Os Guerreiros do Infinito
12 Capital estelar
Notas iniciais

Todos se reuniram na sala de controle da nave destruída do cruygark, que preferia sofrer calado pela sua querida amante destruída. De qualquer forma, sabia que poderia consertá-la depois, além de que não parava de pensar na possibilidade de usar a tecnologia dos omnykhes em seu meio de transporte. Seria bastante útil. A situação entre os guerreiros ainda não havia sofrido grandes alterações desde o momento em que Artêmis e Lylith foram pegas. Todos olhavam para baixo, assim como todos queriam quebrar o clima tenso que se instalava entre eles, mas parecia ser mais difícil do que derrotar mais uma vez Obscurus. Ainda não haviam perdido membros da equipe para conhecer tal sentimento, mas, lá dentro, sabiam que a esperança ainda não havia morrido. Principalmente Connor. Seu desejo de vingança o ajudava a sonhar com um futuro melhor, por mais ruim que isso possa ser.
Alec voltou da dispensa nos fundos da nave, que também estava destruída e com a entrada quase obstruída por seus próprios escombros, com um grosso livro marrom. O colocou sobre a antiga e não mais operante mesa de controles da sala, fazendo com que um pouco de poeira saísse de suas páginas. Em sua capa, havia a imagem talhada em ouro de um quadrado, com um losango sobre si. Nenhum título estava escrito. Pelo menos por aquele momento, todos direcionaram seus olhos curiosos para o livro misterioso. Dead se mantinha ao lado de Alec, de braços cruzados. Ainda tentava buscar em sua mente alguma informação sobre aquele planeta.
— Na tradução mais próxima para o planeta de vocês, esse livro se chama Densetsu. Contém lendas que são contadas de geração em geração por todo o universo. Até agora, eu penei que os omnykhes eram uma lenda também. Kanon me contava sobre eles todas as noites antes de dormir. Acho que era pra que eu tivesse medo de sair do meu planeta. E eu realmente tinha, até descobrir que nada poderia ser mais hostil que meu próprio povo.
É claro que todos ficaram curiosos para saber quem era Kanon, afinal Alec nunca falara de seus pais ou das pessoas que o criaram. Era um assunto delicado para todos, ainda mais agora que a mãe de Connor havia falecido. Por isso ninguém teve coragem de perguntar. Lylith certamente teria feito, estava sempre animada e eufórica, apesar da situação. Lembrar disso fez com que se sentissem ainda mais repreendidos, pois sabiam que ela não estava com eles. Dead era o mais insensível naquele momento, afinal foi treinado para suportar esse tipo de experiência. Então decidiu tomar a frente:
— Acho que falo por todos quando pergunto quem é Kanon, Alec. — E tossiu um pouco para disfarçar seu pequeno nervosismo. Compreendendo a pergunta, Alec se sentiu aliviado em responder e quebrar o clima tenso:
— Konan foi o homem que me criou. Meus pais morreram tentando me proteger. — Mas o tiro saiu pela culatra. E quando percebeu isso, arregalou de leve os olhos, abrindo o livro na página certa o mais rápido que pôde. Assim como Dead, ele tossiu, mas fingindo que estava ajeitando sua voz para ler a lenda. — “Existe um planeta no cosmos, chamado Opreshan. Ele é a morada da raça conhecida como Koetek, um dos povos mais tecnologicamente desenvolvidos de todo o universo conhecido. Porém, toda moeda tem o seu lado ruim, e o lado ruim dos koeteks era o Doutor Rosak. Ele discordava da filosofia de seu povo de que todos os seres vivos têm direito à evolução, e merecem auxílio. Acreditava que, se usassem a tecnologia só para si, seriam muito mais superiores, e que ajudar o próximo era um atraso de vida. Ganância definia sua personalidade. Porém, ele conseguia controlar seus impulsos, focando-se em seus próprios projetos. Mas a gota d’água transbordou seu copo quando os koeteks fizeram um acordo de paz com os marcianos, que até então eram seus principais rivais pelo título de raça mais avançada. Isso o fez enlouquecer de raiva. Tudo o que havia construído estava perdendo o propósito. Afinal, qual é o sentido de poder construir robôs de guerra se eles nunca serão usados? Seu talento estava sendo desperdiçado. E isso fez com que se revoltasse contra seu próprio povo. Na reunião de unificação com Marte, ele teve a ousadia de invadir o palácio real e interromper a cerimônia com o seu exército de robôs, propondo que os koeteks e os Marcianos se unissem a ele na criação de um novo império. É claro que ambos os povos recusaram, e uma nova guerra civil se iniciou em Opreshan. É fato que os koeteks têm muita tecnologia, mas Rosak era o comandante de seu exército. Toda e qualquer tecnologia de guerra era desenvolvida por ele, e por isso ele tinha total controle sobre elas. A guerra teria acabado se não fosse pela arma secreta dos marcianos, a única coisa que os tornava superiores aos koeteks: o Cessum. O Cessum é um olho cibernético que pode ser acoplado a qualquer marciano que tenha uma mente ou um corpo resistentes o suficiente. Ele insere todo o potencial tecnológico no corpo de seu usuário, tornando sua fisionomia completamente maleável. A partir disso, seu hospedeiro possui a capacidade da Oniforma, o poder de mudar a forma do seu corpo, sem limites. Zuult, o então atual imperador de Marte, teve a coragem de ser o hospedeiro do Cessum e salvar o seu povo das garras de Rosak, retornando para seu planeta natal. Infelizmente, os koeteks não tiveram a mesma sorte. Foram quase totalmente aniquilados por Rosak, com exceção de alguns poucos que conseguiram fugir na última hora através de naves de fuga escondidas no subterrâneo do planeta. Para concluir sua jornada de vingança, o doutor explodiu seu próprio lar com uma bomba altamente destrutiva. Agora ele vaga pelo universo com sua nova raça de robôs, chamada de Omnykhe. Seu objetivo é capturar o Cessum e usá-lo para destronar os marcianos. Além disso, os omnykhes conquistam planetas para aumentar o seu poder, e o seu pode ser o próximo. “— Aquelas palavras atingiram todos presentes como um touro raivoso. A primeira coisa a vir em suas mentes foi: por que diabos alguém contaria essa história para uma criança antes de dormir? E depois, se deram conta do que realmente estavam enfrentando. Aelin foi a primeira a se pronunciar:
— Como derrotamos esses porras?!
— Infelizmente, a lenda não diz nada sobre uma suposta fraqueza dos omnykhes, afinal, todos pensavam que fosse uma lenda. — Fechou o livro mais uma vez. — Mas pelo que pudemos observar em nosso combate... — Se virou para o corpo já imóvel do robô presente na sala. Seu núcleo prateado estava preso no chão escuro da nave por peças metálicas de sua própria carcaça. — Eles não conseguem se mover quando atingidos com a sua própria tecnologia. De resto, podemos apenas atrasar seus movimentos, mas matar sem destruir completamente o corpo é impossível. E são feitos de um metal muito duro. Se formos enfrenta-los, é nossa única chance.
— Precisamos descobrir onde eles se abrigam. E analisar o lugar. Precisamos de uma estratégia para entrar. — Disse Connor, o último que esperavam que falasse numa situação como aquela. Seu tom não foi suave e gentil como sempre. Sua voz estava mais séria e grave desta vez. Um lado calculista que ninguém havia visto antes estava se mostrando pela primeira vez. Consequência das experiências recentes e traumáticas.
— Antes de qualquer coisa, precisamos descobrir onde nós estamos. — Sugeriu Alec.
— Não importa onde estamos, o que importa é que nós perdemos Lylith e Artêmis. Essa deve ser nossa prioridade.
— Não conseguiremos chegar nem à base deles se não soubermos o que nos aguarda lá fora, Hunter.
Como sempre, o cruygark era um mestre na arte da argumentação, e chamar o jovem pelo sobrenome ao final de sua frase apenas adicionou a pitada sarcástica da qual precisava. Os olhos atentos de Akemi e Ashryn revezaram entre os dois, elas não gostavam que ninguém discutisse, mas sabia que era necessário, afinal precisavam estabelecer prioridades. Yin apenas ficava calado, pensando sobre tudo. Aelin, por outro lado, revirava os seus olhos da forma mais irônica possível. Não via função em bater boca daquele modo. Mas Connor admitiu sua perda ao se calar. No entanto, seu corpo não conseguia lidar mais com a dor do peso de ter perdido ambas as companheiras sobre os seus ombros. — Certo! Então eu vou reconhecer o ambiente. — E se levantou imediatamente, caminhando pelo que sobrara da nave até a porta de entrada, destroçada pelos omnykhes. Lá fora, apertou sua jaqueta vermelha ao redor do corpo para se proteger do frio, começando a caminhar pelo solo. A primeira coisa que notou foi que não era neve, contrariando suas primeiras impressões sobre o planeta. Se pareciam com rochas, mas eram frias como gelo. Ainda sem neve, o vento que soprava lá fora era frio como o inverno na Terra. Talvez até mais, Connor já não sabia o que lhe afetava ou não, devido à influência do Cristal da Esperança sobre seu corpo. Dentro da nave, Alec ainda olhava para a porta, dando leves suspiros. Lidar com adolescentes estava sendo mais difícil do que ele pensou que seria. De repente, um lampejo do passado atingiu a mente de Ashryn, e sua reação foi tão espontânea que não teve como se conter:
— Aquele robô disse que Lylith é a portadora do Cessum...
Ao se lembrar disso, o gravitocinético arregalou levemente os seus olhos, encarando a elfa. Começou a esfregar o queixo com a destra, pensando. — De fato... Nós temos que descobrir o que Rosak está tramando, isso se ele ainda estiver vivo. Essa lenda é bem antiga. De qualquer forma, Yin... — O kloeru acordou de seu transe reflexivo rapidamente ao ouvir seu nome sendo mencionado, olhando para Alec. — Você poderia acompanhar Connor lá fora? Não acho que as coisas possam acabar bem com ele sozinho daquele jeito. — Yin assentiu com a cabeça e deu um suspiro. De certa forma, sabia como seu companheiro estava se sentindo, e por isso sabia que seria difícil fechar tal ferida. Não custava nada tentar. Se ergueu e arrumou a bainha ao lado de sua cintura, caminhando para fora da nave. Fechou sobre o seu peito o tecido do quimono que usava e avistou Connor ao longe, indo em sua direção.
— Certo. Connor e Yin vão fazer o reconhecimento do ambiente. O resto de nós vai se focar em descobrir a localização da base dos omnykhes. E vamos precisar da ajuda do nosso amiguinho. — Alec olhou mais uma vez ao robô caído. Aelin pensava na possibilidade de torturar o inimigo para conseguir as informações, e gostou da ideia. Por isso sorriu de canto.
— Ele mandou você aqui, não mandou? — Disse o portador da esperança após um leve suspiro quando Yin o alcançou.
— Eu estaria mentindo se dissesse que não. Mas de certa forma, isso ainda é uma missão. Nada pessoal. — Respondeu Yin, tentando não complicar as coisas. Ambos já haviam se afastado um pouco da nave, mas o kloeru sabia como voltar, afinal estava com sua mente conectada na de Akemi caso alguma emergência ocorresse. No horizonte, pequenos relevos começavam a aparecer. Mas os arredores ainda eram vazios.
— Como isso pode não ser pessoal? Acho que acabei misturando as coisas lá atrás. Não deveria ter saído da nave sem pensar. Mas já que estou aqui, não podemos desperdiçar tempo.
— Te faria melhor falar sobre como está se sentindo?
— Não é um segredo pra ninguém. Vocês viram o que aconteceu. Já devem ter passado por coisa parecida. Mas eu nunca havia sentido isso antes. E logo depois, ser o responsável por perder Lylith e Artêmis... acho que é demais pra mim.
— Não foi culpa sua.
— Não pode ser culpa de todos.
— Também não é.
— Então de quem é? — Olhou para Yin por cima do ombro direito.
— Dos omnykhes. Eles vieram nos capturar. Por sorte estamos bem, e eu sinto que elas também estão. Teremos a chance de destronar esses robôs, não se preocupe.
Connor suspirou de leve, voltando a olhar para o caminho que trilhava. — Eu espero que tenhamos. Essa energia em excesso está mexendo com o meu corpo.
— Energia em excesso? — Arqueou a sobrancelha esquerda.
— Alec e Dead estavam conversando em um tom que eu não conseguiria ouvir, a uma distância que eu não conseguiria ouvir... e, mesmo assim, eu ouvi. Disseram que meu desejo de vingança contra Infinito Reverso cria em minha mente a esperança de que eu vou conseguir, e isso energiza o meu cristal. Essa energia tem que ir para algum lugar. Eu diria que está aguçando meus sentidos. Melhorando minhas condições físicas.
— E quanto as suas condições mentais?
— Não diria que são das melhores neste momento.
— E... essa energia, continua crescendo?
— Esse é o problema. Continua. E o medo deles é que não tenha mais para onde ir. Tenho que fazer algo depressa.
Depois de breves instantes, o jovem percebeu que seu companheiro havia se calado, e parado de andar. Por isso ele também o fez, olhando para o kloeru. — O que foi?
Yin simplesmente ergueu sua destra, apontando com o indicador uma placa à beira da trilha. Parecia vazia. Era apenas uma estaca de ferro segurando outro pedaço de ferro, onde deveria estar o aviso, mas estava simplesmente branco, como as rochas sobre as quais andavam. Connor se perguntou como conseguiu não ver aquela placa. Mas agora que via, se sentia estranho. Olhava para aquilo, e sentia como se estivesse... morto. Vazio. Mas para ele, isso não fazia o menor sentido, afinal placas não são seres vivos, então não podem morrer. Ainda assim, ele sentia, e poderia dizer que vinha do interior de seu cristal. Era uma sensação nova. Nunca sentira de forma tão intensa o Cristal da Esperança sem estar com a armadura ativada. Por puro instinto, decidiu tocar a placa. Como sua energia estava transbordando, ela naturalmente fluiu para fora de seu corpo e foi canalizada no objeto. Nesse momento, uma luz esverdeada começou a sair da placa, inundando todo o local ao redor. À medida que essa luz tocava as coisas, elas iam ganhando a vida que um dia tiveram. As rochas brancas que cobriam o solo foram cobertas por plantas gramíneas, seguidamente de rochas convencionais e árvores enormes. Estava tudo mais verde. Até mesmo o céu sobre eles se tornou azul. Mas aquele pedaço cheio de vida do planeta se estendia somente até certo ponto. Depois, a imensidão esbranquiçada permanecia. Por sorte, as letras da placa começaram a aparecer, mas se pareciam mais com símbolos alienígenas, o que era compreensível, a considerar as circunstâncias. No entanto, instantes depois aquilo foi automaticamente traduzido. “Capital Estelar a 5km”, era o que dizia. Ambos arregalaram os seus olhos, como se tivessem descoberto um novo país, e talvez de fato estivessem.
— O que... foi isso? — Yin se atreveu a pronunciar-se antes de Connor.
— Eu não faço ideia... só senti que deveria fazer. — Respondeu o jovem, ainda incrédulo sobre o que havia acabado de acontecer. Decidiu se explicar mais: — Eu sentia que... essa placa estava vazia... e o cristal me disse para preenche-la com vida... e eu só precisei tocá-la. Tem algo errado aqui, Yin. O cristal diz que devemos ir para a cidade. — Retirou a mão da placa, e apontou para os relevos que estavam bem maiores agora. — De acordo com a placa, se chama Capital Estelar. Para a surpresa dos dois, a “vida” daquela área permaneceu mesmo com a remoção da mão de Connor.
— Acha que devemos contatar os outros? Posso mandar uma mensagem para Akemi se q...
— Não será necessário. — Yin foi interrompido no meio de sua fala. Mas não estava em posição de criticar seu companheiro. — Precisamos descobrir tudo o que pudermos sobre essa cidade e relatar tudo a Alec e Dead depois. Não temos tempo a perder, os omnykhes podem já saber que estamos aqui.
— Tudo bem. — Ele concordou, é claro. Podia ver a necessidade de Connor em entender o que havia acontecido, e queria ajudar.
Então os dois voltaram a caminhar pela mesma trilha, em direção à chamada Capital Estelar. Os relevos ficavam mais altos a cada metro que percorriam, mas nenhuma placa a mais apareceu. Não havia mais nada. Ambos já não enxergavam aquilo como branco, e sim como vazio, se adequando ao que Connor descreveu sentir quando viu a placa. Não demorou muito para que chegassem ao portal de boas-vindas da cidade. Era composto por um grande arco circular que deixava a passagem livre para grandes automóveis, se é que os moradores dali se conduziam assim. Tinha uma aparência metálica, com símbolos triangulares simetricamente distribuídos pelo seu corpo. O hospedeiro da esperança suspirou de leve, a sensação de vazio diante de tudo aquilo estava começando a aumentar. Com coragem, ele avançou após alguns instantes, sendo seguido por Yin, que olhava ao redor curioso. A arquitetura dos prédios que os rodeavam era completamente desconhecida pelo terráqueo e pelo kloeruano também, já que passou a maior parte de sua vida na Terra. Não eram retos, e sim curvados, como se fossem palácios majestosos no passado, ainda assim emitindo uma imagem de classe e respeito. Mas agora estavam tombados, e vazios também, como todo o resto. Nada se encontrava nas ruas além de algumas pequenas construções, como máquinas, destruídas. Todos os prédios estavam em condições muito precárias para permitir a entrada dos dois, mas um deles em especial, não. Sua entrada estava intacta, como se ninguém tivesse ousado tocar naquela estrutura. Era a melhor opção. Connor acenou para Yin como se perguntasse o que ele achava da ideia de entrar, e o albino simplesmente assentiu com a cabeça. Caminhando para dentro, não se parecia muito diferente do lado externo. Era um grande lugar, de fato. E tinha vários andares. Mas as prateleiras que o enchiam estavam vazias. De alguma forma, aquilo lembrava a Connor uma biblioteca, mas aparentemente só ele conseguia sentir o planeta desse jeito. Yin só via o branco. Mas teve uma ideia.
— Por que você não tenta usar sua armadura para dar vida a tudo isso aqui? — Sugeriu.
Connor refletiu por alguns instantes, mas percebeu que poderia dar certo. — Bem, eu preciso direcionar esse excesso de energia para algum lugar mesmo... — Sorrindo com a ansiedade dos resultados, formou o triângulo com ambas as suas mãos e projetou a esfera de energia cósmica no meio delas. Em poucos instantes, um forte clarão verde cobriu o local em todas as direções. Ninguém conseguiu ver nada por alguns segundos, mas quando a luz abaixou e eles foram capazes de abrir os olhos, contemplaram toda a vida que havia diante de si. A cidade havia ganhado cor, apesar de ainda destruída. Os prédios já não eram mais vazios e emitiam seu próprio brilho natural. A natureza ao redor da cidade também havia surgido com árvores altas e montes. Dentro da biblioteca, as prateleiras foram preenchidas com centenas de milhares de livros mais uma vez.
— Incrível... — Sussurrou Connor para si mesmo, seus olhos se enchiam de esperança ao ver que poderia trazer vida novamente a uma civilização daquela forma.
Yin apenas observava tudo boquiaberto, um tanto quanto incrédulo. Apesar de ter sugerido a ideia, nunca chegou a pensar que de fato funcionaria numa escala tão grande. Mas algo na revigorada biblioteca lhe chamou a atenção, na intersecção entre os corredores de livro. — Veja. — Alertou Connor, seguindo o caminho. Exatamente no centro da biblioteca e sob a cúpula de vidro que cobria seu teto, estava um corpo humanoide bem mais alto do que a maioria dos seres humanos, completamente branco, ou vazio, por assim dizer. Havia um enorme buraco em seu peito, e sangue branco e seco podia ser visto ao lado do corpo. Apesar de morto, era notável que antes de partir o ser havia feito algo para manter aquela biblioteca de pé. Os dedos de suas mãos ainda gesticulavam uma espécie de feitiço. Debaixo dele, estava o símbolo da então Capital Estelar. Não quiseram desrespeitar o corpo, movendo-o de cima da imagem, mas conseguiram ver um pouco. Se parecia com um escudo triangular curvado e vermelho em seu centro, rodeado de dourado. Uma estrela maior se fazia presente em seu meio, vazia por dentro. Estava claro que o símbolo fora dourado quando a cidade ainda era viva, mas sua cor foi levada pelo tempo, e mesmo com a energia cósmica de Connor, estava com uma coloração bem mais escura. Ao final do corredor central, havia um pedestal retangular feito de madeira e ouro, segurando um livro marrom com o mesmo símbolo dourado na capa. Se parecia muito com o livro de lendas de Alec, apenas o símbolo era diferente. Movendo-se sob seus instintos novamente, o terráqueo caminhou até o livro e o abriu com cuidado, percorrendo as páginas com seus olhos. Era um livro de história, mas não contava apenas a história de como Capital Estelar fora construída, e também a história do planeta. Contava sobre os seres que o habitavam, como eram, o que representavam, suas fraquezas, e quem o matou. A tinta que escreveu a última parte era diferente das demais, estava mais forte, como se tivesse sido registrada depois de todas as outras. O jovem decidiu ler.
— “Os Omnykhes chegaram, eles nos descobriram, e estão arrancando os nossos corações. Estão absorvendo o nosso poder e vão usá-lo para construir um novo império sobre Asmora, mas não vão conseguir. Eles não sabem que, sem o brilho das estrelas, este planeta não tem vida alguma. Se você está lendo isso, eu já fui, e o planeta está morto. Mas você tem a luz necessária para trazer a vida de volta. Meu nome é Sirius, procure por minha filha, ela se chama...” — A escrita acabava em um grande risco negro, era como se seu escritor tivesse sido apunhalado pelas costas no momento. E a julgar pelo corpo atrás deles, realmente era. Connor suspirou de leve, ele pôde sentir o que o tal Sirius sentiu ao tocar o livro com sua luz. — Parece que esse planeta era habitado por estrelas.
— Como isso é possível? — Perguntou Yin.
— A essa altura do campeonato, não acho que algo seja impossível... — O terráqueo ainda estava em um leve transe devido às palavras lidas ainda há pouco. Yin decidiu deixa-lo em sua privacidade e começou a andar pela biblioteca, tentando conectar sua mente com algum ser, mas sem sucesso. Apesar da luz de Connor, tudo ali ainda estava morto. Só menos que antes. Enquanto andava, o kloeru acabou por pisar em uma rocha diferente das outras que cobriam o chão da biblioteca. Essa cedeu ao seu passo e fez um barulho de ativação, como se estivesse movendo rochas maiores por detrás das paredes a sua direita. Quando olhou, viu que uma das prateleiras havia se dividido em duas partes, revelando uma entrada secreta coberta por rochas. — Connor... — Chamou seu companheiro antes de entrar na pequena caverna, não tendo certeza se ele ouvira. Não era muito extensa, portanto não devia servir para um esconderijo apropriado. Mas, no final, havia metal. O final da caverna fora construído pelas estrelas, e não era uma coisa natural do planeta, aparentemente chamado de Asmora. Era curvado e liso. Ao olhar dentro do compartimento, não viu nada além de alguns controles nas paredes e uma espécie de dispositivo em cima, seu formato denunciava que emitia um raio de energia. Yin apertou todos os botões, nenhum funcionou. Devia estar sem energia. Finalmente o portador da esperança chegou atrás de si, encarando a parte de metal com olhos curiosos.
— O que é? — Indagou.
— Parece um teleportador. Mas está sem energia, não funciona mais. Sirius deve ter usado isso para enviar a filha para um lugar seguro. Parece uma tecnologia bem avançada.
— É melhor levarmos o livro, Alec vai saber o que fazer com ele.
Yin assentiu com a cabeça e os dois saíram da caverna. Connor pegou o livro da história de Asmora e das estrelas em seus braços, e ambos caminharam para fora da biblioteca, mas não foram recebidos pelas ruas da cidade com uma boa surpresa. Uma enorme nave em formato oval estava sobrevoando a civilização, iluminando-a com suas luzes azuis. Três omnykhes saltaram das plataformas e apontaram suas armas já carregadas para os guerreiros, que foram obrigados a erguer as mãos, insinuando rendição.
— O comandante Rosak ordena a captura do Livro de Asmora. — Disse um dos robôs com a sua voz cibernética como sempre, apontando para o livro com o cano da arma acoplada a sua destra.
Connor e Yin trocaram olhares, e como Yin se conectou à mente de Connor como emergência assim que viu os robôs do lado de fora, puderam se comunicar em rápidos segundos.
— “O que faremos?” — O telepata perguntou. Como seus inimigos não estavam devidamente vivos, não eram suscetíveis a sua telepatia. Por isso não tinha nada em mente.
— “Eu tenho um plano, mas não sei se vai funcionar. Apenas me acompanhe e rasgue a carcaça de um deles quando eu der o sinal.” — Yin assentiu com a cabeça e desviou seu olhar seriamente para os robôs. Connor fez o mesmo e estendeu o livro.
— Tome. — Quando o robô se aproximou com suas garras para pegar a capa marrom, o jovem tentou seu plano. Como era a sua luz que estava dando vida aquele lugar, ele pensou que poderia manipulá-la. Então se concentrou e absorveu de volta a sua energia para seu cristal, fazendo com que tudo ao redor voltasse a ser vazio, inclusive o livro, que desapareceu, já que só pode ser visto diante do brilho cósmico. Concentrou a energia em seu punho direito e desferiu um soco certeiro contra o peito do omnykhe, lançando-o contra o prédio mais próximo e aterrando-o na parede. A carcaça já começou a cair, revelando seu núcleo prateado. Se lembrou do que Alec disse sobre os omnykhes não conseguirem moldar sua forma diante da própria tecnologia e agarrou o outro robô, apertando o botão em seu pulso que fez com que sua garra se desacoplasse de seu corpo, sendo ejetada contra o corpo do outro na parede, imobilizando-o. Yin aproveitou a abertura para desembainhar sua katana e cobrir sua lâmina com energia telepática. Apesar de não ter efeito nos robôs, ainda iria fortificar o metal para causar mais danos. Fez um corte na horizontal no robô a sua frente e depois perfurou o robô que Connor estava agarrando para que este não o machucasse. Ambos saíram de perto dos robôs que ainda funcionavam, cujos núcleos estavam vazando pelos vãos entre as carcaças destruídas. Restauraram sua forma humanoide, ficando em posição de luta.
— É sua vez de pensar num plano. — Disse Connor para Yin, erguendo seus punhos em posição de luta, ao mesmo tempo que seus espinhos cósmicos saíam do chão ao seu redor.
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