Os Guardiões do Chaos
8 Sopros de Lua
Notas iniciais
Muitos fogem do que um dia já foram . Esquecem do que os levou a ser e despejam lágrimas em dores passadas . o que não sabem é que o tempo é cruel e sempre retorna com suas dores .
A noite estava calma e serena . " Perfeita " Luna pensava . Caminhava a passos tímidos por uma estrada fria não muito longe de Yeovil . O chão era pavimentado por algumas pedras aqui e ali . As árvores,longas e tortas, fechavam-se em arcos pelo caminho,deixando a noite ainda mais escura .
A cada passo adiante, mais atrás ela estava do seu destino . Ao longe, podia ver as luzes da cidade próxima " Mras Ellen me mataria se aparecesse por lá ".
Por um instante parou . As árvores afastavam-se, dando lugar ao forte brilho da lua . A pequena trilha dividia-se a frente. Uma placa branca aparentando ter sido recentemente pintada anunciava que a pista da esquerda a levaria para o velho Saint Lumios, o orfanato da região . O caminho da direita mal fora asfaltado, mas tinha sua grama bem aparada . Havia um apanhado de tulipas e orquídeas que se estendiam em um belo jardim . Mais a frente, podia -se observar um brilho vindo de um pequeno grupo de flores . Assemelhavam-se a graciosidade das orquídeas,mas tinham a delicadeza de rosas. Suas pétalas eram acinzentadas e refletiam o brilho do luar .
– Sopros de Lua . Eram as suas favoritas — Disse uma voz rouca e fraca . Luna virou-se para recebê-la . A Septã Maria trabalhava no orfanato ao lado e durante anos foi a responsável por Luna . Era um senhora baixa e gorda, com bochechas rosadas e um sorriso desdentado . Seus cabelos avermelhados agora estavam grisalhos,presos ao seu habitual coque .
– Como soube que eu estaria aqui ?
– Eles me contaram . O homem elegante que a muito te visitou .
Luna não recebera muitas visitas quando lá morou . Em seus doze anos, um homem fora ao seu encontro nos jardins, onde gostava de passar as tardes . Mesmo depois de seis anos, Willian mantinha a mesma aparência .
– Então deve saber para onde estou indo.
A Septã tocou-lhe os longos fios negros . Sua mão estava fria e tremeluzente . Seus dedos enrugados acariciava-lhe o rosto .
– Minha querida . Eu nunca quis isso para você .
Luna via dor em seus olhos lacrimejantes . Quando pequena, Maria foi como uma mãe. Seus abraços confortavam-na e suas palavras a auxiliavam . Queria que as coisas tivessem sido diferentes .
– Quando pequena, você disse que meu nome era uma homenagem a essas flores .
A velha septã olhou o jardim, sorridente.
– Elas embelezam o jardim . Começaram a crescer depois que você chegou — Maria lembrava-se bem, pois fora ela a carregar Luna nos braços quando achou-a no jardim . Sob o cesto, um Sopro de Lua repousava junto ao sorriso da criança . Uma pequena bebê, com a pele rosada e um sorriso desdentado por debaixo dos misteriosos olhos arroxeados .
– Você costumava fazer coroas para mim .
– E você odiava, dizia que era coisa de patricinha .
As duas riram das lembranças . Por um momento, Luna pôde esquecer dos seus problemas e sorrir .
– Como andam os pequenos cordeiros ? Ainda dando trabalho ?
– Não mais que você e a primeira manada . Deus via o que vocês aprontavam .
O vento uivou em seus ouvidos, arrepiando a pele . O frio da noite mostrava sua face impiedosa . Septã Maria tossia fortemente . Seu rosto ficava avermelhado sempre que forçava o ato .
– É melhor voltar pra lá . Não quero que pegue um resfriado .
– Você ainda é muito nova pra se preocupar comigo — Ria a senhora, limpando o rosto com um lenço — Sei que não a verei tão cedo ! Os jornais estão uma loucura . Mostrar-se assim ! Bem que ele falou que teriam consequências.
Os jornais anunciavam a destruição no show no Central Park . Autoridades de todo o mundo reuniram-se em uma conferência para discutir a questão . Redes sociais bombardeavam a ação dos elementares,chamando-os de aberrações. " Provavelmente o mercado negro irá arranjar um jeito de vender as armas " pensou . Luna recordava-se do encontro com Juarez no ano passado .
– Não precisa se preocupar . As relações políticas são fáceis de contornar . Só imagino o quão trabalhoso será conseguir a aceitação da população .
Um som leve pôde se ouvir ao longe . Luna segurou a mão da septã, puxando-a para de trás de uma árvore .
– Eles estão aqui. Não saía daí .
Sua imagem se misturou as sombras . Ao longe, a septã pôde ver dois vultos se erguendo, avançando contra a noite . Então seus gritos anunciaram suas faces . Dois rapazes, um com cabelos cor de fogo o outro careca .
– Septã. Pai pediu para que víssemos se estava tudo bem — Disse o careca, de nome Thomas .
– Precisavam vir se esgueirando ?
– Foi ideia do Fill ! Ele disse que a viu conversar com uma gar ...
Fill deu uma cotovelada no amigo em um sinal bem claro de " Cala a Boca” . Septã Maria sorriu .
– Tudo bem Thomas, Fill . Esse será o nosso segredo . Digam que estou a caminho e que deixei que pegassem um biscoito no pote .
Os garotos correram pela trilha fria, saltitando .Septã olhou para trás,a grande árvore onde Luna a observava .
– Falei para esperar — Reclamou, cruzando os braços .
– Querida, já vi os soldados em ação . Eles não seriam tolos em pisar nos galhos .
A senhora sorria, mostrando a Luna o resquício de juventude que lembrava . Uma vez, foi para o parque com Alex e acabou vendo-o torcer o pé . Quando fora ao encontro da septã, viu seu rosto preocupado sorrir-lhe dizendo " Obrigado pro trazê-lo " .
– Eu preciso ir — Anunciou, abraçando a velha senhora — Ainda nos veremos . Eu prometo !
– E Alex,onde ele está ?
Luna apertou-a, tentando se controlar para não chorar . Alex crescera junto a ela . Era filho da Septã e durante a infância, seu melhor amigo . Um menino magro e fraco com a pele morena como a do pai e o sorrido bondoso da mãe . Sempre fazia loucuras para impressioná-la e sempre acabava machucado .
Alex uma vez perdeu-se durante uma semana . Quando fora achado, chorava muito e só se acalmou ao vê-la . Com o tempo, ele foi tornando-se mais alto e forte . seus olhos castanhos pareciam ter cor de mel . Seus lábios ... Foi o primeiro amor de Luna .
– Ele já foi . Não pôde vir vê-la mas pediu para dizer que a ama .
A velha septã alisou uma vez mais seu rosto .
– Tão linda . Tão doce . Como me faz falta . Queria que fosse diferente .
O tempo provou que Alex havia voltado diferente e Fill, seu pai, não gostava nem um pouco . Incêndios e explosões, queimadas e vazamentos inexplicáveis passaram a acontecer ao seu redor . E o pior que Fill culpava-a pela transformação do filho .
– Foi ela ! Você tornou-a um arruaceiro !
Luna viu septã afastar-se pela trilha escura .
"Sente Falta ?"
– Todos os dias .
A voz soou em sua mente, confortando-a . Era suave e controlável . Seu tom era quase ritmico .
– Poderia voltar ?
O silêncio foi a sua resposta e isso a fez entender . Talvez não pudesse cumprir a promessa que fez a septã . Essa seria a segunda mentira que contara essa noite .
Há exatos cinco anos atrás, em uma quinta-feira nervosa,os portas do orfanato abriram-se em um forte sopro . As sombras adentraram o recinto, caçando as presas da noite . Foram as chamas de Alex que deram o brilho que precisavam para escapar .
A explosão de certo acordou os outros garotos . A septã levantou-se com o trovejar que se iniciou .
– O que você fez ? — Perguntou para o marido enquanto saltava da cama com a roupa de dormir florida .
– O necessário ... O necessário ... — Dizia ele, sacudindo-se contra a cama,abraçado ao travesseiro .
Os pequenos cordeiros, como eram chamados os pupilos do orfanato, choravam . Os mais velhos tentavam acalmá-los . " Deem me licença" gritava a septã, abrindo passagem para o segundo andar . Se não fosse o vento congelante, o fogo teria se alastrado pela casa, queimando a todos . No céu,pôde ver uma longa nuvem negra afastar-se para o leste,a trovejadas e relampejos .Nenhum sinal de Luna e Alex . E essa fora a última vez que os vira .
Luna se perguntava o quando ela devia ter sofrido . O vazio da perda, a culpa do marido . Septã deve ter vivido o resto arrastando-se em sua infelicidade . Até agora. A esperança que a muito perdera voltava a cintilar . Imaginava se a contasse a verdade .
– Espero que a guarde bem Alex . Onde quer que esteja . As preces dela ainda te pertencem .
Luna caminhou na direção oposta a da cidadela, afastando-se do orfanato, deixando o lindo jardim . Sabia que agora seria uma fugitiva para o mundo, uma aberração . Mas isso não importava .
Andou por uma hora até chegar em uma velha pousada . O estalajadeiro dormia em sua cadeira velha enquanto a televisão estava ligada . Não demorou a arrumar um quarto, seguido de pedidos de desculpa . Já em seu cômodo, despiu-se . A brisa fria da noite gelava seu corpo . O espelho refleti sua beleza junto a um segundo rosto .
– Estranha-me te ver olhando para si mesma — Dizia a mulher que só vivia no plano do espelho .
– Não sou esnobe como a Miranda, mas ainda guardo minha feminilidade .
A mulher sorriu . No espelho, Luna pôde ver ser suas mão tocar-lhe o ombro . Sentiu um calafrio com a pegada, mas nada que não lhe fosse normal .
Muriel era a sua memória ,a guardiã e zeladora . Acompanha-a desde que era criança . Sempre vestiu um longo vestido negro . Seus olhos negros caiam sobre seu busto, apertados em um corset . Seus lábios eram vermelhos e grandes, belos e chamativos . Luna achava que fosse o espírito de sua mãe, por só ela poder vê-la . Mas Mur a explicou a verdade . Aos treze anos soube de suas responsabilidades como guardiã . Uma semana antes de ser atacada .
– Esse lugar na Itália . Como é ?
– Apenas posso adiantar que você se sentirá e, casa quando vê-lo . É o destino de cada guardião .
Luna adormeceu com aquelas palavras na cabeça . Destino . Será que tudo o que fizera até agora fora determinado ? Teria ela um poder de escolha ? Não queria ser uma marionete em um jogo estúpido de matanças .
Um barulho fez seus pensamentos perderem-se . Algo estava acontecendo na recepção . Ela não queria ficar ali para descobrir o que era . Estava no segundo andar . Pular não seria um problema . Ao olhar pela janela, notou que havia diversos homens do lado de fora . Um deles era o estalajadeiro . Seu coração passou a bater mais forte quando o homem apontou para a sua janela .
Não demorou para passos pesados começarem a marchar pela escada . Seu tridente pendia as suas costas . " Lá se vai a minha viagem tranquila ".
Os tiros atravessavam a porta de madeira . Seria mais fácil se não carregasse sua mala de preciosidades, itens que ela roubara . " Eu disse para deixá-los no campus " lembrou-lhe Muriel, rindo da situação .
Quando os homens atravessaram a porta, encontraram-na deitada na cama . Segurava um crânio,rodando-o de um lado para o outro, como se analisasse algo .
– Não gosto que porcos irritem minha ninhada . Em meus domínios, vocês são carne fresca .
Não houve tempo de reação . Quando o primeiro homem caiu,o s outros foram logo em seguida . Apenas um conseguiu manter-se de pé. agarrado a cama .
– É bom que um porco baixe a cabeça frente a um lobo — Disse, vestindo-se na frente dos homens — Essa água no chão é a minha armadilha para abatedouros . Depois de roubar a salinidade através de micro rachaduras na pele, foi fácil diminuir a pressão de vocês por osmose . Tontura, falta de equilíbrio . Recomendo que comam sal .
Ao sair do quarto, carregava uma grande bolsa de viagem as costas . Escondeu-se em um quarto ao notar movimento no corredor . "PsicoElementares" . Os homens de Juarez podiam encontrá-la através dos rastros de sua aura . " Eles sempre estão um passo a frente ".
Ao notar que os passos se afastavam, Luna correu para a escada,mas logo foi surpreendida . A figura de um homem velho de rosto desfigurado assustou-a . Metade de seu corpo era maquinaria . Poucos fios de cabelos caiam em sua testa enrugada, penteados delicadamente para um lado .
– Mas você está morto .
Juarez sorriu para ela . Seu braço acertou-a, destruindo a parede contra o seu corpo . Luna caia do segundo andar, usando sua aura para evitar a hemorragia . Se tridente escorregou até a sua mão,mas a sua bolsa de tesouros ficou pendurada nos destroços . Seu corpo chocou-se contra o chão frio . Se não tivesse concentrado sua aura, teria quebrado bem mais que alguns ossos . No entanto, sabia que com a força do impacto não conseguiria mais ficar de pé .
Juarez desceu a passos tortos pela escada . Trazia em suas mãos a bolsa de tesouros, de onde retirou o velho cajado da ponta da caveira de ouro com olhos de rubi que Luna pegara no verão passado .
– Apenas os fortes olham de cima . Sinta-se pequena em meio ao meu rebanho,cordeiro .
Luna fechou os olhos . O céu aquela altura já estava negro . As primeiros gotas de chuva acertaram-na no rosto .
– Desculpe, mas tenho que fazê-lo.
A chuva caiu soberana . A ventania levava os destroços da pousada. Juarez ergueu seu cajado para o golpe final.
– Que Assiah tenha piedade,pois as sombras não irão .
– Diga isso pra ela .
Os homens de Juarez caíram um a um . A chuva aumentava . As gotas tocavam o nada e sumiam, como se tivesse alguém ali.
– Céus, me perdoem — O estalajadeiro tentou correr para a pousada, mas esta foi levada pela ventania .
Juarez não hesitou em golpeá-la no rosto,mas algo o impediu de prosseguir . Seu braço mecânico foi esmagado e enferrujado, assim como o resto metálico do seu corpo .
– Sua puta lamacen ...
Luna colocou o dedo em seus lábios fazendo-o calar-se . Seus ossos haviam melhorado e suas feridas cicatrizado . Ela pegou o cajado da mão de Juarez, que era incapaz de se mover pelo peso .
– Nunca toque nos meus tesouros .
– O cajado é ... — O golpe foi tão forte que quebrou o cajado,amassando o rosto do velho mercenário que tombou inerte no frio chão molhado . Luna pegou a caveira dourada e jogou para o estalajadeiro, que a essa altura estava imóvel de medo .
– Desculpe pelo seu hotel . Acho que isso paga os estragos .
A chuva teimou cair até a manhã do dia seguinte . As autoridades foram chamadas, mas Juarez havia sido carregado pro seus homens .
– E então ela jogou todos no chão . Seus olhos . Era a besta ! O anti-Cristo !! — Contava o estalajadeiro aos policiais .
Ao que se sabe, o homem vendeu a caveira em um leilão e, com o dinheiro, construiu um hotel cinco estrelas . As autoridades declararam estado de calamidade global . Em poucos dias, haveria uma reunião da ONU para definir o que seria feito em relação ao Homo Elementarium, como classificado nas revistas de curiosidade científicas que adjetivava-os como aberrações da natureza . Já Luna embarcava na manhã seguinte em direção a Veneza .
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