Os Millers
5 Jantar com os Millers
Notas iniciais
Uma extensa superfície de mogno encerado e objetos de prata ou de cristal a brilharem sob os luxuosos e imponentes lustres somados a uma quantidade de talheres suficiente para servir um batalhão. Esse foi o cenário que Rose precisou enfrentar durante o jantar. No esforço de não atrair atenção mais do que o extremamente necessário, ela fez o possível e o impossível para se manter invisível à mesa.
O único a tratá-la como o ser humano simples e normal que era foi Eduardo. Mas ao menos tia Donatella e seu filho, Giovanni, lhe dirigiram pequenos sorrisos.
Bianca, a viúva de Victor, nem sequer se dignou a olhar para ela. Não que a culpasse por isso. No lugar da outra, ela teria feito o mesmo, provavelmente!
Se pudesse voltar no tempo, Rose pensou, não teria concordado em participar do jantar em família. Mais ainda, em se hospedar naquela casa. Não poderia estar mais inadequada e mais desconfortável entre aquelas pessoas. Para começar, era a única que não estava vestindo preto. Em meio ao luto, ela parecia uma afronta com sua roupa azul e branca.
Gostaria de pensar que era imaginação, mas, mais de uma vez, surpreendeu Giovanni Miller encarando-a como se a estivesse mentalmente despindo.
Joseph, quando finalmente resolveu falar, foi para recomendar que o pai voltasse para seus aposentos por já ter abusado demais por aquele dia.
— Não deve se cansar demais, pai. Hugo o levará para o quarto.
Rose aproveitou a oportunidade para se levantar e pedir licença. Sua cabeça latejava de tensão.
— Gostaria de lhes desejar uma boa noite também. Obrigada. O jantar estava delicioso.
Rose mal o havia provado. Cada prato viera acompanhado de um vinho diferente.
Ela mal os tocara incapaz de sentir apetite.
As pernas ameaçaram dobrar sob seu peso quando fez menção de seguir a única pessoa amigável que encontrara. Seus olhos pareceram perder o foco. Talvez tivesse caído e se sentido ainda mais perdida e humilhada, se Joseph não a segurasse pelo braço.
— Espere. Você tornará ver meu pai pela manhã. Ele já teve emoções o suficiente por um dia. Irei buscá-la e á seu filho às dez horas.
Rose sentiu um estremecimento quando Joseph a soltou. Queria tanto ter se despedido do dono daquela casa, mas, no fundo, sabia que Joseph estava certo. Teria sido egoísta de sua parte insistir. Eduardo precisava descansar. Além de recebê-la, ele fora obrigado a apresentá-la à irmã, ao sobrinho e à nora. E, o pior de tudo, a suportar a atmosfera pesada que reinara durante todo o jantar.
Com os olhos voltados para o chão, Rose começou a se afastar da mesa. Tropeçou em algo e pediu desculpas automaticamente. Ao notar que estava falando com um vaso de flores sobre uma mesinha lateral, seus olhos se encheram de lágrimas e ela se pôs a rir.
— Você está bêbada?
Joseph estava olhando para ela com o rosto franzido. Por mais que tentasse decidir o que fazer, Rose continuava rindo e chorando ao mesmo tempo, e seus pés pareciam não encontrar apoio em nenhum lugar, obrigando-a a vacilar.
— Não.
— Você quase não comeu. Eu percebi. Não se deve beber com o estômago vazio.
A raiva brotou no peito de Rose. De quantos outros crimes, Joseph ainda a acusaria?
— Se você tivesse observado melhor, teria visto que eu não bebi nem sequer um gole. Não gosto de vinho. Não gosto de nenhuma bebida alcoólica. — O orgulho a fez erguer a cabeça ao falar. — Estou cansada apenas. Tudo que quero é ir para meu quarto e ficar com Sam.
— Nesse caso, eu a acompanho.
— Não é necessário. — Rose esfregou os olhos. Passado o acesso de raiva, sentia-se ainda mais fraca do que antes. Tanto que não encontrou forças para continuar resistindo quando Joseph a segurou pelo cotovelo e disse:
— É mais do que necessário. Você se esqueceu de trazer seu rolo de barbante.
O sorriso que ele lhe deu e o calor da mão em seu braço a reconfortaram por mais que desejasse pensar o contrário. Ou não. Estava tão cansada que preferia não pensar em desculpas.
A tentação de inclinar o corpo e repousar a cabeça naquele ombro largo e forte invadia todos seus poros e a fazia se sentir culpada. Era uma mulher adulta e responsável.
Não aprendera com seu erro? Por que se deixava levar pela fraqueza? Tinha seu filho em quem pensar.
A súbita ideia de que Sam poderia ter acordado e estar chorando por causa de sua ausência a fez acelerar o passo.
Em poucos segundos, felizmente, Joseph parou diante de uma porta e abriu-a. O profundo silêncio a acalmou para, em seguida, acelerar seu coração. Sam estava lá? Sozinho? Onde foi Genevieve?
Como se tivesse ouvido seu chamado mental, a criada italiana surgiu.
— Eu já troquei o bebê e lhe dei a mamadeira. Ele tornou a dormir. Estarei de volta amanhã às oito horas para ajudá-la. A menos, é claro, que esteja precisando de alguma coisa?
— Oh, não, obrigada — Rose respondeu grata e confusa ao ver a mulher apanhar uma bandeja com um prato e um copo. Genevieve tivera de fazer sua refeição no quarto por sua causa. — Sinto muito. Eu não deveria ter demorado tanto.
Aquela era mais uma razão para estar arrependida de ter aceitado o convite de Eduardo. Não deveria ter jantado com a família aquela noite. Seu lugar era ao lado de seu filho.
— Que bobagem! — Genevieve respondeu com um sorriso. — Ajudá-la a cuidar do bebê é meu serviço a partir de hoje. E eu o farei com muito prazer.
A observação tinha por objetivo fazê-la se sentir melhor. Rose sabia disso. Mas não funcionou. Genevieve era uma boa pessoa, mas muito determinada. Não teria sido designada para cumprir a missão secreta de separá-la eventualmente de seu filho?
A tensão no peito de Rose a dominou. Sem esperar para ouvir o que Joseph estava dizendo à babá, Rose correu para o quarto de Sam e só conseguiu se acalmar quando viu o rostinho tranquilo e ouviu a respiração doce e suave.
Rose fechou os olhos naquele instante e jurou que seria mais segura de si no futuro. Não permitiria que outros controlassem sua vida. Cometera um erro ao vir para aquela casa, mas o dano não seria permanente. Em dois ou três dias, período que acreditava ser suficiente para não causar um choque no avô de seu filho, ela lhe agradeceria pelo acolhimento e deixaria claro que não se demoraria mais do que uma ou duas semanas. Não seria sua primeira e última visita, é claro. Tinha intenção de cultivar sua amizade e de fazer seu filho crescer em companhia do avô. Durante as férias, por exemplo, ela não se oporia que Sam ficasse com sua família italiana. Além disso, ofereceria sua casa na Inglaterra, onde Eduardo poderia permanecer sempre que desejasse, assim que estivesse recuperado de seu problema de saúde.
Talvez estivesse sonhando alto demais. Não sabia ainda se conseguiria dinheiro para as futuras passagens ou se seus pais concordariam em hospedar Eduardo. Mas tinha esperança de que daria um jeito em sua situação, mais cedo ou mais tarde.
— Satisfeita? — Joseph perguntou baixinho e a fez estremecer de susto. Em suas divagações, ela havia se esquecido da presença dele. — Como pode notar o bebê não foi sequestrado enquanto você jantava conosco nem foi maltratado. Você pode confiar em Genevieve. Ela adora crianças e tem muita experiência em cuidar de bebês.
— Eu acredito que sim e contarei com sua ajuda, quando achar necessário — Rose respondeu. Queria imprimir um tom de gratidão à voz, mas não pôde evitar uma nota de contrariedade. Não suportava aquela postura arrogante de quem achava que estava no comando de sua vida e de seu filho.
Após olhar uma última vez com total adoração para Sam, Rose saiu do quarto e esperou que Joseph a imitasse. Depois encostou a porta. Não iria fechá-la para que pudesse ouvir no instante que Sam acordasse.
Na penumbra e no silêncio de seu próprio quarto, a sós com Joseph, Rose sentiu o coração bater forte. A presença máscula a atordoava. O olhar atento exercia um efeito quase hipnótico sobre ela. Alcançava não apenas seu corpo, mas também sua alma. Ela sabia que ele precisava sair. Temia dizer ou fazer algo de que iria se arrepender mais tarde, caso não encontrasse forças suficientes para afastá-lo.
Obrigou-se a desviar os olhos dos dele. Estava correndo perigo. Uma espécie de insanidade mental havia se apoderado dela desde o instante que conheceu aquele homem. Ele a atraía como nunca se sentira atraída antes. E não podia ser.
— Por favor, vá embora — implorou com um fio de voz.
— Eu irei, assim que você comer.
— Eu já...
— Não, você não jantou — Joseph interrompeu-a. — Esqueceu de que eu também estava à mesa?
Rose quis protestar, mas não havia realmente o que dizer. Não opôs resistência, portanto, quando sentiu uma ligeira pressão na base de sua coluna e foi conduzida para a sala de estar.
Ali, sobre uma mesinha lateral entre poltronas confortáveis, Rose viu um vaso com lindas flores e uma bandeja.
— Pedi que Genevieve mandasse preparar uma ceia leve para você e que a trouxessem em seu quarto. Sem se alimentar, você não conseguirá fazer um bom sono e seu aspecto é de pura exaustão.
Joseph ergueu a tampa de inox e Rose pôde ver o vapor se desprendendo de uma aromática omelete. Também havia salada verde e uma tigela com frutas descascadas e picadas, além de um copo de leite.
— Obrigada. Foi muita gentileza — Rose agradeceu, tocada pelo gesto apesar de tudo. Ciente do desprezo que Joseph sentia por ela, a generosidade inesperada lhe deu ímpetos de chorar.
Fome, entretanto, ela não sentia. Ao contrário. Ao mero pensamento de ter de se alimentar, seu estômago deu uma reviravolta. Mas como não queria parecer ingrata nem a Joseph nem à cozinheira, esperaria até que ficasse a sós e daria um jeito de desaparecer com a comida.
— Bem — Rose torceu as mãos, — você pode ir agora. Mais uma vez, obrigada, e boa noite.
Estava enganada se imaginava que suas palavras de dispensa surtiriam efeito.
— Não sairei daqui enquanto você não comer até a última garfada.
Rose fitou-o, surpresa. Ele estava sorrindo, embora não houvesse humor em sua expressão. Não adiantaria tentar enganá-lo.
Com um suspiro, Rose apanhou a bandeja e sentou-se em uma das poltronas.
— Você é igual a minha mãe!
Joseph sentou-se de frente para ela.
— Está me comparando, eu, Joseph Miller, a uma senhora de meia-idade?
O clima tenso tranquilizou um pouco. Rose percebeu que Joseph não havia se ofendido apesar de seu protesto. Em seus olhos até parecia haver um brilho bem-humorado e uma adorável expressão risonha se apoderasse em seus lábios.
Foi como se uma pesada carga fosse retirada de seus ombros. Rose respirou fundo, endireitou as costas e se serviu de um pequeno pedaço de omelete.
Estava leve, fofa e recheada com cogumelos refogados em manteiga. Fazia tempo que ela não provava algo tão delicioso.
— Não quis dizer que você parecia uma senhora de sessenta anos. Apenas que estava se comportando como uma: dando-me ordens, dizendo o que deveria fazer.
— Não tenho sempre esse tipo de atitude — Joseph se defendeu. Fosse o tom de voz ou o modo relaxado como ele esticou as pernas e olhou para ela, Rose sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha. Naquele instante, Joseph não parecia o mesmo homem que ela conhecera.
Com um gesto deliberado, Rose interrompeu a troca de olhares e atacou o último pedaço da omelete que teve dificuldade em engolir ao ter de responder uma pergunta inesperada.
— Você sempre faz o que lhe mandam?
Joseph notou a súbita rigidez dos ombros e o relaxamento a seguir quando Rose se deu conta de que ele não a estava reprovando. Uma súbita compaixão o dominou e reforçou o novo conceito que vinha se formando em sua mente nas últimas duas horas.
O jantar havia sido um tormento para Rose apesar de todos os esforços de seu pai em colocá-la à vontade. Depois, quando ela se dispôs a se retirar para seus aposentos, aproveitando-se do recolhimento de seu pai, ele conseguiu reconhecer a extensão do sacrifício.
No entanto, em vez de oferecer apoio à criatura exausta e desorientada que estava entre eles, cometera o erro imperdoável de acusá-la de ter abusado da bebida, quando sabia que não era verdade.
— Então — Joseph insistiu, mas em tom gentil. — Você sempre segue ordens?
— Eu tento — Rose confessou com um sorriso triste. — Eu realmente tento, mas nunca consigo corresponder às expectativas. Meus pais são professores. Ambos seguiram a carreira acadêmica e não eram mais dois jovens quando resolveram casar. Meu nascimento não foi planejado, mas quando me tiveram, eles transferiram seus sonhos para mim e fizeram os mais lindos e ambiciosos planos para meu futuro. Havia uma série de opções: Direito, Medicina, Engenharia. Eles queriam que eu fosse inteligente e estudiosa. Mas eu me recusei a estudar. Fui uma tremenda decepção para meus pais.
E eles fizeram questão de demonstrar isso à filha desde sua infância, Joseph pensou com ressentimento e com uma nova compaixão. Seria esse um dos motivos pelos quais Rose parecia tão insegura sobre si mesma?
— E você? — Joseph quis saber. — O que você queria?
Rose olhou para ele e sorriu com uma inocência irresistível. Ela pareceu mais jovem naquele momento. Uma garota que ele teve ímpetos de beijar.
Joseph obrigou-se a olhar para outro lado. Que ideia absurda era aquela?
Então, a realidade o trouxe de volta por meio da única resposta que ela não deveria ter dado.
— Enquanto eles faziam grandes planos de sucesso para mim, tudo que eu queria era ter minha própria casa e filhos.
Lógico! Para conseguir o que queria, Rose havia atraído seu irmão para uma armadilha. Teria feito isso com qualquer homem? Acontecera de Victor ter simplesmente aparecido primeiro ou ela havia ido mais longe e planejado ter um filho de alguém capaz de garantir seu sustento?
Ao mesmo tempo em que a ideia lhe ocorria, Joseph não acreditava que fosse verdade. O modo de Rose se comportar não condizia com o de uma mulher interesseira. Ela não se sentia bem em meio ao luxo. Rose parecia ter medo até mesmo de tocar os copos de cristal e quebrar a porcelana quando tentou comer com os pesados talheres de prata.
— Foi por isso que você dormiu com Victor? Porque queria ter um filho?
A perplexidade não permitiu que Rose respondesse de imediato. Quando o fez, seu rosto estava corado de indignação.
— Não! Claro que não! Eu fiz amor com Victor porque ele queria demais!
O choque a fez tremer; e ela precisou fechar os olhos à lembrança. Victor chegou a implorar que ela se entregasse a ele. Dizia que a queria tanto que não conseguia mais se concentrar em seu trabalho, o que era vital para o futuro de ambos. E ela, por fim, não conseguira continuar fazendo com que ele esperasse até a noite de núpcias, tão sonhada, e lhe dera uma noite de amor em celebração ao noivado secreto.
Rose sentiu-se envergonhada à confissão e quis evitar o olhar atento de Joseph.
Mas nada no mundo conseguia impedi-la de se sentir presa e arrastada às profundezas daqueles olhos escuros.
— É sempre tão generosa Rose? — ela o ouviu dizendo como de uma longa distância. — Se eu dissesse que a queria você dormiria comigo?
Fale com o autor