Os Imortais - A Caçadora de Almas
2 Destiny
Notas iniciais
Me arrumei como fiz todas as manhãs desde que vim para Nova York. Guardei meu punhal e o pequeno baú na mochila (apenas para o caso de uma emergência), tranquei a porta do apartamento e escondi a chave atrás do extintor. Desci pelas escadas, acenei para o porteiro da manhã e fui para a escola.
Antigamente, nós, os Imortais, éramos encorajados a viver escondidos em pequenos vilarejos, evitando ser notados pelos mortais. Mas, conforme os centros urbanos se expandiram, logo notamos que era muito mais fácil passar despercebido em locais repletos de pessoas. Desde então, lugares como NY são cheios de "nós". Isso é claro, proporcionalmente falando, é claro. "Cheio" nesse caso pode significar quatro ou duzentos. Não há como saber.
Eu realmente não me importaria de ir ao colégio se não fosse sempre lá que eu o encontrava. Não importa o fato de eu ser o que eu sou, as pessoas começam a estranhar se a garota de dezesseis anos que mora no prédio nunca vai para a escola. Nos primeiros anos foi até divertido, mas há um limite de vezes que uma garota pode fazer o ensino médio sem enlouquecer. E eu estava chegando nesse limite.
Passaram-se mais de 15 anos desde a última vez, e novamente, eu estava perto da superação. Mas sabia que não duraria para sempre, afinal, faz parte de quem sou. Caminhei sozinha como sempre, observando os mortais. Poderia ser apenas mais uma manhã banal, mas, tal como temia, encontrei-o na porta da escola.
Inconfundível, com seus olhos e cabelos negros. Não importava quantas vezes ele reencarnasse, seu rosto angelical era sempre o mesmo. A hora estava chegando, era inevitável. Queria saber qual o nome dele dessa vez. Já fora Miguel, Zach, Jake, Noah...
Mas algo estava diferente. Havia uma garota com ele, que emanava um brilho prateado, que ninguém mais era capaz de ver. Sua aura era prata. Era uma Guardiã. E o início de um grande problema.
Há séculos me tornei uma imortal, mas ela era apenas o terceiro membro da Segunda Legião que encontrei. E sei que foram três vezes mais do que deveria. Legiões diferentes, vidas diferentes, destinos diferentes. A própria natureza costuma impedir nossos encontros. Parece nos repelir, por causa da dor. A dor de quando épocas diferentes, de uma mesma vida se encontram, e se destroem.
A aura dele, pela primeira vez, não estava negra. Estava verde. Verde, não negra. O que significava que ele não deveria morrer. Pelo menos não ainda. Nunca havia acontecido antes, era a minha chance de me livrar do meu destino, dessa vez.
Sorri com esse simples pensamento, e resolvi afastar-me. Como de costume, nos encontraremos novamente, mas posso evitar este infeliz encontro por enquanto.
Corri em direção a sala, me esquivando de todos. Estava quase chegando na sala quando um braço envolveu minha cintura, me puxando com firmeza.
– Onde pensa que vai sem me cumprimentar? — Ele disse levantando uma sobrancelha.
Séculos se passaram e outros passarão, mas acredito que ele jamais mudará.
– Alec! O que você está fazendo aqui? Pensei que estivesse vivendo na Itália!
– Eu não consegui ficar longe do amor da minha imortalidade.
– Claro que sim. Em outras palavras, a Europa não tinha garotas tão divertidas quanto aqui, ou você voltou pela comida mesmo?
– Algo assim. Nada supera o hot dog americano. Então vai me contar porque estava correndo como se o inferno te perseguisse?
– Droga, quase me esqueci! Preciso sair daqui! Vem comigo! — Eu o puxei em direção a saída.
Eu precisaria ser rápida. Não haveria outra chance.
– Tudo bem. Onde estamos indo?
– Para qualquer lugar longe daqui. Para o meu apartamento.
– Então a princesa vai matar aula? Eu não sei se deveria deix... Aquilo é uma Guardiã? Porque teria uma Guardiã no seu colégio? Você estuda aqui, certo?
Acredite, eu estava me fazendo a mesma pergunta.
– Cale a boca e se abaixe Alec!
– Sério? Vamos nos esconder atrás do lixo? O que é isso? Sexta série?
– Alec!
– Certo, certo.
Esperamos o sinal e todos os alunos foram para suas salas. Eu não respirei até só restarmos nós no corredor.
– Você vai me explicar o que está acontecendo agora ou depois?
– Ele está aqui Alec. De novo. Mas ele está com aquela Guardiã e a aura dele está verde e essa...
– É a sua chance. — Os olhos dele brilharam.
Eu sabia que não pensávamos a mesma coisa. Para mim, era minha única chance de salva-lo. Para ele, era minha única chance de liberdade. Eu sempre pensei em como ele se sentia em relação a minha história. Ele é meu melhor amigo, praticamente o único na verdade. É um pouco difícil fazer amigos quando não se têm prazo de validade. Ele é como eu. Viveremos para sempre e eu deveria ser grata por ter alguém para conversar, mas eu sempre acabo abandonando-o por causa dos meus problemas.
Ás vezes me pergunto se não seria mais fácil eu sumir de perto dele. Ele iria encontrar um amigo melhor. Um que fosse para a Europa com ele. Um que não vivesse se escondendo. Um que se divertisse com ele.
– Exatamente. — Eu digo. Porquê iria doer demais arrancar aquele brilho dos seus olhos. E isso certamente aconteceria se eu contasse o que realmente farei.
– Bem, não vou te atrapalhar então. Estou me mudando temporariamente para o seu prédio, então acho que te vejo mais tarde.
Ele deu aquele sorriso com o canto da boca e saiu caminhando, como se a escola fosse dele. E talvez, de alguma forma, fosse mesmo.
Saí um pouco depois, pensando no que precisava ser feito. Eu precisava sair daqui. Talvez mudar de país. Ir para bem longe. Dinheiro não seria um problema, devido ao meu "emprego".
Sou uma Imortal e trabalho para a Morte. Isso é o que ganhamos por nossos serviços: a vida eterna. Embora eu ache que só ganhamos a imortalidade porque seria realmente complicado ficar treinando um monte de gente.
Os Imortais, se dividem em três Legiões.
A Primeira é formada pelos Criadores. Esses, são conhecidos por criar a vida das Almas mortais. Eles modelam a vida e são glorificados por quase todos, são responsáveis pelos nascimentos.
A Segunda é formada pelos Guardiões. Como o nome já diz, eles cuidam dos mortais, adorados por alguns, odiados por outros, são responsáveis pelos acontecimentos ao longo da vida.
A Terceira é formada pelos Caçadores. Nós caçamos as almas mortais, somos temidos aos olhos da maioria, responsáveis por aprisionar as almas, e enviá-las aos Criadores.
Verde. A aura dele estava verde. Não negra, mas verde.
Aquela era a melhor notícia que recebi em séculos, literalmente.
Meus olhos começavam a ficar rosados. Acho que, no inicio dos tempos, os olhos dos caçadores ficavam vermelhos quando havia trabalho para garantir que nós cumpríssemos nossas obrigações. Sem a incrível tecnologia atual (vulgo-lente-de-contato) éramos obrigados a fazer logo o que tinha que ser feito. Era isso ou ser acusado de bruxaria. E acredite em mim, você não quer tentar dialogar com uma multidão enfurecida. Principalmente se eles tiverem tochas e objetos pontiagudos.
E lá se foram meus planos imediatos.
Olhos rosados significavam que eu teria que trabalhar esta noite.
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