Os Mistérios de Ethan Quinn
2 Vermelho-Rubi
Notas iniciais
Aquelas faíscas ofuscavam seus olhos. Uma luz amarela intensa atingia seu rosto. A terra úmida dera lugar a um solo quente, macio e aconchegante. Ele conseguia enxergar apenas a folhagem verde-brilhante e os raios de sol através dos olhos semicerrados. Subitamente, uma sensação de umidade invadiu suas bochechas. Ao se dar conta, lá estava Sam, arfando, com a língua molhada sobre a sua pele. Ethan ergueu-se vagarosamente. Percebeu que havia retornado à forma humana. Provavelmente, a transformação ocorrera em algum momento durante a madrugada, enquanto dormia. As lembranças da noite passada começaram a retornar em sua mente, ficando cada vez mais nítidas com o tempo. Foi como num sonho. O frio, o luar e a escuridão da noite fizeram-no sentir completamente envolvido, como se fizesse parte de tudo aquilo há muito tempo.
Sam saltou sobre as folhagens e começou a correr rapidamente em direção à casa. O garoto o seguiu, andando a passos largos, tentando alcançar o cão. Estava tudo muito iluminado, e não havia qualquer sinal daquela noite escura e fria. Sam pulou os degraus da escada que dava para a pequena varanda e esgueirou-se pela porta de entrada. Ethan seguiu o mesmo caminho. A camiseta e a calça jeans desbotada que usava estavam sujas de terra. Precisava de um banho. Ele caminhou até a escada sem notar que seu pai estava na cozinha, tomando café, sentado à mesa.
“Hey, garoto! Onde você estava?” Ele indagou, abruptamente.
Ethan não se preocupou em responder. Continuou subindo as escadas.
“Garoto, volte aqui! Não me ignore quando eu falar com você”. Bradou ele, levantando-se e saindo da cozinha. Ao pé da escada, ele voltou a gritar. “Você se acha adulto, não é mesmo? Onde estava a noite toda? Não pode desaparecer assim. Desça já aqui! Você me deve uma explicação”, esbravejou.
A essa altura, Ethan já estava em seu quarto, com a porta trancada. Ele se livrou das roupas sujas, ligou o chuveiro e banhou-se na água gelada. Apesar de estar sem os pelos, seu corpo já havia se acostumado àquela temperatura. Ele vestiu roupas limpas e começou a arrumar o material da escola. Lá embaixo, seu pai ainda bradava ferozmente, enquanto o cachorro latia sem parar. Ethan não conseguiu compreender uma palavra sequer. Ele esperou até que Joseph fosse embora. Queria evitar qualquer discussão. Após alguns instantes, o silêncio pairou no ar. Só então o garoto abriu a porta do quarto e saiu de casa.
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Naquele dia, sua concentração estava no nível zero. Ethan não conseguia prestar atenção na aula, nem sequer fazia as anotações. Sua mente vagava em meio às recordações da noite anterior, as sensações, o ambiente, a liberdade.
Bridgit estava sentada ao seu lado. Percebendo a completa distração do amigo, ela perguntou:
“O que há de errado com você?”
Após alguns segundos, Ethan respondeu:
“Eu... só estou pensando”.
Bridgit estreitou os olhos, desconfiada:
“Não, você está completamente desligado”. Ela se aproximou, sussurrando. “O que aconteceu? Você nunca esteve assim”, indagou apreensiva.
“Não é nada. Eu só estou... distraído”, ele disse.
Bridgit permaneceu inquieta, lançando ainda mais perguntas e esperando por respostas mais convincentes. À medida que ela falava, Ethan sentia-se mais irritado. Não sabia como evitar as indagações da amiga. Com o tempo, a impaciência o dominou, até ele atingir um estado de fúria. Subitamente, seu corpo começou a tremer e seus músculos se contraíram fortemente. A primeira coisa que passou pela sua mente foi a sensação de dor da noite passada, durante a transformação. Não era possível que estivesse acontecendo naquele momento. Pensava que só ocorria durante a noite. Não podia se expor à luz do dia, em meio a tantas pessoas. Sobressaltado, ele virou-se para Bridgit. Sua amiga lançou-lhe um olhar fixo e incrédulo.
Ethan ergueu-se e saiu da sala disfarçadamente, para evitar que alguém notasse. Lá fora, no corredor, ele correu em disparada e esgueirou-se para dentro do banheiro. Com a respiração ofegante e as mãos trêmulas, ele fez um enorme esforço para se acalmar e voltar ao normal. Seus pensamentos chocavam-se descontroladamente. Tudo que ele desejava naquele momento era se esconder. Não queria sentir-se envolvido pelos olhares alheios. Temia que outro surto como aquele voltasse a acontecer e a situação fugisse do seu controle.
Quando sua respiração amenizou-se e seu corpo voltou a se estabilizar, ele saiu do banheiro e voltou para a sala, relutante.
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Mais tarde, na hora da saída, Ethan atravessava o pátio a passos rápidos e confusos. Mal via a hora de voltar para casa, descansar, recuperar a calma e pôr os pensamentos no lugar.
“Ethan!” Grayson Parker caminhava logo atrás. “Preciso que me ajude com os estudos. Posso ir até sua casa, se preferir. Hoje à tarde está bom para você?”
Ethan refletiu por alguns segundos. Não estava em condições de receber alguém naquele momento. Precisava ficar sozinho por um tempo. Passaria a tarde inteira reorganizando a mente, tentando assimilar os acontecimentos recentes.
“Vou estar ocupado essa tarde”. Não era necessariamente uma ocupação, mas ele precisava de uma desculpa. “Por que não passa lá hoje à noite?”
“Infelizmente, essa noite eu não posso”. Grayson permaneceu em silêncio por alguns instantes. Seus olhos revelavam um certo tom de desapontamento. “Eu passo lá outro dia então”. Ele começou a se afastar. “Não se esquece! A gente se fala”.
Minutos depois, ele avistou Bridgit correndo rapidamente para alcançá-lo.
“Não vai me dizer o que foi aquilo?” Ela indagou, ansiosa.
Ethan revirou os olhos, impaciente.
“Bridgit, aquilo não foi nada. Eu estava confuso, nervoso... Esquece isso, tá?”
“Não dá para esquecer, Ethan. Eu vi o que aconteceu e era sinistro. Você parecia outra pessoa. Foi tudo muito rápido, aconteceu de repente. No momento em que vi seus olhos, fiquei apavorada. Foi inacreditável!” Ela declarou, ofegante.
Ethan parou de caminhar.
“O que você viu exatamente?” Ele perguntou, aturdido. “Quer dizer... os meus olhos, o que viu neles?”
“Tá brincando? Seus olhos estavam laranja como fogo, com um brilho forte e intenso. Como se fosse uma chama! Eu fiquei apavorada. Como eu disse, não parecia você”.
Ethan não acreditou no que acabara de ouvir. Precisava fugir de tudo aquilo.
“Bridgit, mais tarde a gente se fala. Tenho que ir”.
Ele começou a correr, desorientado. Ao entrar na picape, esperou para recuperar o fôlego. Ao dar partida no carro, não estava mais calmo do que há alguns minutos antes. Ele seguiu pela estrada, inseguro e perplexo.
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Na imensidão de seus pensamentos, algo lhe dizia que os mistérios acerca desse segredo estavam muito além de sua imaginação. Seu maior medo era que tudo isso fugisse do seu controle. Desejou ficar sozinho por muito tempo. Não queria interagir com ninguém. Pelo menos até que se acostumasse com aquela situação. Precisava conhecer mais sobre o assunto. Ele abriu os olhos, levantou-se da cama e ligou o computador. À medida que vasculhava os sites de busca na internet, encontrava algumas definições interessantes. Um trecho em particular chamou sua atenção.
“Segundo a lenda, o homem atingido pela luz do luar, à meia-noite, na lua cheia, sofre uma transformação permanente. A forma de lobo volta a se revelar todas as noites”.
Nada mencionava fenômenos atípicos ou inusitados durante o dia.
“Os lobos costumam viver em alcateias. A vida em grupo é fundamental para a busca de abrigo durante a noite e a defesa contra os inimigos. Muitos desses grupos adotam posturas violentas e agressivas para proteger relíquias, objetos de valor e segredos profundos”.
Ele ficou surpreso com a quantidade de informação disponível. Ainda havia muito para descobrir.
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Naquela noite, Ethan sentia-se mais forte e disposto a enfrentar os possíveis perigos. Minutos antes da meia-noite, ele saiu de casa. Sob a luz da lua, antes de penetrar na floresta, a transformação ocorreu. Dessa vez, não havia aquela dor monstruosa que acometeu todo o seu corpo na noite passada. Ele sentia apenas uma leve sensação de desconforto. Sob a forma de lobo, ele começou a caminhar lentamente por entre as folhagens. À medida que avançava através da escuridão, sentia-se mais protegido e confiante.
Num ímpeto de determinação e coragem, ele correu ferozmente, deixando uma nuvem de terra e poeira para trás. Mais uma vez, ele deixou-se envolver pelo sentimento de liberdade que tanto o atraía. Percebeu que conseguia atingir velocidades muito altas. A cada salto, ele sentia-se mais leve. O vento frio da noite balançava seus pelos. A adrenalina o envolvia de tal forma que ele pensou ser capaz de correr a noite toda.
Esgueirando-se por um caminho estreito e isolado na floresta, Ethan continuou correndo em disparada. Subitamente, ele tropeçou num objeto maciço e foi lançado para frente. Ao se erguer, voltou-se para trás. Havia uma grande elevação no solo. Afastando o amontoado de folhas e terra seca, ele encontrou uma grande pedra redonda, quase sem furos ou imperfeições. Em sua superfície, havia um desenho um tanto apagado pelo tempo, um sinal que mais parecia com uma estrela. Para mover a pedra, Ethan precisou reunir todas as suas forças. Após alguns instantes, a rocha parecia não sair do lugar. Até que finalmente ela cedeu, revelando uma perfuração no solo, uma cavidade profunda. Com sua visão extremamente aguçada, ele olhou para o fundo e encontrou um objeto cintilante. Com uma das patas, ele tentou puxar o objeto para cima. Após alguns minutos de esforço, uma pedra de cristal extremamente brilhante, de uma cor vermelho-rubi intensa, revelou-se diante dos seus olhos. Era a coisa mais bonita que ele já vira! Ele abrigou-se na terra lisa e macia, protegendo aquele tesouro magnífico sob o calor e o conforto de seu peito.
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