Os Imortais - A Caçadora de Almas
6 Pumped Up Kicks
Notas iniciais
Eu não consegui dormir a noite toda. As lembranças me perseguiam toda vez que eu fechava os olhos. Em algum lugar na minha sala, Nico e Chloe dormiam tranqüilamente e, no chão do meu quarto, Alec fizera sua própria cama com cobertores, almofadas e travesseiros. Ele parecia em paz enquanto dormia. Na verdade, eu nunca o vira dormir antes. Ele normalmente era tão mal-humorado e raivoso, que era difícil imaginar que havia algum vestígio de paz ou vunerabilidade nele.
Depois da briga de Alec e Chloe, eu mesma tentei matar Alec. Ele não me explicou o que fez, ou porque fez, mas concordamos em dormir e decidir o que fazer no dia seguinte.
Mas independentemente do que ele fizera, decidi que não o abandonaria. Ele era meu amigo. O único. E tinha uma Guardiã na minha sala que não hesitaria em arrastá-lo pelos cabelos para o julgamento. Ao lado dela, o amor da minha imortalidade dormia. Tão perto, mas tão longe.
Minha casa nunca estivera tão cheia de gente, mas eu nunca me senti tão sozinha. Joguei meu travesseiro no chão, ao lado de Alec e me deitei ao seu lado. Ele levantou a cabeça, confuso.
– Shhh. Volte a dormir.
Bêbado de sono, ele concordou e, para minha surpresa, me puxou para perto dele. A proximidade me incomodou no começo mas como não queria incomodá-lo, não me movi. Finalmente consegui dormir. Foi a noite de sono mais longa que tive em décadas.
Eu demorei para perceber o motivo de não conseguir me levantar. Os braços de Alec me prendiam no lugar e, toda vez que eu tentava sair, ele me puxava mais.
– Alec. Alec. Alec!
– Ãh?! O que...
Ele parou de falar e imediatamente me soltou. Na verdade, ele praticamente me empurrou.
– Eccho! Desculpe! Eu... Eu não... O que você estava fazendo na minha cama?
Ele estava vermelho e ainda esfregando os olhos de sono. Com o cabelo bagunçado ele parecia realmente fofo. Como uma criança que foi tirada da cama antes da hora.
– Não é importante. Pode voltar a dormir. Eu vou prepara o café.
– Eu te ajudo!
Ele levantou em um pulo e entrou no banheiro. Eu estou viva há séculos, mas juro que nunca vi nada tão impressionante. Ele levou cerca de quarenta segundos para entrar no banheiro, arrumar o cabelo, escovar os dentes e reaparecer impecavelmente arrumado. Ou pelo menos era o melhor que ele conseguiria com pijamas.
Fizemos panquecas para o café, em silêncio. Sincronizamos nossos movimentos, ele misturando a massa e eu cozinhando. O medo de acordar os visitantes nos venceu e comemos sem acordá-los.
– Nós ainda podemos fugir, você sabe. — Alec estava sussurrando enquanto mergulhava sua panqueca em calda de chocolate.
– Não antes de você me dizer o que fez.
– Não posso te contar. Você vai querer me matar. — El olhava para o chão, envergonhado daquilo que ainda não dissera.
– Já quero te matar. Eu arrumo as malas enquanto você conta. Que tal? — Ele deu um mísero sorriso de lado, exibindo covinhas e passou a mão no cabelo.
– Você vai me odiar Eccho. E eu não estou pronto para isso.
– E quando você estará?
– Nunca.
Eu ri baixinho enquanto caminhávamos de volta para o quarto.
– Eu não posso te odiar, Alec. Você é meu irmão de Imortalidade, lembra?
– Bem, se lembre disso quando estiver com vontade de arrancar minha cabeça, ok?
– Alec, pare de enrolar. Afinal, nada do que você tenha feito pode ser tão ruim quanto aquela vez na Rússia. — Comentei, relembrando uma de nossas... "Aventuras".
– Eu já disse que não foi minha culpa! Aquele elefante apareceu do nada!
– Esse não é o ponto, Alec. Você realmente mexeu no Segundo Arquivo?
Ele olhou para os pés e arrumou uma mecha de cabelo que insistentemente ficava espetada. Inspirei e expirei profundamente duas vezes, tentando manter a calma.
– Certo. Tudo bem. E o que você fez?
– Eu... — Ele pareceu em dúvida, sem saber se deveria ou não contar. — Eccho, me desculpe. Eu mexi na família dele. Na família de Nicholas.
Dessa vez não consegui respirar. Apenas segurei todo o ar dentro de meus pulmões para não gritar com ele e me sentei na cama de solteiro, meu corpo pesado como rocha.
– Alec. O. Que. Você. Fez? — Minha voz era ácido escorrendo por minha língua. Veneno pingando a cada palavra.
– Eu os fiz fazer a Promessa. — Ele falou tão rápido que levei alguns segundos para processar.
Um soco não teria doído tanto. Me levantei em um pulo, meu sangue acelerando com a minha respiração
– Você... Você...
Senti minha pálpebra esquerda tremer involuntariamente e me joguei em cima dele. Nossos corpos bateram no cochão e eu tentei sufocá-lo ou acertá-lo de qualquer forma. Ele nem se moveu.
A impotência dele me deixou com mais raiva ainda e marquei minha mão em sua bochecha. Ele segurou meus braços e girou nossos corpos, me esmagando com seu peso.
– Eccho. Você está batendo como uma garota. Essa não é você. Se acalme. — Ele disse lentamente, pausando entre as palavras.
Era fácil para ele dizer. Não eram as mãos dele que estavam presas acima da cabeça. Regulei minha respiração e, assim que ele alivou um pouco a pressão, joguei meu joelho em seu estômago e rolei para o lado.
– Seu idiota! — Eu não me preocupava mais em sussurrar. — Eu não acredito! Como você pode fazer isso?!
Ele finalmente se cansou e me empurrou para fora da cama, a exaustão e a culpa pesando em seus ombros.
– Eu disse que você me odiaria, Eccho.
Ódio não descrevia meus sentimentos naquele momento. Era uma palavra leve demais, bondosa demais. Eu queria ferver os rins dele e servir como sopa em um asilo. Queria quebrar aquele sorriso sexy de que ele tanto se gabava. Mas não teria coragem.
– Você estava certo. Pegue suas malas, seu equipamento e seu maldito par de sapatos caros e dê o fora! Agora!
Chloe e Nicholas, que estavam na porta do quarto embasbacados com o pequeno espetáculo, abriram caminho para ele. Nicholas me olhava preocupado e eu ainda não sabia o que pensar sobre ele. Ele estava Marcado agora. As coisas seriam ainda mais complicadas.
Alec converteu suas malas em miniaturas e rapidamente as guardou em seu Pithos, um dos pingentes de seu colar de Caçador. Ele não ousou olhar para trás em seu caminho até a porta.
"Talvez eu tenha sido muito dura com ele. Eu nem sequer ouvi suas explicações. Eu não quero que ele vá. Se ele for Chloe e Nico irão também. Eu deveria deixá-los ir. Eu deveria..."
– Alec! — Chamei, já me arrependendo do que estava prestes a fazer.
Ele se virou em minha direção no exato segundo em que as janelas da sala se partiram.
Estilhaços foram para todos os lados, cortando principalmente a perfeita pele de Chloe e permitindo a entrada de dois adolescentes vestidos como se tivessem acabado de sair de uma noitada. Uma noitada muito animada.
O vestido negro e provocante da garota e a regada rasgada do garoto realçavam suas enormes asas vermelhas, que se envergavam para caber no meu apartamento. Agora isso sim era um problema. Mas afinal, que mania é essa que todo mundo têm de quebrar minhas coisas?
Fale com o autor