Os Mistérios de Ethan Quinn
1 Metamorfose
Notas iniciais
Aquela era a melhor sensação do mundo. O silêncio imperturbável invadia sua consciência. O suave roçar do vento frio em sua pele o fazia sentir imerso naquele ambiente. As gotículas de água caiam lentamente sobre o seu rosto. Ele fechou os olhos. Mesmo no escuro, era possível visualizar o cenário, somente através dos sons. O farfalhar das folhas das árvores, das asas dos pássaros, o clink-clink das gotas no solo, os gritos de águias, o borbulhar dos pequenos riachos, os passos de animais da floresta. Sam estava ao seu lado. De alguma forma, acariciar o pelo amarelo e macio de seu cão trazia um pouco de paz e tranquilidade para sua mente.
Por um instante, ele imaginou como seria correr livremente sobre quatro patas, vivendo rápido e feroz sob a sombra das copas, cavando com dedos firmes, andando sobre o chão úmido e aconchegando-se na terra macia. A sensação de liberdade o atraía. Ali, imóvel, com os pensamentos fluindo facilmente, ele sentia-se bem. Desejou que aquele momento jamais terminasse...
“Ethan, vamos! ”
Era hora de ir ao colégio. Bridgit Hartley veio a seu encontro, com um sorriso radiante.
“Olha só para você! Está todo molhado. ”
“É só água”, ele disse, abrindo um leve sorriso enquanto caminhava ao lado da amiga.
Na sua picape azul, Ethan assumiu o volante, seguindo o longo caminho pela estrada.
....................
Aquela aula parecia durar um século. Fórmulas e mais fórmulas, circunferências e triângulos. Por mais que ele se esforçasse para conseguir organizar e compreender tudo aquilo, não era uma tarefa fácil, e a única coisa que ele desejava no momento era que o sino finalmente tocasse.
No intervalo, ele e Bridgit tomaram uma mesa no refeitório. Ethan notou rapidamente o entusiasmo no rosto da amiga.
“O que aconteceu? Você está tão animada hoje”.
“Não posso ficar feliz? ” Ela soltou um pequeno riso descontraído. “Aconteceu que eu e meus pais vamos viajar para a França em setembro. Eu não consigo parar de pensar na viagem. Vai ser incrível!”
“O que foi? Cansaram do Canadá?”, indagou ele, de forma irônica.
“Não é nada disso. Nós não vamos nos mudar ou algo do tipo. Você fala como se a mudança fosse a pior coisa do mundo”, retrucou ela, com um olhar desafiador.
“Você sabe... Eu nasci neste lugar, fui criado aqui, e a possibilidade de me afastar de tudo o que conheço e explorar algo estranho e completamente novo não me agrada muito”, ele respondeu timidamente.
“Não vejo problema algum em conhecer lugares novos. Mas fico feliz por não precisar me mudar. Gosto de viver aqui.” Ela esboçou um lindo sorriso no rosto, enquanto afastava alguns cachos de cabelo que lhe caíram sobre a testa morena.
Na entrada do refeitório, Isobel Mitchell apareceu subitamente e correu ao encontro dos dois amigos.
“Adivinha só?” Indagou ela, ansiosa e empolgada. “Abriram as inscrições para o Concurso de Ciências da Computação!” Exclamou ela, balançando rapidamente uma folha de papel com o comunicado. “Eu participei no ano passado, ainda não ganhei nenhum prêmio. Mas eu sei que agora estou mais preparada do que antes. Sinto que essa é a minha chance.” Declarou ela, enquanto tomava um lugar na mesa.
“Você merece, Isobel. Eu sei disso mais do que ninguém. Você passa horas digitando naquela máquina. Já perdi as contas de quantas vezes você estava tão ocupada que nem atendeu minhas ligações”, disse Bridgit.
Ethan lançou a Bridgit um olhar de reprovação. Voltando-se para Isobel, ele disse:
“Vamos torcer por você. Sabemos o quanto tem se preparado para isso”.
“Não vejo a hora de começar!” Declarou ela, cheia de entusiasmo, enquanto jogava uma mecha de cabelos castanhos para trás.
Isobel era dona de um jeito bastante peculiar. Seu estilo despojado era quase como uma marca registrada, diferenciando-a das outras garotas. Até mesmo Bridgit, que era sua amiga, comportava-se de um modo muito diferente. Acanhada e distraída, ela conseguia se comunicar melhor apenas quando estava entre amigos. Apesar das diferenças, eles sempre se relacionaram muito bem. Eram os amigos mais unidos que alguém poderia conhecer.
“Aula cansativa essa, não acharam?” Grayson Parker apareceu e sentou-se à mesa antes mesmo de Ethan notar sua presença.
“Grayson, você tirou o gesso! Acredito que esteja melhor”, Bridgit disse.
“Não totalmente. Ainda sinto um leve formigamento na perna, mas não é nada que eu não consiga suportar”, ele garantiu.
“Como foi que aconteceu?” Indagou Isobel, preocupada.
Grayson refletiu por alguns instantes. Confuso, ele declarou:
“Eu... caí da escada”.
Com uma expressão de pouco convencida, Bridgit perguntou:
“Tem certeza?”
“É claro que tenho”, Grayson disse. Após alguns segundos, ele mudou de assunto. “Preciso retomar os conteúdos. Faltei uma semana de aula. Sinto-me perdido nas matérias”.
“Matemática, principalmente. Não é só você que se sente perdido”, afirmou Ethan.
Mais tarde, depois da aula, ele e Bridgit voltaram para casa. Enquanto percorriam a estrada, Ethan foi obrigado a ouvir tudo sobre a viagem tão esperada da amiga: a Riviera Francesa e suas praias magníficas e hotéis luxuosos; o Museu do Louvre, a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Catedral de Notre-Dame e muitos outros lugares aparentemente incríveis e empolgantes.
Quando chegaram à casa de Ethan, Sam começou a latir e a saltar em direção ao seu dono. O garoto agachou-se e afagou as orelhas do labrador.
A casa onde morava era simples, não muito grande. Era feita de madeira, o que lhe concedia um aspecto natural, como se ela fizesse parte da floresta. Uma pequena varanda estendia-se na entrada. Bridgit e Ethan entraram. O garoto chamou pelo seu pai, mas não obteve resposta. Joseph Quinn trabalhava o dia inteiro no Departamento de Polícia de Fort Woods, por isso passava pouco tempo em casa.
Os dois amigos subiram a escada. No quarto de Ethan, havia uma cama pequena, um armário para as roupas, uma estante de livros, uma mesa de computador e um banco acolchoado sob a janela. Bridgit sentou-se para observar a floresta.
“Essa vista é linda! Eu nunca me canso de apreciar”, ela disse. Uma vastidão de pinheiros estendia-se lá fora. “Sabe, Ethan... Eu mal posso esperar para conhecer outras paisagens tão lindas quanto essa”.
Notando o silêncio por parte do amigo, Bridgit indagou, perplexa:
“Algum problema?”
“Não é nada. Eu só me sinto um pouco perdido, isolado. Todos estão ansiosos, esperando algo especial acontecer.... Eu não me sinto assim há anos, desde que...”, ele interrompeu, aflito.
Bridgit sentou-se ao seu lado.
“Eu sei que você sente falta dela. Mas você não precisa ficar assim, triste, angustiado.... Você tem amigos incríveis que vão estar sempre aqui por você. Tem a seu pai...”
“Sabe que eu não posso contar com ele”, disse Ethan, desanimado.
“Como vão as coisas entre vocês dois?”, ela perguntou, apreensiva.
“Nada bem. Ele quase não fala comigo, nunca está em casa e quando quero saber mais sobre a minha mãe, ele simplesmente não responde às minhas perguntas”, ele declarou, irritado.
“Talvez você devesse ir com mais calma. Ele ainda sente muito a morte dela”.
“Eu também sinto. Mais do que ele. Ela era a minha mãe”, ele gritou. Seus olhos revelavam um sinal de amargura. Estavam lacrimejando. Após alguns segundos de silêncio, ele abaixou a cabeça, envergonhado. “Desculpe, eu nunca quis que você me visse assim”.
“Tudo bem. Às vezes precisamos apenas mostrar o que estamos sentindo”. Ela olhou firmemente nos olhos dele.
“Eu só quero me sentir vivo outra vez”.
“E você pode. Só depende de você. Tenho certeza de que ela não iria ficar feliz se o visse assim, furioso e angustiado”.
“Tem razão”, ele sorriu. “Obrigado, Bridgit”.
....................
Quando sua amiga foi embora, já havia escurecido. Eram cerca de sete horas. Pouco tempo depois, Ethan pegou no sono. Estava cansado demais para pensar, e aos poucos foi adormecendo. Não teve sonhos e foi grato por isso. Precisava manter a mente livre e descansada por um tempo.
Ao despertar, o relógio marcava onze e meia da noite. Desorientado e entontecido pelo sono, ele saiu da cama e foi para o corredor. Chamou pelo pai. De novo, nenhuma resposta. Ethan não ficou surpreso. Seu pai nunca avisava quando chegaria em casa.
Ainda zonzo, ele desceu as escadas vagarosamente. Lá embaixo, chamou por Sam. Não houve resposta, nem mesmo o mais ínfimo e longínquo som de latido. Desconfiado, ele abriu a porta da rua e saiu de casa. Lá fora, a escuridão estendia-se por todos os lados. O negro profundo da noite dificultava sua visão. Ele chamou por Sam mais uma vez. Não obtendo resposta, caminhou até a floresta. Teve um pouco de dificuldade para passar entre as folhagens. Sob as enormes copas escuras e no meio daquela imensidão de troncos gigantes, Ethan sentia-se cada vez mais impaciente.
“Sam! Aparece, garoto! Não vai querer dormir aqui esta noite”.
Após alguns minutos de caminhada, ele deparou-se com um local aberto e amplo no meio da floresta. Uma espécie de círculo. Não havia emaranhados de galhos atrapalhando a sua passagem. Toda a terra era coberta por pequenas gramíneas esverdeadas. Ali perto, havia um pequeno riacho, com sua água fria correndo graciosamente através das pedras. Por entre as copas das árvores, Ethan enxergou uma redonda e graciosa lua cheia.
Minutos depois, subitamente, a luz forte e reluzente do luar incidiu diretamente naquele círculo, ofuscando a visão do garoto. Intrigado, ele se aproximou para observar melhor. Quando já estava todo envolto por aquela luz intensa, um forte impacto o fez cair para trás, atingindo o chão com uma enorme pancada nas costas. Antes que conseguisse se erguer novamente, seu corpo foi tomado por uma sensação de aperto e dor profunda. Ele começou a se contorcer freneticamente.
Quando percebeu o que estava acontecendo, ficou espantado. Seus braços estavam ficando mais fortes, suas pernas estavam encurtando, pelos surgiam por todo o seu corpo, sua coluna começava a se encurvar, surgiram patas no lugar das mãos e dos pés. Ele ganhou garras e dentes afiados, enquanto seus pelos aumentavam mais e mais, a ponto de deixá-lo sufocado.
Quando toda aquela dor e desespero terminaram, Ethan começou a olhar para si mesmo, assustado. Curvado sobre quatro patas, a pelagem marrom acinzentada cobrindo o seu corpo, ele percebeu no que havia se transformado. Um lobo. Uma criatura da floresta. Naquele momento, ele não se preocupava em pensar. Só precisava sentir. E ele sentia o frio confortante da noite, a terra úmida sob suas patas, o restolhar das folhas, o som de outros animais selvagens. Seus sentidos estavam aguçados a um nível inimaginável. Audição, olfato, visão. Ele era capaz de ouvir e compreender o som de outros lobos, detectar perigo através do cheiro, e enxergar metros de distância através da escuridão da noite.
Ele caminhou até o riacho. Pensou ter visto um vulto, mas continuou seu caminho. O toque da água fria nos pelos o fez sentir aliviado e seguro. Finalmente ele experimentava a sensação de liberdade. Agora, ele sentia-se vivo pela primeira vez em anos.
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