Os Legados De Katie
3 Capitulo 3 – O Pingente
Notas iniciais
Estou deitada na grama fresca. No céu, dois sóis brilham fortes, vejo criaturas voadoras que nunca vi na minha vida. Um homem me levanta e brinca comigo, ele é branco, seus cabelos são castanhos escuros e ele tem expressivos olhos verdes e do lado dele vejo uma mulher ruiva que olha ternamente para mim. Eu devo ter uns três anos e o homem fala um idioma que não entendo. Outra mulher sai de dentro da casa, ela deve ter uns sessenta anos e ela estende sua mão para mim e de repente começo a voar em direção dela. A sensação é diferente de tudo que já havia sentido na vida, de alguma forma me sinto feliz, me sinto em casa. Quando a mulher idosa me pega no colo o homem e mulher vem em minha direção e me beijam e dizem mais coisas que não consigo entender. Ao vê-los partindo uma angustia toma conta de mim e sinto vontade de chorar e acabo acordando.
Abro os olhos e vejo o teto branco do meu quarto. Sento-me na cama e começo a pensar sobre o sonho que tive. Eu nunca tinha me sentido tão bem como me senti naquele sonho. O jeito que aquelas pessoas me olhavam me faz lembrar o jeito que meus pais me olham. Lembro-me dos olhos verdes daquele homem tão parecidos com os meus e o cabelo ruivo daquela mulher que até no jeito de penteá-lo se parece ao meu. Sinto uma angustia no meu peito e sinto vontade de voltar para aquele sonho, olho para o relógio e ele marca 05h58 da manhã e acabo desistindo por que em dois minutos tenho que levantar.
Espero o relógio marcar 06h00 e ele começa a despertar e me levanto da cama. Meu corpo está pesado e de repente sou pega pela preguiça de querer ir para a escola. Eu poderia usar a desculpa que não estava no clima de ir para o colégio pelo que aconteceu ontem, mas eu quero vê-lo outra vez. Wes. Quero ver seu sorriso perfeito, quero ver seus olhos azuis piscando para mim, quero escutar sua voz rouca quando ele responde a chamada.
Ao me lembrar de Wes também me lembro do convite que ele fez para mim e Melissa para a festa que ele vai dar no fim de semana na casa de praia dos pais dele. Estou ansiosa quero que o fim de semana chegue logo.
Caminho até o banheiro onde tomo uma ducha morna, por que tomar banho quente na Florida está fora de cogitação. Ao sair do banho, me olho no espelho e me lembro do homem e da mulher do meu sonho, eles são muito parecidos comigo. Quando termino de me maquiar saio do banheiro e coloco uma calça leg azul marinho, tênis e uma camiseta regata por que minhas duas primeiras aulas são de educação física e levo na mochila outra calça e outra camiseta para o restante das outras aulas. Arrumo minha cama e desço para tomar o meu café da manhã.
Chegando à cozinha e minha mãe me recebe com um lindo sorriso e gostoso “bom dia” e respondo com um beijo na sua bochecha e quando me aproximo para beija-la reparo em seu cabelo castanho claro e com mechas loiras pintadas artificialmente e depois olho meu cabelo ruivo natural. Sento-me a mesa ao lado do meu pai que está lendo seu jornal, ele veste uma camisa branca e reparo que na camisa tem o logotipo de um hospital e quando levanto meus olhos encaro seus olhos castanhos escuros e tento encontrar semelhanças entre nós.
Termino de comer meu café da manha e meu pai me leva até o colégio. Durante o caminho meu pai fala sobre seu novo trabalho como doutor no Orlando Hospital e eu apenas escuto e balanço a cabeça. Ele me deixa na porta do colégio e segue em direção ao hospital.
Caminho na direção da porta principal e logo encontro Melissa, ela veste um short curto e uma camiseta baby look mostrando dois centímetros de sua barriga.
- Sua primeira aula também é educação física? – pergunto
- Sim! – ela responde entusiasmada – acho que fomos destinadas a sermos melhores amigas.
- Também acho. – digo rindo
Caminhamos juntas para o campo de futebol e passamos pelo ginásio de basquete onde vejo Wes jogando junto com time. Ele está lindo como sempre, seu cabelo loiro perfeitamente espetado para cima, seus braços fortes para fora da camiseta regata me faz querer estar envolvida em seus braços. De repente, o tempo se fecha e vejo Jade com seu uniforme se líder de torcida me encarando como um leão quando vai devorar sua presa. Ela começa a gritar o nome de Wes talvez só pra garantir que ele não olhe para mim. Sigo caminhando para o campo de futebol junto com Melissa e vejo trinta alunos aquecendo.
- Muito bem classe terminem de aquecer e vamos começar. – Diz meu professor de educação física, ele é alto e forte, ele veste um short preto e uma camiseta justa verde com o brasão da escola no peito, na cabeça ele tem um boné e pendurado em seu pescoço tem um apito prateado.
Jade vem correndo em direção da classe.
- Por favor, me diz que ela não está nessa turma? – pergunto a Melissa
- Ela está. E o pior é que ela é uma das melhores alunas, ela detém o recorde na corrida e no salto em distancia.
Jade na frente de todo mundo abre sua camiseta de líder de torcida e por baixo ela veste um top vermelho mostrando sua barriga perfeita, quando ela tira sua saia por baixo ela está com um short preto que mostra suas pernas altas e fortes. Eu a olho de cima em baixo e não encontro nenhum “defeito” físico. “Droga!” a filha da mãe é bonita.
Enquanto os meninos treinam salto a distancia, as meninas treinam a corrida. Estamos todas paradas na linha de chegada e o professor nos deu um cronometro de pulso para marcarmos nosso tempo. Nunca pratiquei muito esporte apesar de ter uma certa facilidade, em Manchester sempre me envolvia mais com matérias que envolviam um grande esforço mental, mas saber que Jade tem dois recordes que ninguém conseguiu bate-los só me incentiva mais para quebra-los e esfregar na cara dela.
O professor apita e todas saímos correndo, Jade logo dispara e assume a primeira posição, Melissa está em quarto e eu estou em decimo primeiro apenas duas posições a frente da ultima colocação. Começo a apertar o passo e logo assumo a oitava posição, Jade segue em primeiro e Melissa caiu para sexto. Começo a reparar que todas as meninas vão diminuindo o ritmo de que começaram devido ao cansaço e eu não sinto absolutamente nada, nem ao mesmo estou suando. Corro mais rápido e agora estou em quinto uma posição a frente de Melissa, que tenta me acompanhar, mas não consegue. Acabo passando mais duas meninas e agora estou em terceiro, as duas meninas que estão na minha frente fazem parte das lideres de torcida. Jade está em primeiro e Bree uma garota negra e alta está em segundo. Me aproximo de Bree e ela começa a olhar para trás preocupada, aperto mais o passo e facilmente a ultrapasso, dou uma olhadinha para trás e vejo que Bree soa muito e eu não tenho uma gota se sequer no meu rosto. Estamos a sete metros da linha de chegada e me falta apenas dez segundos para ultrapassar o recorde de Jade. Começo a correr o mais rápido que posso e ultrapasso Jade que tenta me derrubar, mas desvio e ela acaba tropeçando e caindo da cara na grama fora da pista. Escuto varias risadas atrás de mim, mas estou concentrada e me faltam apenas dois segundos para o recorde e quando cruzo a linha de chegada todos começam a gritar e me aplaudir. O professor vem em minha direção e bate na minhas costas.
- Você corria na sua outra escola? – pergunta ele
- Não. – respondo sem graça
- Uau! Parabéns porque você quebrou o recorde da nossa melhor atleta por sete centésimos.
Fico feliz por ter quebrado o recorde de Jade na minha primeira tentativa. Ela se aproxima de mim, ela tem um pequeno corte no lábio inferior e vejo grama em seu cabelo desarrumado.
- Fique fora do meu caminho. – ela me diz com um ar desafiador
Eu me aproximo dela e tiro uma folhinha de grama de seu cabelo.
- Acho que é melhor você ficar longe do meu – digo no mesmo ar de arrogância
Ela me encara com ar de surpresa, acho ninguém a tinha desafiado antes.
- Você já era nessa escola, prepare-se pra voltar pras favelas da Inglaterra.
Abro um sorriso falso e simplesmente dou as costas e saio andando. Sinto-me forte e ao mesmo tempo estou apavorada. Eu não sou assim, nunca fui de chamar muita atenção para mim.
- Quem diria que tinha uma loba por detrás de ovelhinha. – diz Melissa me dando um tapinha na bunda.
- Eu fui uma idiota.
- Foi mesmo, mas eu adorei ver você enfrentando ela.
- Tem alguma possibilidade dela esquecer disso?
- Vamos ver... hoje é seu segundo dia de aula, dois professores te amam, você dá encima do namorado dela e ainda por cima quebra seu recorde.
- Sem chance?
- Sem chance! – diz Melissa rindo e caminhamos em direção aos vestiários.
Chego ao meu armário e reparo que ele está aberto, olho para os lados e não vejo ninguém, a primeira coisa que vem em minha cabeça é que Jade deve ter preparado algo para me chatear. Abro com cuidado o meu armário me preparando para qualquer coisa que saia de lá de dentro, mas quando abro não vejo nada de mal a não ser uma pequena borboleta que sai de dentro do meu armário. Seu corpo é preto com tons de marrom e suas asas vão de um azul brilhante perto do corpo que vai degradando até um branco perola nas pontas. Ela sai do armário e pousa no meu ombro.
Quando olho outra vez para dentro do meu armário vejo um colar azul brilhante, o mesmo colar que estava no pescoço daquela mulher que me ajudou ontem no beco e a mulher que sonhei no acidente de carro. Pego o colar e olho para o pingente que está pendurado. Ele é esférico, uma lua minguante está na parte de cima e na parte de baixo vejo cinco bolinhas enfileiradas da menor até a maior. Quando o seguro ele começa a brilhar e só então reparo que é o mesmo símbolo que tenho no meu tornozelo esquerdo. Fico receosa em coloca-lo e o guardo outra vez em meu armário.
Minha ultima aula é sobre historia americana e quando saio da classe algumas pessoas me cumprimentam, com certeza o boato de que eu enfrentei a Jade deve ter se espalhado.
- Me disseram que você foi incrível na corrida hoje mais cedo.
Olho para trás e vejo Wes. O mundo para e tudo começa a caminhar em câmera lenta, meus olhos passam por seus lindos olhos azuis e logo depois por seus lábios carnudos...
- Kat? – ele diz
- O-o-o-oi – respondo
- Estava tentando te fazer um elogio – ele diz rindo
- O-o-obrigada – digo com um sorriso idiota. Droga Kat você tem que disfarçar mais.
- Você joga de basquete?
- Sou péssima no basquete.
- Duvido.
- É serio.
- Talvez amanhã na festa possamos treinar um pouco? O que acha?
- Acho que sua namorada vai gostar muito.
- Jade? – ele diz com desdém – Nós terminamos faz quatro meses e ela acha que sou propriedade dela.
- Não pareceu que vocês terminaram ontem quando eu os vi se beijando.
Ele faz uma cara de surpresa e abre um sorriso malicioso.
- Então você estava me observando.
- Não... é... que... eu...
Ele começa a rir e se aproxima do meu ouvido e posso sentir seu perfume forte.
- Eu também estava te observando. – ele se afasta e pisca o olho para mim e sai andando. Quando recupero o folego ele olha para trás – bonita borboleta.
Quando olho para meu ombro vejo outra vez a borboleta azul, tinha até me esquecido que ela estava no meu ombro. Devo ter ficado parecendo uma esquisita desfilando pela escola com uma borboleta no meu ombro. Faço um movimento com os ombros e a borboleta voa até meu armário e caminho até ele, quando o abro vejo que o colar ainda está pulsando com um brilho azul. Pego o colar, coloco em meu pescoço e o escondo por baixo da camiseta, de alguma forma sinto que esse colar pertence a mim.
Saindo da escola decido ir a pé para casa já que não é muito longe. Caminhando pela rua sinto que estou sendo seguida e começo a andar mais rápido. Vejo um homem do outro lado da rua, ele é alto e veste um sobretudo preto, ele usa um chapéu de cowboy e tem bigodes. Ele me encara e sinto um arrepio subir por minhas costas. Começo a andar mais rápido ainda e vejo outro homem a minha frente com as mesmas características. Ambos me encaram e começo a ficar com medo, ouço um canto de um pássaro e quando olho para cima vejo um lindo pássaro com a barriga amarela e suas asas eram pretas. O pássaro voa até o homem que está na minha frente e começa a ataca-lo, o homem balança seus braços para se defender, dois cachorros de rua correm na direção do outro homem e o atacam. “O que está acontecendo?” penso, e faço um sinal para um taxi que me leva até minha casa.
Chegando em casa não vejo o carro da minha mãe e meu pai ainda está no hospital trabalhando. Quando vou abrir a porta da minha casa vejo uma carta no chão que diz: “Para Katie”. Abro o envelope e tiro uma folha branca e nela está escrito apenas uma frase: “Quer descobrir a verdade?”, olho para os lados e não vejo ninguém, viro a folha e na parte de trás diz: “Me encontre na casa abandona a três quadras daqui. E venha sozinha. D.” Sinto um frio na barriga, ao ler essa carta que parece um bilhete de resgate de um sequestro, mas tem acontecido coisas muito estranhas comigo e sinto que meus pais estão escondendo muita coisa de mim e tomo a decisão de ir.
Caminho as três quadras e quando chego à frente da casa abandonada vejo Diana, a mulher que vi nos meus sonhos e também a mulher que me ajudou quando aquele ladrão morreu.
- Fico muito feliz que você tenha vindo. – diz ela
- O que você comigo? Por está me seguindo? Por que colocou esse colar estupido no meu armário? Eu poderia te processar ou chamar a policia.
Ela abre um sorriso e vem em minha direção e diz:
- Eu estou te procurando há muito tempo.
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