Os Intocáveis
3 O Alojamento, Questionamento e as Ruínas da casa
Meu quarto normalmente não passa de um recinto altamente silencioso, uma agulha ao cair no chão poderia parecer um grito, era como costumava ser se não fosse o barulho do chuveiro atrás da cortina sanfonada de metal.
A cama estreita me assombra, a cabeceira de metal carcomido por ferrugem me atormenta, e as colchas velhas são meu único elo com passado....
Pelo menos era, até eu encontrá-la.
Na mesa de cabeceira compacta estou recostado, tem um livro velho, um vaso de barro pra água fria e uma tigela com algodoes, uma foto amarelada dos meus pais sentados numa escada, um fuzil na parede, pendurado como um quadro, botas sujas de lama na soleira, aqui não tem janelas, limito-me a refrescar os dias mais quentes com um vitrô no topo da parede que dá para o corredor das outras alas de alojamento.
E a água lá no banheiro, continua batendo no chão, continua escorrendo pro ralo.
Não consigo me concentrar direito em remover as balas do braço, a pinça falha, cutuca pele, arranca um filete de músculo, empurra o fragmento pra carne, mas tirar não tira, faço caretas, enquanto ela não sair do chuveiro e disser alguma coisas não vou nem me lembrar de como se respira direito, não vi outra solução se não colocá-la na água fria corrente, por todo caminho até aqui ela veio muda, de olho arregalado, respirando fraco como se não precisasse de oxigênio. Não trocamos uma palavra sequer, ela obedientemente como uma ovelha vai ao matadouro se deixou conduzir no meu ombro no trecho de fuga pela mata até aqui, não se abalou nem em meio ao fogo cruzado, nem estremeceu quando eu a derrubei no chão por acidente ao ser baleado.
Coloquei-a parada debaixo do cano que emana água. Olhei fixamente por longos minutos e ela apenas ficava me observando muda, como se eu fosse um estranho, mas não mudará muito, tem os traços iniciais da infância, o nariz pontudo, os cabelos são os mesmos, o desenho linear da face.
– fique quieta ai.
Nada ela disse.
– não lembra mesmo de quem eu sou, não é?
Continuou quieta.
Liguei a água e a deixei lá.
Isso já faz uma hora.
A porta do meu recinto é praticamente arrombada, não me assusto nem mesmo quando a autora da violência bate-a de volta fazendo nosso corredor estremecer.
– você só pode ter ficado completamente maluco! – Naomi pula em mim com os punhos fechados, deferindo socos a cegas, dominada por aquele ódio que conheço clinicamente, nenhum soco chega a doer de verdade, exceto o que atinge e cheio minha ferida exposta. A luta corpórea nunca foi o seu forte, principalmente nos momentos em que o ódio a domina, agora por sua vez a mira de qualquer arma posta em sua mão se tornava cirúrgica quando esta garota que agora me agride é tomada pelo demônio da raiva.
– Naomi, como seu comandante ordeno que acalme-se. – digo segurando os dois pulsos dela e prendendo-os com as mãos fechadas.
Ela está fervilhando, o maxilar está tencionado, as narinas em chamas, as sobrancelhas flexionadas e os dentes cerrando como lixas industriais. Naomi é uma rebelde da resistência, seus dois braços são tatuados até os pulsos, o que cobre seu corpo são os farrapos de sua antiga vida adaptados pra qualquer confronto que ocorra, o crucifixo de corrente longa bate no umbigo e há uma mecha branca que parte da raiz da cabeça, por alguns motivos obscuros, toda sua aparência foi programada pra ser visualmente hostil a qualquer um.
– e eu como mãe do seu filho seu comandantezinho de merda, quero saber porque trouxe uma Melhorada pra dentro do acampamento! – o tapa pegou bem em cheio no meu ouvindo fazendo- o zunir, por reflexo a empurrei pra trás fazendo-a bater em cheio na parede.
Eu consegui aumentar o seu ódio de modo com que sua agressão não a incomodou.
– Cabel vou te dizer uma coisa, e vou te dizer só uma vez – ela respirou fundo e andou até mim com o dedo apontado – não me importa se você procurou essa garota por anos, não importa se você chegou a desconfiar que ela morreu naquele dia com os pais e só agora descobriu que não, importa é que essa menina que está lá dentro é uma Melhorada, ela é intocável como todos aqueles merdinhas do centro de pesquisa lá fora; você não vai por nosso acampamento em risco por causa dessa aberração! Porque você sabe muito bem que a qualquer momento eles vão vir atrás dela e vão matar todo mundo que virem pela frente.
Naomi tossiu forte e em seguida chegou perto de mim o suficiente pra desferir outro tapa mas eu estava de prontidão pra empurrá-la de novo se necessário fosse.
–você não vai por tudo a perder porque eu não vou deixar. Não por causa de uma paixonite de infância, então pode escrever o que eu digo, ou você leva essa garota pra algum lugar e dá fim nela...
Cerrei os punhos pra não entornar seu pescoço.
– ou o que?
– ou eu faço as honras. Ela é a ameaça.
Agarrei-a pelos ombros tão forte que podia sentir a fenda dos ossos. Ela se desfez do meu aperto e me empurrou pra trás.
– se o comandante me der licença – Naomi me prestou uma continência irônica e debochada – nosso filho ainda não se alimenta sozinho; ele precisa ser forte o suficiente pra viver nesse mundo cão. Um mundo que seria mais habitável pra ele se ao invés de uma qualquer o pai tivesse trazido uma dose da Cura.
Ela bate a porta com força e o quarto volta a ser o som do chuveiro.
Suspirei pesado, meio segundo depois soquei a mesa de cabeceira tão forte que os objetos pularam e caíram no chão, o pote de barro despedaçou-se como um berro e nesse instante o chuveiro parou de jorrar água, meu coração deu um pulo e minha garganta travou igualmente como freios potentes de engrenagens.
Silencio lá dentro.
– ouça. – disse em tom claro para que ela lá de dentro pudesse me ouvir, em seguida puxei uma caixa de madeira debaixo da cama, lá estavam minhas roupas, no fundo do provisório guarda-roupa um vestido que minha mãe usava na missa de domingo, era sempre o mesmo vestido mofado, cor de terra, minha mãe o vestia ao meio-dia e ia até a capela dos Carteline, acendia uma vela, ajoelhava-se e recitava canções e preces para si mesma, essa era sua missa de domingo. A lembrança começava a enveredar pelo meu sangue e me desesperar mas eu prontamente a sufoquei no meu âmago.
“ela morreu. Todos morreram. Já faz tempo”
Joguei o vestido em cima da cama.
– há uma roupa pra você aqui em cima, saia do chuveiro, vista-se mas não saia do quarto me entendeu? Eu preciso ir a um lugar.
Silencio total.
Suspiro pesado.
– espero que isso tenha sido um sim .
Fecho a porta e disparo; disparo pelo corredor de alojamentos dos oficiais, sou o terceiro numa hierarquia de quatro, acima de mim encontra-se o General Deleano, um velho soberbo que não sai do seu quarto em outra circunstancia se não para gritar com as pessoas e atormentá-las achando que isso pode fazer nosso acampamento curar-se de todas as suas mazelas evitáveis e inevitáveis.
Nós funcionávamos capengamente, precários, fracos mas de certo modo sobrevivíamos, desde que o Avoid-40 consumiu a vida na cidade que nos reduziu em pouco mais de quatrocentos cidadãos foi fundado este Acampamento para que ao invés de morrer isolados, os sobreviventes pudessem tentar viver juntos, parece tolice se tratando de uma doença contagiosa e letal, mas não somos ingênuos, aqui foi fundado num antigo condômino médio da cidade, os prédios mofados e ruindo servem de alojamentos, as áreas abertas são evitadas ao maximo, onde limitamos as saídas apenas para dias de treinamento, antes de qualquer coisa todos são avaliados, os de aspecto saudáveis são direcionados as aulas de combate, os combalidos e visivelmente infectados são mandados para Ala de Quarentena, mas nem sempre é assim, em nossa comunidade é comum encontrarmos alguém que estava forte e sorridente em um dia e simplesmente amanheceu em seu alojamento morto, retorcido e abatido por um surto da doença incubada.
Aprendemos a sobreviver e não mais viver como era comum da nossa raça, os dias são iguais, variam entre noites monótonas de tranqüilidade e combates sangrentos nos quais nem todos retornam, antigos estudantes universitários construíram placas solares e fundaram um central distribuidora de energia, não há abundancia em gasolina, existem carros guardados numa garagem e barris do combustível que só deve ser usado para levar os carros as zonas de batalha com soldados e armas, comida é estocada num antigo supermercado anexo a nosso acampamento, água advém do rio e é tratada manualmente por cada um que a trate de consumir. Somos medievais, toscos e pobres de espírito, e como se não bastasse todas estas coisas sofremos ataques constantes de nômades em busca de comida e água e dos mandados do Centro de Pesquisa que desejam eliminar a nos, iminente ameaça em busca da Cura.
O sol está forte, após descer as escadas e sair do prédio chego numa área comum, tem piscinas secas que servem meramente para acumular entulho dos residentes, daqui posso ouvir o eco dos tiros na antiga quadra de tênis, agora nossa Escola de Mira.
Corro pro grupos que passam para lá e pra ca, todos sempre me cumprimentam e me limito a forçar um sorriso encorajador, uma jovem conduz algumas crianças fujonas para a creche provisória, antigos carrinhos hospitalares levam a caça do almoço, uns pirralhos de 14 anos riem e conversam casualmente, habituados a essa vida, conferem e contam suas munições.
–Ulisses.
Antes de olhar pra mim, o instrutor de tiro acerta em cheio a cabeça do boneco de travesseiros.
– continuem praticando – diz ele aos alunos que formam uma vila e alvejam o boneco um de cada vez.
Nos cumprimentamos com um estrondoso aperto de mão, Ulisses a primeira vista parece um rapaz sensível, daqueles inclinados a covardia, um rapazinho mimado e frágil antigo burguês, mas ao manusear qualquer arma pode por uma montanha de músculos nas sombras do medo, até suas feições se transformam, até as cicatrizes de batalha que o tornam visualmente mais frágil durante o combate amedrontam.
– faz um bom tempo desde que esteve aqui Comandante – observa ele – o que quer? Praticar.
Sorrimos sarcasticamente.
– pratica eu já tenho bastante graças a você meu amigo – respondo olhando volta os alunos estão distraídos assassinando o boneco de travesseiros e ninguém circula a nossa volta – vim pra conversar, soube da missão de mais cedo?
– quem não soube certamente não mora aqui. – retrucou – todos os meus alunos da faixa dos 15 foram mortos, mais uma vez não conseguimos achar nem o gerador-mestre nem sequer pegar doses pros mais doentes. Você teve sorte em sobreviver meu amigo... outros nem tanto.
Ambos olharam pra trás, uma garota chorava apoiada num tronco de árvore, usava vestido e um tênis surrado e sua arma jazia por cima de um circulo de flores podres.
– Cíntia – suspirei atormentado com a lembrança – eu vi quando a bala pegou bem na cabeça. Era a única pessoa que a irmã tinha... não sei como pude deixar que a missão falhasse desse modo.
– não se culpe. Todos os dias missões falham, todos os dias pessoas morrem aqui. – consolou ele de modo tristonho. Perdi bons alunos mas há outros pra treinar, a tristeza não pode estacionar ninguém nesse acampamento.
Concordei com a cabeça.
– mas eu fiquei mesmo de te contar algo.
Ulisses como amigo de longa data sabia de tudo, desde quando entrei para o acampamento, minha busca desenfreada por Micaela, a esperança de que ela tivesse sobrevivido ao atentado dos pais e estivesse no acampamento ou algum grupo nômade, nunca me ocorreu que ela fosse uma Melhorada, na minha cabeça ela era uma garota esperta demais pra se deixar modificar e fugiu... eu estava errado. Ulisses sabia que minhas buscas perderam a força, foi ai que conheci Naomi e me deixei levar por ela e minhas obrigações de comandante. Só precisei contar a ele o que achei na ultima invasão do laboratório.
– ela está aqui?! – berrou ele
– Shhhh! Quer que todo mundo saiba?
– Cabel você só pode ter ficado doido. – repreendeu ele
– já ouvi isso hoje, Naomi estava de tocaia me viu chegar com a garota pelos fundos do alojamento, ela é esperta e pela descrição que eu dei ao longo dos anos soube que era Micaela e que eu a achei no Centro de Pesquisa.
–Cara, sou seu amigo a muitos anos mas tenho a obrigação de dizer que ela não pode ficar aqui! – sibilou ele nervoso – sabe o que vão fazer com ela quando descobrirem que é uma Melhorada? Que tem Cura dentro dela pra abastecer esse acampamento? Vão matá-la, vão beber o sangue dela, comer as tripas e fazer coisas que eu nem quero pensar.
– acha que eu não estou pensando isso? – rebati com veemência – mas você não entende! Eu procurei essa garota por dez anos da minha vida, eu não podia deixar ela lá simplesmente.
– porque não?
Fiquei mudo.
– Cabel, olhe... eu não posso te encorajar a isso –Ulisses levou a mão a testa e desceu elo rosto com clara tensão em suas palavras – eu te agradeço pelo que fez por mim quando a Lia e as crianças morreram, mas isso é diferente. Você é referencia nesse lugar, não pode por tudo aqui em risco por causa de uma mulher. Quando eles se derem conta de que falta uma Melhorada no estoque vão vir aqui e estraçalhar com tudo, como planejam a muito tempo. Precisa tirar essa garota daqui.
Eu não posso fazer isso. Não agora.
– tudo bem – disse – eu só precisava de aconselhamento e não de tapas como levei agora a pouco. Obrigada.
Comecei a me afastar.
– Cabel – gritou Ulisses a alguns metros de mim
Olhei por cima do ombro
– seu segredo está seguro – disse ele por fim.
Corri de volta pra dentro do alojamento.
– ei Débora – a senhora subia a escada com um balde de água.
– sim comandante?
– viu a soldado Naomi?
– não senhor.
– obrigada.
Entrei no meu quarto.
Ela estava sentada no chão, debruçava a cabeça em minha cama, o vestido da minha mãe lhe coube perfeitamente, seus dedos ossudos brincavam com três perolas de mentira, arrancadas da barra do vestido. Levantou os olhos quando eu entrei no quarto afobado, ficou me encarando de cenho franzido como se estivesse procurando algo.
Agachei-me na outra extremidade do quarto pra encará-la.
– pode me dizer onde estou? – finalmente a voz dela saiu, ecoou retumbando, ressoando pelas paredes, saiu inesperadamente.
– pensei que você estivesse muda. – disse entusiasmado.
– pode me dizer aonde estou? – insistiu ela mecanicamente.
Mordi a língua e pesei um pouco, não era possível que ela não estivesse me reconhecendo ainda, nos víamos todos os dias durante nove anos, estávamos sempre juntos, é certo que cresci, também como ela, mas comparando-me com o que era antes, trago os imortais traços da infância sem questionar ou contender com eles de modo com que não me reconhecer é uma coisa impossível.
– você está no meu alojamento – respondi – lembra-se de quem é?
Ela pensou um pouco, observando o quarto.
– lembro-me de quem era, e não pareço nem um pouco com ela.
– lembra do seu nome?
– me chamo Micaela – disse ela arrastando seu nome como se fizesse bem pra ela dizê-lo.
Sorri. Nem tudo estava perdido.
– porque me trouxe pra cá? – questionou ela levantando-se e sentando a cama.
–essa é uma boa pergunta – suspirei – você estava dormindo.
– não me lembro de estar dormindo.
– do que se lembra então?
Ela franze o cenho, parece estar sentido dor de cabeça ou se controlando pra não chorar, pensa um pouco.
– minha casa. Pode me levar a minha casa?
Levanto-me inquieto. Ofereço-lhe a mão.
– posso. Mas você não vai gostar do que vai ver.
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– aquilo ali é um graveto?
– é sim – respondo.
Micaela caminha e pula o troco apodrecido, os raios de sol fazem sua pele parecer polida como aço, uniforme, a sua pupila dilatada observa com curiosidade coelhos que fogem pra nevoa gelada, ela pega o graveto habilmente e começa a remexer a lama de uma poça quase seca.
– você não vem? – pergunta ela
– com tudo isso ainda não lembra de mim? – pego o graveto e junto-me a ela em remexer a pouca lama num bolo.
– infelizmente não. Mas lembro-me de fazer isso.
Estou frustrado.
– vai contar porque queimaram minha casa?
– vou – respondo, nós dois nos juntamos numa comunhão em mover a lama num único bolo vertical, num castelo.
– eu e você éramos melhores amigos, vivíamos nesta casa com os seus pais e minha mãe, era a empregada...
Detalhei pequenos fatos da infância, os bailinhos solitários de aniversario dela, os pais dela que sempre traziam presentes, as brincadeiras de esconder ou trocar os ingredientes do bolo o que deixava minha mãe furiosa, os banhos na fonte e quando desenhávamos na sala.
– eu queria muito poder lembrar de tudo isso.
Por fim contei a ela sobre a desgraça do Avoid-40, e o que ele fez com a humanidade e com as pessoas.
– meus pais morreram disso? – ela questionou.
– Não Caela...
– do que me chamou?
– desculpe.
– não se desculpe, por algum motivo ser chamada assim é bom.
Nosso bolo já estava alto, comecei a cercar aquela bagunça com folhas secas, nunca me senti tão idiotamente feliz e infantil ao mesmo tempo.
– não sei ao certo o que aconteceu com vocês, só sei que vocês saíram de carro um dia e não voltaram mais, só agora te encontrei, já minha mãe morreu um ano depois, ela definhou por causa do vírus e faleceu. Fiquei completamente sozinho. Quando um grupo de rebeldes veio saquear a mansão, me acharam, me levaram pro acampamento e puseram fogo em tudo.
O rosto dela se abateu.
–sinto muito. – disse eu.
– não sinta. Eu também não consigo sentir nada.
– você ainda não me disse seu nome
–Cabel. — respondi
Fitou-me confusa.
– que nome legal, significa algo?
– não sei dizer.
– você disse que me encontrou dormindo, isso é verdade?
– isso é uma longa história, você dormiu muito mais tempo do que qualquer ser humano comum, por isso prefiro te contar isso quando chegarmos no alojamento.
– aquela garota – disse Micaela – ouvi tudo que ela disse, ela não me quer lá Cabel.
– Naomi não importa – me ouvi dizer – você volta comigo, vamos conversar e eu vou pensar no que fazer.
Ajudei-a a tirar seus pés da lama, ela soltou minha mão de imediato como se tivesse medo do contato, ou estranhasse aquilo, andamos lado a lado em direção ao quintal das ruínas da mansão dos Carteline.
– é estranho. É como se eu tivesse sido desligada da tomada quando era uma garotinha e religada tomando banho no seu chuveiro, me sinto cortada ou como se tivesse acabado de nascer e não soubesse o que é viver. – considerou ela caminhando enquanto eu afastava os cipós que bloqueavam o caminho. – por outro lado me sinto perfeita, me sinto uma maquina ou algo do tipo, sei organizar meus pensamentos mas não sei de onde eles partem.
Ouvi tudo isso em silencio até chegarmos o quintal, antigamente luxuoso agora era um monte de concreto espalhado, toras de madeira quebrada, a fonte com anjos de mogno estilhaçada, pulamos os escombros e andamos através do esqueleto chamuscado da casa em direção a avenida de saída.
– aqui era a sala – disse ela fechando os olhos e parando no exato lugar onde desenhávamos, ela se agachou e eu me agachei junto. – sala... aparelho de chá.
Eu gargalhei sem querer, mas isso não abalou a concentração dela.
– você tinha um aparelho de chá. Me obrigava a brincar com você. Os garotos da escola já me pegaram brincando contigo e me caçoaram na escola o resto do ano. – disse abalado pela memória.
–sala... aparelho de chá... uma mulher, aquela mulher trouxe açúcar de verdade, açúcar e farelo de bolo. – ela dizia essas coisas, continuava agachada com os olhos fechados.
– era minha mãe Caela! Ela trazia isso, sempre que você pedia. Lembra-se dela?
– do rosto não. Só das mãos, um anel.
– era a aliança, a aliança do meu pai.
–onde está seu pai?
– morreu, era caminhoneiro, morreu de cirrose.
–sinto muito.
– não sinta Caela, ele era um desgraçado, minha mãe usava a aliança por usar.
Ela se levantou me puxando com ela.
–Cabel, podemos tomar chá?
Cocei a cabeça.
– esse foi realmente um pedido difícil, vamos voltar e verei o que faço.
A conduzi pra saída, uma chama de esperança encheu meu peito, se as lembranças dela voltasse gradativamente ela se lembraria de mim, mas afinal, o que eu queria com isso? E depois? O que tinha de mais nisso?
Começamos a andar pelo atalho escondido, uma BR a muito esquecida que desembocava nos fundos do acampamento. Ela foi o tempo todo calada e eu acompanhava seu ritmo arrastado de andar.
–Cabel?
–diga
– porque me religou? Porque me tirou do meu sono?
– não fui eu... eu te encontrei acordando da maquina de melhoramento.
– não sei se gosto de viver, te odiaria se soubesse que você fez isso – suspirou ela
– não odeie. Eu também não gosto de viver, estou aqui por um todo.
Nesse momento as coisas pareceram ter dobrado de velocidade, um carro cargueiro do exercito nos fechou numa curva da estrada, dois soldados que eu conhecia de vista desceram portando seus fuzis, apontaram pra nós, eu estava desarmado, eu nunca saia desarmado, justamente hoje.
– mas o que significa...
Um soldado me golpeou com força com a arma na minha cabeça, fiquei tonto, foi o suficiente pra que o outro segura-se minhas mãos atrás do corpo. Naomi desceu do banco do motorista, e fico frente a frente com Micaela que estava estática, sem reação, observando tudo.
– eu te disse Cabel, eu te avisei – disse ela pondo a pistola na mira dela que mirava assustada. – nunca duvide da minha palavra.
– Naomi pare! Não faça isso!
Um, três, seis tiros.
Naomi gastou todas as suas balas com Micaela que caiu na estrada, todos os tiros foram certeiros.
Ela abaixou a arma.
–soltem ele.
Soltaram-me e eu corri até Micaela, apagada no asfalto.
– volte pra casa, e finja que isso nunca aconteceu. – todos entraram no carro e voltaram, e me deixaram ali com ela.
Desanimada como um boneco de cera.
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