Os Guardiões do Chaos

7 Além da Escuridão


Notas iniciais
Costumo demorar em capítulos "Grandes" . Mas até que fiz esse rápido . Há consequências em nossos atos,seja o mais simples que for . Nossas palavras nos rascunham, nossos atos nos traçam,nossas atitudes nos definem.

Há momentos que se marcam na história . Sejam felizes ou tristes . eles se eternizam nas lembranças e escrevem-se em livros, contos e lendas . Sejam fatos ou mitos .Aquela noite serena e fria ma cidade de Manhattan marcaria o início de uma nova era . Uma era de sombras .

Grande parte da população aglomerava-se no Central Park . Traziam seus filhos, animais de estimação . Até aquela vizinha chata estava presente . Aquela era pra ser uma noite especial, mas em outros moldes .

Um grupo de artista se reuniu para um show beneficente . Astros do Rock, Estrelas do Pop, todos em prol da luta contra a fome . Aquela noite era ainda mais especial para Miranda , pois aquele seria o seu último show .

– Nunca pensei que a minha carreira seria tão curta — Desabafava ela em seu camarim — Eu gosto de cantar,sabe ?

– Sem dúvida, madame .

O maquiador de Miranda era jovem, não tendo mais de vinte e cinco . Tinha lindos cabelos dourados, perfeitamente cortados . Seu rosto tinha um tom rosado e seus lábios, avermelhados . Seu nariz fino distribuía a simetria de seu rosto .

– Não pretende voltar quando tudo acabar ?

– Não sei ... Preciso pensar em sair viva primeiro, não acha ?

O homem deu uma risadinha . Seus olhos azuis observavam-na atentamente . Olhava-a de cima a baixo, analisando seu trabalho .

– Está feito ! Você está um arraso !

Miranda olhou-se no espelho . Estava linda, mas ainda assim algo a incomodava . Não era a maquiagem . Sebastian era o melhor no que fazia . Também não eram as roupas . Antes de ter a sua resposta, a porta abriu-se num estrondo .

– Desculpe minha senhora ! Você deve subir em cinco minutos .

– Tudo bem, Arno . E por favor, pare de me chamar de senhora . Me faz parecer velha .

Arno era um dos sete mordomos de Miranda . Ele tinha a pele clara e sempre trajava um terno elegante com uma gravata avermelhada . Não tinha cabelo . Miranda sempre se perguntou se ele polia a careca, pois esta sempre brilhava .

Quando o homem saiu pela porta, ela bufou e espreguiçou-se . Sentia saudade de casa. Não a mansão em Beverly Hills . O acampamento no Reino Unido . A Mansão Hospedeira . Sentia falta dos seus amigos .

–Dizem que toda Central Park está lotada para ver o show — Comentou Sebastian, tentando animá-la — O seu show .

– Lembre-se que não sou a única a se apresentar .

– O que importa ? No fim sempre é você a brilhar .

Ela sorriu para o companheiro . Após se despedirem, ela subiu as escadas do camarim . Ela iria abrir o show, o que era uma honra . As fotógrafas disparavam seus flashes enquanto ela tentava abrir caminho sobre o mar de câmeras . Ela pôde ver seus mordomos a frente . Arno se posicionava na ponta . Ajeitava a gravata de quando em quando, mantendo-se sério .

– Trinta Segundos ! — Gritou um produtor, correndo apressado para brigar com os responsáveis pelos holofotes .

Arno olhou para os demais mordomos . Haviam três mulheres e quatro homens, contando com ele . Mablle era loira e tinha os olhos azulados , com o cabelo preso em um coque . Rika tinha origem japonesa e sempre apresentava um ar sério . Clara era brasileira, a mais baixa das três . Tinha a pele morena e tinha o terno amarrotado . Alessandro tinha descendência italiana . Era alto, forte, com longos cabelos negros que passavam-lhe a cintura . Ariosto era, junto de Arno, o mais antigo mordomo . Por último, Jimmy, com seu cabelo azul, era o mais novo mordomo .

Todos os sete curvaram-se, desejando boa sorte a sua ama. Sabiam que protegê-la seria crucial aquela noite e receberam a permissão de usar quaisquer meios para fazê-lo .

Ao subir no palco, Miranda pôde ver o número de pessoas que aquele evento trouxe para o parque . Na calada da noite de Manhattan , havia milhares de flashes apontando para ela . Os gritos se misturavam aos aplausos e assobios. Ela já estava acostumada com isso . Cantar era a sua vida .

– Delta One, aqui é Alfa Dois . Tudo seguro.

– Já falei para não usar o rádio sem um motivo real, Jimmy . Nós podemos te ver daqui — Guinchou-se Mablle com a infantilidade do colega — E pare de dar nomes pras equipes ! Você é péssimo nisso.

– Tanto quanto você cozinha ?

Ambos calaram-se ao sentir suas cabeças latejarem .

– Copiado Rika, sem mais uma palavra — Bufou Jimmy, desligando o rádio . Ele sabia que não era bom tirá-la do sério . Rika não era uma mulher de muitas palavras .

Apesar de ser novato, Jimmy já possuía certa experiência . Trabalhava como assassino particular e já fora barmen quando mais novo . Para ele, missões de vigia eram paradas demais .

– Ao menos posso curtir o show .

No palco, Miranda levava o público ao delírio com Mr. Sweety . Ao longe, fogos de artifício explodiam, misturando-se ao brilho das estrelas . Com o término da música, as luzes se apagaram . Na correria pra troca de roupa, só podia ouvir o grito da plateia e o brilho das estrelas . Ou seriam fogos ?

Estava ficando quente, o que a irritava. " O noticiário matinal disse que a noite seria fresca " Pensava, esperando as luzes se acenderem . Os flashes das câmeras surgiam aos montes na densa escuridão . Sentia um arrepio na nuca . Pensou ser algum inseto, talvez uma aranha . Isso a deixou em pânico. Ela odiava aranhas .

Quando as luzes se acenderam, ela começou a cantar Letter to My Love, esquecendo seus problemas . A música fazia isso com ela .

Arno a olhava ao lado do palco, fora da visão do público . Estava triste . A vira crescer e sabia o quão aquele momento era importante pra ela e o quanto o que estava por vir a faria sofrer .

– A vida é injusta — Via-se dizendo, enquanto desviava os olhos pro vazio da noite . Não havia estrelas no céu, apenas sombras bailando a luz do show .

Miranda estava no palco a quase trinta minutos . O suor escorria-lhe pela testa . Sentia seu corpo calado. Quente.

" Eles estão aqui"

Seus olhos percorriam as pessoas que gritavam seu nome . Havia milhares delas . Podia ser qualquer um, mas quem ?

Rika expandiu sua aura . Podia tocar a alma de todos dentro de um raio de quarenta e cinco metros, levando dois segundos por pessoa . Arno e os outros receberam sua mensagem . Os mordomos estavam em alerta.

– Quanto tempo, Rika ? — Perguntou Clara . Havia uma média de três milhões d pessoas no evento . Rika podia tocar suas almas, sentir suas emoções, mas levava muito tempo para tocá-las . Não conseguiria sentir a todos .

Ao fundo da escuridão que engolia o céu,ergue-se ao longe,subindo acima dos arranhásseis de Manhattan . O som do seu lançamento foi abafado pela música do show, mas o brilho de sua explosão fez com que todos virassem para olhá-lo . Em seu tom esverdeado, a chuva de fogos dispersou-se criando a forma de um dragão . Todos aplaudiram, surpresos, achando que tudo fazia parte do show .

– Isso não estava no roteiro — Disse, parando a apresentação . " Eles estão vindo "

A forma do dragão ergueu-se, soberano . O público achava aquilo fantástico . A besta olhava-os, erguendo suas longas asas verde esmeralda que destacavam-se na noite . Quando, ao longe, a fera caiu dos céus, indo em suas direções, muitos espertos puseram-se a gritar, enquanto outros assobiavam e aplaudiam .

Se Miranda alertasse-os, um tumulto se iniciaria . Três milhões de pessoas correndo por suas vidas . Se ela seguisse o show, talvez pudesse pensar em uma forma de protegê-los, evitando a confusão . Era a melhor opção a se fazer .

Sua voz ressoou ao ouvido de todos, chamando-lhes a atenção . Enquanto isso, ela concentrava a sua aura, dissipando-a ao redor do parque .

– Bem pensado — Arno entendera o plano de sua protegida . Agora, o resto seria com seus mordomos .

Assim como o dragão emergira das luzes dos fogos, um brilho arroxeado elevou-se aos céus, indo de encontro com a fera .As luzes criavam forma em seu neon forte. Longas asas, iluminando todo o palco . Seu bico era fino como uma lâmina e suas garras, esticadas para o embate inevitável .

Quando por fim se chocaram,o dragão e a água, o brilho das estrelas voltou a acompanhar os céus . O brilho caia acima dos aplausos da plateia, inocentes em sua ignorância . Era o desfecho do show de Miranda .

– Ainda não acabou ! — Alertou Clara .

Do centro do choque, a escuridão voltava a engolir os sorrisos . Densas formas negras espalhavam-se pelo céu, convergindo no palco . Os mordomos puseram-se na frente, interferindo o percurso .

–LIGHT SHOT ! — O disparo veio de Jimmy . sua pistola emitiu um brilho azul, cortando até mesmo o negror do céu ao longe . A forma esfumaçada girou sobre a luz, passando ao seu lado . Ele jurava, naquele momento, tê-la ouvido dizer " Errou ".

As luzes do palco voltaram a se apagar . O público tentava usar os celulares para iluminar,mas suas telas passaram a piscar, foscas . Tentavam, em vão, ver além da escuridão .

Miranda tentava manter a calma . De certa forma, as luzes terem se apagado era uma vantagem . Ninguém saberia dizer ao certo o que houve .

" Concentre-se nos olhos e você irá ver além do desconhecido ".

As sombras mergulharam a sua frente . Suas formas aos poucos ficavam mais claras . Eram pessoas . Seus rostos ocultos .

"Concentre-se"

As formas expandiam-se . Podiam estar atrás dela que ela não saberia diferenciar . Seguiu, então, o conselho da voz que sussurrava em sua mente . A noite negra tingiu-se em dois tons . O brilho machucava seus olhos e o oculto mostrava sua real face .

– Soldados . Quantas vezes vocês vão tentar ?

– Dessa vez, eles trouxeram um general .

As sombras tomavam forma. Uma mulher de pele pálida e olhos avermelhados, com uma jaqueta remendada sob a blusa de Rammestein . Sua calça era escura e rasgada, em um visual punk forçado .

– Você não tem estilo ! Olhe essa roupa !

A mulher franziu-lhe as sobrancelhas . Os olhos de Miranda se acostumavam ao escuro . Ela pôde ver a silhueta dos soldados na sombra , com longos sobretudos negros, encapuzados para ocultar seus rostos .

– Sabemos que está sendo vigiada . As sombras conversam comigo .

– Recomendo um bom psicólogo .

Os soldados dispersaram-se pelo palco . Miranda tentava achar uma saída . Enfrentá-la ali causaria a destruição do parque aos olhos de três milhões de pessoas . Isso iria expô-los, sem contar as rebeliões ao redor do mundo . As luzes estavam desligadas a três minutos . Os murmúrios já começavam . Se tivesse sorte, ela teria dois minutos para contornar a situação .

Os mordomos armavam-se para a batalha . As sombras dos soldados cercavam-nos, separando-os de Miranda .

– Não é educado interferir uma apresentação beneficente ! — Arno avançou contra a escuridão . Sua luva tornou-se um ponto luminosa no meio do vácuo, acertando o intangível, arremessando o soldado para a noite gélida e fria . O tempo começara a correr.

Miranda concentrou sua aura em um vortex, disparando-o.O vento cortava o breu, mas perdeu-se antes de alcançar seu alvo .

– Você não entende, criança . As sombras estão do meu lado e você não passa de um ponto em cego, pronto para ser engolido.

Um feixe de luz cortou suas palavras e trouxe de volta a esperança perdida.

– Terá que passar por nós primeiro — Disse Jimmy, carregando a sua pistola . Dizem que os melhores atiradores dão nome às suas armas . Jimmy sempre disse que a dele também tinha, mas só a revelava para aqueles que estivessem no limiar da vida.

Rika sacou a sua katana . Sua lâmina era escura e emitia um corte azulado. Os soldados que avançavam tinham sua alma separada do corpo . Jimmy dizia que ela se alimentava delas .

Mablle escondia-se atrás de seus bichos de estimação . Miranda achava engraçado alguém tão dócil ter criaturas tão grotescas . Cães altos e desfigurados . Todos tinham três olhos e duas bocas . Suas patas mais pareciam garras e seus rabos tinham lâminas nas pontas . Sim, eram três rabos .

Clara era a mais normal junto a Arno . Ela era uma elementar de água . Em seu pescoço pendia um fraco com uma essência azulada, a qual ela chamava de Lágrima do Oceano . Com isso, ela tinha a brisa do mar a seu favor a qualquer lugar que fosse , podendo invocar os guardiões das águas . Suas formas eram quase cristalinas . Eram um pouco maior que um homem normal . Tinham longas caudas de serei e tinham os seios desnudos .

Ariosto era velho demais para lutar, mas sua força destruía até cinco soldados de uma vez . não se sabe ao certo qual era a sua habilidade, pois ele só usava os punhos.

Por último, Alessandro era um Alementar . Nascera em uma família com conhecimento sobre a aura, mas nunca pôde controlá-la . Ele usa apenas seus punhos mas , diferente de Ariosto, é por ser a sua única opção . Sua força é semelhante a de elementares de Terra . Arno dizia que seu punho já partiu uma montanha, sem aura, apenas com força bruta . Um verdadeiro monstro .

Os soldados os mantinham ocupados . Apenas os restavam segundos para essa situação . As sombras subiam pelo corpo de Miranda e ela nada pôde fazer para impedir .

– Eu disse chega ! — Um novo disparo de Jimmy acerto Miranda de raspão, liberando a sua mão . Os olhos da mulher analisavam o pequeno mordomo, desafiando-a em sua escuridão.

Miranda aproveitou a sua distração, usando o ar para impulsionar o microfone . O cabo esticou-se, caindo inerte, após perder-se no escuro . O microfone sumira .

– Ok, isso é ruim .

As sombras pareciam dançar . Subiam em seu corpo, sufocavam-lhe o pescoço . Por um momento ela pensou que o público havia se silenciado .

– Você não deveria machucá-la . Isso acarreta em severas consequências .

A voz de Arno soou controlada . Seus óculos caiam no rosto, presos ao fino nariz . Após livrar-se dos soldados, passou a abrir caminho para enfrentar a General . As sombras temiam a sua presença, recuando, temerosas .

– A noite cai sobre os olhos dos homens . Estão sobre o meu domínio Irá protegê-la ou salvá-los ?

Arno espalmou o vazio, criando três formas semelhantes a uma mão . Os feixes certaram-na . As luzes do palco se acenderam novamente . As sombras esconderam-se, devolvendo o brilho daquela noite .

– Não devo nada a eles . Fiz meus votos à ela . Serei seu protetor . Se salvá-los for a sua vontade, assim o farei, nem que ponha meu pescoço a prova .

A mulher sorriu para ele . O público olhava a destruição, tentando entender o que ocorria e quem eram aquelas pessoas .

– Sua escolha foi egoísta . Escolheu salvá-la e nos expor . Como me foi dito .

A mulher sumiu, juntando-se as sombras restantes do palco . Alguns se atreveram a aplaudir, outros fotografavam e compartilhavam nas redes sociais .

– Vocês são peões . Os reis acabam de mover seus primeiros . Agora, o jogo só acaba quando um cair — Sua voz tornou-se um sussurro — E quando a hora chegar, o homem se esconderá nos braços da escuridão .

O corpo dos soldados vencidos também desapareceram . Os mordomos erguiam-se nos holofotes, expostos . Seus corações estavam acelerdos .

–O mundo gira em torno de escolhas — Disse Ariosto, dando um tapinha nas costas de Arno — Você fez a sua . Eles sabem.

– Terá válido a pena ?

– Não viverei muito para respondê-lo .

Miranda estava caída, tentando achar as palavras certas . Pensou em pegar o microfone e explicar, mas depois agradeceu o fato deste ter sumido . Jimmy ergueu a mão, levantando-a .

– Hora de irmos .

– Mas o que vem depois ?

Jimmy forçou-lhe um sorriso.

– Um monte de reclamações no Twitter ! Afinal, destruímos o palco, acabamos com o show . Isso que é abrir de forma explosiva !

Ela sorriu . Sabia que haveria consequências, mas quis esquecê-las . Quis esquecer o fato de seu último show ter sido um fiasco . Quis esquecer ter sido inútil . Quis esquecer ter salvo três milhões de pessoas . Mas, acima de tudo, quis esquecer o fato de ter sido a responsável por expor os elementares .

Notas finais
Espero que tenham gostado ^_^