Notas iniciais
When the days are cold And the cards all fold And the saints we see Are all made of gold When your dreams all fail And the ones we hail Are the worst of all And the blood's run stale I want to hide the truth I want to shelter you But with the beast inside There's nowhere we can hide No matter what we breed We still are made of greed This is my kingdom come This is my kingdom come When the curtain's call Is the last of all When the lights fade out All the sinners crawl So they dug your grave And the masquerade Will come calling out At the mess you made Don't want to let you down But i am hell bound Though this is all for you Don't want to hide the truth Don't get to close It's dark inside It's where my demons hide It's where my demons hide They say it's what you may 'cause say it's up to fade It's volve in my in my soul I need to let you go You eyes they shine so bright I wanna see that light I can't scape this now Unless you show me how

Eu olhei ao redor e deduzi que não fazia absolutamente nenhuma ideia de onde estava. De novo. Eu poderia dizer que sai elegante e graciosamente do sofá, mas a verdade é: Eu praticamente rolei até o chão.

Ali estava: a cortina aberta. O motivo pelo qual eu estava acordado. Tropecei em uma das garrafas de cerveja espalhadas pelo chão, mas tomei cuidado para não pisar nos adolescentes que dormiam em qualquer canto.

No beiral da janela, um corvo com um envelope vermelho me esperava e, embora tivesse bico, juro que estava rindo de mim.

Peguei o envelope e verifiquei o horário e endereço enquanto a ave voava para longe. Duas quadras de distância. Atropelamento. 6:47.

Andei pelo apartamento, pegando minha mochila e tênis. Parei na porta do banheiro, de onde conseguia ver uma garota dormindo abraçada ao vaso sanitário. Seus cabelos negros caíam em cascata por cima de seu rosto. Cabelos negros como os de alguém que eu conhecia.

"Não pense nela." Me repreendi, mas era tarde demais. Seus olhos azuis já estavam em minha cabeça. Verifiquei o horario no celular. 6:30. Hora de ir.

Em um gesto não característico eu levantei a menina em meus braços e, quando ela envolveu meu pescoço com os braços, eu me perguntei se essa era a sensação de ser abraçado. Desajeitadamente a levei até o sofá. Tentei ser o mais delicado possível, mas não acho que fez alguma diferença. Ela estava tão apagada que eu poderia ter apenas jogado-a de qualquer jeito.

A porta estava trancada e eu estava ficando sem tempo. Calculei a altura e vesti a capa antes de saltar pela janela. A capa não ajudou muito, mas pelo menos nenhum Mortal pensaria que alguém estava se suicidando.

A próxima morte aconteceria na quadrada cima. Caminhei calmamente e esperei, encostado em um poste. Arrumei o baú e avaliei possíveis rotas de fuga que a alma poderia tentar.

Logo ouvi o grito, e, em poucos segundos, o ladrão estava estava correndo pela rua. Não tinha como o motorista vê-lo. Absolutamente nenhuma saída. O corpo voou alguns metros, acabando perto de onde eu estava. O braço esquerdo ficara perto do carro. Eu estava pronto para fazer um serviço rápido e limpo, mas a alma começou a se materializar. Eu ainda não tinha superado a ressaca e parecia que eu teria alguma dificuldade para lidar com meu primeiro serviço do dia.

A alma acabou de se materializar e eu precisava ser rápido. As sirenes já podiam ser ouvidas. Era uma menina, da minha idade. Mesmo estando quase transparente, era possível ver que ela tinha profundos olhos azuis quando viva. Mas nem de longe tão belos quanto outros par que eu conhecia. Seu cabelo era curto e loiro. Suas roupas curtas e maquiagem pesada indicavam que ela passara a noite... Trabalhando.

Ela parecia assustada e confusa, o que era perfeitamente normal já que ela tinha... Morrido.

– Hey, fique calma ok?

– Quem é você?!

Ela enfiou a mão no bolso de trás da micro saia, provavelmente procurando o revólver. Seus olhos se arregalaram e ela se virou, procurando a arma no chão. Armas, dinheiro e comida não acompanham almas.

Ela viu o próprio corpo ensanguentado e gritou tão alto que tapei os ouvidos com as mãos. Ela se abaixou ao lado do próprio corpo e começou a chorar. Me abaixei ao lado dela.

– Eu sinto muito. Você não deveria ter visto isso. Se você puder me acompanhar eu posso te encaminhar e prometo que não mais vai ter que se deitar com homens estranhos ou matar alguém. As coisas vão melhorar, eu juro.

– Eu... O que... O que aconteceu? Eu morri? Quem é você?

– Ah... Sim. Você morreu. Acho que sou uma espécie de anjo. É meu trabalho cuidar para que você esncontre a luz no túnel, por assim dizer.

Tentei falar de uma forma clara, que ela entendesse. Mas falhei miserávelmente.

– Você não parece um anjo. Você vai me levar para o inferno?

Eu realmente não parecia e estava ciente disso, mas me chamar de diabo era exagero. Olhei meu reflexo na vitrine da padaria. Almas e Imortais podem ver através da capa que me conferia invisibilidade. Meu cabelo preto estava bagunçado, e eu estava mais pálido do que o normal. As olheiras eram perceptiveis e acho que minhas roupas pretas, jaqueta de couro e tênis não ajudavam a passar a imagem que eu queria no momento. Peguei o envelope no bolso da calça e conferi as informações.

– Não existe céu nem inferno... Lorena. Você sofreu um acidente e faleceu. Eu preciso levar sua alma para que você possa reencarnar. Você pode nascer filha de um bilhonario, ou algo assim. Vai ser legal, você vai ver.

– Mas eu não posso ir.

– Olha, eu entendo que seja difícil para você, mas é isso ou ficar vagando pela terra, solitária, até enlouquecer.

– Não posso deixar o Mathias.

– Quem raios é Mathias?

– Meu irmão. Ele não tem mais ninguém. Apenas sete anos. Não posso deixa-lo.

Ela parou de chorar e se levantou, a aura insuportavelmente negra, com um contorno púrpura.

– Então essa é a sua pendência? Pelo menos é algo fácil. Vem comigo e eu resolvo isso, mas precisamos sair daqui antes que a policia chegue.

Peguei meu celular e disquei para a Central do Guardiões. Precisei de duas chamadas até ser atendido.

– Alô? Maeve?

– Sim, em que posso ajudá-lo? — A voz do outro lado da linha respondeu.

– Eu estou com uma alma que se recusa a ir sem garantir o bem estar do irmão, um menor desacompanhado. Sete anos.

– Certo. Aguarde um momento, por favor.

– Eu e Lorena nos sentamos no meio fio, há três quadras de distância. Ela voltou a chorar.

– Eu posso enviar uma Guardiã que aparenta ter quase oitenta anos. Ela será uma tia avó que soube do falecimento e vai adotá-lo. Ela morre em cinco anos e deixa uma fortuna, além de outra Guardiã que será uma babá. Quando a babá for embora ele já terá pelo menos dezesseis. Serve?

Repassei as informações para Lorena e, relutantemente, ela aceitou. Terminei de acertar os detalhes da transação.

– Com quantos anos ele vai morrer? Ele vai ser feliz?

– Eu não sei dizer quando ele vai morrer, mas garanto que vão cuidar dele. Ninguém vai deixa-lo sozinho. Ele irá para a escola e vai ter amigos. Ele vai ficar bem e sua alma vai adiante sem ele.

– Uma mulher vai cuidar dele por cinco anos? Não é muito tempo?

– Não para um Guardião. É a função deles garantir certos acontecimentos.

– Certo. O que eu faço agora?

– Agora você aceita que está morta e que seu irmão vai ficar bem. E daí eu mando sua alma para os Criadores. E eles irão te deixar ver todas as outras vidas que você teve. Dependendo do quanto você foi boa ou má, eles te deixarão tomar certas decisões. Algumas vezes não se consegue nada, em outras você pode escolher a cor do cabelo ou dos olhos. Se você for realmente boa, pode até escolher para qual familia você quer ir.

– Certo então. Acho que eu estou pronta.

Ela começou a se tornar cada vez mais transparente, as lágrimas cessando.

– Obrigada Ãh...

– Alec. Meu nome é Alec.

Ela sorriu antes de se tornar uma esfera de luz. Eu a coloquei no baú sem dificuldades, dessa vez.Voltei para o meu hotel e cuidei dos assuntos burocráticos, enviando a alma para a Legião dos Criadores. Agora que meu serviço estava feito, eu estava livre para curtir mais uma manhã em Roma.

Visitei o Coliseu pela terceira vez naquela semana. E era quinta-feira. Passei por entre os turistas e almocei em um restaurante perto do Louvre. Eu estava indo vistar o local há duas semensas e finalmente acabara de ver o enorme museu. Pela quarta vez.

Enquanto caminhava sob o sol infernal de Julho, me lembrei da garota de longos cabelos negros que dormira abraçada ao vaso e me peguei pensando nos profundos olhos azuis da alma de Lorena.

Quanto tempo já fazia? Três anos? Quatro? Era hora de visitá-la novamente. Juntei minhas coisas e fiz o chek-out.

Era hora de ver Eccho.