como se a página nunca tivesse existido.

Subitamente, ao lado de Ethan, alguém bateu a mão com força na mesa e começou a sussurrar no ouvido do garoto.

"É melhor você aparecer no Jack's Burguer hoje à noite", decretou Bruce, apertando a mandíbula. "Vai me explicar tudo que tá acontecendo. Do contrário, acredite em mim, você vai se arrepender", ameaçou. Ele se virou e foi embora.

Os três amigos se olharam, apreensivos.

De repente, outra notícia na Tv.

"Um garoto de dezoito anos foi encontrado morto na noite dessa quinta-feira. Ex-aluno da Escola Secundária Fort Woods, Jay Lawrence foi assassinado enquanto abastecia seu carro por volta das onze e vinte e cinco da noite, num posto de gasolina na rua Berkley. Sua morte ocorreu nas mesmas circunstâncias que o caso anterior, da garota Collins. Em seu corpo havia os quatro cortes profundos no abdômen e o símbolo gravado em sua pele na região do peito."

Uma onda de comoção invadiu o ambiente. Olhos vidrados observavam atentamente o noticiário. O pânico se espalhou pelo refeitório. Ethan podia sentir a tensão no ar. Naquele momento, ele sabia o que se passava na mente de cada um. Aquilo em que todos estavam pensando, mas tinham medo de admitir. Um assassino em série na cidade.

"Eu não acredito que isso tá acontecendo!", exclamou Bridgit, virando-se repentinamente para o amigo. As pupilas da garota estavam dilatadas.

"Os padrões são os mesmos. Tudo se encaixa. O lobo negro voltou a atacar", sussurrou o garoto, os olhos congelados.

"Duas mortes em dois dias seguidos. Ethan, ele não vai parar! Precisamos fazer alguma coisa", Isobel parecia realmente assustada. Ela estremeceu.

No final da manhã, quando as aulas terminaram, Ethan estava andando pelo corredor quando alguém o chamou.

"Senhor Quinn", a voz atrás dele era forte e densa. "Preciso que venha comigo."

Era a senhorita Ramirez, a professora de História. A expressão em seu rosto era de austeridade. Ela o conduziu até a sala da diretora. O jovem lobo engoliu em seco. A última coisa de que precisava era ser detido depois da aula.

"Sinto informar, senhor Quinn, mas você alcançou o limite máximo de faltas do ano", anunciou a senhora Bryant. "Registramos suas constantes ausências durante semanas, e não temos nenhum atestado médico ou qualquer outra justificativa plausível. Nesse caso, o que tem a dizer?"

Ela o encarou fixamente, esperando uma resposta. O garoto olhou de relance para o lado. A professora o observava com os brilhantes olhos castanhos, o olhar ligeiramente provocador. Ethan sentiu um aperto no estomâgo. Não tinha ideia do que falar.

"Eu... ahn...", ele gaguejou. "Acontece que tive alguns problemas familiares nas últimas semanas...", ele deu uma pequena pausa. "Mas eu prometo que não vai se repetir", garantiu.

"É melhor que não se repita, senhor Quinn", a diretora revelou-se inflexível. "Do contrário, serei obrigada a reprová-lo por falta." Ela arquejou, revirando-se na poltrona. "Com tudo que tem acontecido, as tragédias assolando o colégio... Tenho coisas muito mais importantes com que me preocupar", ela parecia abatida. "Mas não pense que vou relevar suas faltas. Isso não vai acontecer. De forma alguma."

Ao voltar para casa, a única coisa que Ethan queria fazer era se trancar em seu quarto. Para ele, ainda era difícil acreditar que outro assassinato havia sido cometido. E por algum motivo ele se sentia culpado pelas duas mortes. Como se a tarefa de encontrar o lobo negro e detê-lo estivesse em suas costas. A responsabilidade era muito maior do que podia suportar.

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À noite ele decidiu ir ao Jack's Burguer. Chamou Isobel e Bridgit. Não estava indo por causa do Bruce. Não tinha medo dele. Só queria estar perto de suas amigas. A presença delas o fazia sentir-se mais forte em meio ao caos que reinava à sua volta. Naquele momento, qualquer coisa seria melhor do que ficar sozinho enfurnado em seu quarto.

Na lanchonete, as meninas o esperavam em uma das mesas do fundo. Estavam todos preocupados com os acontecimentos dos últimos dias. Não conseguiam falar em outra coisa.

"Estava pensando nos padrões...", revelou Isobel. "As duas vítimas eram alunos da Escola Fort Woods. Mas só com esse padrão não podemos saber quem será o próximo. Se tivéssemos mais uma pista...", ela disse, desapontada.

"...poderíamos impedir o próximo ataque", completou Ethan. "Provavelmente ele vai atacar de novo hoje e não temos nem ideia de como evitar", admitiu, sem esperanças.

"E aquele garçom?", sugeriu Bridgit. "Se ele realmente faz parte daquela comunidade, com certeza ele sabe de alguma coisa sobre os homens-lobo e pode nos ajudar com algumas informações."

"Ele não vai falar nada", declarou o garoto. "Vocês viram... eu tentei arrancar alguma coisa dele ontem à noite mas foi inútil."

"Talvez devêssemos insistir um pouco mais...", Bridgit parecia confiante. "Uma hora ele vai falar."

Os três se levantaram e foram até o balcão. O rapaz com o boné estava servindo algumas bebidas. Ethan inclinou-se e falou em voz firme:

"Precisamos falar com você."

O garçom virou-se ligeiramente.

"Eu já disse que não tenho nada pra falar, garoto."

O jovem lobo se apoiou sobre o balcão.

"Você viu o que aconteceu hoje?", sussurrou, a voz ainda pesada e inabalável. "Outro assassinato. E vai continuar acontecendo se a gente não fizer nada!"

O rapaz permaneceu ali, pensativo, hesitante, como se estivesse prestes a dizer algo. Ele olhava fixamente nos olhos do garoto. Segundos depois, alguém na cozinha o chamou. Ele demorou alguns instantes para responder.

"Eu tô indo!", gritou, virando a cabeça levemente para o lado. Ele lançou um último olhar para Ethan e, em seguida, desapareceu.

O garoto jogou as mãos para o alto, em sinal de exasperação.

"Viu só? Não vamos conseguir nada com ele", decretou, virando-se para Bridgit e Isobel.

Nesse instante, Bruce apareceu. "Sabia que você viria, Quinn", ele se aproximou. "Agora pode começar a contar tudo", exigiu.

"Não sabemos de nada, Bruce", afirmou Isobel.

"Você tá mentindo", ele lançou um olhar severo para a garota.

Um dos garçons abriu a porta da cozinha e saiu. Ele chegou mais perto e entregou um pequeno bilhete a Ethan.

"Rua Franklin Hills 3524
Às 22h30"

O garoto ficou confuso. Depois de alguns instantes ele deduziu que o bilhete tinha sido enviado pelo outro garçom. O jovem lobo deveria encontrá-lo naquele endereço e horário. Talvez aquela fosse a chance de fazer com que ele falasse, a chance de descobrir mais verdades.

Bruce arrancou o bilhete da mão de Ethan. “Olha só o que temos aqui.”

Bridgit avançou para recuperar o papel, mas o valentão se esquivou.

“Bruce, por favor, fica fora dessa”, o jovem lobo implorou.

“E por que eu faria isso?”, ele deu de ombros.

Ethan percebeu que o colega não iria voltar atrás, não importava o quanto tentasse.

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Às dez e vinte e oito da noite eles estavam no endereço indicado. Os quatro esperavam em frente a uma casa modesta, nada suntuosa, com uma cerca de madeira que exibia uma pintura inacabada, delimitando um pequeno jardim mal cuidado. Ethan supôs que, àquela altura, o rapaz já havia terminado o seu turno na lanchonete e estava esperando eles chegarem.

A porta se abriu. "Não esperava todos vocês. Pensei que viria sozinho", anunciou o anfitrião, lançando um olhar pesado para o jovem lobo.

Todos pareciam surpresos.

"Só um de vocês entra aqui", declarou, intransigente.

Ethan deu um passo á frente. Isobel segurou seu braço. "Você tem certeza que quer fazer isso?", indagou ela, sussurrando. "Quer dizer... ele pode ser um psicopata, ou pior, ele pode ser o lobo negro... Não sabemos nada sobre esse cara", ela estava inquieta.

"Tá tudo bem", garantiu Ethan. "Eu sei o que estou fazendo. Esperem aqui."

Bruce arfava, impaciente. O jovem lobo avançou e entrou na casa. O rapaz fechou a porta. Ele chegou tão perto do rosto de Ethan que o garoto podia sentir o cheiro forte e nauseante da sua loção pós-barba.

"Tudo que eu disser aqui... fica entre você e eu, entendido?", ele encarava o garoto com um olhar penetrante. "Você não vai contar pra ninguém, nem mesmo pra os seus amiguinhos lá fora", ele apertou a mandíbula.

Ethan sentiu uma forte tensão por todo o seu corpo. "Talvez Isobel tivesse razão", pensou. "Não sabemos nada sobre esse cara". Mas o garoto não iria voltar atrás. Ele estava convencido de que valia a pena o risco. Precisava desmascarar a verdade. Aquele desconhecido era sua única esperança.