Os Mistérios de Ethan Quinn
9 Serial Killer
Notas iniciais
Ele o conduziu por um corredor estreito até o porão. Estava tudo escuro. Quando a luz se acendeu, o garoto pôde enxergar melhor. Havia uma mesa retangular no centro e uma pequena luminária acima dela. Ao redor se estendiam três armários altos de madeira e vidro. O anfitrião começou a tirar de dentro deles algumas caixas pretas e pesadas, depositando-as cuidadosamente em cima da mesa. No interior das caixas, havia objetos envoltos em finos tecidos azul escuro aveludados. Quando os itens foram desembalados, Ethan se assustou com o que viu. Eram armas. De todo tipo. Uma enorme variedade delas.
"O que é isso?", indagou o jovem lobo. Era uma pergunta quase retórica. Ele já sabia a resposta. Só queria entender para que seriam usadas todas aquelas armas.
"Você quer que eu explique ou não?", perguntou rispidamente.
Após dispor os objetos, ele apoiou as duas mãos na mesa, respirou fundo e começou a falar:
"O que exatamente você viu naquela noite?"
Ethan sabia que ele se referia à noite em que Stacy foi morta.
"Eu vi um lobo. Era negro, de olhos vermelhos... ele estava fugindo quando chegamos lá. Foi ele que matou aquela garota. Eu tenho certeza. Ele é o responsável por essas mortes", respondeu o garoto, os olhos eletrizados.
O rapaz permaneceu em silêncio por longos segundos, olhando para baixo. Ele tomou fôlego e continuou:
"Minha tatuagem... onde você a viu?"
Ethan foi pego de surpresa com aquela pergunta.
"Numa página da internet. O emblema que vi era um triângulo dividido em três, com um círculo no meio. Exatamente igual ao símbolo no seu braço", respondeu.
O anfitrião revirava os olhos, como se tentasse organizar os pensamentos em sua mente.
"O que você viu naquela noite... não era um lobo qualquer", revelou, sem tirar os olhos do chão.
Ethan estava ciente disso. Mas preferiu não fazer comentários. Deixaria o rapaz falar tudo que sabia.
"Sei que vai parecer loucura mas... o que matou aqueles dois adolescentes...", ele deu uma pausa de alguns segundos e depois continuou: "...foi um homem-lobo."
O garoto não parecia surpreso. Sua expressão era neutra. Ele se perguntou se o anfitrião havia notado.
"Faz muito tempo que eu sei da existência deles. Eu podia sentir que, em algum momento, depois de todos esses anos, eles voltariam a atacar", confessou, os olhos fixos em algum ponto distante, como se estivesse falando sozinho. "Quando eu era muito jovem, meu pai me contou sobre a existência dessas criaturas. E desde então, esse passou a ser meu trabalho", ele estendeu a mão, apontando para as armas espalhadas sobre a mesa. Em seguida, lançou um olhar fundo e penetrante para Ethan e continuou: "Eu me tornei um caçador de homens-lobo."
O garoto sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
"Mas faz muitos anos que eu não caço mais. Desde que meu pai morreu", ele deu uma pequena pausa para respirar. "Aconteceu dez anos atrás... eu era um adolescente como você. Meu pai foi morto por um homem-lobo. Depois disso eu nunca mais voltei a caçar."
O silêncio reinou por alguns segundos. Ethan tinha uma expressão pensativa no rosto, como se acabasse de recordar algo.
"Agora eu entendo. O último ataque de lobo em Fort Woods... meu pai me disse que havia ocorrido há dez anos", seus olhos estavam atentos e, ao mesmo tempo, alvoroçados.
O rapaz assentiu. "Durante todos esses anos, eles não voltaram a atacar. Mas eu sempre tive o pressentimento de que a saga não havia terminado... que a qualquer momento eles voltariam a derramar sangue... e que, por mais que eu tentasse fugir e me afastar, um dia eu iria precisar dessas armas de novo." Naquele instante, ele parecia vulnerável. Outra vez, seu olhar permaneceu congelado em um ponto longínquo.
"Sabe a página que você viu na internet?", perguntou, erguendo os olhos para Ethan. "Éramos como uma espécie de comunidade. Um grupo de caçadores. Essa era nossa insígnia", revelou, levantando a manga da camisa. A tatuagem estava lá, grande e reluzente. "Cada integrante tatuava o símbolo em seu braço. Era como uma marca de identificação." Ele segurou uma das armas e depois soltou. "Meus antepassados fundaram o grupo. A família Bennette. Éramos líderes. Ao redor se juntavam outras famílias de caçadores. Depois que meu pai se foi, a comunidade se desintegrou. Perdemos força e liderança, e todos os membros se dispersaram", ele olhou diretamente para o jovem lobo. "Excluimos o site da web. A página não existe há dez anos. É impossível que você tivesse acesso a ela."
Ethan franziu a testa. Não podia acreditar no que acabara de ouvir.
Drake deu a volta na mesa e parou na outra ponta. "Os ataques adquiriram novos padrões. Antes costumavam ser esporádicos, aleatórios... mas agora... são mais frequentes. Dois assassinatos em dois dias seguidos... tem alguma coisa errada."
"Estamos tentando encontrar mais padrões em comum entre essas duas mortes. Talvez assim a gente possa impedir que os próximos ataques aconteçam", ele estava ofegante. "Provavelmente alguém vai morrer hoje... estou cansado de não poder fazer nada", anunciou Ethan, a respiração pesada.
Drake o olhava atentamente. Depois de quase um minuto em silêncio, ele finalmente disse: "Uma coisa que aprendi nos meus tempos de caçador é que cada um de nós tem um dever a cumprir. Não importa o quanto a gente lute ou tente resistir, o peso do dever sempre cai sobre as nossas costas." Ele ergueu os olhos para Ethan. "De agora em diante, sempre que precisar, pode contar comigo", asegurou Drake.
Ele tirou um pedaço de papel e uma caneta do bolso da bermuda e começou a escrever. "Esse é meu número", disse, entregando o papel ao garoto. "Como pode ver, tenho todos os instrumentos necessários a minha disposição", afirmou, apontando para os armamentos na mesa.
Eles subiram as escadas do porão, atravessaram o corredor e pararam na porta da frente.
"Qual é seu nome, garoto?", indagou Drake.
O jovem lobo virou a cabeça ligeiramente. "Ethan", respondeu.
Enquanto abria a porta, o anfitrião lançou um último e profundo olhar na direção do garoto, que saiu apressado.
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No dia seguinte, pela manhã, Ethan despertou com uma forte dor de cabeça. Após uma ducha gelada, a pressão começou a aliviar. A noite anterior havia sido conturbada, como todas as outras ultimamente. Depois da conversa profunda e reveladora que tivera com Drake, o garoto quase não conseguia voltar para casa. Seus amigos insistiram para que ele contasse tudo que havia descoberto. O jovem lobo tentara desconversar. Como o ex-caçador havia pedido, ou melhor, exigido, o garoto não podia revelar a ninguém o conteúdo da conversa entre eles. Foi quase como uma ameaça. Ethan preferiu não abrir a boca. Não queria perder a confiança da única pessoa que detinha o conhecimento e os meios necessários para combater o inimigo.
Não tinha sido fácil se livrar de Bruce. O valentão queria forçar Ethan a falar a qualquer custo. Eles entraram numa pequena discussão ontem à noite. A ira de Bruce era difícil de ser aplacada. Ethan conseguiu ir embora com a desculpa de que estava esgotado e precisava descansar. E não era mentira. Os últimos dias tinham sido arrasadores para ele. O jovem lobo sentia que carregava uma enorme responsabilidade sobre as costas.
Ethan tinha sido bastante cauteloso na noite passada ao não revelar a Drake o seu pequeno segredo: o fato de ser um homem-lobo. O cara era um caçador, e se descobrisse a verdade, o garoto correria um grande perigo.
Ele despertou de seus devaneios ao escutar um toque no celular. Mensagem de Bridgit. "Olha o noticiário". Depois de vestir-se, ele desparou escada abaixo e ligou a Tv. A repórter surgiu na tela. Outra vítima. Thomas Wright. Aluno da Escola Fort Woods. Ethan prendeu a respiração. Permaneceu estático por dois longos minutos, os olhos vidrados na tela. À medida que a notícia passava, alguma coisa chamou sua atenção. Como se tivesse se dado conta de algo importante. Ele desligou a Tv, pegou suas coisas e saiu apressadamente. Entrou na picape e dirigiu todo o caminho até o colégio.
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Andando pelos corredores, ele parou em frente ao seu armário. Colocou a mochila dentro e tirou alguns livros. Ao fechar a porta, se deparou com Bruce.
"Chega de joguinhos, Quinn", ele bradou, pressionando Ethan contra o metal frio do armário. "Agora sim você vai me contar tudo que sabe", seus olhos estavam quase vermelhos de fúria, a mandíbula apertada.
"Me deixa ir, Bruce", ordenou o jovem lobo asperamente. Ele já estava ficando irritado com a insistência.
"Não antes de você me explicar tudo o que conversou com aquele cara ontem à noite", seu braço pressionava com força o peito do colega.
Tomado por um ímpeto de furor, Ethan agarrou o pulso do garoto e apertou com todas as forças que seu sangue de lobo poderia concedê-lo. Suas veias ficaram mais verdes e salientes. Assustado, Bruce olhou para seu pulso e depois para Ethan. O valentão podia sentir a dor aguda e penetrante. Seu braço ficou vermelho. De repente, e sem poder controlar, os olhos do jovem lobo brilharam, laranja como fogo, prontos para enfrentar a ameaça. Suas presas eclodiram e ele soltou um leve e imperceptível rosnado. Bruce o encarava, confuso e incrédulo, os olhos revoltos.
Nesse instante, a diretora Bryant se aproximou.
"Senhor Quinn, senhor Adams... tudo bem por aqui?", perguntou, a postura reta e impassível.
Ambos se afastaram um do outro. Bruce lançou um olhar firme para Ethan. "Isso não acabou", disse, enquanto se afastava.
Na sala de aula, o jovem lobo buscou um lugar perto de Isobel e Bridgit.
"E então... você não vai nos contar o que foi que descobriu ontem?", indagou sua melhor amiga, que estava sentada na fileira ao lado.
"Sim, o que aquele cara te disse?", perguntou Isobel, apreensiva. Sentada atrás de Bridgit, ela arranhava os dedos de ansiedade.
Ele não deveria dizer nada. Mas não podia esconder a verdade como da última vez. Aquilo só provocou angústia e mais mentiras. Não queria se afastar delas de novo.
“Olha só, eu não devia contar nada mas...”, revelou Ethan. “...eu não posso esconder de vocês.”
Elas pareciam preocupadas.
O garoto chegou mais perto e sussurrou: “O garçom... o nome dele é Drake Bennette...”, Ethan respirou fundo antes de falar: “...e ele é um caçador de homens-lobo.”
“Tá brincando!”, exclamou Isobel, estupefata.
“Depois eu explico melhor”, garantiu o garoto.
“Espera aí...”, interrompeu Bridgit. “Você não contou pra ele que você é...”
“Não, não. Foi por pouco. Eu até pensei em falar antes de ele me dizer quem era.”
Quando o professor chegou, Ethan não conseguiu prestar atenção na aula. Havia muitos pensamentos convulsionando sua mente. Ele arrancou um pedaço de papel do caderno e escreveu uma mensagem a Bridgit: “Precisamos resolver isso. Acho que encontrei alguma coisa. Hoje na sua casa às 18h... pode ser?” Ele dobrou o papel e entregou o bilhete à amiga disfarçadamente. Depois de ler a mensagem, a garota virou a cabeça levemente para trás e assentiu.
Sentado algumas cadeiras atrás, Bruce observava tudo, com o olhar desconfiado. No final da aula, ao se levantar, Bridgit amassou o bilhete e jogou no lixo. O valentão se ergueu depressa, foi até a cesta e pegou o papel. Depois de ler o pequeno recado, ele soube exatamente o que fazer.
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O ar de fim da tarde era reconfortante para Ethan. Esperando do lado de fora da casa de Bridgit, ele tentava acalmar os ânimos e respirar com tranquilidade pela primeira vez depois de muito tempo. Após alguns minutos de espera, sua amiga desceu e abriu a porta.
“Desculpa a demora”, disse. “Eu estava ocupada.”
“Tudo bem”, respondeu o garoto.
Eles subiram as escadas. No quarto, Isobel esperava.
“Preciso contar pra vocês o que descobri ontem à noite”, declarou Ethan.
“Que história é essa de caçador de lobos?”, perguntou Isobel, inquieta.
O jovem lobo respirou fundo e sentou-se. “Quando entrei lá, ele me levou até o porão. Depois começou a abrir umas caixas e me mostrou várias armas”, ele parou por três segundos antes de continuar. “O pai dele também era um caçador. É como uma tradição de família. Ele me disse que faz tempo que não caça. Desde que o pai foi morto por um homem-lobo.”
As garotas escutavam atentamente.
“Faz dez anos que isso aconteceu”, continuou.
“O último ataque de lobo em Fort Woods”, lembrou Bridgit.
“Exatamente”, respondeu Ethan. “Ele me mostrou a tatuagem no braço dele. É como uma insígnia, uma identificação para cada membro da comunidade”, ele se revirou na cadeira. “O mais estranho é que eles excluíram aquela página da web há dez anos. Tecnicamente é impossível que a gente tivesse acesso a ela.”
As duas meninas pareciam espantadas.
“Você tem certeza que a gente pode confiar nele?”, Isobel estava intrigada.
“Ele tem todos os equipamentos que precisamos para enfrentar o lobo. Disse que está disposto a ajudar”, ele refletiu por alguns instantes e depois continuou: “Ele me fez prometer que não contaria pra ninguém, por isso não disse nada ontem à noite... mas eu não poderia esconder isso de vocês”, ele deu outra pausa. “Hoje de manhã, quando olhei o noticiário, vi uma coisa que me chamou a atenção. A terceira vítima, Thomas Wright... ele foi encontrado perto da Coffee Prank, na rua Birdstein. Jay Lawrence, no posto de gasolina, na rua Berkley... e o endereço da casa da Stacy...”
“Rua Bayside”, ressaltou Bridgit. “As iniciais são as mesmas.”
“Não só isso. A segunda letra também. A ordem das vogais. Bayside, Berkley e Birdstein...", acrescentou Ethan.
"Então você acha que o próximo ataque vai acontecer em alguma rua com as iniciais "B" e "o"...? Como Bowman ou Boyd... São as únicas ruas da cidade com esse padrão", destacou Isobel.
Seus amigos assentiram.
"Mas só em uma delas mora um aluno da Escola Fort Woods", lembrou Bridgit. "Henry Benson, das aulas de física. A casa dele fica na rua Bowman."
Os três se olharam com os olhos eletrizados. A tensão rondou a atmosfera.
Ethan balançou a cabeça vigorosamente. "É ele! Ele é a próxima vítima!"
"A gente tem que ir pra lá agora!", anunciou Isobel, erguendo-se e andando freneticamente de um lado a outro.
"Não podemos enfrentá-lo sozinhos. Eu vou chamar o Drake", o jovem lobo puxou o celular do bolso e o pedaço de papel que o ex-caçador havia lhe dado.
Os três saíram de casa apressados. Eles pararam em frente à varanda.
"Posso saber onde vão?", Bruce estava ali, impassível.
"Bruce, estamos no meio de algo importante. Não temos tempo pra isso", Ethan estava afoito. Ele começou a caminhar. Suas amigas o seguiram.
"Espera!", pediu o colega. Dessa vez sua voz era calma e pacífica. "Eu não quero mais brigar, tá legal? Depois que a Stacy se foi, eu fiquei perdido. Eu preciso entender o que tá acontecendo. Todos nós queremos a mesma coisa. Encontrar o culpado e acabar com ele", seus olhos permaneciam firmes e inabaláveis, encarando o jovem lobo.
Naquele instante, Ethan soube que não poderia mais despistar o colega. Para ele, até que não era uma má ideia uma pessoa a mais na equipe. Eles precisariam de ajuda, agora mais que nunca, para enfrentar a batalha iminente.
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