Os Millers
4 Eduardo Miller
Notas iniciais
Dez minutos!
Embora o coração de Rose batesse acelerados, seus pés não conseguiam se mover.
Parecia ter recebido ordens de um rei. Deveria perguntar se Joseph queria que ela se curvasse a sua passagem? E Sam? Teria de levá-lo consigo? Seu filho, afinal, era o único motivo de sua presença naquela casa.
Mas ele havia acabado de dormir e ela não iria acordá-lo...
Genevieve resolveu o problema de maneira prática.
— Ficarei com o pequeno até a senhora voltar. Não se preocupe. É para cuidar dele que estou aqui. E também para ajudá-la, é claro. Gostaria que eu desfizesse sua mala?
Rose agradeceu. Não era preciso. Tinha poucas roupas para tirar da mala. Aliás, precisava se apressar. Joseph lhe deu apenas dez minutos para se preparar para o encontro.
Detestava a maneira que estava sendo tratada com ordens e ameaças a todo instante.
Ao que tudo indicava Joseph Miller mal podia esperar para que ela cometesse um erro para que tivesse uma desculpa para expulsá-la do lugar e tomar seu filho. E o que ela poderia fazer contra o clã poderoso com dinheiro suficiente para contratar os melhores advogados?
O mais estranho era que Genevieve não parecera se importar com a atitude de Joseph.
Seria aceitável para ela que os homens mandassem nas mulheres do nascimento até a morte? Era esse o jeito latino de homens e mulheres conviverem?
Rose respirou fundo. Seria impossível trocar de roupa em apenas dez minutos.
Para começar, suas roupas deveriam estar amassadas dentro da mala. Ela precisaria de uma hora, no mínimo, para se tornar apresentável. Em primeiro lugar, precisava de um banho após a longa e tensa viagem. Em seguida, teria de arrumar um ferro para passar uma blusa e uma saia ou uma calça comprida.
Mirou-se ao espelho e encolheu os ombros. Uma borrifada de água no rosto e uma escovadela nos cabelos teriam de bastar. Não havia lhe dado tempo suficiente para substituir o velho jeans e a camiseta.
Ao entrar no banheiro da suíte, Rose sentiu os olhos aumentarem de tamanho. A banheira de mármore, abaixo do nível do piso, era tão grande que parecia uma piscina. As paredes eram espelhadas, do chão ao teto. Havia prateleiras de vidro com perfumes, sais e cosméticos o bastante para abrir uma loja.
Lavou o rosto com bastante água e se obrigou a respirar fundo para afugentar a sensação de tontura que novamente a atingiu. Em seguida, voltou para o quarto e estava procurando o pente em sua bolsa quando ouviu uma batida à porta.
Antes que pudesse atender, viu a porta ser lentamente aberta. A sensação de pânico fez seu estômago contrair. Sabia que era Joseph antes mesmo que ele desse um passo para dentro do quarto.
Armou-se de coragem e de um sorriso com intenções amigáveis, jogou o pente dentro da bolsa e se levantou.
— Estou pronta.
O modo como ele a fitou era um misto de incredulidade e de desprezo.
— Pretende conhecer meu pai com essa aparência? Acha que se jantar conosco com essa roupa, conseguirá que meu pai a agracie com uma pensão mais generosa?
Jantar? Pensão? Ela não havia pedido nada! Por que Joseph a estava acusando dessa vez?
O protesto assumiu controle antes que ela pudesse falar tal o rubor que lhe subiu às faces.
— Quer saber de uma coisa? — Rose cerrou os dentes e os punhos. — Eu odeio você! — Como se não bastassem seus problemas, Rose assustou-se ao descobrir, naquele momento, que era capaz de odiar alguém com todas suas forças. Justamente ela que sempre procurou tratar todas as pessoas com respeito e carinho.
— Você me deu dez minutos para me arrumar. Não. Você ordenou que eu me aprontasse em dez minutos! Como poderia se não tive tempo nem sequer para desfazer as malas?
— Maria, a camareira, já desfez suas malas. — Joseph abriu o armário e indicou as roupas penduradas nos cabides.
Rose levou uma das mãos ao pescoço em um gesto de surpresa. Estava tão indignada e afobada que não havia notado que as caixas, as malas e os pacotes não estavam mais esparramados no chão. Agora, joseph estava verificando as poucas e simples roupas que trouxera e algo lhe dizia que ele iria parar justamente...
Naquele vestido horrível!
Ela mesma o confeccionara, motivada por um arroubo de curta duração. Por sorte.
Ela poderia ter muitas qualidades, mas costurar não era uma delas.
Seu guarda-roupa cotidiano consistia de jeans, blusas e camisetas e algumas saias com estampas florais para os dias mais quentes.
— Calças compridas são ótimas para você usar no dia-a-dia — a mãe lhe disse enquanto fazia as malas, — mas não servirão para os padrões de milionários italianos. Você terá de usar um vestido à noite. Como só tem esse, não pode deixar de levá-lo.
No silêncio do quarto, Rose fechou os olhos e desejou que tivesse queimado a peça no momento que acabou de costurá-la.
— Vista. — Joseph lhe estendeu o vestido que parecia bonito à primeira vista. O tecido era fino e o tom de azul maravilhoso. Mas o caimento não poderia ser mais horrível.
No momento que ela o vestisse, Joseph se arrependeria de sua intolerância.
Rose pensou em esbravejar, mas o cinismo foi mais forte. Ela o colocaria só para ver a cara dele, depois.
— Não! — Joseph a deteve quando se virou para ir ao banheiro. — Troque-se aqui mesmo. As mulheres costumam levar horas para se aprontar e nós já estamos atrasados.
Os últimos raios do sol estavam inundando o quarto. Por um instante, Rose viu-se fascinada pelo brilho dos cabelos de Joseph e pela perfeição de seus traços masculinos.
Foi obrigada a voltar a si com um pequeno grito de protesto quando ele se aproximou, segurou a barra da camiseta e tentou tirá-la por sua cabeça.
— Como se atreve? — Rose cambaleou ao se afastar. Não queria ser vista com aquele sutiã simples de algodão que mal conseguia sustentar a exuberância dos seios, aumentados pela gravidez. Mas antes que pudesse cruzar os braços e se proteger, sentiu-se como um peixe ao ser detido por uma rede, conforme Joseph jogava o vestido por cima de seu corpo.
Ela estava emergindo, indignada e despenteada, quando viu Joseph finalmente virar de costas.
— Apenas tentei apressar os procedimentos — ele justificou em tom irônico para disfarçar a súbita rouquidão. O motivo original foi aquele, realmente, mas o resultado foi um grande erro. Rose tinha um corpo lindo e tentador. Ao ver as curvas femininas e voluptuosas, ele sentira um desejo quase irresistível de tocá-las.
De costas, Joseph fechou os olhos e apertou os punhos com tanta força que poderia ter cravado as unhas nas palmas das mãos. Não se conformava com o que estava sentindo.
A única explicação era que não tinha uma mulher nos braços havia muito tempo.
Ele esperou que os resmungos cessassem para tornar a se virar. Quando o fez, Rose estava tentando se equilibrar em um só pé para abotoar a sandália sem salto. Seu rosto estava oculto por trás da cortina de cabelos.
O vestido, que antes lhe pareceu razoável, não poderia ter um caimento pior. Ao ver Rose com ele e com aquelas sandálias, Joseph sentiu uma onda de compaixão inundá-lo.
— Satisfeito? — Rose perguntou quando finalmente endireitou o corpo e tentou ajeitar o tecido que fazia uma prega à altura dos quadris.
Rose reconheceu o tom de desafio e sentiu um súbito respeito pela jovem ao compreender como ela deveria estar se sentindo.
— Está bem assim. Bem melhor do que se estivesse usando aquelas pantufas de sapo.
O sorriso brotou espontâneo e o fez reclamar. Era radiante. Rose apresentava uma covinha no canto da boca quando sorria e seus olhos castanhos adquiriam luminosidade.
— Elas são uma afronta, não? Ganhei-as de uma amiga e precisei usá-las. Não poderia magoar Beth quando foi tão delicada comigo. Mas admito que seja horrível.
Por pouco Joseph não correspondeu ao sorriso. Para se controlar, encaminhou-se para a porta e abriu-a de par em par. Rose estava sendo sincera ou aquela cena fazia parte do jogo?
Nenhuma mulher que se propunha engravidar de um homem casado e rico e que usava o bebê por nascer como arma podia ser tão ingênua. Ela não era confiável. Porém, enquanto estivessem diante de seu pai, ele precisava ter em mente que a harmonia entre os familiares seria a melhor tática, embora falsa.
— Não era minha intenção — Joseph contou a caminho da sala de jantar. — Eu preferiria ter aguardado até amanhã de manhã para apresentá-los. Mas meu pai quis vê-la e todo pedido dele é uma ordem para mim.
Rose perdoou Joseph naquele instante por tê-la obrigado a abrir mão da segurança de seu quarto e da companhia de seu filho. Precisava parar de pensar tanto em si mesma. Não era a única pessoa do mundo, afinal, a ter problemas.
— Ele está muito doente? — ela indagou gentil. Não teve chance de ver o cinismo que voltou a se apoderar das feições masculinas. Em sua desconfiança, Joseph estava cogitando que Rose tinha motivos para se preocupar com a saúde de seu pai porque ele era seu único aliado dentro daquela casa.
— Quando recebeu a notícia sobre a morte de Victor, ele teve um colapso. Ficou tão mal que não teve condições de ir ao funeral na Inglaterra. Mas ele está se recuperando, graças a Deus, e deverá voltar ao normal segundo os médicos. No momento, o mais importante é evitar novos choques e preocupações.
Como se ela fosse capaz de querer o mal do homem que a estava acolhendo e a seu filho, Rose pensou. Seria bem mais fácil se Joseph não estivesse tão determinado a imaginar o pior a seu respeito.
Com os olhos voltados para o carpete vermelho alto e macio, Rose procurou se preparar psicologicamente para o encontro iminente. A todo instante, contudo, seus pensamentos voavam para o quarto onde Sam estava dormindo. Ela havia se esquecido de avisar Genevieve que se ele acordasse bastaria virar ele para o outro lado e acariciar sua testa para que voltasse a dormir.
Outro pensamento que ricocheteava por sua mente referia-se ao jantar. Estava preocupada com a possibilidade de conhecer outros membros da família que pudessem hostilizá-la da mesma maneira que Joseph.
Eles já haviam percorrido tantas salas e tantos corredores que Rose não pôde resistir a fazer um comentário para quebrar o incômodo silêncio.
— Se eu tiver de sair sozinha de meu quarto, precisarei me lembrar de levar um rolo de barbante para poder encontrar o caminho de volta.
— Tenho certeza de que logo se acostumará com a casa — Joseph respondeu com tanta hostilidade que Rose se arrependeu no mesmo instante de sua observação. — No momento, meu pai está ocupando uma suíte no andar térreo.
Joseph abriu a porta e Rose se deteve ao notar o ambiente em penumbra e o modo ansioso como o velho homem segurava os braços da cadeira de rodas. Uma onda de ternura a envolveu naquele instante. O avô de seu filho estava tão nervoso quanto ela por causa do encontro.
Após um rápido olhar para a enfermeira posicionada atrás da cadeira e sem ouvir propriamente as palavras de apresentação de Joseph, Rose se dirigiu ao homem e segurou a mão dele nas suas.
— Estou muito feliz em poder conhecê-lo e sinto que ainda não esteja completamente recuperado.
Um nó de emoção fechou a garganta de Rose. Eduardo Miller tinha olhos iguais aos de Joseph. Seriam lágrimas que provocavam aquele brilho? E as mãos? Ela apertou-as com carinho, estavam muito frias.
Mas não havia fragilidade na voz de seu anfitrião ao recepcioná-la.
— Seja bem-vinda a Villa Fontebella, Rose. Está precisando de alguma coisa? E meu neto? Ele está bem acomodado?
Eduardo Miller espichou o pescoço e tentou enxergar por cima do ombro de Rose, como se esperasse que o bebê fosse chegar, em seguida.
Isso a fez cogitar se Joseph teria deixado de satisfazer a vontade do velho homem. E também na razão de as cortinas estarem fechadas quando o dia estava se despedindo e as primeiras sombras visitavam os canteiros do jardim. Eduardo Miller não se sentiria melhor se pudesse ficar olhando o céu, as plantas e as flores?
— Sam está dormindo. Foi um dia cansativo para ele. Mas prometo trazê-lo para o senhor pela manhã. Tenho certeza de que ficará apaixonado por ele — Rose acrescentou com um sorriso doce. Como alguém poderia deixar de amar um bebê lindo como Sam? — Ele só tem dois meses e meio, mas é esperto e risonho. — Rose se deteve e olhou ao redor. Ao encontrar uma banqueta, apanhou-a e colocou-a junto à cadeira de rodas onde se sentou e apresentou um pequeno álbum de fotos que tirou de dentro da bolsa.
— Luz! — o velho homem ordenou e Joseph acendeu-a embora não demorasse a manifestar seu protesto.
— Não há tempo agora para isso, pai — ele disse com os olhos voltados para seu relógio de pulso. — Estamos sendo esperados para o jantar. Por que não deixa para mais tarde ou para amanhã?
Para satisfação secreta de Rose, o pai ignorou a observação. Rose sufocou um sorriso ao notar, pelo canto dos olhos, a retirada furiosa. Era uma sorte contar com o apoio do patriarca da família. Estaria perdida em caso contrário. Porque não havia dúvida de que Joseph era o homem seguinte na linhagem.
Eduardo examinou cada uma das fotos cuidadosamente. Demorou-se mais em uma das preferidas de Rose.
— Quantas flores! Você deve ser muito popular!
Aquela foto havia sido tirada por uma das enfermeiras da maternidade. Rose estava sentada no leito com Sam em seu colo. Havia tantas flores no quarto que a impressão que dava era de estarem em uma floricultura.
— As pessoas foram boas comigo — Rose contou. Estava se sentindo feliz naquela casa pela primeira vez desde que chegara. Com o prazer que demonstrara ao olhar para as fotos do neto, algo lhe dizia que Eduardo Miller já o amava.
— Estas rosas — Rose, indicou o buquê que estava á seus pés — foram colhidas especialmente para mim por Ethel Philipps, uma de minhas vizinhas. Não foi um gesto inesquecível? O pobre jardim deve ter ficado vazio e ela deve ter ficado de cama por causa do esforço. Ethel sofre de artrite há anos. — Rose suspirou. — Eu faço compras para ela. Espero que não esteja estranhando muito minha mãe.
— Sua mãe cuidará dela durante sua ausência?
— Oh, sim.
— Sua mãe sempre cumpre suas promessas?
— Minha mãe é uma pessoa honesta, senhor — Rose respondeu corada, ao notar que Joseph estava de volta e ouvia com atenção suas palavras.
Rose foi salva do constrangimento pelo súbito sorriso de Eduardo.
— Ótimo! — Ele devolveu as fotos. — Assim você não terá com que se preocupar enquanto estiver aqui conosco. Venha. Vamos jantar.
Rose pestanejou ao notar a troca de olhares entre Joseph e a enfermeira. Na verdade, ela havia se esquecido da presença da outra mulher, tão entretida que ficara com as fotos.
— Minha enfermeira é contra — Eduardo traduziu a troca de olhares para Rose. — Ela quer que eu faça minha refeição, aqui sozinho como sempre. — O homem ergueu o queixo e fez valer sua vontade. — Estou pronto, Joseph. Leve-me para a sala de jantar. Rose será apresentada agora à família.
Fale com o autor