Os Millers

9 Você aceita se casar comigo?


Notas iniciais
"O Amor nos leva não somente aos maiores sacrifícios pela criatura amada, mas, às vezes, ao sacrifício do nosso próprio desejo" - Marcel Proust

Diante da urgência com que Joseph a abraçava e tocava Rose não pôde se controlar. Abraçou-o pelo pescoço e mergulhou as mãos em seus cabelos ao mesmo tempo em que correspondia ao beijo com total intensidade.

Foi Joseph quem se afastou da boca de Rose embora não encontrasse a mesma força para interromper o abraço. Inclinou a cabeça, então, e fechou os olhos, mas antes que pudesse re­fletir sobre o que estava fazendo, seus lábios estavam lhe to­cando o pescoço.

Dessa vez, ela deslizou as mãos pelas costas e pelo peito de Joseph sem tirar sua camisa do lugar. E ele não tentou afas­tá-la. Ao contrário. Agora, os beijos estavam quase chegando aos seios.

Rose deixou escapar um gemido de prazer. Sua vontade era se oferecer inteira aos beijos e às carícias que a inebriavam. Sentia-se próxima ao êxtase. Joseph lhe despertava emoções que nunca imaginara existir. Por mais que tivesse tentado não se apaixonar por ele, amava-o irremediavelmente.

Ela parou de respirar quando Joseph, como se tivesse lido seu pensamento, desabotoou o corpete do vestido e afastou-o para poder admirar seus seios. Sentiu-o tremer em seus braços. Incapaz de se conter fechou os olhos.

Seu corpo parecia estar em fogo. Um desejo incontrolável a inundava. Tanto que não ofereceu nenhuma resistência quando Joseph a ergueu nos braços e a carregou para a cama.

Despiram-se em poucos instantes. Não importava saber quem despira quem. O que importava era que estava um nos braços do outro, pele contra pele.

A ausência de três semanas não diminuiu a necessidade física que ele sentia de Rose. Ela era como uma febre que precisava ser curada. Uma febre benéfica e bem-vinda em sua beleza e generosidade.

–

O choro de Sam acordou Rose. Ela tentou se levantar, sonolenta e exausta, mas Joseph a deteve.

— Fique. Eu o trarei para você.

Ele acendeu o abajur e se dirigiu ao outro quarto. Rose o acompanhou com os olhos e com um sorriso.

Seu coração bateu acelerado ao ver Joseph sem roupa, per­feito em sua nudez.

Era maravilhoso ser desejada por um homem bonito e ar­dente como aquele. Porque o modo como Joseph fez amor traduzia experiência e conhecimento das necessidades de uma mulher.

Ao recordar o que eles haviam feito durante a noite, Rose precisou respirar fundo.

Parecia um sonho. Mas era real, Rose pensou, ao notar que Joseph já havia tirado Sam do berço porque ele parou imediatamente de chorar.

Ela estava acordada. Se o que aconteceu lhe parecia uma fantasia era porque nunca havia imaginado antes o que signi­ficava estar apaixonada e alcançar o êxtase. Na noite de seu noivado, quando decidiu atender as súplicas de Victor e fazer do acontecimento algo especial, sentira mais vergonha do que pra­zer. Victor havia dito que a amava, mas era mentira. Joseph murmurara palavras em italiano e não lhe declarava amor. Joseph era honesto. Preferia calar a mentir.

Com lágrimas nos olhos, Rose se obrigou a parar de com­parar os dois irmãos.

Afinal, que espécie de mulher ela era?

Uma mulher que ansiava por um lar feliz, disse a si mesma. E agora, uma mulher apaixonada. Mas, o que Joseph estaria pensando a seu respeito? Que não conseguia resistir ao sexo?

Subitamente, Rose sentiu-se estranha naquela enorme cama vazia. Sentou-se, assustada. Por que Joseph estava de­morando tanto no quarto de Sam?

Quando foi se levantar, um pensamento ainda mais assus­tador a invadiu. Eles não haviam usado nenhuma proteção!

Da primeira vez, ela não tinha nenhuma experiência e ima­ginava que Victor fosse se precaver. Agora, não havia nenhuma desculpa para o que fizera.

Seus olhos inundaram de lágrimas quando o viu trazendo Sam para ela.

— Eu o troquei para você e aproveitei para aquecer a mamadeira. Segure-o enquanto volto para buscá-la. — Joseph se inclinou e franziu o rosto. — Você está chorando?

Não havia como negar. Ao mirar aqueles olhos vermelhos, Joseph teve uma súbita inspiração.

Ele não havia planejado o que acontecera, mas não se arre­pendia do que fizera.

Deveria ter passado a noite contando a Rose sobre os planos de seu pai. Em vez disso, deu vazão a seus instintos e fizeram amor. Agora, sabia exatamente qual atitude deveria tomar para corrigir a situação ao mesmo tempo em que impediria o pai de cometer um grande erro.

— Não chore Rose. Não quero vê-la triste. Quero que seja minha esposa. Você aceita se casar comigo?

–

Joseph viu o sol nascer da janela de seu quarto. Achava que agira bem ao deixar Rose sozinha, depois de fazer o pedido, para que ela refletisse antes de lhe dar uma resposta. Mas a tentação de passar o resto da noite com ela e de conven­cê-la a aceitar sua proposta foi quase irresistível.

Se tivesse continuado ao lado dela, eles teriam feito amor outra vez. E mais outra. Ele não teria conseguido parar. Só em pensar em Rose, sentia o corpo inchar de desejo. Era incrível o poder que Rose possuía de mexer com seus instin­tos mais primitivos.

A ideia de casarem foi uma inspiração. Nada poderia ser mais certo e mais lógico.

Se tivesse permanecido no quarto e a tomado nos braços novamente, Rose diria que sim, movida pelas emoções. Mas ele queria que ela refletisse antes e que enxergasse por si mesma as vantagens de uma união. Respeitava-a demais para coagi-la a dar um passo do qual poderia vir a se arrepender mais tarde.

Ao se lembrar do pai e de que ele o havia precedido ao fazer a proposta de casamento a Rose, Joseph fechou os olhos e suspirou. Esperava que seu pai entendesse sua posição.

Rose colocou Sam no berço e voltou para seu quarto. Sen­tia-se terrivelmente culpada. A bandeja com o jantar para dois estava intacta. Levou-a para a cozinha, jogou a comida desperdiçada fora e colocou os pratos na lava-louça.

Ninguém poderia saber o que aconteceu aquela noite entre ela e Joseph. Era um segredo entre eles. Se vissem a bandeja, os empregados somariam dois e dois e as fofocas se espalhariam como rastilho de pólvora.

Outra vez em seu quarto, Rose verificou se Sam conti­nuava dormindo e voltou para sua cama. Ainda não conseguia acreditar que estava acordada e que a proposta de casamento era real.

Com a mente entorpecida, Rose arrumou a cama e espe­rou que Sam acordasse.

Queria refletir sobre o pedido de casa­mento, mas não conseguia. Ela ainda estava perplexa. Por mais tentadora que fosse a ideia de se tornar esposa de Joseph, não conseguia compreender o que o levou a fazer a proposta.

Desejaria acreditar que Joseph estava tão apaixonado por ela quanto ela por ele, mas seu bom senso não permitia. Porque depois do trauma de perder a esposa, deveria ter se tornado impossível para Joseph tornar a amar alguém.

Por outro lado, Joseph estava viúvo havia dez anos e tinha o direito de tentar iniciar uma nova vida. Com alguém de sua classe social. Mas com ela? Mãe do filho de seu irmão?

A verdade atingiu-a com a força de um golpe. Embora co­nhecesse pouco Joseph Miller, sabia que ele era um homem íntegro. Teria feito a proposta porque se sentia no dever de reparar o erro? Mesmo que ela o tivesse praticamente provocado a fazerem amor com seu comportamento impulsivo?

Ela era uma hóspede naquela casa e ele havia passado me­tade da noite em sua cama sem se lembrar de tomar precauções. E se ele a tivesse engravidado?

A única conclusão a que ela poderia chegar era que Joseph a pediu em casamento por motivo de honra.

Angustiada, Rose pensou que um banho talvez a ajudasse a esfriar a cabeça. Mas antes que ligasse o chuveiro, Sam acor­dou e ela teve de atendê-lo.

Sam estava sentado em sua cadeirinha, diante da janela da sala, brincando com os pés e com as mãos, quando Joseph apareceu sem se anunciar.

Rose não saberia dizer se corou ou se estremeceu primeiro.

— Está tudo bem com você? — ele perguntou com uma do­çura da qual ela não o imaginara capaz.

— Está — Rose mentiu. Bastara olhar para ele para se sentir confusa outra vez.

— Pensou no que eu disse?

Rose engoliu em seco. Teria sido impressão ou Joseph, charmoso, rico e elegante naquele terno de corte impecável, parecia inseguro?

O mais provável era que estivesse arrependido da proposta que fizera. Talvez estivesse tentando encontrar uma maneira para se desculpar.

— Não — ela respondeu com um fio de voz. — Ainda não.

Ocorreu a Rose que Joseph poderia aproveitar aquela oportunidade para pedir que ela esquecesse o assunto. — O que houve ontem à noite... Você não precisa se sentir no dever de me pedir em casamento.

— A noite de ontem não teve nada a ver — Joseph declarou. — Apenas provou que existe uma forte atração entre nós e isso é um bônus.

Rose pestanejou.

— Qual o motivo, então, dessa decisão repentina?

Rose não queria admitir a si mesma, mas mal podia es­perar para ouvir Joseph dizer que havia descoberto que a ama­va e que queria passar o resto de sua vida com ela.

Joseph apoiou os cotovelos nos braços da poltrona e mos­trou-se sério.

— Se você encarar pela lógica verá que faz sentido. Eu me casei por amor da primeira vez e jurei a mim mesmo que nunca mais me apaixonaria. Por outro lado, surgiu uma nova situação nesta casa. Você e Sam apareceram e precisam do apoio de nossa família. — Joseph fez uma pausa. — Vocês o terão de qualquer maneira. Sua posição, contudo, continuaria a incomodá-la como agora. Sei que não deseja isso. Tanto é que mal pode esperar para voltar para a Inglaterra onde viverá angustiada porque terá de arrumar um novo emprego e deixar Sam aos cuidados de outra pessoa.

Rose estava pálida e quieta. Joseph encarou-a.

— Eu não disse a verdade?

— Suponho que sim — Rose respondeu com o coração partido porque seu sonho de ser amada por Joseph nunca dei­xaria de ser apenas um sonho. — Mas você não precisa se preo­cupar nem comigo nem com Sam.

— Ao contrário — Joseph retrucou e foi para junto dela. — Eu gosto demais de você para não me preocupar. Victor a mal­tratou e eu não quero que você sofra as consequências. Como minha esposa, teria o respeito de todos e segurança financeira e Sam teria meu nome. Vocês continuariam a viver aqui, mas em uma posição legítima.

— E o que você ganharia com isso? — Rose perguntou com a voz embargada. — Por que se prender a uma mulher pelo resto de sua vida só por piedade?

Rose desejou que Joseph a deixasse a sós. Sua vontade era chorar até que não restassem mais lágrimas.

O modo como ele lhe sorriu aumentou a vontade de chorar.

— Não sinto nenhuma pena de você — ele respondeu. — Quero protegê-la. Quero cuidar de você e dele. — Joseph pegou Sam no colo e pediu para levá-lo ao terraço. — Pense no que eu disse antes de se reunir a nós para o café da manhã.

Joseph se afastou com tanta pressa que Rose não teve tempo de dizer que não precisava pensar porque sua decisão já estava tomada.

Não aceitaria o pedido de casamento. Recusava-se a se tor­nar esposa de alguém por caridade.

Durante o banho, ela sentiu o ânimo melhorar. Vestiria uma roupa bem bonita e mostraria que não precisava da piedade de ninguém. Amor não correspondido era o último motivo do mun­do para alguém casar. Ela não faria isso consigo mesma. Ca­samento não era apenas sexo. A paixão acabaria e sem amor a relação não teria como dar certo.

Tomar o café da manhã em família seria um sacrifício des­comunal. Se pudesse, ela pediria que a servissem no quarto. Mas Joseph levara Sam consigo e seu lugar era junto de seu filho.

Ao pensar em Sam, Rose vacilou. Joseph queria adotá-lo. Seria possível que ele estivesse gostando do bebê como se fosse dele próprio?

Um arrepio percorreu o corpo de Rose naquele momento. Ter uma família era o que ela mais desejava. Seria possível?

Não. Ela era uma romântica incurável, mas às vezes sabia reconhecer á hora de colocar os pés no chão. Portanto, ainda naquela manhã, ela falaria com Eduardo sobre sua decisão de partir.

A mesa havia sido arrumada sob a sombra de uma figueira antiga. Sobre a toalha branca, estavam colocadas cestas de fru­tas e de pães, uma jarra de suco, um bule de café e potes de manteiga, mel e geleia.

A família estava reunida ao redor daquela mesa e todos pa­reciam surpreendentemente alegres. Eduardo e Donatella brin­cavam com Sam. Até mesmo Giovanni estava sorrindo para o bebê.

Rose sentiu um nó na garganta ao ver Joseph observan­do a cena familiar. Sam seria uma criança feliz naquele conví­vio. Seria justa com ele se recusasse a proposta de casamento por orgulho? Por medo de encontrar tédio nos olhos do homem que amava quando a paixão acabasse?

Na Inglaterra, a vida de Sam seria completamente diferente. Seus pais não lhe dariam o mesmo carinho e ela precisaria que eles a ajudassem ao menos até que arrumasse um emprego e ganhasse o suficiente para mantê-los.

Joseph sentiu, mais do que viu, a presença de Rose. Virou-se na cadeira e olhou para ela. Não esperava que fosse sentir uma onda de ternura envolvê-lo. Rose estava linda aquela manhã. Fantástica. A blusa vermelha sob o conjunto de calça comprida branca realçava o loiro dos cabelos e a tornava ainda mais sensual.

Ele afastou a cadeira e se levantou. Uma forte ansiedade o dominava. Precisava ter Rose. Não podia permitir que seu pai a desposasse nem que ela partisse.

Embora tivesse ímpetos de correr para o lado de Rose, Joseph obrigou-se a caminhar devagar ao seu encontro. A essa altura, ela já deveria ter enxergado o lado prático da situação. Ou não? Ela parecia relutante em se reunir à família.

— Rose?

Ela ergueu os olhos para ele. Olhos que lhe pareceram es­tranhamente vazios. No entanto, quando ela concordou em se tornar sua esposa, ele teve certeza de que nunca se sentira tão satisfeito em sua vida.

Notas finais
Quero agradecer a todos vocês que vem acompanhando a história e pelo comentário de todos. Obrigada de verdade! Continue comentando e digam o que estão achando ! Beijos da Dream