Os Millers

6 A Verdade


Notas iniciais
"A bondade em palavras cria confiança; a bondade em pensamento cria profundidade; a bondade em dádiva cria amor." - Lao-Tsé

Rose estava sorrindo, satisfeita, ao observar a expressão de prazer no rosto pálido e envelhecido de Eduardo ao receber em seu colo o pequeno neto. De um mo­mento para outro, ele pareceu rejuvenescer. Brincava com Sam em seu colo, como se o bebê já tivesse condições de entendê-lo.

Um devaneio, porém, roubou a concentração de Rose e a fez lembrar a voz sexy de Joseph.

— Se eu dissesse que a queria você dormiria comigo?

Não saberia descrever o que sentiu ao ouvir a pergunta. Seu corpo inteiro tremeu, o sangue ferveu em suas veias, a boca secou. Mas a impressão mais forte que teve foi a de perder o fôlego ao mesmo tempo em que derretia por dentro.

Foi preciso reunir forças que não imaginava possuir para afastar a imagem daquele corpo alto e forte sobre o dela e as pernas enroscadas para o ato do amor. E também para se le­vantar e ordenar que ele saísse de seu quarto.

Não fora uma proposta. Joseph jamais lhe faria um convite íntimo. Aquilo fora apenas á derradeira humilhação da noite. O que a deixava ainda mais furiosa consigo mesma pela inca­pacidade de controlar suas emoções.

Não podia entender o que se passava com ela. O que estava acontecendo era terrível!

Ela havia amado Victor. Tinha certeza de seu amor por ele. Quando se deitaram juntos, porém, ela não ouviu os fogos de artifício de que os romances falavam. Não houve uma explosão de sensações. Era difícil ter de admitir, mas com um simples olhar, Joseph a fazia sentir uma paixão que não sentira com Victor. Com o pai de seu filho, seu único prazer foi saber que o fizera feliz.

Rose esfregou as mãos uma contra a outra e mudou de posição na cadeira. Seria bem mais fácil se Joseph não esti­vesse observando cada um de seus movimentos e do pai, de trás de uma das janelas da sala, com aqueles seus olhos escuros e enigmáticos.

Ela não havia notado sua presença enquanto a enfermeira estava junto a Eduardo.

Por certo, ela havia comunicado seu afastamento por algum motivo e Joseph tomara para si a ta­refa de vigilância. Como se ela ou Sam fossem cansar seu pai ou prejudicá-lo!

Se for essa a preocupação de Joseph, ele logo se afastaria de trás das cortinas, Rose pensou. O velho homem estava radiante com o neto.

— Ele se parece com o pai — disse Eduardo Miller de repente. Antes que Rose pudesse pensar em dizer algo, um som que­brou o silêncio.

Joseph estava se encaminhando para eles e atendeu ao cha­mado do celular que logo voltou para dentro do bolso de sua calça.

— Preciso sair — ele disse e olhou primeiro para o pai e depois para Rose. — Por favor, fique com ele até a enfermeira voltar.

Ela o viu se afastar com um misto de alívio e de perda. Feliz por poder ficar sozinha, sem se sentir como um espécime a ser vigiada e ao mesmo tempo ansiosa para que ele ficasse á seu lado.

— Não gostaria de me entregar, Sam? Não está cansado de segurá-lo? — Rose perguntou determinada a prestar mais atenção no avô de seu filho do que em suas preocupações.

— Não estou cansado. Segurar meu neto está me fazendo um bem enorme. E, por favor, Rose, me chame pelo meu nome. — Ele sorriu. — Nós dois temos muito que conversar. Mas antes — ele deu uma piscada para Rose, — você se importa em abrir a janela enquanto minha carcereira não volta? Não gosto de viver confinado à penumbra.

Rose se levantou de um salto. Ela concordava inteiramen­te com o avô de seu filho.

Não entendia o motivo que levava aquela enfermeira a impedir que a luz do sol trouxesse um pouco mais de vida àquela casa. Viver no escuro, não fazia bem a ninguém.

Rose pestanejou ao olhar para Eduardo na súbita clari­dade. Ela havia se enganado sobre sua idade não só quando o conhecera na noite anterior, mas também até alguns segundos antes. Ele era muito mais novo do que imaginara. Naquele mo­mento, sorrindo para Sam, ele não parecia ter mais de sessenta anos.

Incentivada pelo movimento afirmativo que ele fez com a cabeça, Rose foi mais ousada e abriu também a janela de correr que dava para um amplo terraço repleto de vasos de flores perfumadas.

— Não sou médica — Rose cochichou como se estivesse contando um segredo, — mas tenho certeza de que ar fresco e luz do sol não fazem mal.

— É o que tenho dito àquela mulher antipática que Joseph insistiu em contratar! — Eduardo afirmou com veemência. — Ela tem ideias antiquadas. Já tentei me livrar de sua presença, mas não consegui. Quando lhe dou uma ordem, ela simples­mente responde que só obedece a Joseph.

— Ele deve estar pensando que faz o que é melhor para o senhor. Mas, se quiser, posso tentar falar com Joseph sobre o que vi. Direi que em seu lugar eu também me sentiria depri­mida porque não suportaria viver fechada em um quarto escuro. Aproveitarei o ensejo e também farei uma sugestão sobre a conveniência de alguns pequenos passeios pelo jardim.

Enquanto falava a Eduardo sobre seus planos, Rose sen­tia crescer sua disposição de ajudar a pessoa que melhor a re­cebera naquela casa, sem jamais lhe dirigir um olhar de censura ou uma palavra de condenação.

Rose sabia que era uma pessoa dócil e que os outros con­seguiam facilmente convencê-la a fazer o que desejavam. Por outro lado, também sabia defender seu ponto de vista quando tinha certeza do que queria.

— Por falar em passeio — Rose apontou para as portas deslizantes de vidro, movida por um súbito impulso, — o que acha de irmos ao menos até o terraço e respirar ar fresco?

— Por que não?

O sorriso de satisfação e o grito de euforia de Eduardo ao conseguir soltar o breque da cadeira foram á confirmação ab­soluta para Rose de que ela estava no caminho certo.

Acomodou Eduardo no ponto extremo do terraço sob a sombra das videiras e apoiou-se à balaustrada de onde podia ob­servar todos os movimentos de Sam.

— O senhor tem uma linda casa. Nunca vi um jardim mais bonito. — Rose se deteve como se estivesse refletindo. — Sabe o que estou pensando? Que se construíssem uma rampa sobre uma parte dos degraus, não haveria dificuldade para su­birmos e descermos com a cadeira quando fôssemos sair para passear.

— Rose, minha cara, você é o remédio de que eu precisava! — Eduardo exclamou. — Sua ideia é esplêndida! Não que eu vá precisar desta cadeira de rodas por muito tempo, é claro. Antes do que você imagina, estarei levando nosso garotinho pela mão para pescar. Quanto a esta casa, ela agora é seu lar.

O coração de Rose quase parou de bater à constatação de que Eduardo realmente acreditava que sua permanência na Itália seria definitiva. Como poderia dizer a ele que estava ape­nas de visita e que em breve estaria levando seu neto de volta para a Inglaterra?

Não podia alimentar esperanças impossíveis. Ao mesmo tempo, não seria cruel dizer a verdade quando ele ainda estava tão fraco?

Sam começou a mover os braços e as pernas com impaciência no colo do avô. Antes que se pusesse a chorar, Rose apa­nhou-o e o colocou apoiado contra seu ombro.

Estava na hora de amamentar seu filho, Rose pensou, mas não podia se afastar de Eduardo enquanto a enfermeira não reassumisse seu posto.

Foi um alívio ver Genevieve abrir a porta do terraço. Ela po­deria fazer sua vez, agora, enquanto a enfermeira não voltava.

— Que belo trio! — Genevieve exclamou. — É uma satisfação vê-lo aqui fora, feliz com sua família, Senhor. Vim buscar o pe­queno. Está na hora da mamadeira.

Rose sentiu um aperto no peito ao entregar o filho nos braços da outra mulher.

Sabia que ele seria bem cuidado, mas preferia ser ela a cuidar de todas as necessidades de Sam. Aque­le apego seria normal? Não era uma pessoa ciumenta. Com o tempo, isso passaria?

— Não há o que temer Rose — Eduardo garantiu como se tivesse lido sua mente. — Genevieve tem experiência com crian­ças. Ela está conosco desde jovem. Foi ela quem cuidou de Joseph e também de Victor. Foi quase mãe e pai para eles. Eu, infelizmente, não me dediquei a meus filhos como deveria. Só pensava em trabalhar e esquecer meus problemas pessoais. Co­mo se não bastasse, coloquei Joseph em um colégio interno. Quanto a Victor, talvez ele tenha lhe contado que me separei da mãe dele quando ainda era pequeno e permiti que ela o levasse consigo para sua terra natal, que também é a sua. Eu o vi com certa frequência porque ele nunca deixou de passar suas férias aqui, mas não foi o bastante. Eu não deveria ter dado a ela a custódia de nosso filho. Como me arrependi! Um filho é o que temos de mais importante na vida.

Rose sentiu um arrepio de apreensão. E se Eduardo con­siderasse um neto com a mesma importância? Ele faria valer seus poderes para lhe tirar Sam quando ela manifestasse sua intenção de levar seu filho consigo para a Inglaterra? Ele a arrastaria para os tribunais como Joseph ameaçara fazer?

— Mas chega de lamentar o que já foi — Eduardo a sur­preendeu com um sorriso. — Quero me desculpar com você pelo modo como minha família se comportou ao jantar ontem à noite. Eles são boas pessoas, mas teimosos, como mulas. Quando co­locam uma ideia na cabeça, é difícil convencê-los do contrário. Ao saber sobre sua existência e que estava esperando um filho de Victor, quis imediatamente conhecê-la, sem fazer conjeturas prévias sobre seu caráter e sobre as razões que a levaram a engravidar. Basta olhar para você e ter uma breve conversa para saber que não é uma caçadora de fortunas. Qualquer um com um mínimo de bom senso consegue enxergar isso. Dê-lhes algum tempo para que a conheçam melhor. Tenho certeza de que logo mudarão de ideia a seu respeito. — Eduardo agarrou os braços da cadeira com força. — Se isso não acontecer, deixe comigo! Não ficarei aqui por muito tempo e ainda sou o chefe desta família!

Rose pestanejou diante da declaração.

— Por favor, eu não quero ser motivo de discórdia nesta casa! Por favor, não brigue com ninguém por minha causa.

— Por que não? — Eduardo insistiu. — Você é importante para mim e não tem de que se envergonhar. Victor deve tê-la amado muito. Tenho certeza de que pretendia se casar com você assim que conseguisse o divórcio de sua esposa.

Rose sentiu uma onda de ternura por aquele homem que não temia expor suas emoções.

— Eu sabia que Victor não amava Lorna e que ela tampouco era apaixonada por meu filho. Todos sabiam, aliás. O casamen­to deles foi um erro desde o princípio. Mas o que eu podia fazer? Os pais não podem decidir a vida dos filhos, nem viver por eles. Cada um precisa viver sua vida e aprender com os próprios erros.

Rose engoliu em seco. Assim como Genevieve, Eduardo es­tava encarando seu romance com Victor como um caso de amor total e eterno. Eles nem sequer imaginavam que fora tudo uma farsa, que Victor mentira e a decepcionara da maneira mais cruel possível.

Por não ser capaz de destruir a ilusão de um pai que havia acabado de perder o filho, Rose estava alimentando o enga­no. Sua presença naquela casa não deixava de ser uma farsa também. Com um nó na garganta, ela viu a enfermeira final­mente retornar.

Pensou em subir para o quarto e ficar com Sam, mas a ideia de não poder lhe trocar a fralda e alimentá-lo porque Genevieve se encarregara da tarefa a deixou tão angustiada que a fez decidir dar uma volta pelo jardim e se inebriar com o perfume das rosas.

O céu estava azul sem nuvens e fazia calor. O silêncio no jardim só era quebrado por seus passos ao redor dos canteiros.

Respirou fundo e abençoou o momento de calma e de solidão. Era bom ficar sozinha em contato apenas com a natureza após tantos percalços. Joseph não estava por perto e os outros mem­bros da família deveriam estar se preparando para o almoço. Talvez estivessem tomando um aperitivo. Fosse o que fosse não pretendia se reunir a eles. Estava cansada e, preocupada o suficiente para ainda ter de enfrentar aqueles olhares frios e cheios de suspeitas.

Havia um chafariz no centro do jardim. O lugar era adorável. Ao que pareciam todos os caminhos se encontravam naquela pe­quena espécie de praça. Ela se sentou à borda e estendeu a mão. Ao sentir a água fria em sua pele, fechou os olhos e deixou escapar um sentido suspiro.

Poderia ter caído na água tal foi o susto que levou quando sentiu o peso de uma mão em seu ombro.

Virou-se abruptamente e ergueu os olhos. A pressão em seu ombro aumentou. Não conseguiu falar. Apenas sentiu o sangue lhe aflorar às faces.

Obrigou-se a recuperar o controle. Joseph não podia perce­ber o modo como a afetava.

— Você me assustou.

— Consciência pesada? — Joseph perguntou impassível. — Acabo de falar com meu pai e de receber uma lista de recla­mações por parte da enfermeira.

— Oh, Deus! — Rose murmurou consigo mesma. — Não brigue com seu pai, por favor. A culpa foi minha. Fui eu que sugeri levá-lo ao terraço. Está tudo bem com ele, não está? — ela indagou subitamente apreensiva.

Joseph deu um sorriso sem humor.

— Ele está bem. Para ser franco, é a primeira vez que o vejo alegre e animado, em uma sessão de fisioterapia, desde o aci­dente de Victor.

Joseph notou os ombros de Rose relaxarem. Ela estava pensando, naquele momento, que não se importava com as re­clamações da enfermeira. O fato de Eduardo estar bem e alegre a compensava. E a fez se sentir mais segura.

— Não pretendo me desculpar por ter levado seu pai ao terraço.

— Ninguém está pedindo que o faça — Joseph respondeu com expressão de malícia. — Ou melhor, talvez seja isso que a enfermeira espera. Ou esperava. Porque agora ela já deve estar sabendo que eu estou com você e que já dei minha autorização para que meu pai tome sol e ar fresco todas as manhãs. Em sua companhia e de Sam.

Era a primeira vez que Joseph chamava o bebê pelo nome, Rose pensou. Antes ele sempre se referia a Sam como filho de Victor, em uma espécie de recusa a admitir a existência da mãe. O novo tratamento significava que Joseph estava come­çando a aceitá-la?

O coração de Rose transbordou de esperança ao pensa­mento, mas antes que seu corpo estremecesse de prazer, ela se obrigou a não ser tão ingênua.

Joseph a viu interromper o olhar e dirigi-lo novamente às águas que jorravam do chafariz. Precisou se contiver para não obrigá-la a fitá-lo novamente. Porque cada vez que se aproxi­mava de Rose, queria olhar em seus olhos, queria presenciar cada nuance de suas expressões, queria descobrir a verdade.

Seu pai a considerava um ser angelical. Dizia que Rose era a melhor coisa que lhe acontecera desde que podia se lem­brar. Mas a alegria de ter o primeiro neto nos braços e a felici­dade de sair ao sol e respirar ar puro poderia tê-lo confundido.

Uma forte sensação de culpa invadiu Joseph naquele mo­mento. Sua determinação em seguir à risca a orientação da enfermeira o impedira de usar seu bom senso e enxergar as necessidades de seu próprio pai. Algo que não havia acontecido por parte da mulher de seu irmão.

Imagens do primeiro encontro entre ela e seu pai desfilaram ante seus olhos. Viu a naturalidade com que Rose se colocou quase aos pés dele, o modo como quebrou o gelo ao tirar da bolsa fotos de seu filho e o diálogo que manteve com ele, como se já fossem velhos conhecidos.

Por quê? Porque ela era esperta e sabia se conduzir em qual­quer situação de modo a conseguir seus objetivos? Ou porque era uma mulher simples e ingênua cuja única ambição era ser estimada por todos?

— Você causou uma boa impressão a meu pai — Joseph declarou de um modo mais seco do que pretendia. — Sejam quais forem os motivos que a levaram a isso, trate de continuar nessa direção. Todos nós o amamos nesta casa. Não admitirei que você o magoe.

Um nó se formou na garganta de Rose. Sua ilusão fora breve. Joseph não estava começando a aceitá-la como imagi­nara no início da conversa. Ele ainda a considerava uma opor­tunista ao sugerir motivos escusos até mesmo no modo como ela tratava Eduardo.

— Era minha avó ao celular naquela hora. Ela virá almoçar conosco para conhecer o filho de Victor.

Rose sentiu que empalidecia. Não queria almoçar com nin­guém da família Miller.

Não queria conhecer mais ninguém e ser obrigada a suportar outra dose de hostilidade. Como se não bastasse, Joseph voltara a se referir a Sam como "o filho de Victor".

Rose tentou falar por várias vezes, apesar do tremor nos lábios. Era preciso. Não podia continuar calando o que tinha em mente.

— Não posso ficar aqui.

O rosto de Joseph se transformou em uma máscara de frie­za e de protesto.

— O que disse?

Rose se encolheu a presença ameaçadora, mas reagiu em seguida. Joseph não estava preparado para ouvir suas razões, mas silenciá-las seria ainda pior.

— Você ouviu! Ficarei aqui por duas semanas e apenas por causa de seu pai. Quero esclarecer tudo e deixá-lo bem quando voltar com Sam para a Inglaterra.

Joseph apertou os punhos. Qual era o jogo que Rose es­tava fazendo agora? Ela já havia conseguido manipular seu pai como se ele fosse um fantoche. Depois de conquistá-lo, ela po­deria viver ali para sempre cercada de luxo e de mordomia. O que mais ela queria?

— Eu já a preveni sobre o que acontecerá caso tente afastar a criança de nós. Você não foi enganada. Eu a avisei a respeito antes de sua chegada aqui. Sua presença nesta casa se deve à vontade de meu pai. De minha parte, você nunca teria vindo. — Joseph estreitou os olhos. — Mas agora que está aqui, aqui deverá permanecer. Se tiver exigências a fazer, faça-as agora. Mas tenha em mente, em todos os momentos, que não admitirei chantagens.

Rose fitou-o, horrorizada. Joseph estava realmente pen­sando que ela seria capaz de exigir dinheiro para concordar em permanecer na Itália?

— Nunca fiz chantagens em minha vida e não começarei agora! — Rose protestou. — Não é possível que você não compreenda que me trazer aqui foi um grande erro. Minha presença está afetando toda sua família. Eles estão sofrendo pela morte de Victor e eu não quero ser responsável por aumentar o clima de tensão e de tristeza. Procure se colocar no lugar da viúva. Imagine como ela está se sentindo ao ser, obrigada a se sentar à mesma mesa que eu, a mulher com quem seu marido teve um filho!

Por mais que se esforçasse para não chorar, a emoção fez as lágrimas deslizarem pelas faces de Rose. Zangada consigo mesma, ela esfregou, os olhos. Queria ficar calma e explicar a verdade com coerência, mas os pensamentos estavam confusos e as palavras insistiam em borbulhar de sua garganta.

— Eduardo acredita que Victor me amava e que iria se casar comigo quando conseguisse se divorciar de Lorna. — Rose hesitou. — Como eu poderia lhe dizer a verdade sem magoá-lo? Não seria mais piedoso deixá-lo acalentar a ilusão? Quanto aos outros, inclusive você, que olham para mim como se eu fosse á última das criaturas, não seria mais fácil se livrarem de uma presença incômoda que os faz lembrar permanentemente a mor­te chocante de Victor?

Rose tornou a esfregar os olhos. O que mais desejava, naquele instante, era dominar suas emoções. Ou melhor, se tornar fria e insensível como Joseph.

De repente, Rose pestanejou. Tinha certeza de que Joseph estava quase junto dela. Não era impressão. Apesar de seus olhos ainda estarem turvados pelas lágrimas, ela conse­guia identificar a firmeza com que ele a encarava. E que não mais a amedrontava.

Joseph poderia dizer o que quisesse. Po­deria fazer qualquer tipo de ameaça que ela não se deixaria intimidar. Nada a faria mudar de ideia.

A explosão de Rose fora inesperada. Por mais que Joseph quisesse mentir a si mesmo, ela o havia impressionado. Ou Rose era uma atriz brilhante, ou sua indignação era genuína.

— Qual é a verdade sobre seu relacionamento com meu ir­mão? — ele perguntou por fim.

A raiva a fez erguer o queixo e estreitar os olhos. Então agora ele queria saber?

Porque ela havia deixado clara sua in­tenção de partir? Em nenhum outro momento ele havia se in­teressado por conhecer seu lado naquela triste história. Desde o primeiro instante, Joseph havia decidido que ela engravida­ra de Victor com a única intenção de tirar vantagem de sua família rica.

— Você não gostará de saber! — Rose replicou altiva. — A verdade poderá significar uma mancha no nome precioso de sua família!

Então, Rose deixou escapar um soluço que estragou toda a imagem que acabara de criar.

Joseph tirou um lenço do bolso e entregou-o a ela com um gesto que novamente derrubou suas reservas.

— Por favor, conte-me — ele insistiu e precisou se obrigar a parar de olhar para os lábios cheios e vermelhos, porque es­tava prestes a beijá-los. — Não temos muito tempo — pigarreou. — Está quase na hora do almoço e Nonna quer conhecê-la.

Rose tornou a hesitar. Não queria falar mal de um morto, principalmente a seu único irmão, mas as acusações e ameaças a obrigavam a usar de sinceridade.

— Você não gostará de saber e, talvez, não acredite em mim, mas eu nunca tive a menor suspeita de que Victor era casado.

Joseph se manteve em silêncio por um longo tempo.

— Como vocês se conheceram?

Apesar do calor que fazia, Rose sentiu um arrepio percor­rer seu corpo.

— No café onde eu trabalhava. Ele estava sentado a uma mesa por mais de uma hora e parecia aborrecido. Minha colega Beth o havia atendido e estava preocupada que o Sr. Weston, o dono do lugar, pudesse solicitar que ele se retirasse. O Sr. Weston detesta clientes que pedem uma única xícara de café e se sentem no direito de ocupar mesas por horas.

Rose balançou a cabeça.

— Bem, o fato foi que minha amiga pediu que eu falasse com o cliente e tentasse resolver a situação. Ela estava com pena dele e o achava bonito demais para ser colocado na rua. Ainda por cima com a chuva que estava caindo. Ela disse que eu sempre conseguia ajudar as pessoas com problemas e que não custaria oferecer outro café a ele como desculpa para me aproximar.

Com um fio de voz diante das lembranças do passado, Rose continuou:

— Eu fui falar com ele e soube que estava aguardando um amigo que viria buscá-lo porque seu carro havia quebrado.

Muitas vezes ocorrera a Rose que sua vida ainda seria calma e tranquila se ela não tivesse atendido ao pedido de Beth naquela noite. Acreditava em destino. Para ela, era a única explicação. Não que lamentasse ter conhecido Victor. Sem ele, Sam não teria nascido e seu bebê era seu maior tesouro no mundo.

— Nunca pensei que tornaria a vê-lo, mas Victor voltou ao café na semana seguinte. Como eu estava de saída, ele me con­vidou para jantar em um restaurante naquela mesma rua. Dis­se que fazia questão de me agradecer pela atenção que eu lhe dera no dia em que estava nervoso e aborrecido por ter sido deixado na mão por sua velha charanga.

Joseph sentiu ímpetos de protestar ao ouvir Rose cha­mar a Ferrari de Victor de "velha charanga". Mas deixou-a continuar. Ele se lembrava nitidamente do mau-humor de Vi­ctor ao lhe contar que sua Ferrari nova em folha apresentara um defeito de fábrica.

— E depois do jantar, ele tentou alguma coisa?

— Não! — Rose respondeu de imediato. — Nós apenas conversamos. Victor me contou sobre sua vida. Disse que era italiano, mas que trabalhava como cozinheiro em Londres. Sua maior ambição era comprar um restaurante na cidade onde eu morava. Explicou que estava à procura de um terreno e que gostaria de me encontrar quando tivesse algum novo imóvel para visitar. Então, cada vez que ia a Chevington, Victor me procurava no café. — Rose respirou fundo. — Eu me apai­xonei por ele. Admirava-o por seu esforço no trabalho e por seu empenho em progredir na vida. Um dia ele disse que me amava e me pediu em casamento. Nós ficamos noivos em segredo por­que ainda não tínhamos condições financeiras para marcar a data. Victor queria ter seu próprio restaurante primeiro...

Rose se deteve e olhou para Joseph. Tinha certeza de que ele não havia acreditado em suas palavras. Como poderia? Seu irmão estava morto e não podia se defender. Se acreditasse nela, ele teria de pensar mal do próprio irmão.

— Nós não trocamos alianças porque não poderíamos usá-las sem contar às pessoas sobre nosso noivado. — As faces de Rose tornaram-se rubras naquele momento. — Ele disse que nossa comemoração seria íntima. A noite de nosso noivado sig­nificaria nossa entrega mútua. Fazia algum tempo que ele in­sistia para que eu me entregasse. Victor afirmava que me dese­java tanto que não conseguia mais se concentrar em seu tra­balho. — Rose olhou para o chão. — Juro que não sabia que ele era casado e rico. Eu só soube a verdade quando vi a notícia de seu acidente no jornal.

Joseph precisou respirar fundo. Os olhos de Rose esta­vam brilhantes de lágrimas outra vez e seus lábios tremiam. Tudo que ela dissera soava verdadeiro. De repente, todas as reservas se dissiparam e ele acreditou que ela era inocente.

Ele conhecia o irmão que tinha e não era difícil entender o porquê da atração que Rose lhe despertara. Ela era linda e feminina. Seus olhos eram grandes e expressivos.

Seu sorriso e seu modo de se comportar eram adoráveis. Sua doçura cons­tituíra um desafio ao qual Victor não pudera resistir.

Victor estava acostumado a mulheres que se entregavam após um jantar em um local elegante, um passeio em um carro veloz e luxuoso, uma garrafa de champanhe e uma joia cara. Com Rose, no entanto, fora preciso fazer promessas que ele jamais pensara em cumprir.

No entanto, apesar do choque que levou ao descobrir a ver­dade nas páginas de um jornal, Rose teve a coragem de ir se despedir do pai do filho que estava esperando, e que não o teria reconhecido caso continuasse a viver, apesar de sua frágil condição.

Tocado pelas lágrimas que viu deslizarem novamente por aquele rosto sofrido e cheio de remorso pela maneira terrível com que a vinha tratando, sem que ela merecesse, Joseph afagou os seus cabelos e beijou-a.