Os Herdeiros da Alvorada
5 Capítulo IV - O flagelo que habita o mar
Depois de muitas horas de viajem, e é claro, de descanso, Vidovorgo e Kouta finalmente chegaram na floresta dos dentes, lugar onde a estrada que levava para ao porto superior passava. Antes de finalmente chegarem ao destino, os dois pararam perto de uma árvore que dava frutos somente de dia, e a noite eles misteriosamente desapareciam sem deixar rastro algum. Eles se assentaram em um tronco caído e ficaram comendo enquanto olhavam para os pássaros que dançavam no céu esbranquiçado.
— Então você veio de Állf? — Kouta perguntou com a boca cheia.
— Não, eu vim da floresta de Lafon. Sou um dos filhos do Barão que toma conta daquelas terras. Sou o filho, o mais belo e o mais odiado — Vidovorgo colocou a mão na testa e fingiu fazer parte de uma daquelas peças dramáticas de teatro que vez ou outra tinha no meio da cidade. Kouta riu.
— Não parece ser dureza ser filho de um barão — Kouta falou.
Vidovorgo ficou sério e olhou para baixo. Em seguida deu um forte suspiro e sorriu.
— Na verdade não. Eu deveria ajudar a tomar conta de suas terras, mas infelizmente minha vontade é outra: quero sair no mundo conhecendo novos lugares, novas pessoas e até outros continentes. Quero viver, talvez conhecer um amor, ou amores, talvez — ele riu consigo mesmo — na época em que fiz a prova do cholder, meu pai quase me bateu. Ele gritou comigo e quebrou sua bengala nas minhas costas. Se não fosse por minha mãe, eu não sei o que teria acontecido comigo...
— Desculpe-me por perguntar demais. Deve ter sido duro — Kouta falou, envergonhado.
— Não se desculpe. Eu gosto de falar sobre isso, pois me dá mais força para fazer o que gosto. Talvez eu nunca teria tido coragem para fazer o que faço se não fosse por esse acontecimento. Apesar de tudo eu ainda sou grato pelo meu pai e pela minha família. Eu não o culpo, afinal ele viu o ódio da guerra de perto quando era jovem. Talvez ele pense que se não achar um herdeiro ideal, todo o seu legado desaparecerá assim como aconteceu com muitas fadas que pereceram no campo de batalha.
Então eles ficaram em silêncio. Um frio e forte vento soprou e as nuvens ficaram muito agitadas. Vidovorgo olhou para o céu, assustado, e se levantou ainda comendo as frutas. Ele parecia apreensivo.
— É melhor irmos. O tempo está mudando e isso não é natural! — ele disse.
— O que está acontecendo?
Vidovorgo não respondeu, apenas correu em direção ao cavalo, arrumou a cela e gesticulou para que Kouta também subisse. Em uma ordem o animal correu o mais rápido que pôde. Vidovorgo agora não estava mais cantando como fez em toda a viajem. Algo estava acontecendo e ele estava com medo de dizer.
Depois de algum tempo eles chegaram ao vilarejo que ficava perto do porto. Ele era belíssimo. Alguns poucos raios de sol que fugiam por entre as nuvens carregadas iluminavam o completamente dando um contraste poético ao céu escuro. As pessoas não estavam do lado de fora, provavelmente tinham medo, assim como as da capital; talvez ali fosse pior, pois ao contrário do lugar onde habitava o rei, a proteção não era uma das melhores coisas. Uma ou outra vila tinha um mago ou algo do tipo que a protegia, mas isso era muito raro.
— É aqui que nos separamos! — o leprechaun disse, olhando para os lados, assustado — procure uma taberna que tenha quartos para alugar e se mantenha lá, fechado e seguro. Eu estou sentindo o mal pairando por essa região. Agora vá, e rápido!
O leprechaun deu as costas e desapareceu com seu cavalo na estrada. Kouta ficou parado sem entender nada e quando olhou para o céu, teve a impressão de ver um vulto negro atravessando as nuvens indo na mesma d
Kouta correu o mais rápido que pôde e procurou pela pousada, que ficava perto do cais. Ele subiu as escadas desesperadamente, abriu a porta, entrou e em seguida a fechou enquanto sua respiração ofegante ficava cada vez pior. Todos os aventureiros que estavam comendo ou bebendo vinho e cerveja pararam quando viram o desespero do garoto.
— Algum problema meu jovem? — a dona da taberna, que estava atrás do balcão falou. Ela vestia uma roupa branca, usava um lenço verde na cabeça e tinha um avental vermelho nos quadris.
— Não é nada não — Kouta falou enquanto andava em direção ao balcão; suas mãos tremiam bastante. Ele se apoiou para não cair e em seguida assentou em um dos bancos — tem algum quarto para alugar? — ele perguntou.
— Sim, temos. O mais barato custa cinco moedas de bronze e o mais caro oito de prata — ela disse.
— E qual você me dá por uma moeda de ouro?
— Ora, por uma moeda de ouro lhe fazemos até uma massagem nos pés haha — a mulher riu — bem, não temos como retornar esse dinheiro, mas saiba que faremos o possível para honrá-lo. Vina, venha, mostre o quarto para o garoto.
Uma garota baixinha de cabelos curtos apareceu na porta da cozinha. Ela parecia ser tímida e desajeitada. Assim que sua chefe a chamou, ela veio correndo enquanto tropeçava vez ou outra. Kouta percebeu uma marca estranha em seu pescoço, mas deixou passar.
— Venha, vou lhe mostrar o quarto! — ela falou enquanto olhava para a moeda e aos poucos uma expressão de espanto aparecia em sua face — er... qual quarto darei a ele? — ela perguntou para a chefe.
— Dê o melhor, ora bolas — ela falou — rápido, ele parece estar cansado.
A garota andou depressa em direção as escadas e esperou Kouta a seguir. Ela subiu tomando cuidado para cair enquanto permanecia em silêncio, com medo de começar uma conversa. Kouta viu que haviam muitos quadros nas paredes, provavelmente eram de antigos proprietários do lugar. Algumas pinturas demonstravam ser mais antigas, pois tinham falhas por causa do tempo, e outras eram deveras estranhas, como a de um homem que trajava roupas longas com cores vibrantes e usava um pato vivo como chapéu.
Quando se viram perante a porta do quarto, que eles chegaram após subir vários lances de escada, a garota deu a Kouta uma pequena chave feita de ferro, mas bem trabalhada nos detalhes que davam a ela um aspecto rústico e belo, como pequenos seres alados esculpidos na parte onde se segura para a girar na porta. Kouta pegou o objeto, agradeceu a garota, que ficou toda vermelha, e entrou. A cama era grande e se parecia com as que os nobres tinham. Perto da janela havia uma cadeira de balanço e da clareira uma pequena poltrona feita de veludo e linho de fadas. O espelho era grande e tinha uma moldura de ouro, e a vista da janela era magnifica.
O rapaz jogou sua mochila no canto e pulou de costas na cama com a esperança de afastar qualquer sentimento ruim que o tinha seguido naquele dia. Um de seus maiores medos no momento era a sombra que voava por entre as nuvens e o fato de ele estar em um dos quartos mais altos só piorava isso.
Uma parte de sua alma para não temer, pois ele era um guerreiro e teria que enfrentar coisas piores, mas outra parte dizia que aquilo não era um monstro normal e muito menos uma coisa daquele mundo; era algo terrível como uma matilha que cerca o valente em uma noite de lua cheia, ou algo parecido.
Depois de dormir por algumas horas, Kouta finalmente acordou de noite. Tudo estava escuro e sua barriga roncava sem parar. Ele decidiu descer e pedir algo para comer. Quando abriu a porta, achou um bilhete dizendo que ele tinha direito a vários jantares grátis por causa da moeda. Kouta não entendeu o motivo, pois apesar de serem raras, as moedas de ouro não valiam tanto a ponto disso, mas logo após entendeu do que aquilo se tratava: a mulher tinha percebido que a raridade das moedas era maior do que qualquer imaginava, pois elas eram de uma antiga dinastia um pouco distante, talvez mais antiga que muitos reinos que existiam. Era provável que aqueles artefatos valessem mais do que uma simples moeda de ouro comum.
Kouta pegou o bilhete e desceu correndo as escadas enquanto tomava cuidado para não cair, pois elas eram bem mais bambas do que o normal. Quando chegou na taberna, viu que haviam muitos guerreiros ocupando mesas ali. Ele procurou uma vazia, mas não achou. Pouco tempo depois percebeu que ao longe, perto da grande clareira, haviam algumas pessoas o chamando para se aproximar. Quando andou em direção a eles, percebeu que eram os guerreiros que estavam no templo e o orientaram sobre a guilda.
— Há quanto tempo, heim, Kouta né? — a garota disse.
— Sim, isso mesmo. Você é quem mesmo? Não sou bom com nomes.
— Jasmine, Haha — Ela disse, rindo.
— Ah, sim, e o pequeno é o Noop, e o maior é Raaph — Kouta falou enquanto fechava os olhos para se forçar a lembrar.
— Isso mesmo, fico feliz que tenha lembrado de pelo menos os nossos nomes, Haha — Raaph riu — sente se conosco, estamos precisando de mais companhia! — continuou.
Kouta se assentou perto de Jasmine que se espremeu na parede. Eles pareciam estar discutindo algo sério, mas de um jeito leve e descontraído. A garçonete veio e anotou os pedidos. Ao contrário da outra que antes havia levado Kouta para o seu quarto, essa era bem extrovertida; ela até perguntou para o rapaz sobre a sua energia estranha que era muito diferente da dos demais.
Rapidamente ela correu para a cozinha enquanto saltitava. Sua alegria era contagiante.
— Precisamos de um plano! — Raaph disse.
Todos os presentes na mesa, menos Kouta, se aproximaram com a cabeça para ouvir melhor; a posição deles indicava que a conversa era secreta. Kouta se sentiu desconfortável e fingiu que não ouvia, mas os outros também chamaram ele para escutar.
— Eu posso ouvir isso? Parece que o plano é secreto — ele disse.
— Mas você agora é da nossa equipe! — Noop disse — precisa escutar...
— Espera! Eu sou? — Kouta perguntou, confuso.
— Sim, mas é claro que é! A partir do momento que o vimos, percebemos que você era alguém crucial para um plano perfeito! Você parece ser forte e é isso que queremos.
Um grande sorriso apareceu no rosto de Kouta. Ele havia ficado mais aliviado ao ouvir aquilo, pois agora suas chances de sobreviver a ilha eram maiores.
— Certo, precisamos saber para onde vamos — Raaph falou.
— Mas como? Não temos um mapa daquele lugar! Além do mais, um território desconhecido daqueles pode ser perigoso se sairmos andando aleatoriamente. Nós teríamos que ouvir sobre a prova primeiro no dia que chegarmos à ilha para depois pensar em um plano, pois nem sabemos o que temos que fazer para passar na prova — Noop disse, preocupado.
— Nós sabemos que precisamos de quatro pessoas! — Jasmine falou, com grosseria.
— Sim, mas isso não é o suficiente! Que perigos encontraremos naquele lugar? Quantos monstros habitam aquelas terras? — Noop disse com ainda mais intensidade que sua amiga; ambos pareciam disputar para saber quem tinha a razão.
— Para qual ilha seremos mandados? A moça do dia da inscrição não disse o nome — Kouta perguntou.
— Nós vamos para a ilha dos sonhos — Noop falou.
Kouta repentinamente ficou sério. Ele apoiou seus cotovelos na mesa e segurou a cabeça com as mãos.
— Pelos deuses! — ele falou com uma voz trêmula.
— Qual o problema? — Jasmine perguntou em voz baixa, mas aflita ao mesmo tempo.
— Aquele lugar... Elora me falou sobre ele... — Kouta disse.
— Sério? E o que tem nele? — Raaph se aproximou. Ele parecia estar muito interessado. Para falar a verdade, todos da mesa pareciam.
— Aquele lugar já foi abençoado, mas há alguns séculos algo chegou naquela ilha e levou muitos que lá moravam para o desentendimento. Aparentemente algumas pessoas começaram a se copular com nébulos ou então a adorá-los, pois esses dizem ser os próprios deuses que desceram dos céus! — Kouta disse.
— O que? Por que mandaria a gente para um lugar assim? — Raaph perguntou, aflito.
— Estamos fazendo a prova para sermos parceiros do cholder, não é obvio? Temos que ser muito fortes para andarmos ao lado de Gaasp e por isso nos mandarão para um lugar assim, pois se sobrevivermos a isso, provavelmente conseguíramos passar por qualquer coisa — Noop falou.
— Não estou gostando disso! Parece não ser verdade, mas se foi a musa das ninfas que falou, então não posso discordar — Jasmine disse.
— Mas é claro que é verdade! Elora não brincaria com algo assim! — Kouta falou, irritado — Mas não é só isso. O lugar tem uma magia muito poderosa que torna as coisas lá muito mais lúdicas do que o normal. Por isso não se assuste com animais falantes ou cogumelos gigantes. — Continuou.
— É, isso não me surpreende tanto, pois aquela ilha já foi um lar de leprechauns há muito tempo atrás — Noop falou —Vamos guardar essas informações somente entre a gente, pois elas serão cruciais para que possamos sair na frente dos outros.
Então a conversa foi interrompida pela garçonete que trouxe os pratos que eles pediram. Kouta ganhou alguns mimos a mais de cortesia e os seus amigos ficaram surpresos, pois era muito incomum alguém receber coisas que iam além das convencionais e pagas daquele lugar.
Eles comeram sem dar um pio. Uma chuva forte começou a cair e o vento fazia barulhos que se pareciam com gritos no meio da floresta. As pessoas, assustadas, rezavam para que não chovesse no dia que a as embarcações os levariam para a prova. Muitos não ligavam, como por exemplo Lóbin e Flumi, o casal do dia da inscrição que estavam assentados do outro lado da sala, afastados de todos. Junto a eles, dessa vez, estava um homem moreno, alto e extremamente forte, de cabelos brancos e curtos. Seu traje era uma armadura grande e resistente. Perto dele descansava um escudo enorme e um martelo gigante; ambos pareciam ser extremamente pesados.
— Quem é aquele grandão? — Kouta perguntou para Jasmine.
— Aquele é Ranael, da tribo dos rinocerentes. Ele mora nas regiões verdes, mais especificamente em Gumtat — ela falou — já lutei com ele uma vez, há muito tempo, na arena que fica perto do palácio real. Se o rei não tivesse nos impedido, provavelmente eu teria vencido — a garota mordeu um pão com agressividade enquanto encarava o grandão.
— Eles possuem uma rivalidade forte — Raaph falou, sorrindo — sempre temos que impedi-los de lutar.
Eles então pararam de falar sobre a prova e começaram a conversar sobre coisas comuns e rotineiras. Raaph contava sobre suas aventuras em que caçava orcs nas montanhas enquanto Jasmine sempre dava detalhes vergonhosos sobre os acontecimentos, como o dia em que ele chorou, pois um monstro havia o quebrado seu escudo caro, ou quando ele e Noop explodiram sem querer o armazém de uma mulher que os havia acolhido após terem terminado uma missão da guilda.
Eles riam sem parar e o mais engraçado era ver Raaph tentando contornar a situação. A conversa durou até de madrugada, quando a dona da taberna falou que fecharia mais cedo, pois deu irmão, Igor, havia falecido.
O outro dia foi muito tranquilo. Os quatro saíram para passear pelas redondezas enquanto contavam causos de suas terras. Kouta havia até se esquecido da sombra que ele viu voando pelas nuvens. Todos estavam muito felizes e satisfeitos mesmo sabendo que poderiam nunca mais voltar a sorrir naquele mundo.
No dia da viajem, todos os guerreiros se levantaram mais cedo, pois ficaram com medo de que não acordassem há tempo. Kouta despertou as quatro, mas levantou somente as cinco. Eles estavam muito ansiosos, mas saber que haveria companhia servia como conforto.
Quando desceu para tomar o café da manhã, o rapaz percebeu que não havia quase ninguém por ali. A dona da taberna disse que a maioria das pessoas já haviam ido para o porto. Naquele lugar estavam somente Lóbin, Flumi, Ranel, dois magos estranhos que trajavam armaduras, Jasmine, Noop e Raaph. Kouta tomou o café ao lado dos amigos e, quando terminaram, saíram enquanto olhavam assustados para o céu que apesar de não estar iluminado, ainda era possível ver muitas nuvens carregadas.
Noop era o que mais tinha medo. Talvez por ser o mais inteligente do grupo ele sabia de coisas que os outros não tinham ciência. Era provável que aquilo tudo era mais grave do que todos imaginavam.
Quando chegaram pertos dos cais, eles viram que havia um homem grande para cima e para os lados olhando as estatuetas e verificando se eram verdadeiras. Ele usava um tapa-olho marrom e em sua cabeça havia um chapéu velho e estranho, que lembrava um pato, só que morto. Sua barba ia até a barriga e as costas de suas mãos eram cobertas de pelos.
Quando chegou a vez dos quatro, ele encarou Kouta e gargalhou alto. Depois pegou as estatuetas e olhou com cuidado para cada uma enquanto vez ou outra ria baixinho.
— Err, com licença — Noop falou — é seguro viajarmos com o tempo assim?
— O tempo assim? — o velho olhou para cima — pra mim ele parece escuro, Haha.
Todos exceto Kouta e os outros dois riram.
— Na verdade eu não estou falando da noite, mas sim das nuvens de chuva — Noop disse.
— Para mim o tempo parece normal. Se você não aguenta uma viajem dessas, então é melhor voltar para casa. Aqui ninguém teme a morte ou tem tempo para fracotes como você! — Ele disse com grosseria. As pessoas ao redor cochichavam entre si enquanto debochavam do rapaz.
Raaph empurrou o garoto com delicadeza para dentro da embarcação e os outros dois os seguiram. Mais pessoas continuaram a chegar. Uma atrás da outra começavam a rir quando as que presenciaram o medo de Noop espalhavam a história.
— Nós vamos acabar morrendo! — Kouta disse.
— Ah, mas eu não duvido disso! — Jasmine falou. Sua expressão de ódio era extremamente visível e seus olhos pareciam estar ardendo por causa de sua magia que ficou descontrolada.
Quando os capitães soltaram as cordas dos barcos e abriram as velas, um forte vento os empurrou para longe com força e grosseria. A maioria dos que estavam no barco de Kouta caíram no chão e rolaram uns por cima dos outros. O rapaz se manteve firme enquanto se apoiava no mastro. O capitão chefe riu alto e as pessoas fingiram que acharam engraçado para não passarem vergonha.
A viajem foi tranquila no começo, com algumas pessoas cantando ou tocando gaita. Havia aqueles que conseguiam jogar carta mesmo com o balançar do barco e Raaph, que estava na parte de trás, perto de onde ficava a roda do leme, vez ou outra vomitava dentro do balde enquanto era zoado pelo capitão, não o chefe, mas o seu filho que contava histórias engraçadas de navegação para tentar acalmar o guerreiro.
O céu escuro ainda preocupava Noop. Mesmo tendo amanhecido, ele permanecia quase a mesma coisa, com a única diferença que agora dava para ver as nuvens com mais facilidade. O mar não estava tão calmo e os ventos eram fortes; vez ou outra uma onda violenta batia no casco da embarcação e enchia toda a parte de dentro de água, o afundando temporariamente para depois emergir.
Eis então que vários raios começaram a cortar o céu e o barulho dos trovões ecoaram por toda a parte enquanto a luz dos relâmpagos iluminava tudo repentinamente. Uma chuva fina começou a cair e Noop grunhiu igual a um lobo. Jasmine fechou os olhos, pegou seu colar que tinha uma estatueta da deusa dos mares e começou a rezar.
A chuva foi piorando cada vez mais. Os relâmpagos aparecerem com mais frequência e os guerreiros que até a pouco cantavam calaram as bocas. O barco bateu em algo duro e fez com que todos se desequilibrassem novamente. Kouta correu para a borda e viu uma sombra grande e veloz passando por debaixo da água e indo em direção a embarcação do capitão chefe, que estava junto a Flumi, Lóbin e Ranel.
— Eu estou tendo um mal pressentimento! — Noop falou, sério.
— Eu acabei de ver algo nas águas! — Kouta disse.
— Sim, tem algo lá. Algo maligno e poderoso! — uma mulher ruiva falou — talvez seja um dos flagelos de Amereha-danã — continuou.
— Um dos flagelos? Você está falando da enguia crocodilo que mora mar das nuvens? Isso não faz sentido! Estamos bem longe daquela região! — Noop gritou, pois a chuva piorou e o barulho abafava o som de sua voz.
— O monstro não é mais visto naquele lugar há meses — ela disse — as pessoas estavam aderindo a hipótese de que ele havia se mudado! Além disso, depois do que aconteceu em Anep, não me espantaria ver criaturas do mundo inteiro andando perto do reino!
O barco tremeu bruscamente. Muita água caiu em cima dos tripulantes. O capitão chefe gritou tão alto que todos puderam ouvir. Kouta olhou para a frente, em direção a destino, e viu dois olhos brilhantes em meio a tempestade. Um rugido tremeu o chão e as águas se revoltaram ainda mais.
— Merda, o que faremos? — Kouta perguntou, aflito — não tem como lutar!
— Nós podemos o espantar! — Noop disse.
— Mas como? — a mulher ruiva perguntou.
— Luz, precisamos de luz! — Noop gritou — Alguém aqui sabe usar magia de luz? Nosso inimigo é um flagelo! Ele é fotofóbico!
— Como sabe disso? — a garota ruiva perguntou.
— Está escrito no Tamulack sagrado! Essa coisa foi concebida por Numgham com Minoh-Poruva através da escuridão! — Noop gritou — droga, ninguém sabe?
Ninguém respondeu. Um forte vento empurrou algumas pessoas para dentro do mar; infelizmente elas não conseguiram voltar. O monstro saiu de dentro da água e atacou um barco matando mais de quarenta pessoas sendo que a maioria só veio a falecer dentro do estômago da criatura.
As ondas provocadas pelo flagelo fizeram com que a embarcação do capitão chefe batesse com força na que Kouta e seus amigos estavam. Noop correu para onde o choque tinha acontecido e começou a gritar: — Alguém aqui consegue usar magia de luz?
— Não há pessoas com esse dom nesse barco, mas há quem possa ter no outro, que está a sua direita, só que mais distante! — o capitão chefe disse — lembro-me de conversar com um mago que embarcou lá; ele me disse que sabia qualquer magia que envolvesse energia física — continuou.
— Droga! Não temos como falar com ele! — Noop gritou, furioso.
— Temos sim! — Flumi falou — sou uma sereia, vim do império das fadas, posso nadar até lá.
— Não, não, não e não. É perigoso! — Lóbin gritou, desesperado, enquanto agarrava os ombros de sua companheira.
— Eu vi nos olhos do garoto! — ela falou — ele sabe o que faz!
O monstro apareceu, vindo de longe, nadando igual a um jacaré, só que em alta velocidade. Ele tinha a intenção de acertar as embarcações em cheio. Lóbin abriu um grimório que carregava em seu cinto, amarrado com correntes, e mesmo molhado, estava totalmente legível, pois grimórios do elemento água ficavam melhores quando em contato com líquido.
E recitando um verso do livro, a magia em volta dele mudou, e suas mãos brilharem em azul, e seu corpo ganhou um aspecto esbranquiçado, como se estivesse congelando. As runas de seu livro brilhavam e a energia superior em seu corpo se remexia como minhocas na terra.
E então, com um aceno, uma poderosa rajada branca meio azulada acertou o olho da criatura que se congelou imediatamente. Ela se contorceu e entrou na água para se recuperar.
— Então vai, rápido! — Lóbin falou com sua amada. Ela tirou suas roupas, ficando totalmente nua, e em seguida se transformou. Sua pele ficou azul e seus cabelos prateados. Seus olhos se escureceram totalmente e suas pernas se fundiram se tornando somente uma poderosa e grande cauda.
Ela olhou para Lóbin por uma última vez e pulou na água desaparecendo por entre as ondas. Ele não quis ficar no barco do capitão; assim que Flumi partiu, ele pulou no mesmo onde Kouta e os outros estavam.
Eis então que o monstro apareceu e tentou dar um bote no barco de Kouta, mas a garota ruiva invocou um elemental de vento que segurou sua boca por um tempo antes de se desfazer por completo. Ela fez outro, só que dessa vez ele era menor e mais fraco. O espirito rodou em volta da grande besta que tentava o abocanhar, mas falhava. Uma luz poderosa pode ser vista na direção em que Flumi nadou. Em seguida, como um relâmpago, não só em velocidade, mas também em poder, uma energia forte acertou a criatura que gritou e se afastou. Noop olhou para a garota ruiva, que estava assentada no chão, ofegante, e perguntou:
— Você consegue usar mais alguns elementais?
— Talvez mais uns cinco, por quê? — ela perguntou.
— Tente fazer alguns, só que de água para que eles puxem os barcos e nos afastem enquanto o cara do outro lado tenta distrair a criatura com luz.
A garota se levantou com dificuldade e quase caiu, mas Raaph a segurou. Ela falou algumas palavras e várias energias apareceram simultaneamente. Sua cabeça amoleceu e sua mente se apagou. Ela havia desmaiado, pois a exaustão foi muita.
As energias se misturaram com o mar e tomaram a forma de grandes pessoas feitas de águas. Elas pegaram os barcos, duas segurando em cada, e os puxou violentamente em direção ao destino primário. Novamente o monstro apareceu e uma rajada de luz a cegou.
— Cadê a Flumi? Era para ela ter voltado! — Lóbin falou enquanto olhava para as águas.
— Ela deve estar bem! — Jasmine gritou — Ela é uma sereia, nada pode ter dado errado!
Lóbin ficou em silêncio. Ele olhava atentamente para cada mexida que a água dava na esperança de ver a garota, mas nada aconteceu. Ele estava aflito e tremia bastante.
Eis então que depois de muito tempo o homem que jogava as rajadas luminosas parou. Kouta olhou para Noop e viu que seu amigo estava com uma aparência igual a de uma raposa, provavelmente o estresse o fez perder a forma humana.
Os olhos da criatura brilharam bem onde o barco estava. Noop gritou, chorando, pois viu que todos haviam sido mortos. Lóbin abriu seu livro e lançou várias magias, mas o flagelo apenas a soprou para longe. Ele havia ficado maior e mais forte.
Kouta olhou para a criatura e se lembrou de quando ela nasceu, na época em que ele era um deus. Seu ódio estava mais pelo fato de seu irmão, Numgham, ter se tornado um escorpião do que pela concepção da besta em si. Ele então abriu suas mãos, com grande fúria, e depois fez com que relógios vermelhos espectrais aparecessem flutuando como espíritos brilhantes, só que ao invés de números, haviam vários círculos com runas e pequenos ponteiros em cima deles. No meio estava o maior ponteiro, que era brilhante como o fogo, e nas bordas um filete de magia tão quente quanto uma fornalha em chamas.
O primeiro ponteiro, que era o do meio, girou e parou em uma runa de fogo. O segundo, que estava no circulo superior, também girou e parou em outra runa. Os outros três fizeram a mesma coisa, só que em menor velocidade. Os olhos do rapaz brilharam em vermelho vivo e a água que caia em cima dele evaporava imediatamente.
Todos contemplaram a magia do bosque de Elora, a grande. Kouta invocou uma bola de fogo, usando os círculos, e a lançou em direção a criatura; ela perdeu um pouco de poder no caminho por causa da chuva, mas cumpriu seu objetivo. A enguia ardeu e seus gritos ecoaram com mais força do que antes. O rapaz ainda estava furioso, pois queria descontar toda a raiva de sua vida passada naquele ser desfigurado e maldito. Seus amigos viram então sua verdadeira face que brilhava como o mais belo ouro.
— O que é você? — Noop falou, assustado.
Kouta não se importou com a pergunta. Quando voltou ao normal, pediu para que o elemental se apressasse. O monstro novamente se recompôs, só que dessa vez Jasmine o acertou com sua espada da semente que rodou como um bumerangue no ar e voltou para a sua mão. Um corte profundo apareceu na criatura, era como se o ataque tivesse sido tão rápido que as consequências dele só chegaram depois. Ela atacou de novo, só que dessa vez o olho que havia sido congelado se foi de vez, pois se partiu em vários pedaços e uma parte de seu cérebro escorreu para fora.
O monstro gritou e afundou no mar desaparecendo da vista de todos. Os que sobreviveram comemoraram com grande alegria e euforia. A tempestade acalmou, mas os raios continuaram a cair. Os escritos que estavam talhados na espada de Jasmine brilharam em verde vivo assim como os detalhes do cabo. Um vapor poderoso saia da arma que tremia sozinha por causa da quantidade de magia que havia dentro de si. Agora todos poderiam seguir a viajem em paz, por enquanto.
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