Notas iniciais
Pequenos pingos de chuva molhavam o asfalto naquela noite. A fumaça das chaminés percorria o céu, aquecendo as casas e trazendo o familiar aroma de madeira queimada.
O silêncio foi rompido com o pequeno som de passadas leves e rápidas. Uma garota. Era ela que corria pela rua esburacada, pisando com os pés descalços nas poças d'água. O vento batia em seus cabelos, fazendo-os chicotear contra seu rosto pálido como o de um fantasma. Na mão esquerda ela carregava um pequeno baú e com a direita segurava o colar de crucifixo. A barra do vestido negro, rasgada, era arrastada pelo chão. Preso ao cinto, um punhal. Lágrimas negras, manchadas pelo delineador, escorriam-lhe pela face, destacando-lhe as íris vermelhas.
Os passos ficaram mais lentos, uma vez que não queria chegar tão rápido ao seu destino, mas não tinha escolha, teria de fazê-lo cedo ou tarde, como sempre. Aprendera a muito tempo que era melhor que fosse feito por ela, dentre todos os outros.
Virou na última esquina, e, ainda mais devagar do que antes, passou pelo portão do cemitério. As lápides, cheias de musgo, e envelhecidas pelo tempo, nunca lhe foram tão familiares... Os segundos arrastavam-se, zombando dela e de suas tentativas de adiar o inevitável.
No centro dos túmulos, havia um imenso carvalho, mantido pelos moradores da cidade para fornecer sombra aos seus mortos. Sentado abaixo dele, estava o garoto, observando-a com uma intensidade quase assustadora. Suas vestes e seus cabelos eram tão negros quanto os da garota, e seus olhos cor de ônix. Tão profundos que parecia ser possivel se afogar neles.
Ao vê-la correu em sua direção, abraçando-a. A garota sentiu o toque do amado pela ultima vez, memorizando tudo. Seu perfume, o calor de sua pele e o toque de suas mãos. Tudo o que ela perderia mais uma vez.
– Eu pensei que você não viria mais. — Disse ele sorrindo.
– Me desculpe. Me desculpe. Eu sinto muito. Eu realmente sinto muito. — Ela não conseguia parar de chorar.
– Está tudo bem, você não está tão atrasada assim. — Ele não fazia ideia.
– Sinto muito. — Ela disse uma última vez antes de enfiar o punhal em seu coração. Ele arquejou, cada gota de sangue saindo do seu rosto, tornando-se mais e mais pálido a cada segundo.
Ela depositou em sua boca um último beijo, selando sua morte, antes de aprisionar sua alma no baú. O baú das almas.
Ele estava morto. Mais uma vez. Era sempre assim, ele nascia, crescia, e de uma forma ou outra, seus destinos se cruzavam. Em todas as suas reencarnações, ela o matava. Eles eram perfeitos um para o outro, eram almas gêmeas, a única diferença é que ela jamais envelheceria, ou morreria.
Era imortal, porque na verdade, já havia morrido. Uma alma eternamente amaldiçoada. Não passava disso. Tudo por um erro de seus pais, por causa disso, era uma caçadora de almas, trabalhava para a morte. E o que a morte quisesse deveria ser feito. Tudo o que queria era morrer junto com ele, pois assim poderiam ficar juntos.
Mas era impossível, a história deles se repetiria até que a maldição fosse quebrada, coisa que nem mesmo a propria morte sabia como fazer.
Enfim, sua história seria eternamente assim.
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