Os Millers
10 Marionete
Notas iniciais
— Joseph, meu filho, eu me orgulho de você! — exclamou Eduardo com os olhos brilhantes ao mesmo tempo em que o abraçava e chamava Rose. — Não que tenha me surpreendido com sua decisão, é claro. Venha cá, minha querida, e dê um beijo em seu futuro sogro!
Ao ver Rose nos braços do pai, Joseph franziu a testa. Não esperava por aquela reação. No mínimo, seu pai deveria ter ficado zangado com ele por ter tomado sua frente.
No entanto, seu velho pai estava feliz como não o via há tempos e ainda tivera o desplante de afirmar que sua decisão não o havia surpreendido.
Ele, Joseph Miller, presidente do Banco Mercantile Miller, havia caído em uma armadilha! Seu pai, muito esperto, o havia conduzido ao altar, fazendo com que ele pensasse que tornaria Rose á esposa dele para protegê-la e ao neto.
Um sorriso de admiração curvou os lábios de Joseph. Não se importava por ter sido manipulado pela primeira vez em sua vida. Foi por uma boa causa. E era bom saber que o pai estava forte e saudável como antes.
Viver com Rose não seria um problema. Ela não estava casando enganada. Estava ciente dos motivos que o levaram a tomar essa decisão e foi sensata o bastante para reconhecer as vantagens práticas daquela união.
Rose não exigiria o que ele não tinha condições de oferecer, ou seja, amor. A necessidade de viagens constantes tampouco constituiria um empecilho porque ela sabia de sua profunda dedicação ao trabalho. Rose não era uma pessoa com dificuldades de adaptação. Prova disso era a rapidez com que conquistara um lugar dentro daquela casa e do coração de seus familiares e empregados. Até mesmo Lorna a estava tratando como uma amiga, apesar das circunstâncias que as colocaram uma no caminho da outra.
Enfim, Rose ficaria bem. E quando ele estivesse em Villa Fontebella, entre suas viagens, teria noites de prazer a sua espera porque embora não houvesse amor entre ele e sua esposa, em matéria de atração sexual eles eram mais do que compatíveis.
Após o abraço de Eduardo, Rose recebeu outro de Lorna.
— Parabéns — Joseph a ouviu cumprimentá-la. — Você conquistou o homem mais cobiçado da Itália.
Depois, foi á vez da tia Donatella a dar as boas-vindas a Rose.
Quando pôde finalmente se sentar à mesa, Rose tentou parecer natural. A partir daquele dia, ninguém mais lhe dirigiria olhares de desconfiança ou de censura. Alguns como, tia Donatella, nunca á aceitariam como um membro real da família, mas o que importava era que aceitassem seu filho e isso ela já havia conseguido.
Joseph se aproximou por trás e tocou-a no ombro para sugerir que se retirassem.
— Espero que nos desculpem por não lhes fazermos companhia esta manhã, mas Rose e eu temos muito que conversar.
Rose não fez nenhuma objeção. Não lhe restavam mais energias depois da necessidade de tomar uma decisão, minutos antes, que comprometeria o resto de sua vida.
Não disse nada, portanto, quando Joseph a ajudou a se levantar e deixou Sam aos cuidados de Genevieve antes de se dirigirem à garagem.
— Aonde iremos? — Rose quis saber quando Joseph se acomodou atrás do volante.
— Dar uma volta — ele se limitou a dizer. Rose estava abatida. Havia sombras escuras ao redor de seus olhos e a pele estava pálida sob o bronzeado adquirido durante as últimas semanas. Embora não quisesse admitir que estivesse preocupado, ele temia que ela tivesse se arrependido de sua decisão. — Precisamos relaxar antes de enfrentar a correria dos preparativos.
O fato de Rose assentir com um gesto de cabeça lhe deu um alívio tão grande que seus lábios se distenderam em um sorriso. Rose estava apenas cansada, pensou. Ela não estava arrependida de ter concordado em casar com ele. Por que estaria? Seria bom para todos os envolvidos. Talvez ela apenas não tivesse conseguido dormir aquela noite, assim como ele.
— Quero lhe mostrar a igreja onde nos casaremos — Joseph disse com uma voz que soou estranha a ele mesmo. — Depois subiremos as montanhas.
A paisagem era linda até chegarem ao vale onde ficava o vilarejo. A noção de que ela estava vivendo um conto de fadas se tornou ainda mais forte.
Joseph parou o carro e lhe deu a mão para ajudá-la a descer. Por não soltá-la depois, Rose sentiu-se indescritivelmente leve e feliz.
As ruas estreitas remetiam à era medieval. As casas eram encantadoras com seus telhados vermelhos e janelas enfeitadas com gerânios. Na praça, era preciso dividir o espaço com patos e galinhas a caminho da igreja que também era linda e sombria.
— Começarei amanhã mesmo a tomar as providências necessárias para nosso casamento — Joseph declarou.
Rose sentiu um arrepio ao entrar na igreja. Com um aperto no peito, afastou a mão que ele ainda segurava e cruzou os braços.
— Foi aqui que você se casou da primeira vez?
Foi um alívio ouvir a resposta.
— Não. Flávia morava em Veneza. — Joseph segurou Rose pelo queixo. — Isso importa?
— Não — Rose mentiu. — Perguntei por curiosidade.
Ela não conseguiu olhar nos olhos dele naquele momento. Temia que Joseph lesse a verdade. Ela precisava se conformar em amar sem ser correspondida. Joseph havia amado demais sua primeira esposa para poder colocar outra mulher em seu coração.
— Poderíamos voltar para o sol? Está frio aqui dentro — Rose pediu.
Enquanto se dirigiam à saída, ela ergueu a cabeça e sorriu com valentia. Não podia permitir que Joseph descobrisse como ela estava se sentindo. Ele poderia até mesmo mudar de ideia. No que lhe dizia respeito, o casamento não seria nada mais do que um contrato de conveniência.
No alto da escadaria, Joseph tornou a segurá-la pela mão.
— O que acha de comprarmos o lanche e fazer um piquenique?
Rose sentiu o coração bater mais depressa. Joseph parecia mais jovem naquele momento. Nunca o vira tão calmo e entusiasmado.
— Seria ótimo — concordou com um sorriso.
Enquanto atravessavam a praça, algumas pessoas o abordaram. Ela não conseguiu entender o que conversavam. Seu conhecimento do italiano ainda era limitado.
O aroma de pão fresco despertou o apetite de Rose. Joseph olhou para ela como se estivesse pensando o mesmo. Que eles não haviam jantado na noite anterior e que a conversa com a família durante o café da manhã lhes roubara o apetite. Agora, estavam merecendo uma farta e gostosa refeição.
Foi um momento de cumplicidade do qual Rose não se esqueceria.
Trinta minutos depois, eles estavam percorrendo a estrada íngreme e sinuosa rumo ao alto da montanha.
— Que lugar maravilhoso! — Rose exclamou ao admirar as colinas repletas de ciprestes e o vale, lá embaixo, com suas videiras, cortado pelo rio.
— Você ficará ainda mais impressionada com a vista daqui alguns minutos — Joseph prometeu.
Em poucos instantes, eles estavam caminhando entre as flores. Fossem os saltos altos ou a emoção, Rose sentia as pernas trêmulas. O modo como Joseph estava olhando para ela parecia de um namorado. Ela não conseguia evitar esse pensamento.
Quando tropeçou, ele a segurou com força e em seguida a abraçou de encontro ao peito ao mesmo tempo em que ria, divertido.
— Suas pernas são bonitas demais para quebrarem — ele brincou e beijou-a rapidamente nos lábios.
Rose não resistiu quando ele fez isso. Parou e abraçou-o pelo pescoço para reclamar um beijo de verdade. Joseph não resistiu. Quando ela deu por si, estavam sentados na relva.
Poderiam ter transcorrido horas, dias ou meros minutos, quando os dois se afastaram, ofegantes. Joseph estava desabotoando- lhe a blusa. Ela hesitou. Queria fazer amor com Joseph todos os instantes, mas sexo apenas de repente não era o bastante.
— Estou com fome.
Ele se afastou e sorriu.
— Eu também, eu também. Mas posso esperar até terminarmos de comer.
Rose fitou-o. Ele se pôs a rir e a desembrulhar o almoço.
— Você disse que estava com fome. — Ele comentou e serviu as panquecas de queijo e presunto que havia comprado.
Rose pegou o prato e cogitou o que poderia fazer. Não acreditava que fosse conseguir comer. De certa maneira, ela havia saltado de uma situação impossível para outra.
Joseph estendeu a mão e acariciou seu rosto com tanta delicadeza que a deixou angustiada. Porque nada que ele fazia era motivado pelo amor e sim por sua necessidade de sexo.
— Rose, o que a está preocupando?
Ela se obrigou a sustentar aquele olhar, mas não conseguiu parar de pensar que a única razão daquele passeio era o desejo de Joseph de lhe fazer amor longe da vigilância da família e dos empregados. Porque era só para isso que ele a queria além de cumprir com o que acreditava ser um dever de honra. E agora ele iria pensar que ela estava se comportando de maneira infantil ao lhe negar o que oferecera na noite anterior sem constrangimento.
O suspiro brotou das profundezas da alma. Ela não poderia mais calar. Se isso significava o rompimento do compromisso, que assim fosse.
— Sinto-me como uma marionete. Estou sendo manipulada porque não tenho escolha.
— Você não é uma marionete — Joseph retrucou. — É uma mulher de carne e osso que me dá muito prazer!
— Sexo! Trata-se apenas de sexo!
— O que há de errado com isso? — Joseph sorriu e á deixou ainda mais tensa. — Acho que você gosta tanto quanto eu.
Rose abraçou as pernas e apoiou o queixo nos joelhos.
— Daria para você me levar a sério?
Joseph parou de sorrir e lhe estendeu a mão.
— Está bem. Conte-me. O que está acontecendo?
Bastou Joseph usar aquele tom gentil para ela sentir vontade de chorar. Amava-o tanto que chegava a doer. E não podia contar a ele essa verdade.
— Estou cansada de ser manipulada pelas pessoas. Primeiro foi Victor. Depois meus pais. Eles tornaram impossível minha recusa em aceitar o convite para vir a Toscana. Aqui, por causa da saúde de seu pai, embora ele não tenha culpa, não tive saída a não ser prolongar minha estadia. Agora, veio você com todas aquelas razões lógicas para nos casarmos!
Joseph enxugou uma lágrima que deslizou pelo rosto de Rose.
— Você poderia ter recusado. Você tinha escolha.
— Que escolha? Entre voltar para a Inglaterra e oferecer uma vida de sacrifícios para meu bebê ou ele crescer cercado de conforto e do apoio da família? Que espécie de escolha é essa? Como sempre, eu tive de tomar o único caminho que minha fraqueza permitiu.
Joseph fechou os olhos. Era chegada a hora da verdade. Era o momento de dizer que ela e Sam teriam o mesmo conforto caso ela optasse por retornar a Inglaterra, pois a família cuidaria deles da mesma maneira.
Com certeza, porém, Rose seria mais feliz na Itália. Seu pai a amava como se fosse sua filha e precisava do convívio com o neto.
Quanto a ele, se fosse sincero consigo mesmo, admitiria que estivesse gostando da ideia de casar outra vez. Depois de dez anos sem praticar sexo, a ideia de ter uma esposa com quem partilhar sua cama era extremamente agradável. E com seu temperamento, Rose poderia atrair homens inescrupulosos. Era preciso protegê-la.
— Você fez sua escolha e foi corajosa — ele falou. — Concordou em passar o resto de sua vida comigo para o bem de seu filho, sem saber realmente se eu poderia me tornar um bom marido.
Joseph levou as mãos de Rose aos lábios e beijou-as.
— Juro que você nunca se arrependerá de ter casado comigo. Serei leal e nunca farei nada para magoá-la. Eu... Eu gosto de você. — Naquele momento de hesitação, Joseph reconheceu a verdade. As palavras que ele queria ter dito significavam mais do que gostar.
Ele precisara se contiver para não dizer que a amava.
Joseph respirou fundo. Ele havia jurado não amar mais ninguém depois da morte de Flávia. Mas a promessa foi quebrada porque ele amava tudo em Rose. A beleza de seu sorriso, a nobreza de seu caráter, a preocupação com o bem-estar dos outros mais do que o seu próprio, sua doçura, sua natureza generosa e apaixonada.
De coração aberto, Joseph a fez abraçá-lo pelo pescoço e ficou olhando dentro daqueles olhos por um longo tempo. Achava que seria um erro falar sobre seus sentimentos quando ela estava tão sobrecarregada de emoções com tudo o que lhe acontecera. Precisava lhe dar tempo e ensiná-la a amá-lo. Nunca se tratara dos interesses do pai ou da criança. O verdadeiro motivo que o levara a pedi-la em casamento, embora ainda não soubesse, era seu amor por ela. E era por isso que ele podia afirmar com certeza:
— Confie em mim, Rose. Será perfeito. Dará tudo certo.
Fale com o autor