Os Intocáveis
2 O Despertar e o Comandante
– doutora Dil?
– o que quer Sérgio, estou no meio de uma análise, não vê?
– hoje é o penúltimo dia de maturação dos experimentos, o Doutor Rivera quer a senhora na sala de checagem para a ultima análise.
A doutora Dil soltou a ar pesadamente, coçou a cabeça levemente grisalha, posicionou óculos de grau no nariz ossudo, por fim pegou uma prancheta de metal em sua mesa, ao tocar a superfície da prancheta uma tela em holograma saltou alguns centímetros da tela mostrando inúmeros dados de um relatório, a doutora começou a analisar os gráficos enquanto andava impaciente com seu assistente até a sala de checagem.
– o que eu sei é que os experimentos humanos foram um sucesso, os que completaram a década de melhoramento serão acionados do coma amanhã, o que aquele miserável do Albert quer comigo? – questionou a doutora fazendo os saltos elegantes baterem no chão como se pudessem furá-lo.
– o doutor Rivera exige uma checagem precisa pra não acionarem nenhum Melhorado com defeito. – as palavras do assistente saíram tímidas e cansadas.
“inferno” suspirou a doutra enquanto os dois passavam pela pulverização até a sala de checagem.
– Doutora Dil – Saudou o jovem Doutor Albert com um sorriso iluminador que abrangia a face e os olhos – cada dia que passa mais linda.
“eca” pensou a doutora Dil que sorriu amarelo.
– digo o mesmo do senhor. – grunhiu ela.
– sem tomar do seu tempo vamos a checagem.
“maldita seja” sibilou ela pra si mesma.
Começaram os três a caminhar pela enorme e macabra sala de checagem, os tubos que saiam do teto fixavam-se direto em câmaras de vidro empoeirado e embaçado de modo que era impossível enxergar quem estava lá dentro, não eram humanos, eram meros experimentos científicos adormecidos a dez anos, desde que o Avoide-40 vai descoberto.
– deve estar pensando nestas pessoas doutora – começou Albert – quanto tempo de suas vidas perderam deitadas nesse caixões de vidro, alimentadas por sondas, respirando remédios e recebendo a todo instante doses graduais da Cura em seus corpos, mas pense pelo lado positivo, graças a nós eles não só estão imunes da praga mortal que assola nosso mundo, como agora são mais fortes e inteligentes do que eu você juntos.
– se quer mesmo saber doutor, sempre achei esse tratamento um exagero, o que custava aplicarmos e cobrarmos a dose da Cura? Porque 10 anos disso? Pra criar um exercito burguês de humanos superiores? – a doutora estava inquieta com a quietude da sala, haviam pessoas vivas nestas câmaras, tão vivas e aparentemente tão mortas.
O doutor riu sagazmente.
– não se trata apenas de lucro minha cara. Ao despertamos estes protótipos, se o experimento der certo, os próximos serão eu e você, e então nossos filhos e todos aqueles que puderem pagar por isto. Trata-se de vida praticamente infinita, se trata de um avanço como nunca se viu na ciência.
“sonhador babaca!” ocorreu este pensamento na doutora.
– ninguém sabe se já estamos infectados com o novo vírus, mata em questão de minutos, ninguém jamais durou mais que um mês a ele, por isso um quarto da população mundial já está dizimada, onde não está o caos se instaurou na busca de comida e água pra abastecer a demanda dos ainda saudáveis, há corpos nas ruas, e os Imundo a qualquer momento podem invadir nossa sede e tomar a Cura o força.
O doutor olhou para a prancheta digital da doutora, delicadamente digitou um endereço num site de busca e em milésimos o hologramas de um acampamento aparecer, haviam pessoas sujas neles, tendas, barracas, um supermercado sendo saqueado, moribundos nas estradas.
– pode ver isso doutora? São os rebeldes que você teme, o mundo é hostil fora desses muros. Os imundos não podem contra nós, logo todos estarão mortos, ou pelo Avoid-40, ou pela fome.
Silencio mortal no recinto.
O doutor solicitou que o assistente ascendesse as luzes do corredor principal, nele haviam cinqüenta câmaras em fileira, com os tubos e sondas a toda atividade.
– estes são os mais antigos, o corpo deles pode ser retirado com coma amanhã. Então depois de uma bateria de exames estão todos livres a s juntarem a nós e trabalharem em nossas pesquisas.
“quanta liberdade” suspirou o assistente em silencio.
–está aqui é meu item de colecionador. – o doutor virou-se para uma das câmaras bastante empoeirada. – esta meus caros senhores, é simplesmente a primeira usuária do centro de tratamento. Micaela Carteline.
A doutora se aproximou extasiada e incrédula até a câmara de vidro sujo.
– Carteline? Do doutor e doutora Carteline?
– obviamente – ironizou Albert com um sorriso de prazer – trouxeram a garota no dia do apogeu, quando associaram a onda me mortes da cidade ao novo vírus, um informante interno divulgou que nossa empresa possuía uma cura que estava guardando pra si, eclodiu a revolta, a cidade entrou no caos, antes que o conflito começasse os Carteline trouxeram a garota pra cá, ambos morreram no conflito contra os rebeldes, mas disso até os mais recentes aqui sabem.
– comecemos por ela então. – disse a doutora aflita de ansiedade.
– pois bem.
O assistente trouxe o cartão de acesso da garota, ao aproximá-lo do computador uma foto da Micaela criança surgiu na tela.
– computador, mapeamento global – ordenou a doutora.
Prontamente na tela surgiram uma bateria de índices juntos com gráficos holográficos.
– alimentada, risco de infecção pelo Avoid, 0%, pele reestruturada, pupilas adaptadas para a escuridão, raciocínio ampliado em 76%, força física alcançou os 91%, dentes formados na arcada adulta por completo, coluna reforçada, percepção auditiva ampliada, olfato dilatado pra 68%, órgãos internos restaurados, sangue purificado... santo Deus... – a doutora lia todo esse relatório sem fôlego.
– este é o nosso futuro doutora! – exultou o doutor mal podendo acreditar no que estava vendo na tela do computador – estes resultados comprovam que podemos evoluir. Em breve estaremos montados em milhões, praticamente imortais, já parou para pensar nisso?
Abismada, a doutora estava simplesmente em choque.
Ela passou a palma da sua mão no vidro no intuito de limpa-lo, lá dormia uma moça, dormia como morta, profundamente, mas o movimento em seu pescoço indicava que respirava , tinha os cabelos muito vermelhos e escuros, a pele opaca e sondas e eletrodos espalhados pelo corpo.
– seus pais ficariam felizes em te ver querida. – suspirou a doutora – computador, iniciar programação de maturidade mental.
O computador deu um estalo e uma luz foi acesa dentro da câmara, fios começaram a brilhar e a tela do aparelho começou a relatar os dados enviados para o cérebro: conhecimento funcional do seu corpo, consciência, fala adulta, percepções...
– o que pensa que está fazendo doutora? – questionou Albert abismado – não reanime a paciente ainda! Isso será feito amanhã com todos os outros, ela não...
– o que mais você quer Riveira? – ela retrucou histérica – a garota está completamente pronta, o que há de mal em acordar um experimento com um dia de antecedência?
– computador abortar! – ordenou o médico.
“ índices de maturidade mental 76%” ladrou a maquina mecanicamente.
– seu imbecil! Ela não completou o ciclo! A mente dela não foi completamente restaurada.
Os doutores entraram em uma calorosa discussão, estavam a ponto de se agredir, em meio a gritos e insultos não notaram quando levado pela emoção o assistente franzino apertou o botão que saltava a tela do computador:
“finalizar hibernação”
Fumaça foi evacuada da câmara, as sondas pararam de despejar liquido,os tubos se desligaram e a tampa de vidro se descolou da cama.
– seu idiota! Inferno! O que você fez? – berrou o doutor pegando o assistente pelas golas e o suspendendo alto – ela não estava pronta ainda.
A porta foi arrombada, o sinal vermelho foi emitido tarde demais, um grupo de rebeldes armados até os dentes, sujos, esfarrapados entrara pela porta portando fuzis, os médicos e o assistente foram alvejados antes mesmo que pudesse gritar.
– comandante o que faremos agora? – perguntou uma rebelde de calças masculinas e lenço na cabeça.
– roubem toda a Cura que puderem dos tubos, procurem o Gerador Mestre, não temos tempo – o comandante era um rapaz alto, o rosto polido de seriedade e fúria, os cabelos muito pretos e os olhos vigilantes.
Seus vassalos obedeceram, passaram a violar os tubos e encher vasilhas com o liquido rosa aguado.
“alerta de invasores” gritava a voz na caixa de som junto com a sirene.
– temos que sair daqui. – gritou o comandante – todos pra fora, vão, vão, vão...
Os rebeldes correram para a saída com uma quantidade mínima e insignificante da Cura, mais uma missão falha. Lá fora os soldados do laboratório, abriram fogo contra os invasores que revidaram.
O comandante estava prestes a correr para saída com um de seus fuzis quando percebeu que em uma das câmaras a luz estava acessa, um verde forte, diferente do vermelho de todas as outras. Ele se aproximou com curiosidade, lentamente apontando o fuzil.
Puxou a tampa para cima, a nevoa se dissipou e lá dentro uma garota ruiva e úmida abria os olhos, a pele opaca e branca como papel, os cabelos encharcados.
– Deus de misericórdia... – sibilou o comandante Cabel Lécia abaixando a arma – você está viva.
A garota deu um passo cego pra frente e caiu como um pudim no ombro do comandante rebelde.
Ele estava extasiado, perplexo, quase caindo sob os joelhos.
Não pensou mais em nada, pegou Micaela no ombro como um pacote. No outro braço dominou o fuzil e saiu andando em direção a porta de saída onde todos os seus colegas haviam sido fuzilados pelos seguranças.
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