Os Legados De Katie
4 Capitulo 4 – A Verdade
Notas iniciais
A casa tem um ar fantasmagórico, os moveis são velhos e alguns estão destruídos, uma parte do teto não tem telha e raízes e ramos de arvores brotam do enorme buraco no telhado. O chão é de madeira e ele grunhe a cada pisada, as janelas estão partidas e os vidros estão quebrados e um cheiro de mofo está por toda parte.
– Você mora aqui? – pergunto com nojo
– Não. – Diana responde com sorriso
Vou até o meio da sala e faço a pergunta que deveria ter feito desde quando entrei aqui:
– Quem é você? E o que quer comigo?
Diana aperta seus punhos e tenta buscar as palavras corretas, seu nervosismo é claramente visível.
– Que tal sentarmos? – Diana propõe
– Não! – digo brava – Eu não vim aqui para tomar café com você. Na carta você disse que eu descobriria a verdade, que verdade?
Diana respira fundo e olha nos meus olhos.
– Posso ver seu tornozelo?
– Meu tornozelo? Por quê? Não tem nada no meu tornozelo!
– Então você não tem motivos para escondê-lo.
– Você é louca! – digo e dou as costas e saio andando
– Você está correndo perigo.
– O que? Agora você está me ameaçando?
– Katie, por favor, deixe-me te ajudar, eu sei que estão acontecendo coisas diferentes com você.
– Não está acontecendo nada de diferente comigo! Quem você pensa que é?
– Eu sou sua guardiã. No nosso planeta somos conhecidos como Cêpans.
– Guardiã? Seu planeta? Cepan? Ok, agora você só confirmou minhas suspeitas. Você realmente é maluca. – digo saindo da casa
– Você se lembra do acidente? – ela grita
Um frio desce pela minha barriga e me lembro do acidente de carro do meu sonho, onde eu vi Diana dirigindo e homens horríveis vindo atrás de nós.
– Eu não sei do que você está falando.
Diana vem até mim e pega na minha mão.
– Eles estão atrás da gente outra vez. Você está correndo risco de vida.
– Está ficando tarde eu preciso ir embora. – digo soltando a mão dela da minha
– Você está sendo caçada por uma raça de alienígenas chamada mogadorianos, você é de um planeta chamado Lorien. Os mogadorianos atacaram nosso planeta e o destruiu, apenas nove crianças e nove guardiões conseguiram escapar e estamos escondidos aqui na Terra. – diz Diana jogando tudo na minha cara
– Eu sou uma alienígena? – digo olhando para Diana e começo a rir.
– Você é uma dessas crianças que escaparam de Lorien. Vocês foram numerados de um a nove e estão protegidas por um feitiço lórico que impede que vocês sejam mortos fora ordem. Por isso você não morreu quando levou aquele tiro.
– Eu não morri por sorte, o tiro não me acertou. – digo
– Você sabe que o tiro acertou em você. – ela diz – nada pode te ferir até chegue sua vez. Sempre que um dos nove morre uma cicatriz nasce no tornozelo dos que ainda estão vivos.
– Isso é ridículo.
– Katie eu sei que no fundo você sabe que é verdade.
– A única verdade que eu sei é que eu sou uma garota inglesa com pais maravilhosos, que tem que lidar com o ensino médio e crises da adolescência.
– Seus pais não te contaram a verdade não é?
– Que verdade?
– Desculpa saber isso de mim, mas... você não é filha deles... eles... eles roubaram você de mim. – Diana diz com os olhos cheios de lagrimas
– Cala a boca! – grito e saio da casa chorando.
– Katie não vá, eu tenho mais coisas para te fa... – Diana grita, mas fecho a porta da casa
Corro para fora da casa chorando e sem perceber paro no meio da rua. Um caminhão vem rápido em minha direção e não há como eu desviar a tempo, um frio brota da minha barriga e envolve todo meu corpo. O caminhão está a centímetros de me acertar e coloco meu braço na frente do rosto e fecho os olhos esperando o choque. Sinto as luzes do caminhão iluminar meu rosto e escuto a forte buzina e o som da tentativa inútil do motorista frear. De repente a coisa mais incrível do mundo acontece sinto algo passando pelo meu corpo e quando abro meus olhos vejo o caminhão passando sobre mim sem me ferir, de alguma forma o caminhão conseguir passar pelo meu corpo. O caminhão para a alguns metros a frente e o motorista sai desesperado e começa a olhar em baixo do caminhão procurando o corpo. Eu olho para minhas mãos e meu corpo sem acreditar no que acabou de acontecer. Diana sai da casa e vem na minha direção, ela coloca seu braço nos meu ombro e me leva de volta para a casa. Olho para trás e vejo o motorista tirando seu chapéu e olhando confuso para baixo do caminhão.
– Vocês viram a menina que estava no meio da rua? – grita o motorista para nós
– Que menina? – grita de volta Diana – Talvez você deva beber menos quando dirige.
O motorista coça sua cabeça e entra outra vez no caminhão e começa a dirigir. Diana me leva para dentro e me senta no sofá velho.
– Você está bem? – ela pergunta
– O que aconteceu? – pergunto confusa
– Isso são seus legados começando a se manifestar. – Diana diz com um sorriso
– Legados?
– Legados são poderes especiais desenvolvidos pela Garde.
– Garde?
– Os lorienos são divididos em duas espécies, os Cêpans que são lorienos comuns e sem poderes assim como eu e os Gardes que são os lorienos que desenvolvem legados ou poderes assim como você.
– Isso é loucura. – digo chorando
– Eu sei que tudo isso deve ser difícil para você entender de uma vez.
– Eu quero ir para casa.
– Eu te levo até lá.
– Não! Eu quero ir sozinha.
– Katie é perigoso...
– Me deixe em paz! – grito – Eu não quero escutar mais nada de você.
Levanto-me do sofá e saio da casa. Caminho chorando até em casa tentando digerir tudo que escutei de Diana sobre eu ser uma alienígena, que meu planeta foi destruído, que estou sendo caçada, que tenho poderes mágicos e a pior coisa que ela me disse, que meus pais não são meus pais verdadeiros. Uma parte de mim não quer acreditar em nada disso, mas tem algo em Diana que me inspira confiança. O que será que ela quis dizer quando disse que meus pais me roubaram dela? Será que ela é minha mãe verdadeira?
Quando estou chegando perto da minha casa vejo minha mãe desesperada do lado de fora com um telefone na orelha. Quando ela me vê começa a correr na minha direção e me abraça.
– Ai meu deus! Kat onde você estava? Eu estava preocupada! – ela diz
Começo a chorar descontroladamente e minha mãe começa a passar sua mão sobre meus cabelos o que me faz me sentir segura.
– O que aconteceu querida? Você está bem?
– Não mãe. – digo – não está nada bem.
Entramos e minha mãe me traz um copo de agua com açúcar. Ouço o carro do meu pai estacionando do lado de fora. Minha cabeça está uma bagunça, não sei se me sinto segura de estar em casa ou se sinto raiva dos meus pais por mentirem para mim. Meu pai entra correndo na sala e vem na minha direção.
– O que aconteceu? É outra cicatriz? – ele pergunta levantando a barra da minha calça, mas eu tiro minha perna de suas mãos de uma forma brusca
– Tira suas mãos de mim! – digo
– Kat! – grita minha mãe
– Querida, o que aconteceu? – diz meu pai confuso
– Vocês não tem nada para me dizer? – pergunto
– Onde você estava? Sua mãe e eu estávamos preocupados com você.
– Por que vocês não têm fotos da mamãe gravida? – pergunto
Meu pai olha para minha mãe e depois me olha nos olhos.
– Por que está perguntando isso agora?
– Eu quero que vocês me digam a verdade. Eu sou filha biológica de vocês?
– Nós te amamos Kat, isso é o que importa. – diz minha mãe e começa a chorar
Meu pai respira fundo e se senta no sofá ao meu lado.
– Não. – ele diz com olhos cheios de lagrimas – Mas nós somos seus pais.
Uma angustia misturada com confusão invade minha cabeça e começo a chorar amargamente. Minha cabeça dói demais é muita coisa para processar em um só dia. Minha mãe vem me abraçar, mas eu a afasto.
– Kat eu te amo tanto. – ela diz
Eu me levanto e corro até meu quarto e fecho a porta. Estou tão confusa. Até duas horas atrás eu era uma garota normal, com problemas normais e agora eu sou uma alienígena que sendo caçada e sou adotada. De repente começo a escutar gritos e me aproximo da porta e escuto meus pais brigando: “Nós devíamos ter falado quando ela era mais jovem” diz minha mãe. “Ela era muito nova para entender” responde meu pai. “Como ela ficou sabendo?” “Eu acho que ela está aqui”. Ela? De quem eles estão falando? Abro a porta do quarto e desço as escadas correndo.
– Eu quero saber de tudo! – digo brava – Me contem o que aconteceu.
Meus pais se olham entre si e pedem para eu me sente no sofá.
– Antes de te contarmos toda a verdade eu quero que você saiba que nós te amamos muito. – diz minha mãe chorando
– Contem logo. – digo
– Sua mãe... – começa a dizer meu pai – sua mãe... ela... ela... não pode ter filhos, ela é estéril.
Olho para minha mãe e ela chora descontroladamente e sinto vontade de abraçá-la, mas me contenho.
– Nós tentamos de tudo. – diz meu pai – fizemos tratamentos, inseminação artificial, mas nenhuma delas deu certo e sua mãe caiu em uma depressão muito profunda.
– Tudo... tudo o que mais queria era uma filha. – diz minha mãe ternamente
Ouvir aquilo parte meu coração e por um momento a raiva se foi, mas logo ela volta.
– Eu trabalhava em um pequeno hospital em Blackburn (Inglaterra) – diz meu pai – e um dia duas pessoas deram entrada no hospital. Uma mulher e uma linda garotinha, elas tinham sofrido um terrível acidente de carro. A mulher quase morreu e a garotinha quase não tinha feridas.
– Eu era essa garotinha? – pergunto
– Sim. – ele responde com os olhos cheios de lagrimas – No dia seguinte você teve alta. Nós procuramos documentos para contatar sua família, mas você não tinha nada, buscamos nos arquivos médicos em todo o país e não encontramos nada sobre você ou sobre a mulher.
Sinto um frio na barriga e penso no que Diana me disse sobre eu ser uma alienígena.
– Nós começamos a suspeitar de que aquela mulher havia te sequestrado e eu fiz um exame de sangue para comprovar.
– E que descobriu? – pergunto curiosa
– O sangue de vocês era... – meu pai começa a dizer e faz uma pausa
– Como? – pergunto
– Diferente.
– Como assim?
– Era diferente de tudo que eu já havia visto.
Minha mãe olha para meu pai curiosa e acho que ela não sabia dessa parte da história.
– Nós estávamos doentes?
– Não. Sua saúde estava perfeita.
– O que havia de errado com nosso sangue?
– Eu não sei explicar, mas... não parecia humano.
Meu coração acelera e começo a respirar mais forte.
– Naquele instante nasceu em mim um instinto para te proteger.
– E o que aconteceu com a mulher?
– O estado dela piorava a cada dia, ela ficou em coma por vinte horas e quando ela acordou... ela estava assustada, desconfiada e não parava de perguntar sobre você. Ela não queria ficar no hospital, ela dizia que estava sendo caçada e que você corria risco de vida e então ela começou a ficar violenta e fomos obrigados a ceda-la.
Tudo que Diana me disse começa a se encaixar e começo a chorar e minha mãe se senta ao meu lado e me abraça e eu deixo, pois era o único momento que me sentia segura era quando estava nos braços dela.
– E depois, o que aconteceu? – pergunto
– O hospital foi atacado. – diz meu pai – Homens com armas poderosas entraram no hospital e começaram a buscar a mulher, eles vestiam roupas negras e tinham tatuagens na cabeça. Eles mataram três seguranças e quatro policiais.
– Eles encontraram a mulher?
– Não sei, naquele dia o hospital estava um caos completo e eu escutei que eles estavam procurando uma mulher e uma garotinha e eu corri o mais rápido que podia e te tirei do hospital e não soube mais sobre aquela mulher.
– E vocês ficaram comigo?
– Quando eu te trouxe para casa, sua mãe estava tão triste, mas quando ela te viu em meus braços ela abriu um sorriso tão grande que eu não via há tantos anos.
– A primeira vez que te vi, foi amor a primeira vista querida. – ela diz
– Mas você não pode simplesmente sair com bebe que não é seu de um hospital, ninguém te viu? – digo confusa
– Eu era um médico muito importante daquele hospital e usei minha influência para os tramites da adoção.
Levando-me do sofá e começo subir as escadas.
– Kat! – grita minha mãe — Eu sei que agora você deve estar com raiva de nós por termos mentido, mas quero que você saiba que ter você na minha vida foi a melhor coisa que já me aconteceu, você devolveu meu sorriso querida, você me deu motivos para viver, você iluminou essa casa. Não duvide do nosso amor por você. Eu te amo Katie. – diz minha mãe chorando
Começo a descer as escadas e a abraço.
– Eu te amo também.
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