Os Intocáveis
5 Perca e convocação
Atividades da Escola de Miro
Suspensas
Circulação no Refeitório
Suspensa
Áreas Comuns
Suspensa
A ordem é para que todos os residentes permanecessem em seus quartos até que o sol nascesse de novo. O vestido molhado estava em cima da cama, o cheiro úmido da lama, as cotas soltas que ela arrancou.
Soltei o ar pesadamente, em seguida soquei a porta de metal sanfonada do banheiro com tamanha força que as dobradiças se soltaram e a porta bateu com um estalo em cima da privada decadente.
Eu perdi tudo de novo, tudo, eu perdi tudo de novo.
Arrastei-me até a parede e escorreguei de costas por ela até ficar agachado. As costas da minha mão estava sangrando, eu tinha o crucifixo de Naomi e o vestido de Micaela, eu tinha a mente turbulenta e um nó profundo na garganta.
Alguém bateu na porta, atormentado abri-a, ali estavam Emile e Ulisses, entraram depressa, afinal de contas não podiam ser pegos andando nos corredores.Nael estava acordado no colo de Ulisses.
– vem pro pai – peguei Nael no colo, a criança quicava e sorria compulsivamente, como se o mundo a sua volta fosse pacifico, como se todas as coisas em seu entorno fossem ótimas e nada de ruim pudesse romper a sua soberania de ignorância infantil.
Tinha os olhos expressivos da mãe, a agitação, os dedos, de resto tudo remetia a mim e meus traços de infância.
– o que trazem vocês aqui?
– Sentimos muito por Naomi.
Fiquei calado.
– já queimaram-na?
– agora a pouco.
–ah.
Nós três sentamos na cama, Nael ficou agitado, o pus no chão e ele passou a caminhar no curto cômodo bagunçando tudo que podia pegar. Ele pegou o crucifixo que pertencia a mãe e ficou a brincar de atira-lo de um lado pro outro.
– levaram a Micaela – Ulisses sibilou
Fiquei olhando pro nada.
– o que vamos fazer? – Emile questionou
– o que há pra ser feito – disse – vou pegar o fuzil e vou trazer ela de volta.
– isso é ridículo Cabel – Emile suspirou – ela foi vendida! O Centro de Pesquisa veio buscá-la, e mesmo que você fizesse a jumentice de ir atrás daquela Melhorada, eles te matariam, a segurança lá está redobrada, você não vai fazer a mesma proeza que fez antes. Não dessa vez.
Urrei e dei um salto da cama.
– aquele desgraçado! Desgraçado! Ele não podia ter vendido ela.
– mas vendeu – Ulisses levantou e me segurou pelos ombros pra que parasse de surtar – vendeu pela própria passagem pra Maquina de cura.
– como é?
– ouvimos a conversa, ele entregou Micaela, disse que um soldado havia seqüestrado mas foi morto ao chegar aqui, e por bondade resolveu entregar a garota, eles ficaram agradecidos, mas ele fez chantagem disse que entregava a garota em troca da sua década na maquina.
Filho da puta.
– ele disse que trocaria a Micaela por Cura para os mais doentes. – esbravejei, eu estava afim de entortar o pescoço daqueles desgraçado.
Nael me viu alterado e agora estava chorando copiosamente, Emile me repreendeu e pegou meu filho no colo para que se acalmasse, todos ficamos nos encarando ninguém possuía resposta ou ação, ou qualquer coisa que fosse pra tal dilema, a única coisa que sei de fato, que não vou tirar da minha mente nem por um misero segundo é que não ia perder a Micaela de novo, muito menos pra uma troca de interesses sujo.
– não há nada que possamos fazer – lamentou Ulisses – olha em volta Cabel, é você contra o mundo. Ela é ma mulher... isso realmente vale a pena?
Parei pra pensar, refleti em tudo que estava em jogo. Peguei o fuzil.
– não saiam desses quarto com o Nael por nada, prometam pra mim.
– mas o que v...
– pedi pra prometerem.
– a gente promete – disse Emile sob o olhar feio de Ulisses – sabe que você não vai voltar vivo comandante, não sabe? Nael será criado por nós.
– é que veremos.
Desci e corri dez minutos até a central de avisos:
– todos os residentes da faixa dos 18 acima, agora na Escola de Mira.
Os passos pesados foram imediatos.
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– Isso foi inadmissível comandante! – gritou uma soldado da pequena multidão que se aglomerava em torno de mim na antiga quadra de tênis – como pode trazer um rato de laboratório pra dentro da nossa casa?
A multidão se alvoroçou, palavras de indignação para comigo choveram.
– eu posso...
A multidão continuava gritando
–eu explico se vocês...
Nenhum silencio
– será que vocês podem por favor deixarem que eu fale?
Os xingamentos e insultos ficaram mais altos.
Atirei pra cima, silencio se instaurou.
– calem a boca! – eu gritei, mas percebendo os rostos furiosos embaixo, contorcidos pela força da minha autoridade, sei que vontade de cada um era me cortar em pedaços. – eu cometi um erro? Cometi sim! Mas parem e pensem... todos aqui viraram animais! Ninguém mas é capaz de amar nesse lugar.
As expressões se chocaram.
– todos os dias seus pais, irmãos, amigos... todos morrem e ninguém é capaz de chorar mais que algumas horas, não sabemos mais como ser um humano porque perdemos a capacidade do amor; o que eu quero dizer é que aquela garota é tudo pra mim, durante dez anos ela foi tudo, continua sendo, e independente de ter sido melhorada eu continuo a amando. Se fosse alguém próximo a vocês, seriam capazes de fazer isso? Seriam capazes de amar alguém que foi modificado mesmo a força? Resgatariam essa pessoa das mãos daqueles doentes egoístas do Centro de Pesquisa? Que usam todos os melhorados no seu parque de diversão maníaco mesmo correndo o risco de serem odiados como estou sendo agora?
Silencio continua, lá fora a nevoa da manhã se dissipa. Posso ouvir o conjunto de respirações.
– preciso dela, ela é boa, pura e melhor, ela ajudou uma doente enquanto esteve aqui! Ela é imune a praga que nos assola e pode cuidar de nós.
– quer que a gente se desloque daqui pra sermos mortos numa batalha suicida por conta de uma mulher? — questionou alguém da multidão.
– vamos tomar A Cura a força! Vamos achar o gerador mestre, vamos restaurar a nossa saúde e voltar a viver, vamos voltar a ser capazes de amar, e viver e sorrir como os humanos do passado.
– quanto a ela?
– a deixem comigo – respondi.
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– então essa que é a Câmara de Melhoramento? – o General Galeano alisava o caixão de vidro como um carro possante, seus olhos de velho coberto por pele mole fumegavam de expectativa.
– sim senhor – respondeu um ajudante – vamos iniciar os procedimentos, alias os Doutores e toda equipe agradecem por ter trazido nosso item de colecionador de volta, achamos que nossa princesa tivesse morrido no confronto mais recente.
– aqueles miseráveis sempre foram contra vocês aqui – bajulou – sempre me mantiveram em cárcere, sempre foram animais selvagens.
– realmente lamentável senhor – suspirou o ajudante – amigos meus residentes já caíram nas mãos daqueles bárbaros, não sobraram nem corpos pra enterrar.
– um horror.
Estou sentada numa confortável cadeira revestida de couro preto na Sala de Checagem, tem sondas presas a mim medindo meus níveis de saúde e todas essas coisas desnecessárias, nunca me senti tão parecida com um coelho preso a toca enterrada, ou um cachorro na coleira, nesse pijama de hospital, lendo essa revista velha, todos vem me olhar como um objeto cientifico ou meteoro que caiu do cosmos.
O assistente começou a encubar o general, fazia isso enquanto eu assistia a tudo.
– você já esteve aqui princesa – brincou o assistente – quer voltar?
– pode esquecer.
–então fique quietinha ai meu bem – gargalhou ele
“computador iniciar hibernação curativa”
Névoa e câmara foi fechada.
– os Doutores estão chegando pra sua triagem e reconhecimento. – o assistente deixo-me ali, eu na enorme sala de Checagem, agora percebi que o assistente era um melhorado, visivelmente alguém que hibernou na maquina, saiu com destreza e habilidade pela porta.
O estalo das maquinas, o escorrer dos tubos, levanto-me, não pensei em nada alem do meu ódio, tão humano, tão vivo, tão corrente, nunca senti algo tão forte, tão intenso e descontrolado, animalesco, fervilhava destruidor na alma, esse homem me afastou de Cabel, muito provavelmente pra sempre, ele era tudo que eu possuía, e muito provavelmente conseguiria lembrar dele algum dia, saber do meu passado... mas agora não mais.
O General Deleano dormia como morto. Peguei o cartão em cima da mesa passei, seu padrão apareceu na tela como um holograma.
“Deseja algum comando?” ladrou a maquina mecanicamente.
“ Computador despressurizar a câmara” ordenei
Assisti enquanto o General debatia-se, sufocando, uma mosca presa no copo, vulnerável, jamais seria acordado.
Comei a sair na sala com o som dos alarmes ecoando:
“paciente Morto. Paciente morto. Paciente morto”
– computador mapear local. – disse enquanto caminhava
Um holograma imenso do esqueleto do Centro de Pesquisa flutuou acima da minha cabeça, a pupila fotografou, a imagem agora era um mapa imenso no cérebro, perfeito, uma memória completa.
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