Os Millers
8 Pedido de Casamento?
Notas iniciais
— Como eu estava precisando disso! — Lorna exclamou, com o rosto voltado para o sol, depois de terminar seu café expresso.
Rose estava admirando a outra mulher, tão à vontade em sua cadeira, com os olhos verdes ocultos pelas lentes escuras dos óculos e os cabelos castanho-escuros jogados para trás.
Não dava para entender como Victor foi capaz de trair uma esposa tão bonita e elegante. Rose sentia-se tímida em sua simplicidade perante a outra mulher. Ela mesma não entendia o porquê da escolha de Victor.
— O motorista já deve estar cansado de nos esperar — Rose sugeriu ansiosa por voltar para casa e para Sam. — Não acha que as compras foram suficientes?
Se as circunstâncias fossem outras, nada lhe teria proporcionado maior prazer do que sentar em um café na Piazza della Repubblica em um lindo dia de sol. Mas por mais que se esforçasse Rose não conseguia se sentir à vontade naquele mundo a que não pertencia.
Bastavam as horas transcorridas de loja em loja, provando roupas que provavelmente nunca teria oportunidade de usar.
Lorna havia lhe comprado vestidos, saias, blusas, calças compridas e casacos além de cintos, sapatos e lingerie. Todas as marcas eram famosas. Alguns nomes, ela tinha certeza de que jamais conseguiria pronunciar.
Parecia cruel que tivessem indicado justamente Lorna para levá-la às compras.
Mesmo que ela não tivesse sido feliz com Victor, acompanhar às compras a mulher em quem ele fizera um filho lhe parecia de extremo mau gosto.
— Ele é pago para isso — Lorna respondeu. — Deve estar imaginando que estamos almoçando em algum restaurante. Por falar nisso, você não está com fome?
— Não, obrigada — Rose respondeu. Não queria ser ingrata, mas estava realmente ansiosa por voltar à vila e colocar um fim naquela situação.
Não esperava que Lorna fosse ler seus pensamentos.
— Relaxe. Não sou sua inimiga. Não sei quanto durou seu caso com Victor e não me importo. Você não tirou nada de mim que eu não me desejasse ver livre.
Lorna tirou um maço de cigarros da bolsa e um isqueiro dourado. Depois de acender um, tornou a falar com Rose através de uma nuvem de fumaça.
— Victor teve muitos casos durante nosso casamento. Ele não conseguia se controlar. Nosso relacionamento nunca foi dos melhores. Ele se casou amigo apenas para satisfazer o pai. Depois do que houve com a esposa de Joseph, Eduardo o pressionou para lhe dar um herdeiro.
Lorna deu um sorriso cínico.
— Fui escolhida por ser socialmente aceitável. Victor preferia modelos e atrizes, mas não teve coragem de trazer uma delas para a família. Eu não fui enganada. Aceitei o pedido porque me interessei pela posição de que gozaria ao me tornar parte de uma das famílias mais tradicionais e poderosas da Itália. Mas, mesmo com o casamento aberto que mantínhamos, acho que Victor pretendia se divorciar de mim. Nós brigávamos muito porque ele me acusava de não ter cumprido nosso acordo quando me recusei a engravidar.
Houve uma pequena pausa.
— De certa forma, ele tinha razão. — Lorna fez um movimento com o ombro. — Na verdade, nós dois nos comportamos mal.
Rose não soube o que responder. Nunca ouvira falar de um casamento mais frio e sem razão de ser. Naquela história, tudo que lhe interessava era saber sobre a esposa de Joseph. O que teria acontecido para ele estar sozinho?
Talvez pudesse aproveitar a oportunidade e perguntar a Lorna. Por outro lado, não devia aproveitar a ausência dele para parar de pensar a seu respeito?
Lorna apagou o cigarro.
— Portanto, não há motivos para você olhar para mim como um coelho assustado. Estou pronta para seguir em frente com minha vida. Não pretendo, aliás, ficar por aqui por muito tempo. Logo irei para Londres para vender a casa que ele me deixou. Quero comprar outra em um lugar mais quente. — Lorna se aproximou de Rose. — Deixarei tia Donatella e primo Giovanni por sua conta. Não ligue para eles. Trate de aproveitar para conseguir tudo que quiser enquanto Eduardo ainda dá as cartas. Eu faria isso em seu lugar. Você deu a ele, afinal, o que eu não quis dar e a esposa de Joseph não pôde dar. É a mãe do primeiro de uma nova geração Miller. Não imagina a importância que isso tem.
Lorna pagou a conta e concordou em irem embora, mas prometeu que logo voltariam para visitarem o cabeleireiro e algumas perfumarias.
Rose não estava interessada em cuidar dos cabelos nem em comprar cosméticos e perfumes. Continuava interessada apenas no homem por quem estava apaixonada.
— O que houve com a esposa de Joseph?
Lorna se mostrou surpresa.
— Genevieve ainda não lhe contou? Porque Joseph, é claro, não lhe contaria. Aquele homem é feito de gelo e só vive para o banco.
Rose sentiu que enrubescia. Ela, melhor do que ninguém sabia que Joseph não era feito de gelo.
— Houve uma época, antes de eu concordar em casar com Victor, que considerei namorar seu irmão. Joseph é mais bonito e másculo. Fazia cinco anos que ele estava viúvo, mas não demonstrou o menor interesse por mim.
— Como ela morreu?
— Foi uma tragédia. Eles estavam comemorando o segundo aniversário de casamento e ela estava grávida de três meses. Ao descer a escada, o salto enroscou no vestido e ela caiu.
Rose fechou os olhos, angustiada.
— Joseph nunca mais foi visto com uma mulher. Alguns dizem que ele mantém uma amante secreta. Ninguém sabe ao certo.
–
Três semanas mais tarde, Joseph retornou de viagem. Após cumprimentar o pai e reparar que ele estava bem mais forte e disposto, disse que estava precisando subir e tomar um banho.
Joseph não percebeu o sorriso de satisfação com que o pai acompanhou seus passos. Estava atônito e perturbado. Surpreendeu-se falando sozinho sobre ter sido uma sorte ele poder voltar uma semana antes da data prevista. Seu pai estava tendo umas ideias absurdas e precisava de alguém para chamá-lo à razão.
Assim que se viu longe dos olhos do pai, Joseph parou e respirou fundo. Seu coração batia acelerado. Precisava se acalmar para lidar com a situação. E com o pai.
Agora que estava se alimentando bem, ele já conseguia perambular pela casa com o auxílio da bengala. Não falava de outra coisa que não fosse Rose e o bebê.
Em sua ausência, Rose fizera progressos. Todos os empregados passaram a idolatrá-la. Ela não apenas se tornara amiga de seu pai como sua fisioterapeuta. Todos estavam contribuindo para o aprendizado de Rose do italiano. Cada dia ela aumentava seu vocabulário com novas palavras e frases. Até mesmo Lorna estava mais dócil e caseira.
Joseph aspirou o perfume das flores que enfeitavam a sala e estranhou tanta claridade. Deveria ser obra de Rose, também.
A enfermeira havia sido dispensada. Segundo seu pai, ele não precisava de ninguém que lhe dissesse a hora de tomar seus remédios.
A presença de Rose, naquela casa, operara um pequeno milagre, Joseph pensou.
Ele admitia isso. O que não podia admitir era que Rose tivesse quebrado a promessa que lhe fizera.
— Rose não me disse nada, mas eu sinto que ela irá embora em breve e que levará Sam consigo para a Inglaterra — o pai lhe confidenciara alguns minutos antes. — Não posso afirmar com certeza, mas acho que ela encontrou dificuldade em se adaptar a nós. Não a culpo. Depois do que aconteceu entre ela e Victor, não deve ter sido fácil ver o filho nascer sem poder colocar o nome de seu pai. Pelo bem dela e de meu neto, portanto, eu decidi pedi-la em casamento. Assim darei meu nome a ela e a Sam e garantirei a proteção e o respeito que eles merecem.
No primeiro momento, Joseph não conseguiu acreditar em seus ouvidos. Depois, o choque o fez gritar.
— Casar com ela? Em sua idade?
— Minha idade não vem ao caso — o pai replicou. — O que importa é a segurança de Rose e de Sam. O que você queria que eu fizesse? Que desse as costas á meu único neto?
Joseph ignorou a pergunta.
— Você a ama?
— Claro que sim. Eu a amo como a filha que nunca tive e que sempre desejei ter. Não será um casamento no sentido normal da palavra, você sabe disso. Eu acabei de lhe explicar meus motivos.
Joseph engoliu em seco. Seu pai queria compensar Rose pela perda de Victor.
Ele não sabia a verdade. E se soubesse sua determinação em ajudar Rose seria ainda maior.
— Você já falou sobre suas intenções a ela? — Joseph estava tão tenso que seu peito doía quando respirava. Teria chegado tarde demais?
— Não — Eduardo respondeu. — Eu não poderia me aproximar dela e lhe fazer uma proposta como essa sem antes falar com meu único filho e perguntar sua opinião. — Eduardo sorriu. — Qual é sua opinião, Joseph?
— Acho que você enlouqueceu.
Como conhecia bem seu pai, Joseph se encaminhou para o quarto com os pensamentos ricocheteando por sua mente. Quando Eduardo Miller tomava uma decisão, nada o fazia voltar atrás.
Serviu-se de uma dose de uísque para tentar se acalmar. Precisava procurar Rose e terem uma conversa. Ela era a única que poderia resolver aquele problema.
Mas, e se Rose resolvesse aceitar a proposta?
Irritado e perturbado, Joseph largou o copo e se colocou sob o chuveiro. Talvez uma ducha conseguisse clarear sua mente.
Ocorreu-lhe que nenhuma mulher rejeitaria um pedido de casamento de um dos homens mais ricos da Itália, dono de um importante banco.
Por outro lado, Rose não era uma mulher como as outras. Ela não se interessava por dinheiro. Em vez de se sentir tão irado, ele deveria procurá-la para se desculpar.
Em sua ausência, ele havia pensado muito sobre o que Rose lhe contara e se não fosse á ingenuidade dela em comparecer ao enterro de Victor e lhe escrever aquela carta, a família jamais teria descoberto sobre a existência de Sam.
Preocupado com a saúde de seu pai, Joseph a trouxera e ao filho para a casa deles.
Ao contrário do que imaginara o luxo e as facilidades a incomodaram em vez de convencê-la a continuar ali permanentemente.
Mas, e se Rose tivesse mudado de opinião durante sua ausência?
Como esposa de Eduardo Miller e dona de seus bens, ela teria amparo legal e o respeito não apenas da alta sociedade, mas também da população local.
Havia outro aspecto, contudo, a ser estudado. Com a melhora diária de seu pai, ele logo voltaria a seu estado normal. Rose era uma mulher bonita e ardente. Por quanto tempo, o casamento seria apenas no papel?
Joseph passou as mãos pelos cabelos em um gesto de nervosismo. A ideia lhe era intolerável!
–
Rose saiu do chuveiro e se enrolou em uma toalha. Foi um dia perfeito. Ou melhor, quase perfeito. Seria perfeito se Joseph já tivesse voltado de viagem.
Genevieve estava de folga e ela teve Sam o dia todo só para si. A folga de Genevieve, aliás, lhe forneceu uma ótima desculpa para não ter de acompanhar Lorna às compras.
Não que ela não gostasse de Lorna. Na verdade, elas haviam se tornado, amigas nos últimos dias o que não deixava de ser surpreendente em vista das circunstâncias.
Tia Donatella, que vivia reclamando de tudo e de todos, também parecia mais cordial e afável. Ela até mesmo a elogiou quando fez luzes prateadas nos cabelos após uma incansável insistência de Lorna.
Quanto a Giovanni, ele continuava sendo um elemento desagradável. Ainda naquela tarde, enquanto ela levava Sam passear de carrinho pelo jardim, ele se aproximou por trás e lhe disse uma inconveniência. Ela esperava que tivesse sido a última vez. De acordo com os rumores que circulavam entre os empregados, Giovanni seria transferido, em breve, para a filial do banco em Paris, para prosseguir com seu treinamento. Como a mãe deveria acompanhá-lo, ela não precisaria mais temer por sua paz.
Não que isso fosse fazer alguma diferença, Rose se apressou a corrigir sua linha de pensamento. Porque logo ela estaria voltando para a Inglaterra. Algo que ela ainda não havia comentado com ninguém, a pedido de Joseph.
A simples ideia de que ele retornaria no prazo de uma semana a fez estremecer. Mas se recusava a permitir que a excitação a dominasse. Precisava fazer um favor, a si mesma e tentar encontrar alguma distração para ocupar a mente durante o resto da noite.
Em primeiro lugar, ela iria se vestir.
Abriu uma das gavetas e escolheu um conjunto novo de lingerie preto. Depois abriu o armário e decidiu usar um dos vestidos que ainda não teve a chance de estrear.
As roupas velhas e surradas que trouxera naquela viagem estavam dobradas e guardadas na última gaveta da cômoda.
Seria uma pena deixar a linda coleção que Lorna lhe havia comprado quando voltasse para a Inglaterra. Por outro lado, não podia levá-la consigo. Nenhuma das roupas serviria para Pensilvânia e para o estilo de vida que ela voltaria a assumir. Alguém poderia imaginar uma garçonete usando roupas de grife em seda e linho e os mais finos sapatos de couro?
Ao sentir que iria suspirar, Rose obrigou-se a respirar fundo e a abotoar o vestido de chiffon com listras diagonais nas cores rosa e café que lhe caiu com perfeição.
Estava se mirando ao espelho e começando a pentear os cabelos quando alguém bateu à porta.
Certa de que era Ugo lhe trazendo o jantar, na ausência de Genevieve, ela pediu, em italiano, para que entrasse.
— Avanti! — Ugo era um dos empregados que mais se empenhava em lhe ensinar o idioma daquela terra e ela fazia questão de demonstrar seu empenho em aprender.
O sorriso desapareceu de seus lábios quando viu que era Joseph, não Ugo, que se encontrava à porta.
— Não o esperava... — Foi o que conseguiu dizer.
Ele nem sequer pôde responder. Parecia cansado e abatido e ela teve ímpetos de se levantar da penteadeira e correr para abraçá-lo.
Joseph era um homem que tinha tudo que alguém poderia desejar, no entanto não tinha nada. Joseph havia perdido a esposa e o filho antes que ele nascesse. O trauma o impedira de voltar a amar. Ou os problemas de Joseph vinham de mais longe? Genevieve lhe contara que a segunda esposa de Eduardo, a mãe de Victor, o mandou para um colégio. Teria vindo da infância a aparente frieza de Joseph? O medo de se entregar às emoções?
Uma onda de ternura a invadiu. Seria isso o amor? Essa vontade de apagar a sombra da dor e da solidão que entristecia um ente querido? Colocar-se em seu lugar e sentir necessidade de estar perto quando a razão mandava se afastar?
— Preciso falar com você antes de nos reunirmos aos outros para o jantar — Joseph anunciou sério e tão tenso que precisou se concentrar para relaxar os músculos.
Rever Rose, vestida com elegância, lhe tirara o fôlego. Agora, além de exibir o corpo mais sexy que ele já vira, Rose demonstrava classe. Seus cabelos, se possível, estavam ainda mais bonitos e brilhantes do que se lembrava. O ímpeto de tocá-los e de comprovar que eram reais foi quase irresistível.
— Não posso descer para jantar — Rose explicou. — Hoje é o dia de folga de Genevieve e... — Rose se levantou e correu para junto do berço ao ouvir uma repentina queixa de Sam.
Não fazia muito tempo que ela o havia trocado e amamentado. Não podia ser fome, portanto. Pegou-o no colo e embalou-o. Em poucos instantes, Sam voltou a dormir e ela pôde colocá-lo de volta ao berço.
O que Joseph poderia estar querendo lhe dizer? Rose cogitou enquanto dava um beijinho no filho. Prolongar sua hospedagem estava fora de cogitação. Sabia que ele tentaria fazê-la mudar de ideia, mas não estava disposta a recuar em sua decisão. Seria uma tolice continuar ali depois de descobrir que havia se apaixonado perdidamente por ele. Agora, mais do que antes, era preciso partir.
Quando voltou para o quarto, Ugo estava acabando de deixar a bandeja com seu jantar em cima do criado-mudo. Joseph o acompanhou à porta. Ao tornar a fitá-la, parecia tão desesperado que ela sentiu o fôlego lhe faltar.
O que estava acontecendo? Estar diante dela o fazia lembrar a perda do irmão? Mais ainda, dos dois ser que ele mais amara no mundo? Rose engoliu em seco. Desejaria poder confortá-lo, fazê-lo feliz, mas isso não estava em seu poder. Por mais que tivesse aprendido a amá-lo, Joseph nunca sentiria o mesmo por ela.
Incapaz de suportar o silêncio e os próprios pensamentos, Rose disse a primeira coisa que lhe passou pela cabeça.
— Você está fazendo os outros esperarem.
— Não — ele retrucou. — Usei seu telefone para pedir a Ugo que desculpasse minha ausência e que trouxesse meu jantar aqui também.
Rose corou ao ouvir isso. Joseph se conteve para não abraçá-la. Rose já havia sofrido muito. Não precisava de outro homem que não soubesse controlar seus impulsos sexuais. Rose merecia um homem que a fizesse feliz. Ele não seria capaz porque não queria se envolver emocionalmente nunca mais em sua vida.
Estava ali, no quarto de Rose, apenas para jantar com ela e conversar sobre um assunto de suma importância. Precisava alertá-la sobre os planos de seu pai e avisá-la de que faria um grande erro se aceitasse sua proposta.
Rose não conseguia evitar o tremor das mãos. Um jantar a sós com Joseph seria algo íntimo demais. E se ela não conseguisse esconder o que sentia por ele? Mentir nunca fora seu forte.
— Mães com bebês pequenos — ela tentou relaxar — nunca deveriam vestir roupas novas. Meu ombro ficou úmido depois que segurei Sam.
Sem dizer nada, Joseph foi ao banheiro e voltou com uma toalha. Quando tentou enxugar o tecido, seus dedos tocaram a pele aveludada de Rose. Ela corou e ergueu os olhos para ele.
No segundo seguinte, a toalha resvalou para o chão e os dois se atiraram nos braços um do outro.
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