Os Karas - Cigarros e Moscow Mule.
4 3. Inocentemente perspicaz.
Notas iniciais
A partida é irmã caçula da saudade.
A ternura é a irmã caçula do amor.
— Typeto.

A Saída do colégio Elite sempre fora movimentada. Os alunos seguiam em uma algazarra controlada que se estendia por todo o quarteirão. Vendedores ambulantes de pipoca, batata frita, refrigerantes, picolés… Tudo o que poderia atacar facilmente a mesada das crianças, se espalharam pelas proximidades, tornando-se o centro de pequenas ilhotas de comércio. A Rua era vazia. Poucos carros entram por ela, deixando o acesso ao colégio unicamente para os alunos e funcionários. Volta e meia outro carro de algum pai mais preocupado parava próximo à entrada do colégio, porém a gigantesca maioria preferia estacionar nas esquinas e nos quarteirões da escola. Facilitava o acesso.
Chumbinho era um desses jovens alunos do colégio Elite que caminhava para fora do prédio. suspirou cansado. Desde a saída dos Karas do colégio, ele se autonomeou com o posto de novo líder do grupo secreto. “Os Karas” a partir dali, seriam um “Kara” só. Como um gigantesco legado, o mais novo do antigo grupo se recusava a deixar que o passado glorioso do time morresse com o velho esconderijo mal iluminado (como sempre). Durante meses procurou pessoas com quem achou viável compartilhar esse segredo de anos, porém não encontrou. Para se ocupar, entrou para o grêmio na área de reportagem. Chumbinho se interessou bastante por jornalismo durante essa fase. Sim, parecia que os dias dele como “O Avesso dos coroas, o contrário dos caretas” haviam terminado. Uma semana depois de chegar a essa conclusão, o armarinho de vassouras foi demolido para dar espaço a alguma nova função. Era o fim. O que mais havia a ser feito?
Andando sem vontade com um pequeno bloco de notas amarelas na mão, Chumbinho lia algo concentrado.
—Hey, Chumbinho!— Uma das colegas de escola do garoto chamou sua atenção – Os trabalhos do jornal da escola são pra ser feitos na escola. Relaxa.
O Garoto não deu atenção. Era dessa forma que Chumbinho lidava com o luto. A ligação já havia sido feita na casa do último Kara. Chumbinho já havia chorado o suficiente, agora, o rapaz deveria fazer o que era preciso. Assim, ele lia e relia todos os dias o que conseguia anotar da morte de Andrade. A Data da cerimônia, os seis filhos a quem ele iria deixar algo. Não havia forma de esquecer o amigo, e obviamente, como um Kara, não havia maneiras de suprir aquela vontade de começar a investigar. Naquele momento, Chumbinho resolveu usar de educação e respondeu a colega.
—Oi? Falou comigo?
—... -Ela suspirou — Está estranho. Tomando muito a água do bebedouro do segundo andar? Sabe que ela tem um gosto esquisito.
— Não, Bibi… não é nada.— Chumbinho disse –
— Tudo bem então, nos vemos amanhã.— Ela lhe deu um beijo estalado na bochecha e saiu correndo –
Chumbinho parou em um banco próximo a entrada do colégio e continuou lendo concentrado. Observou o ir e vir dos alunos… Suspirou. Que saudade dos seus dias de glória.
Ele surpreendeu-se quando uma voz familiar lhe tirou de sua concentração. Mas dessa vez, um sorriso surgiu nos olhos daquele rapaz que em breve, seria tão adulto quanto o dono dessa voz.
—Chumbinho está estudando? Não posso acreditar nisso!— Miguel sorriu –
— O Senhor está pensando o que? Agora que o Crânio não está mais por aqui, alguém precisa colocar ordem no Elite! — Chumbinho sorriu –
Os dois amigos se abraçaram. Miguel reconhecia Chumbinho como um irmão mais novo que nunca teve.
—E ai?
—Me diz você, Senhor universitário.
Miguel ligou para a Mãe de Chumbinho um pouco antes, dizendo que iria almoçar com o velho amigo e depois o levaria para casa. Pararam em uma casa de hambúrgueres popular na capital. São Paulo possui uma gigantesca variedade de sabores e locais para qualquer um com que esteja disposto a pagar. Os dois sabiam muito bem. A lanchonete escolhida, mesmo sem saber, fora a que o Andrade mais havia frequentado por anos. O local dava desconto para os polícias. Chumbinho pediu um suco de Laranja e um lanche com três hambúrgueres. Miguel pediu Suco de goiaba e optou por um sanduíche de rosbife.
—Você não vai acreditar, eles destruíram o nosso esconderijo. Eu briguei sabe, sou do grêmio, como você foi, mas não tive ajuda.. Pra todo mundo lá sempre foi só o local das vassouras.
Miguel parou e o encarou. Saber disso, de certo modo foi como uma última pá de terra no caixão dos Karas. Não deixou transparecer. Voltou a sua atenção para o seu sanduíche.
—Não faz mal, Chumbinho. Os Karas não existem mais. Foi divertido enquanto durou.
A Resposta parecia não ter agradado o amigo. Chumbinho suspirou decepcionado.
—Você só diz isso porque não está mais lá.
—…
—Queria ver se vocês ainda estivessem lá e…
—Chumbinho — Miguel o cortou – Você já sabe né?
Chumbinho encarou o amigo e suspirou, olhando para a janela. Era para isso que ele havia vindo velo.
Estendeu o bloco de notas amarelo. Miguel pode ver que chumbinho reunirá algumas informações sobre o que acontecera com Andrade por conta própria. Observar aquele bloquinho lhe deu um tipo de frenesi que a tempos ele não sentia.
—Andou investigando…
—Uma vez Kara, sempre um Kara, Kara.— Chumbinho disse olhando para a Janela -
Miguel sorriu com o comentário –
As palavras em destaque eram: “Cerimônia, testamento, seis filhos”. Miguel tentou não parecer incomodado com algo que leu, mas Chumbinho o conhecia bem. Quando o ex-lider dos Karas encarou novamente o amigo, ele notou os olhos dele o esperando.
—Você notou né? Andrade nos colocou como seus filhos em seu testamento.
— Nosso querido Andrade tinha um coração de ouro, Chumbinho. Ele não tinha ninguém. Ele morreu fazendo o seu dever. Quando formos à cerimônia, pedirei os laudos da autópsia e comprovei o que aconteceu.
Chumbinho o olhou surpreso. Não havia pensado na possibilidade de consultar um laudo médico.
— Pensei que não me passaram tudo isso por ser muito novo, mas não passaram pra vocês também essa informação… Não sabemos a causa da morte ainda?
— Não. Acredito que só possa ser entregue uma cópia e só no caso de ser pessoalmente.
Chumbinho ficou em silêncio. Havia coisas que ele gostaria de confirmar, mas pelo visto teria que esperar. Era daqui a dois dias a cerimônia. O Corpo de Andrade morto já começara a entrar em um estado deplorável, então a cerimônia teria que ser com o caixão fechado.
—Falou com todo mundo? — Chumbinho tomou seu suco -
—Sim… Você na verdade é o último com quem falei! — Miguel tomou um gole de suco – Magri chega amanhã aqui em São Paulo, Crânio já está ciente e está cuidando disso por conta própria.
Chumbinho sorriu. Crânio era incrível.
—E Calú?— Chumbinho parecia curioso –
Miguel suspirou.
—Mandei um E-mail para ele há alguns dias atrás. Porém ele não respondeu…. Eu entendo.
— Eu não entendo. — Chumbinho tinha um olhar de clara irrtação — Calú tem sido um babaca. Todo dia aparece uma noticia dele com aquele comportamento de atorzinho que se acha o novo Marlon Brando.
Miguel sorriu. Chumbinho ainda era o mesmo. Todos mudaram um pouco, mas ver que Chumbinho ainda era o mesmo, o fazia pensar que talvez, lá no fundo, o seu ser ainda tenha aquela vontade e interesse pelo desconhecido.
Logo após isso, Miguel e chumbinho se foram. Andrade, Chumbinho e Miguel passaram por aquela lanchonete, porém nunca juntos.
Depois que Miguel se foi, Chumbinho refletiu sobre o que descobrira. Conversar mesmo que pouco com o amigo parecia ter colocado um pouco de força em sua vontade de investigar. Passou as duas horas que se seguiram pensando em quem poderia ser os seis filhos que Andrade iria deixar algo.
—Eu, Miguel, Magrí, Crânio, Calú… E…
Chumbinho pensou. Concentrou-se o máximo que pode e achou a resposta. Era fácil. Não havia mesmo o que investigar. Miguel parecia estar mesmo certo.
—… Peggy.
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