Os Millers

1 Visita Indesejada


Notas iniciais
"Para que a vida seja suportável é preciso habituar-se as injúrias do tempo e as injustiças das pessoas." - Professor Jeronimo

— Eu atendo! — Rose se levantou de um salto ao toque da campainha.

Visitas eram raras no pequeno apartamento, localizado nos arredores da cidade industrial de Pensilvânia, onde ela vivia com os pais desde seu nascimento vinte e um anos antes. Prin­cipalmente às nove horas de uma noite chuvosa.

Rose já se encontrava quase à porta quando se deu conta de que estava com seu bebê nos braços. No ímpeto de atender, não lhe havia ocorrido deixar Sam com sua mãe ou com seu pai ou mesmo no sofá da sala. Qualquer oportunidade de dis­tração era bem-vinda após quase um mês de isolamento. Mesmo que fosse alguém apenas pedindo algum tipo de informação ou querendo vender algo.

Antes de abrir, contudo, ela ajeitou o xale para proteger seu filho de um possível golpe de ar e afastou para trás da orelha uma mecha de cabelos que havia lhe caído no rosto.

Quem quer que fosse o visitante estava tocando pela segunda vez quando ela finalmente o atendeu e desejou não tê-lo feito.

A sua frente, encontrava-se um representante da poderosa família Miller. Por mais que tivesse tentado se convencer de que os parentes de Victor jamais saberiam o que havia acontecido, e que mesmo que descobrissem seu endereço, por algum capri­cho do destino, ninguém se interessaria por sua sorte nem a de seu filho, ali estava á prova de seu engano.

Eles não apenas a localizaram como vieram bater a sua por­ta. Porque aquele estranho de cabelos e olhos escuros e pele clara; não negava sua origem italiana. Assim como o modo ar­rogante e sério de encará-la não escondia seu charme sensual.

Bastava olhar para aquele homem para ter certeza de que não era jovial e sonhador como Victor. Além de ele ser uns dez anos, mais velho a seriedade de sua expressão o revelava.

Victor, o pai de seu bebê, tinha vinte e seis anos quando um acidente o levou, seis semanas e quatro dias antes...

Victor a enganara e à esposa, e ela não ficaria surpresa se alguém lhe dissesse que deixara outras vítimas.

— Rose Makepeace?

Rose não conseguiu responder. Suas cordas vocais, nor­malmente ativas, estavam paralisadas de choque. Aquele ho­mem não apenas conhecia seu endereço, mas também seu nome completo. Por outro lado, quem era ela diante da influente fa­mília a que Victor pertencera? O que estariam querendo dela? Levar seu filho com eles só porque em suas veias corria o sangue dos Millers?

Era tarde demais quando Rose voltou a si e tentou fechar a porta.

— Constrangida demais para ter a coragem de me receber? — o homem zombou após dar um passo para dentro do hall, onde a examinou desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos ombros até os chinelos que imitavam dois sapos, presente de uma amiga antes de ela ir para a maternidade. — Entendo sua situação, mas sou franco em dizer que não esperava esse tipo de comportamento — ele continuou. — Assim como não espero que se faça de inocente sobre o fato de ter sido a outra na vida de meu irmão. Sei muito bem quais são seus planos. No íntimo, aliás, você deve estar feliz com minha presença aqui.

Rose pestanejou. Feliz? Como poderia estar feliz se aca­bara de ser localizada e temia que lhe tirassem seu filho?

No fundo, porém, ela admitia que fosse a única culpada pela situação. Seus pais haviam se cansado de aconselhá-la para que não comparecesse ao funeral de Victor. Eles a avisaram, que a família ficaria chocada ao vê-la e que isso pareceria uma afron­ta à viúva.

Mas ela se recusou a dar ouvidos ao bom senso. Sentia que precisava se despedir do homem com quem esperava se casar assim que ele tivesse condições de sustentar uma família. Não importava que Victor não tivesse sido leal e merecedor de seu amor e de sua confiança. Embora ele a tivesse abandonado à menção da gravidez, ela continuava se sentindo ligada a ele pela criança que estava esperando.

Esconder uma gestação de oito meses não foi fácil, é claro. Ela se esforçou para isso, ficando atrás das colunas da igreja. Não esperava que a emoção fosse traí-la a ponto de precisar ser socorrida de uma ameaça de vertigem.

Tinha vaga lembrança de ter sido levada para fora do recinto. Alguém lhe deu um copo d'água e indagou sobre seu endereço. Zonza, ela o forneceu e em poucos instantes foi colocada dentro de um táxi por um homem cujo rosto ela jamais conseguiria recordar.

Os dias passaram e com eles sua preocupação. A rapidez com que foi tirada de cena deveria ter servido para tranquilizá-la de que tudo que os Millers queria era se verem livres de seu assédio.

Naquele momento, contudo, ela estava sendo obrigada a ad­mitir que o desagradável episódio não significara o fim, mas sim o começo de seu pesadelo.

— Não fiz nada de que deva me envergonhar — Rose protestou.

Ela amava Victor e o admirava por seu esforço em economizar cada centavo que ganhava como cozinheiro para abrir seu pró­prio restaurante. Acreditou em seu amor e em sua promessa de que eles se casariam assim que ele tivesse condições finan­ceiras para isso.

Não sabia que Victor já era casado e que tudo que lhe dissera era mentira. Não era justo, portanto, que aquele homem viesse a sua casa para ofendê-la.

— O que veio fazer aqui?

— Satisfazer a vontade de meu pai — ele respondeu seco. — Por mim, eu não teria vindo. Fui contra a ideia de contatá-la. — Rose percebeu que o homem cerrava os punhos. — Uma carta amassada, escrita em tom histérico e assinada por Rose Makepeace, foi encontrada no que sobrou do carro de Victor. O endereço coincidia com o da mulher que eu coloquei em um táxi no dia do funeral. Como pode perceber, não precisei contratar nenhum detetive para entender sua estratégia de cha­mar a atenção sobre si e sobre o filho de meu meio-irmão.

Negar a paternidade de Sam seria inútil, mas foi essa a primeira reação de Rose.

Afinal, o tal meio-irmão de Victor não tinha motivos para acusá-la. Ao contrário. O anormal teria sido ela ficar indiferente quando Victor sumiu. Quem não tentaria procurar o noivo no local onde ele dizia trabalhar e descobrir o motivo de seu desaparecimento?

Quem não deixaria uma carta aos cuidados do dono do restaurante ao ser, informada de que o noivo era um dos melhores clientes e não um simples cozinheiro?

Fazia quase um mês que ela não o via. Victor sabia que ela estava esperando um filho dele. Algo terrível deveria ter acon­tecido para justificar seu silêncio. Era a única explicação.

Não passou muito tempo até que a notícia da morte de Victor saísse nos jornais e suas últimas esperanças caíssem por terra. De que ela menos precisava, portanto, quando sua sensibilidade ainda estava à flor da pele com o trauma da mentira e da perda, seguida pelo nascimento de seu bebê havia quatro semanas, era ouvir acusações.

— Perdoe-me se não sei me expressar como uma poetisa — Rose respondeu com raiva e ironia. Todo seu corpo tremia de indignação. — Por outro lado, como a carta não lhe era en­dereçada, não me sinto no dever de lhe dar explicações. Faça o favor de sair.

Foi o mesmo que mandá-lo se sentar e ficar à vontade. O irmão de Victor não se moveu do lugar.

— Nas circunstâncias, recomendo que se contenha. Posso resolver dar minha missão por encerrada e abandoná-la e a criança à própria sorte. — Ele estreitou os olhos. — Tenho ab­soluta certeza de que não é isso que você tem em mente.

Joseph seria capaz de apostar sua fortuna que Rose Makepeace estava mentindo e que sua atitude defensiva fazia par­te de seu jogo.

Por ele, jamais teria colocado os pés naquela casa. Mas seu pai fez questão de nomeá-lo como seu procurador e ele não teve escolha exceto procurá-la e tentar convencê-la a levar a criança para uma visita ao avô.

— Rose, quem está aí com você? — A pergunta ainda não havia ser acabado de ser feita e o pai de Rose já estava encarando o desconhecido com a mesma expressão carrancuda que vinha ostentando desde que soube sobre a gravidez da filha e do simultâneo desaparecimento do responsável.

— Está tudo bem — Rose murmurou. — O cavalheiro já está de saída.

Mas o "cavalheiro" tinha outras ideias e não parecia incomo­dado com a hostilidade com que estava sendo tratado.

— Sr. Makepeace. — Ele estendeu a mão. — Sou Joseph Miller. Victor era meu irmão por parte de pai. Desculpe o in­conveniente da hora, mas estou aqui a pedido de meu pai. Ele me chamou em caráter de urgência e estou vindo direto de Florença.

Rose estreitou os olhos. Ninguém precisaria ter vindo a sua casa para lhe dar informações sobre a privilegiada situação financeira em que se encontrava a família de Victor. A imprensa se encarregou de divulgar que os Millers eram donos de um banco com filiais em diversos países. Seu noivo, longe de ser um cozinheiro, era o diretor da filial de Londres.

Sam conseguiu tirar os bracinhos de dentro do xale, naquele instante, e deu seu primeiro aviso de que estava outra vez com fome.

Rose olhou para o pai e o encarregou, em silêncio, de aten­der o visitante. Seu bebê era sua prioridade. E ela não tinha nada a tratar com aquele homem. Porque se ele estava ali para tentar reclamar seu filho, ela não lhe daria ouvidos. Daria a única resposta possível: que ele procurasse um advogado. Em seguida, arrumaria as malas e desafiaria quem quer que fosse a encontrá-la e a seu bebê.

Quarenta e cinco minutos depois; certa de que o irmão de Victor já havia partido, Rose colocou Sam no berço, ao lado de sua cama, e desceu para conversar com seus pais e saber a título de que o italiano se deu ao trabalho de procurá-la.

A cor desapareceu do rosto de Rose ao chegar à sala e encontrar o homem sentado, confortavelmente, na poltrona fa­vorita de seu pai, diante da lareira.

O jeito como ele ergueu a cabeça e fitou-a com aqueles olhos escuros carregados de desprezo fizeram o coração quase parar de bater em seu peito.

— Rose... — A voz de sua mãe parecia mais calma do que ela se habituara a ouvir nos últimos meses. Um arrepio de apreensão a fez estremecer. Mais do que calma, sua mãe estava sorridente.

Por não saber que outra atitude tomar, Rose obedeceu ao chamado. Mas antes que conseguisse chegar ao sofá, um dos chinelos enroscou no tapete e ela quase caiu.

Nunca se sentira tão ridícula em sua vida. Deveria ter se­guido o conselho de seu pai e jogado fora o presente de Elizabeth. Mas ela não teve coragem de fazer isso com receio de magoar a amiga.

Assim que se sentou, sua mãe lhe deu um, tapinha, carinhoso na mão. De repente, em vez de recriminá-la, sua mãe estava parecendo orgulhosa de seu feito.

— O Sr. Joseph Miller tem um convite para lhe fazer, Rose — a mãe avisou.

O italiano se levantou e apanhou o paletó que havia deixado em uma cadeira. Se não estivesse vendo com seus próprios olhos, ele não acreditaria. Seu meio-irmão, assim como a mãe, Christine, com quem seu pai se casou cinco anos após ficar viúvo da primeira esposa, nunca soube o significado da palavra fidelidade.

Desde garoto, Victor manifestava preferência por mulheres altas, magras e sofisticadas. Não dava para entender seu inte­resse por aquela jovem simples e mal vestida, com aquelas hor­ríveis coisas verdes nos pés!

— Sinto muito, mas estou atrasado para um compromisso — Joseph se desculpou ao mesmo tempo em que consultava seu relógio de pulso de ouro. Estava ansioso para se afastar daquela mulher que seu pai insistia em conhecer, apesar de todo o es­forço que ele fez para dissuadi-lo da ideia.

— Seus pais lhe relatarão a conversa que tivemos. — Ele inclinou a cabeça em despedida. — Voltarei em seis semanas. Em breve, uma de minhas secretárias entrará em contato para informar a data e o horário exatos.

Rose pestanejou. O que lhe interessava o que uma das secretárias dele pudesse ter para lhe dizer? E o que significava aquilo sobre ele voltar dali a seis semanas?

Rose ainda não havia saído de seu estado de estupor quan­do o pai acompanhou Joseph Miller à porta e sua mãe se des­manchou em elogios.

— Que homem atraente e gentil! Que cavalheiro! Completa­mente diferente do meio-irmão...

— Victor só esteve aqui uma vez. Você não o conheceu...

Na verdade, Rose precisara trazer Victor quase arrasta­do para apresentá-lo a seus pais. Custara a convencê-lo. Pre­cisou, inclusive, fazer uma pequena chantagem. Disse que só concordaria em passarem um fim de semana juntos caso ele fosse conversar com seus pais sobre sua intenção de casarem assim que sua condição financeira permitisse.

Uma pequena viagem seria a comemoração do noivado que eles pretendiam manter em segredo. Victor disse que conhecia um lugar perfeito e que a entrega mútua seria um símbolo muito mais importante do amor que sentiam um pelo outro do que a troca de alianças.

— Uma vez foi o suficiente — a mãe retrucou. — Você de­veria estar cega para não perceber que ele não era digno de confiança.

Como vinha acontecendo todos os dias, desde o desapareci­mento de Victor, Rose sentiu os olhos arderem de lágrimas. Seus pais teriam razão? Ela era o único ser em todo planeta que acreditava em tudo que lhe diziam? Que não via maldade em nada?

Um minuto depois, Rose enxugou os olhos. Não. Não era mais uma garota ingênua. Reconheceu a maldade no olhar da­quele Joseph Miller no instante que lhe abriu a porta. Se sua mãe tivesse escutado a conversa que tiveram não usaria o termo cavalheiro para descrevê-lo...

Subitamente, um brilho de esperança surgiu nos olhos de Rose.

— Vocês explicaram a ele que eu não sabia que Victor era casado? Que eu não fazia ideia de que a família dele era rica?

Talvez o encontro não tivesse sido tão difícil se ela não preci­sasse se afastar para cuidar de Sam. Na verdade, eles não tiveram oportunidade de conversar sobre o que realmente importava.

— Não foi necessário. Uma vez que ele teve certeza da iden­tidade do homem que a engravidou, nós achamos por bem não tocar mais no nome do morto. Afinal, eles eram irmãos. De que adiantaria ficarmos enumerando os erros que ele cometeu com você?

Ao menos, seria uma tentativa de defender sua honra, Rose pensou com tristeza.

Ninguém poderia avaliar o choque que levara ao acordar uma manhã e ver o rosto de Victor estam­pado na primeira página do jornal. Um choque que se tornou ainda mais violento quando ela leu o texto ao lado.

"Victor Miller, filho caçula de Eduardo Miller, ban­queiro internacional, perdeu a vida tragicamente quan­do sua Ferrari se desgovernou. Sua acompanhante, a modelo Kristi Hall, sobreviveu ao acidente e está fora de perigo. Victor deixou uma viúva..."

Um nó na garganta a impediu de falar por um momento. Quando se refez da emoção, Rose se levantou e pediu licença para ir para seu quarto.

— Não quer saber, antes, a razão da visita de Joseph Miller?

Rose respirou fundo para tentar controlar a vontade de fugir de tudo e de todos.

Talvez fosse melhor saber de uma vez. Assim teria tempo para se preparar caso tivesse de tomar uma medida drástica para proteger seu filho.

Mas antes que sua mãe tivesse chance de lhe contar, o pai se reuniu a elas.

— Então, Rose, que acha da ideia de se mudar para Toscana e viver cercada de luxo?

Notas finais
Espero que gostem. Por favor, comentem e digam o que estão achando!Beijos da Dream :*