Os Intocáveis
4 o Chá, cuide de Nael e o General
– ai!
– já te disse pra ficar quieta que eu to terminando.
Tirei a compressa de água quente e tornei a cavoucar a pinça em sua barriga em busca das outras balas. Micaela não era uma paciente fácil, estava se mexendo e reclamando enquanto eu trabalha, tudo isso unido ao calor insuportável do meu alojamento e a luz amarela fraca que estava me deixando zonzo.
– sua pele está esquisita. – observei
Ela tocou no furo da bala, a região onde isso acontecia a o projétil entrava pouco, no derredor a pele parecia estar trincada como vidro e tinha um aspecto áspero.
– minha pele é blindada. – respondeu ela incertamente.
–isso explica como sobreviveu. – eu estava pondo a pinça mais a fundo apesar do seu protesto – juro pela minha vida que quando eu encontrar a Naomi vou quebrar o pescoço dela antes mesmo que ela diga olá.
– fazer isso com a sua esposa não parece certo – Micaela grunhiu doloridamente.
Gargalhei sarcasticamente.
– Caela, eu e Naomi não somos casados, só temos um filho juntos, isso acontece muito aqui no acampamento, ninguém mais se casa nos dias de hoje. – esclareci – o nome dele é Nael, uma junção boba dos nossos nomes, a gente não quis dar um nome comum a ele.
–qual idade?
– 2 e meio.
–onde ele está?
– muito provavelmente com a desgraçada da mãe.
– ai! – berro ela novamente
–acabou reclamona. Essa foi a ultima bala.
Joguei os projeteis na lixeira do banheiro, fiz curativos limpos e providenciei um pó analgésico pra dor, dilui ele na água mas ela se recusou a tomar.
– remédios não. Remédios nunca mais. Gosto dessa dor, me faz sentir viva
–pensei que você fosse imune a dor. – falei com curiosidade
–sou uma melhorada mas ainda sou humana.-suspirou ela afofando os travesseiros da minha cama – não morri porque sou Melhorada mas ainda sinto dor por ser, ser humana.
–interessante – me ouvi dizer.
Acomodei-a na parte de cima, deixei seu tronco reto sob a superfície da cama e isso parecia a deixar confortável.
– tenho uma surpresa pra você.
Ela grunhiu.
Peguei um bule de alumínio amassado debaixo da mesa de cabeceira, retirei uma caixa com folhas da horta e joguei-as no bule, enchi com água fria do meu reservatório, em seguida pendurei-o num gancho de cabide com meu isqueiro embaixo.
Micaela sorriu.
– chama isso de chá?
–chamo isso de arte do improviso, é o maximo que posso fazer.
– não estou reclamando.
Sentei na beirada da cama e conferi os curativos, pareciam assustadoramente menos inchados, isso é humanamente impossível.
– está com sono? – ironizei
A sua expressão tornou-se sombria.
– acho que já dormi o suficiente para uma vida, pelo que você me contou, se passei dez anos naquela maquina... e não, não tenho nada de sono, posso ficar aqui a vida inteira sem sequer piscar – respondeu ela irritada.
– acredito nisso.
A chaleira já estava preta e o chá nada quente, mesmo assim não quis correr o risco de criar uma fumaça aromática muito forte e chamar atenção para o alojamento a essa hora da madrugada, tirei-o de seu armengo e servi-o com boas doses de açúcar roubado.
Ela pegou sua modesta xícara de alumínio, eu abrangi como toda minha palma o tosco copo de vidro que comportava molho antes.
– você me pediu chá, eu trouxe.
– porque faz tudo isso por mim?
– tenho uma dívida com você. Minha mãe trabalhava o dia inteiro cuidando da casa, eu nunca tive pai, os poucos amigos que eu tinha vivam na cidade... Você era tudo que eu tinha. Absolutamente todo meu dia, vinte e quatro horas da minha vida.
Ela levou à bebida a boca e tomou um curto gole satisfeito, ao se acostumar com a refrescancia da bebida tomou tudo sem pestanejar.
–seu chá paga essa dívida. – brincou ela sorrindo com os olhos, as pupilas gigantes, o sorriso alinhando – estou me esforçando pra lembrar de tudo, mas minha mente é escura.
Nunca vi alguém tão maravilhada em beber uma água fervida com folhas do mato. Para alguém que passou a ultima década sendo alimentada por tubos aquilo deveria ser o sabor mais supremo existente na terra.
–vai com calma – brinquei, ela já tinha tomado o restante do bule inteiro e em certo ponto se engasgou fazendo o liquido vazar pro nariz.
Nós rimos e eu me ouvi bocejar.
– vá dormir Cabel.
– quanto a você? – meus olhos estavam pesando.
– ficarei bem.
– ótimo.
Deitei-me no chão fazendo roupas limpas de travesseiro, ela absolutamente protestou mas por fim concordou em ficar com a cama, ela me passou a colcha de retalhos. Fui apagar a luz.
– Cabel veja.
Ela tornou a me mostrar a barriga, arrancou os curativos habilidosamente e nada havia lá além do umbigo tímido e da pele lisa.
–como?
– deve ser coisa de Melhorada – disse ela por fim.
– assustador.
– eu sei.
Apaguei a luz, deitei-me e fiquei ouvindo um principio de chuva cair, Micaela cantava baixo.
– o que canta? — questionei
– A Lamina de Lancelott. – respondeu-me ela.
– cantavam isso pra gente dormir. – suspirei
“ Sob fisgar do corte certeiro
Desabando as flechas do arqueiro
Surge no morro grande multidão
Vem da colina um vil cruel dragão
Não há o que temer com a Escalibur...”
Eu já estava dormindo.
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–Cabel, acorda...
– hmpf
– Cabel acorde!
Saltei no escuro já procurando o fuzil, de prontidão pulei e peguei-o mesmo naquele breu, sem demora já estava pronto pra correr pra área comum.
– quem está atacando?
– Cabel sou apenas eu. – Micaela disse.
Baixei a guarda e respirei fundo, soltei a arma.
A chuva estava deixando o som péssimo aqui dentro.
–ponha a arma no lugar – disse ela – eu ouvi algo lá fora.
– lá fora? – berrei, e só então me ocorreu de acender a luz, Micaela pelo o aspecto de quem havia nadado de roupas com certeza estava na área comum participando da tempestade.
– você ficou maluca? O que eu te disse sobre sair? – estava me controlando pra não gritar.
Ela ficou um pouco encabulada e intimidada mas em seguida assumiu uma postura furiosa e matadora que eu não conhecia:
– posso parecer uma idiota frágil pra você, mas não é bem assim. Se você não sabe, posso enxergar no escuro, lá fora todas as luzes estão apagadas, eu só quis sentir a chuva e fui, ninguém me viu, eu sei, se alguém tivesse passado eu teria me escondido.
Soltei o ar pesado e cerrei os punhos.
– puta que pariu Micaela, sabe o que teria acontecido se...
– poupe seu discurso, tem uma coisa que preciso te dizer.
–então diga.
– precisa ir atrás da Naomi, alguém estava levando ela no colo pra um galpão.
– como era esse galpão Caela? Você viu?
– estava na chuva e um homem alto estava levando ela no colo, era um galpão iluminado com porta de metal.
Ah, essa não.
Comecei a disparar pra fora do alojamento, ela me seguiu.
–fique onde está! – gritei e desci as escadas.
Tudo estava completamente escuro, apenas a Ala de Quarentena brilhava na extremidade do pavilhão, corri intensamente pela chuva, a água estava chicoteando meu corpo, minha respiração estava curta e fragmentada, alguém vinha do outro prédio correndo com um guarda-chuva e uma lanterna, quase colidimos. Emile, a nova mulher de Ulisses, Nael estava no colo dela dormindo, enrolado numa manta.
– Mils – arfei – diga que a Naomi está com você.
Emile estava chorando, debulhando com a água da chuva pra piorar.
– ela teve uma convulsão comandante, levaram ela pra sala de casos urgentes.
Enterrei as mãos no rosto e quase surtei, antes disso deixei-a para trás e corri até a ala de quarentena a cada longo passo mais perto.
Passei correndo pelos gritos dos doutores de inspeção, ao chegar na porta da sala de casos urgentes um segurança estava na porta.
– você não é autorizado
– ela é minha mulher! Deixe-me entrar – berrei.
– você não é autorizado.
Peguei a pistola no coldre e apontei pra ele.
– te disse pra me deixar entrar.
O segurança não se intimidou
– atire comandante, cause um escândalo, mate um campista.
Não o tirei da mira.
– ela está infectada, é grave demais, está tendo convulsões, um mínimo falar com ela pode causar contágio. – apascentou o segurança.
Uma voz surgiu atrás de mim:
– eu sou imune.
– Micaela volte pro quarto!
Ela passou por mim como uma flecha até o segurança, ela mostrou as marcas roxas deixadas no antebraço, características de quem recebe a dose da Cura.
Abismado o segurança lentamente desbloqueou a porta pra ela.
– você é uma...
– obrigada. – ela entrou pela porta aberta.
O segurança não se deu nem mais o trabalho de tentar me impedir de entrar, já estava correndo pelas densas camada de chuva e eu sabia exatamente quem iria procurar; isso não era nada bom.
Entrei pela porta.
– Cabel saia daqui! – gritou Micaela
Fiquei petrificado. A sala de emergências tinha apenas um leito limpo, lençóis de estopa, em torno da cama ligada a aparelhos havia uma cúpula de plástico curta, onde o ar entrava e saia por uma tubulação no teto, a cúpula tinha uma entrada, vedada.
Lá dentro, presa como um rato, Naomi se retorcia em convulsões, o corpo estava encharcado de suor e uma sonda gotejava um claro coquetel de morfina e anestésicos. Micaela rompeu a porta vedada descomunalmente, sem qualquer dificuldade.
– fique ai fora – berrou ela.
Não obedeci, entrei e fiquei na zona de contagio.
Micaela levantou-me como se eu fosse uma criança.
– te disse pra ficar fora.
Sua força equivalia a de um lutador profissional de grande porte, ela conseguiu me arrastar pra fora e colocar a porta vedada no lugar antes que eu pudesse xingá-la e bater contra a cúpula de plástico.
– Micaela, abra agora!
Ela não estava me escutando mais, enquanto Naomi se retorcia ela aumentava a pressão do coquetel em sua veia, ligou os aparelhos de resfriamento, e com muita habilidade começou a limpar o suor do seu corpo com uma toalha, coisa que o enfermeiro-chefe provavelmente não fez com medo de ser infectado, comum, ela foi deixada a mercê da sorte como muitos outros.
Eu não conseguia ouvir nada lá dentro.
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– Na... Nael. – arfava Naomi, eu estava fazendo o possível para mantê-la fria mas ela mais parecia uma brasa incandescente, uma tocha acesas, o núcleo de um vulcão – saia... sai... perto de mim... saia.
Eu não estava dando ouvidos, enquanto Cabel batia insistentemente na proteção plástica lá fora eu estava tentando conter o surto de Naomi aqui dentro, a morfina parecia água, não estava fazendo-a relaxar e parar de ranger os dentes.
– fique... longe de mim... Nael... El.. e
– cale a boca – gritei.
Aumentei a dose de anestésico e deixei-o quase corrente na veia, não sabia como sei fazer todas essas coisas mas estava as fazendo no modo automático.
Enquanto se retorcia numa tosse violenta de quebrar as costelas, Naomi me olhava confusa, sabia decodificar aquele olhar: porque eu estava viva? E pior, porque estava fazendo aquilo pela pessoa que tentou me matar?
– Nael.. Nael
– seu bebe está bem.
Naomi estava com dificuldades pra respirar, parecia um aspirador de pó quebrado, vazando, parecia estar se afogando dentro de si.
Ela pegou na minha mão e apertou tentando dizer algo.
Eu estava chorando, me senti ao feliz em saber que era capaz disso, o ardor nos meus olhos, as lagrimas; eu nunca me senti tão viva como agora.
– Naomi, amanhã eu irei ao Centro de Pesquisa, vou roubar a Cura pra você e vou fugir, eu prometo.
Ela puxou ar com tanta força que descolou a coluna da cama.
Balançou a cabeça em negativa, tremula.
Apertou minha mão com mais força.
– Não... dá. Ouve... Nael, não...n... Nael, cuide... cuide do Nael... dê cuida ele.
– você não vai...
–promete!
– prometo.
Naomi começou a sangrar pelo nariz, sangrou muito, debulhou, a maquina deu um estalo, virou uma linha reta, verde, um chiado continuo.
A mão dela afrouxou, a cabeça pendeu, olhei para o lado de fora da cúpula, Cabel estava de joelhos com as mãos no plástico.
– sinto muito.
Ele não ouviu.
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– o que vão fazer com o corpo dela? – questionou Micaela, o crucifixo que Naomi levava no pescoço agora estava em suas mãos, ela estava limpando o sangue com um algodão.
– enrolar e queimar – funguei sem conseguir olhar nos olhod dela, estava abraçado aos joelhos, a cabeça encostada na cama, eu vi tudo, eu vi tudo. Naomi morreu, como minha mãe havia morrido, como muitos amigos... meu deus.
– vamos buscar o Nael, eu prometi a ela que cuidaria dele – murmurou ela, a chuva lá fora tornava sua fala ainda mais tênue e frágil, nada parecido com a mulher que se expôs pro segurança e...
Eu tinha esquecido disso.
– Micaela, temos que sair daqui agora.
– como assim?
– eles vão vir atrás de você, fiquei tão abalado com a morte da Naomi que esqueci completamente disso.
Ajudei-a a levantar, peguei duas peças de roupa na arca de madeira debaixo da cama, o fuzil, uma caixa de munição, roupas de soldado pra Micaela: uma calça e regata preta. Dei-a um revolver.
– sabe usar?
–não
– tudo bem, não temos tempo.
Peguei em sua mão e começamos a descer a escada do meu alojamento o dia já clareava.
–pra onde vamos?
– pro pântano, tem uma cabana de maquinário lá.
– precisamos pegar o Nael.
– precisamos sim – disse – não vamos mais voltar aqui.
Uma mão na sombra puxou o cabelo de Micaela, uma lamina de punhal foi encostada em seu pescoço de forma violenta.
– vejo que dádiva trouxe a nós comandante.
– General, ela não é...
– ela é sim – o asqueroso General Deleano gralhou, ele alisou seu rosto com o polegar nojento, respirou contra seu cabelo – uma maravilhosa e inacreditável Melhorada, cheia de sangue limpo, e corpo forte.
Cerrei os punhos.
–solte-a
– ela é propriedade minha, Comandante. É uma coisa. – suspirou puxando-a para sombra, Micaela estava em pânico.
– os cientistas do Centro de Pesquisa estão doidos pra espremer essa pele, estudar esses ossos e brincar com essa ratinha de laboratório; e nós estamos dispostos a fazer uma venda pacifica. A Garota pela maior dose da Cura que essa comunidade já viu.
– não vai vende-la! – gritei
– tente me impedir.
Micaela foi arrastada pra escuridão escadas acima de volta pra ala de alojamentos, não pude ir atrás dela pois dois soldados bloquearam a escada com suas metralhadoras.
– Caela!
–Cabel!
– Caela!
não houve mais resposta.
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