Os Millers

3 Villa Fontebella


Notas iniciais
"A tragédia do homem é o que morre dentro dele enquanto ele ainda está vivo." - Albert Schweitzer

Rose não teve condições de apreciar as viço­sas trepadeiras repletas de flores azuis que se enroscavam às colunas de mármore ao redor da mansão.

Desceu do carro como um autômato quando o motorista pa­rou após seguir um longo e sinuoso caminho ladeado de árvores altas e copado.

Suas pernas tremiam tanto que ela precisou se segurar à porta e respirar fundo na tentativa de se acalmar.

O lugar era magnífico. Os jardins florentinos estendiam-se a perder de vista. Á distância, suaves colinas enfeitavam o ho­rizonte. Nos arredores, oliveiras e parreirais cobriam as encos­tas.

Rose umedeceu os lábios com a ponta da língua e olhou para o céu. Mas nem sequer o calor do sol conseguiu colorir suas faces pálidas nem fazer cessar os tremores de ansiedade. Desde o momento que Joseph lhe fez acusações sobre ela ter tido um filho de Victor para tirar vantagens de sua família e a ameaçou de lhe tomar Sam, o pânico a dominou.

O silêncio que os envolveu após a declaração da sentença foi quase tangível. A partir dali, a cada quilômetro que percorria ela se sentia mais trêmula e enjoada. A cabeça latejava. Mais de uma vez, Rose não soube se cruzava os braços sobre o estômago para protegê-lo ou se massageava as têmporas.

Ainda no carro, Sam acordou e deu mostras imediatas de que estava com fome. Ela tornou a entrar no carro e quis livrá-lo dos cintos que o prendiam, mas não conseguiu. As lágrimas escorriam por suas faces enquanto sussurrava palavras de carinho e conforto.

Do lado de fora, Joseph fiscalizava a tarefa do motorista de retirar a indesejável bagagem do porta-malas e entregá-la a Ugo, um dos empregados mais antigos de Villa Fontebella.

Sem paciência para esperar, Sam se pôs a berrar a plenos pulmões.

— Mamãe irá tirá-lo daí em um segundo, querido — Rose prometeu com valente otimismo embora se sentisse desespera­da e não conseguisse destravar o mecanismo de segurança de maneira alguma.

— Eu faço isso — Joseph abriu a porta do outro lado e tirou o bebê do cesto em questão de segundos.

No colo de Joseph, Sam parou de chorar como por milagre. Rose viu a cena, pestanejou e parou de respirar ao surpreen­der a transformação que se operou no rosto sisudo ao sentir o bebê se aconchegar a seu pescoço.

O coração bateu forte diante daquele sorriso luminoso em­bora não tivesse sido endereçado a ela. Um instante depois, a sensação de frio interior foi substituída por uma onda de calor.

O que estava acontecendo com ela, afinal? Aonde fora parar seu bom senso? Ou nunca o tivera como diziam seus pais?

Com supremo esforço, Rose se obrigou a saltar do carro e reclamar Sam. Por mais frágil e vulnerável que estivesse se sentindo, ergueu o queixo juntamente com os braços.

Joseph encarou-a.

— Eu levo o bebê — ele disse ao cabo de um minuto, após notar os olhos úmidos e avermelhados. — Você parece estar à beira de um colapso.

Rose ficou tão indignada com a observação que precisou de alguns segundos para se controlar antes de segui-lo. Se seus nervos estavam em frangalhos á culpa era inteiramente dele. Sua única esperança era ser recebida por pessoas mais huma­nas do que aquela estátua de gelo.

Como um soldado que voltava vitorioso, da guerra, Joseph marchava pelos degraus de pedra que conduziam á casa. E Sam era seu troféu. Rose respirou fundo, mais uma vez, e se apres­sou a alcançá-lo. Quem Joseph pensava que era para carregar seu filho contra sua vontade?

Ela estava ofegante ao chegar aos últimos degraus. Quando pensou que iria conseguir se colocar ao lado de dele, Joseph se virou e segurou-a com força pelo braço.

— Para que a pressa? Falta pouco para você concretizar seus sonhos!

Rose não respondeu. Não poderia. Joseph estava tão zan­gado que a fitava como se ela fosse uma grande inimiga. Não viu quando ele hesitou e não poderia adivinhar que ele estava sentindo uma pontada de arrependimento e de compaixão. De repente, ele estava se dando conta de que sua palidez não po­deria ser fingida.

Deus! Talvez o desmaio no funeral também não tivesse sido uma encenação. Talvez a moça estivesse se sentindo realmente mal. Não apenas naquele dia, mas também naquele momento, bem ao lado dele!

O gesto se tornou amável em vez de punitivo.

— Descanse primeiro. Poderá conhecer minha família ama­nhã de manhã. Vou acompanhá-la até seu quarto. O motorista já levou sua bagagem e Genevieve subirá em seguida para aju­dá-la. Foi ela que cuidou de mim e de Victor quando éramos crianças. Além de ser ótima pessoa, Genevieve fala inglês. Você não terá dificuldade para se comunicar com ela.

Rose assentiu com um gesto de cabeça. Quando retoma­ram os passos, uma tontura a fez vacilar.

Joseph a segurou rapidamente pela cintura e a atraiu de encontro ao próprio corpo.

Rose fechou os olhos e suspirou. Um simples gesto de bondade e ela já estava pronta para perdoar e para esquecer todas as ofensas. Como se não bastasse o mal-estar físico, es­tava se sentindo oprimida pelo luxo da decoração: bronze, cris­tais, mármores, porcelanas. Tudo ali era bonito e caro. Não era seu lugar!

— Acha que consegue subir mais alguns degraus? — Joseph perguntou atencioso.

Mesmo que ele quisesse carregá-la não poderia. Não enquan­to não surgisse alguém para ajudá-lo com o bebê. Seria preciso fazer Rose se sentar por alguns instantes.

A falta de um comitê de boas-vindas era compreensível. O pai estava acamado.

Quanto à tia Donatella e Lorna, sua cu­nhada, era óbvio que não veriam com bons olhos a prova viva da infidelidade de Victor.

— Claro que consigo — Rose respondeu com uma segu­rança que estava longe de sentir. Afastou-se com determinação por mais que desejasse continuar sendo amparada.

Fazia tanto tempo que não ouvia uma palavra e que não recebia um gesto de conforto, que sua vontade era fechar os olhos, e se entregar ao calor de um abraço. Seus pais não costumavam dar demons­trações de carinho. Nem mesmo Victor costumava abraçá-la e fazê-la sentir protegida. Algo que Joseph, sem saber, conseguira.

Rose passou uma das mãos pelos cabelos e se obrigou a continuar subindo, agarrada ao corrimão de ferro.

Joseph, com Sam nos braços, acompanhou os movimentos como que hipnotizado.

As curvas eram acentuadas naquele cor­po feminino. Os cabelos loiros sobre os ombros pareciam fios de ouro. Teria sido pela ingenuidade que parecia se desprender daquela jovem que seu meio-irmão se apaixonara a ponto de trair a esposa elegante e sofisticada?

Irritado com o fluxo de pensamentos que invadira sua mente, Joseph apertou o passo e se colocou ao lado de Rose.

— Por aqui — ele informou-a ao chegarem ao hall superior de onde saíam três corredores. Não olhou para ela ao falar. Não queria tornar a fitar os olhos castanhos e assustados.

Rose engoliu em seco e se obrigou a segui-lo. Nunca se sentira mais indesejada em sua vida. Cometeu um erro ao concordar em visitar aquele lugar.

Quando Joseph parou diante de uma porta, abriu-a e disse que aqueles seriam seus aposentos, Rose respondeu da única maneira que não deveria.

— Quero voltar para casa.

Ele estreitou os olhos.

— Se esse foi o discurso que ensaiou para sua chegada, esqueça.

Ingênua? Como se deixara enganar por um momento? Cada gesto e cada palavra daquela mulher eram calculados.

— Você já foi prevenida sobre o que acontecerá se fizer qual­quer tipo de ameaça a meu pai. — Joseph colocou o pequeno Sam nos braços da mãe. — Cuide dele. Mandarei Genevieve subir em um minuto.

Com o bebê junto ao peito, Rose sentiu-se mais forte.

— Não vim aqui para ficar presa em um quarto! Vim para apresentar Sam a seu pai. Quando poderei vê-lo?

Ela estava cansada de ser tratada como uma caçadora de fortunas. Não lhe interessava dinheiro, nem viver em uma man­são. O que importava era seu futuro relacionamento com o pai de Victor e avô de seu filho. Por mais que a atitude hostil de Joseph a magoasse, ela não podia levar isso em conta.

— Amanhã — Joseph respondeu. — Mandarei avisá-lo que o filho de Victor chegou bem. Por esta noite, essa notícia será o bastante. Como eu já lhe disse, meu pai está doente.

Rose acompanhou os passos de Joseph com os olhos até que ele saísse do quarto.

A gravidade do problema de Eduardo Miller não a havia to­cado realmente até chegar a Villa Fontebella. O modo como ele lhe escrevera a fez imaginá-lo como um homem bom e de­cente, mas não havia se preocupado tanto quanto ele quanto com ela própria.

No fundo, ela passou a contar com ele, de uma forma in­consciente, desde antes da viagem, para convencer de que ela não era a pessoa má e calculista por quem ele a tomara.

Era uma egoísta. Como podia se entregar a esse tipo de pen­samento quando a única alegria do pobre homem, talvez, fosse conhecer o neto e poder segurá-lo nos braços?

Quanto a Joseph, mais cedo ou mais tarde, caso permanecesse sob o mesmo teto que ela ao menos nos intervalos de suas viagens a negócios, ele acabaria se inteirando do outro lado da história. Nesse dia, então, ele a compensaria pelo mau juízo.

Com respeito a Eduardo Miller, Rose prometeu a si mesma que saberia se controlar fosse quais fossem as circunstâncias do encontro. Não diria nada que pudesse perturbá-lo ou cansá-lo.

Sam estava inquieto em seus braços. Para tentar acalmá-lo, pôs-se a andar de um lado para outro. E se deu conta, com total espanto, do incrível luxo do quarto. Nunca havia visto nada igual, nem sequer em filmes.

Uma imensa cama ocupava o centro. Aos pés, es­tava sua bagagem, ainda mais simples agora em contraste com tanta riquesa. Sentou-se sobre o carpete azul e estava vas­culhando uma das caixas à procura do forro plástico de Sam que usava para trocar suas fraldas, quando deparou com um par de sapatos pretos.

— Desculpe. Eu bati, mas a senhora não ouviu.

Rose ergueu a cabeça até encontrar a dona daqueles sa­patos e daquela voz.

— Genevieve?

A preocupação sobre a recém-chegada deixou de existir no instante que ela se abaixou com um sorriso e estendeu os braços para Sam.

— Não é de admirar que não tenha me escutado. Por que tanto barulho, bello! — Genevieve brincou. — Está com fome?

A pergunta de Genevieve se ela poderia segurar o bebê, Rose fez que sim com a cabeça.

— Dizem que os bebês parecem todos iguais, mas eu não concordo. Este garoto é a imagem do pai quando nasceu. Posso dizer isso porque fui eu que cuidei de Victor até os cinco anos quando a mãe o levou para a Inglaterra. Não que não tivesse tornado a vê-lo depois. O senhor Eduardo sempre fez questão de tê-lo consigo durante as férias escolares. — Genevieve deu um sorriso ao ver Rose se levantar com uma fralda e o trocador nas mãos. — Vamos cuidar do bebê agora? Venha comigo, por favor.

Rose apanhou também o lenço umedecido, a loção e a pomada. Quando seguiu Genevieve através da porta de comunicação, dei­xou escapar uma exclamação de surpresa.

Era o quarto de bebê mais lindo que poderia existir. Parecia ter saído das páginas de uma revista de decoração.

— Preciso fazer a mamadeira dele — Rose avisou quando a babá se pôs a mostrar o que havia nos armários.

— Sim, é claro — a mulher concordou. — Nós não sabía­mos se o bebê era amamentado no peito ou por mamadeira. Posso trocá-lo enquanto a senhora prepara o leite? Ou prefere o contrário?

Rose seguiu Genevieve, mais uma vez, e ficou ainda mais surpresa ao encontrar uma pequena cozinha com pia de aço inoxidável, chaleira elétrica e frigobar.

Sentou-se, por fim, em uma poltrona macia e recebeu seu filho dos braços da mulher.

Sem saber por que, viu-se contando sobre sua impossibilida­de de amamentar Sam.

— Eu queria muito, mas tive uma infecção logo depois do parto.

Genevieve se colocou junto à janela e notou os olhos úmidos de emoção.

— Não deve se culpar. Essas coisas acontecem. A senhora é uma boa mãe. Já vi muitas e sei a diferença. Tudo que faz é pensar em seu filho.

Rose ficou estática. Eram as primeiras palavras agradá­veis que alguém lhe dizia nos últimos tempos! Ao contrário de Joseph, que se referia a Sam como filho de Victor, Genevieve a reconheceu como mãe.

Mas a certeza plena de que poderia contar com Genevieve como sua aliada, Rose teve quando a mulher disse que era bom ter um bebê outra vez naquela casa após tantos anos. A mãe de Victor o levou embora à idade de cinco anos após o divórcio e Joseph já não vivia com o pai naquela época. Christine havia sido contratada para dar aulas de inglês a Joseph e aproveitou para conquistar seu pai. Depois que eles se casaram e ela teve Victor, convenceu o Senhor Miller a mandar Joseph para um co­légio interno, embora ele tivesse apenas seis anos.

O que significava que Joseph estava agora com trinta e dois anos, Rose pensou, e que foi afastado impiedosamente do convívio da família porque a madrasta queria que seu filho fosse considerado mais importante

— Ela nunca encontrava tempo para cuidar do filho — Genevieve continuou, — mas zelava por seus direitos porque a crian­ça era seu elo com a fortuna dos Millers. Aliás, era apenas o dinheiro do marido que a interessava porque depois que teve certeza de que seu futuro estava garantido, começou a colecio­nar amantes. O divórcio não tardou. Em minha opinião, ela preferiria ter deixado o filho aos cuidados do pai, assim ela estaria livre para viver suas aventuras, mas o Senhor Miller sempre afirmou que os filhos devem ser criados pelas mães.

A babá balançou a cabeça.

— O pobre Victor poderia ter sido mais feliz no casamento se tivesse se casado por amor. Mesmo que ele não a tivesse co­nhecido, seu casamento não teria durado. — Rose sentiu os olhos marejarem ao ver o brilho de lágrimas nos olhos da outra. — Foi uma pena ele morrer antes de conseguir o divórcio e torná-la sua mulher. Devem ter se amado muito para que um bebê tivesse nascido dessa relação. Quero que saiba que eu estou de seu lado, seja o que for que a família pense a seu respeito.

Rose quase deixou escapar um soluço naquele momento.

— Obrigada, Genevieve. Não imagina o bem que me fez ao dizer isso.

Rose ergueu Sam junto ao ombro e bateu levemente em suas costinhas. Genevieve era uma boa mulher e amou as crian­ças que estiveram sob seus cuidados. Não iria decepcioná-la. De que adiantaria ela saber que Victor nunca a amou realmente e que seu romance foi uma grande mentira?

Para mudar a conversa, Rose fez a primeira pergunta que lhe veio à mente.

— O que aconteceu com a mãe de Joseph? Como ele se sentiu quando teve de ir, tão pequeno, para um colégio interno?

Depois de fazer a pergunta, Rose cogitou sobre sua súbita curiosidade. Para Genevieve, o motivo pareceria uma forma de não evocarem uma lembrança dolorosa, mas a verdade era que ela estava estranhamente mais interessada em Joseph do que no pai de seu filho.

Corada de embaraço, Rose se levantou e colocou Sam no berço enfeitado com o que havia de mais fino em matéria de lençóis e colcha para não mencionar o cortinado em tule azul­ei aro.

— Foi outra tragédia. — Genevieve suspirou. — Joseph tinha três meses quando a mãe teve uma pneumonia e morreu. Por assim dizer, ele não chegou a conhecê-la. Era um menino muito calado. Eu vi muitas vezes o modo como Christine o tratava, deixando-o sempre de lado. Ele nunca se queixou. Era orgulhoso demais para isso. Quando foi para o colégio, não disse nem sequer uma palavra. Ele nunca demonstrava suas emoções.

Genevieve foi até a pia e lavou a mamadeira.

— Quero que saiba que não estou contando essas coisas por­que gosto de falar das pessoas. Fiz isso porque acho justo que saiba algo sobre a família da qual agora faz parte. Se forem frios, procure entender. Principalmente Joseph. Ele nunca mais foi o mesmo depois que perdeu a esposa. E ninguém se recu­perou ainda do choque da recente morte de Victor.

Rose pestanejou. Não por causa do lembrete sobre a frieza com que, provavelmente, seria tratada. Mas por saber que Joseph havia sido casado. O que teria acontecido com sua esposa? Teria se comportado como a madrasta?

Rose estava prestes a fazer a pergunta, quando Joseph entrou no quarto e estreitou os olhos ao adivinhar o que as duas mulheres estavam fazendo.

Ele havia trocado de roupa e estava tão atraente que Rose não conseguiu evitar encará-lo.

— Meu pai deseja vê-la agora ao contrário de minhas expec­tativas — disse formal. — Voltarei em dez minutos para bus­cá-la. Esteja pronta porque não quero fazê-lo esperar.