Os Guardiões das Portas
2 Olhos do Escuro
Johann sonhava tranquilo sob suas cobertas, um lençol branco e um cobertor peludo marrom. Vestia agora apenas meias brancas e uma cueca boxer azul-marinho. A cama de madeira rangia toda a vez que o garoto se mexia por ser muito velha e raramente ter sido usada. O colchão e travesseiro oferecidos eram duros e desconfortáveis, mas o menino gostou assim mesmo.
A sala que lhe fora ofertada estava vazia desde que a mãe das garotas Duprey tinha ido embora. Além da cama, o único móvel era um armário que só tinha alguns cabides e que agora guardava a mochila pertencente a Johann. As paredes rústicas, feitas de madeira, e o chão coberto pelo mesmo carpete bege que cobria a casa inteira.
Apesar de o jovem não ouvir, fazia tempo que Hebe batia à porta, sem obter resposta. Cansada de esperar, a moça girou a maçaneta e já foi entrando o cômodo. O hóspede acordou, seminu, e os dois prenderam o olhar um no outro, ambos corados de vergonha. A moça retrocedeu após se dar conta do que estava acontecendo, lacrando a porta atrás de si.
Passados alguns minutos, o adolescente deu as caras na varanda enevoada onde as irmãs se encontravam. As duas estavam sentadas em cadeiras de madeira ao redor de uma mesa redonda. Hebe escondia seu rosto ainda enrubescido e Eileen, sem saber do ocorrido, olhou altiva para o moço recém-acordado, que agora vestia as mesmas roupas de sua chegada. Ele percorreu o caminho até as donas da casa e tomou para si o assento que restava.
— Que bom que decidiu se juntar a nós. — Eileen falou com entonação neutra, apesar de dar a Johann a impressão de ironia.
Ele respondeu aquela tentativa de cumprimento com um aceno da cabeça, esperando que a caçula também lhe saudasse, o que não aconteceu.
— Visto que nosso “convidado” apresentou dons únicos de fusão elementar, — iniciou a mais madura, levantando-se da cadeira — dar-lhes-ei hoje uma lição teórica sobre os elementos.
Nem Hebe, nem Johann perceberam que, logo no canto da enorme sacada havia um grande pergaminho branco e algumas tintas coloridas. A instrutora da dupla juvenil pôs os materiais na mesa, abriu todos os potes de tinta e derramou os pigmentos sobre o papel, formando um anel com seis círculos de corante. Um azul, um verde, um amarelo, um vermelho, um branco e um preto. Ela apresentava o desenho abstrato para seus instruídos como se fosse uma obra de arte.
— Hã… E como isso vai nos ensinar alguma coisa? — Johann foi rápido em questionar aquela técnica de ensino, mas foi logo calado por sua tutora.
— Há quatro elementos naturais que regem o mundo. Água, fogo, terra e ar. — citando os elementos, apontou numa ordem já determinada para cada uma das manchas redondas de tinta, mas não apontou para o branco ou para o preto — Nós, como feéricos, temos mais intimidade com algum deles.
— E e-esses outros dois? — Hebe falou baixo e gaguejando, ainda desconfortável com a cena daquela manhã. Simultaneamente indicou as marcas branca e preta no pergaminho.
— A luz e as trevas, por sua vez, são elementos mais raros de se apresentarem, geralmente ligados a famílias e estirpes específicas — a loira pareceu satisfeita com o questionamento da irmã ao começar o falatório. Ao comentar sobre a restrição de linhagens, fez um breve gesto apontando para Thornton — Enquanto os quatro elementos outros são como tijolos do nosso universo, esses dois são a cola que mantêm as pedras juntas. Todos, por sua vez, são facilmente desencaixados e manipulados por usuários de mana, uma energia que causa desvios positivos e negativos no cosmo.
Os pupilos pareciam entediados com a lição. Era algo básico para qualquer feérico que já mostrou alguma função arcana saber desses detalhes. Os jovens só se exaltaram quando um segundo pergaminho foi posicionado ao lado do primeiro. Com as mãos, Eileen pegou uma amostra da tinta branda e da azul, misturando-as sobre a nova folha, criando matiz cerúlea clara.
— Como devem saber, sou mais íntima do elemento ar, mas me aproximei da água ao completar dezoito anos, algo comum em nossa estirpe. Aprendi então a fundir meus elementos e hoje pratico encantamentos de gelo. — Durante sua explicação, a mulher formou geada sobre suas mãos e ombros, exemplificando para os alunos — O que me chocou ontem é que um rapaz de dezesseis anos surgiu na minha porta já manipulando combustão de forma profissional.
Diante do elogio, Johann abriu um sorriso de orgulho. Sua professora, no entanto, não mostrou reação alguma. Eileen estava realmente assustada com o potencial do menino. Os Thornton sempre tiveram histórias de que faziam pactos estranhos e usavam de fontes de poder perversas das quais poucos ouviram falar, mas seu desembaraço com a luz, a matéria mais pura, desmentia completamente os boatos. Mesmo assim, era estranho que um gurizote que tivera treinamento e instrução quase idênticos ao da irmã mais nova da loira e que tinha a mesma idade que a calula tivesse uma habilidade tão acima do normal para sua faixa etária. Curiosa sobre seu novo pupilo, ela continuou:
— Corrija-me se eu estiver errada, mas o que usou foi combustão, certo? Fusão entre luz e fogo.
— Correto, dona. — Johann abriu um sorriso maior ainda agora que o assunto era ele — A luz já é um elemento íntimo da família, então já nasci com ela. Descobri intimidade com o fogo quando completei sete anos e, depois daí, comecei a treinar a fusão.
O garoto não notou o breve aceno de cabeça que sua orientadora temporária deu durante a explicação. Ele tinha revelado tudo. Os Thornton eram mais fortes do que pareciam, literalmente nasciam com o elemento luz pronto para ser usado por eles.
Hebe se sentiu excluída da conversa. Mal tinha aprendido a controlar a terra, seu primeiro elemento, e não fazia ideia de qual seria seu segundo. Sua consanguínea, notando seu olhar entristecido, mudou o assunto da missão no mesmo instante.
— Intimidade elementar não significa que só possa usar aqueles elementos. Todos os feéricos hábeis ao arcanismo podem usar todos os elementos, mas é claro que usarão aqueles que estão conectados a si com maior maestria — dito isso, Eileen ergueu a mão esquerda aberta. Sobre cada um de seus cinco dedos uma esfera composta de um elemento surgia, mas algo estava faltando.
O dois neófitos observaram os cinco dedos. A luz era representada sobre o polegar, a água no indicador, ar no dedo médio, a terra no anelar e o fogo no mindinho. Os dois se questionaram ao mesmo tempo sobre a falta das trevas e Eileen, como se tivesse lido a mente deles, sanou aquela dúvida.
— A água é rival do fogo, o ar é rival da terra, mas luz e traves não são apenas rivais. — A entonação da veterana em magia era, agora, mais sombria — Rivais podem se aliar se for necessário, mas luz e sombra, claro e escuro, são arqui-inimigos declarados desde a fundação do universo. Não há mago que consiga controlar os dois juntos e aqueles que tentaram acabaram por morrer tentando.
Com o término da explicação, a mais adulta fechou a mão que continha os elementos, desmanchando as cinco esferas. Ela ainda ajeitou os papéis sobre a mesa, deixando-os, mesmo melados de tinta, no mesmo canto de onde os tinha tirado.
— Hebe, lhe dou permissão para descer junto com nosso convidado. Vão almoçar e mostre a cidade para ele — Eileen disse, mesmo relutante.
Os olhos da caçula brilharam diante do comando de sua irmã. Dificilmente desciam para a cidade e, quando o faziam, não ficavam muito tempo. Tinha permissão para ficar o dia inteiro lá, mesmo que fosse com aquele garoto estranho que acabou de conhecer.
A menina trocou de roupa voando, pegou algum dinheiro com a mais velha e puxou o garoto para fora, querendo aproveitar o máximo possível aquele momento. Vestia um moletom branco, uma jaqueta cinza escuro, jens pretos, um tênis branco com amortecedor e, na cabeça, uma touca preta. Livrara-se do visual medieval, mas mantivera alguns anéis e pulseiras nos braços por motivos próprios.
Chegaram a cidade sem encontros ao acaso com qualquer criatura que pudesse os atrapalhar. Mesmo sabendo que a maioria das criaturas dali não eram tão difíceis de se derrotar, não era muito bom se defrontar com qualquer uma delas.
Foram direto ao centro comercial, uma área ao redor da praça principal da cidade. A região do comércio se resumia às ruas a sul, leste e oeste da praça – pois a norte estava a prefeitura e o salão comunal da cidade – e o início das ruas que levavam até ali. Aquele lugar mais central da cidade era um dos poucos que era realmente asfaltado, não cheio de britas soltas, paralelepípedos rachados ou puramente um caminho de terra como eram o resto das rodovias. O município era pobre e haviam casas muito dispersas, o que tornava difícil de asfaltar todo seu território.
Enquanto o casal fazia seu caminho até o único restaurante que a comida era confiável da cidade – o tal de “Craig's” — puderam ver a fauna mágica local. Pixies, mentirinhas, duendes e pogrebins. Os banais não poderiam ver aqueles bichinhos sem ajuda mística. Banais tinham um poder único entre todas as linhagens humanas de poder ignorar completamente a existência de algo se não acreditassem de todo o coração. Isso os fazia mais resistentes à magia quando adultos, mas muito vulneráveis ao oculto em sua infância, quando realmente podiam ver o mundo mágico e interagir com ele.
Sabiam que aqueles seres não estavam ali para fazer mal. Terminaram tranquilos o caminho até o restaurante e, já no interior do estabelecimento, sentaram-se numa mesa próxima à janela. O interior aconchegante era aquecido por condicionadores de ar espalhados por ali. O local era um dos poucos que tinha estes dispositivos e, portanto, atraia muitos fregueses no inverno. Lá fora não nevava, mas os lençóis frígidos brancos continuavam espalhados para todos os lados.
— Você moram aqui faz tempo? — Johann tentou iniciar um assunto. Mesmo que tivessem caminhado muito até ali, não trocaram uma palavra em momento algum.
— Moro aqui desde que nasci — Hebe ainda desviava o olhar, observando as crianças a brincar perto da fonte da praça.
— E os banais? — Johann agora pareceu confuso. Murmurou baixinho olhando para os lados — Se vocês moram numa cidade tão pequena a tanto tempo, eles devem estranhar vocês aparecerem e sumirem o tempo todo.
— Existem várias fazendas de fazendeiros ricos ao redor da cidade — Só agora a menina espiava seu acompanhante de canto de olho — Eles acham que eu sou filha de uma deles e estudo em outra cidade, uma cidade maior. Eileen nunca vem aqui, eles nem sabem que ela existe.
O garoto pareceu conformado. Achou genial o meio com que as duas tinham usado da própria burrice e habilidade para inventar histórias dos banais para se encobrirem. Lembrou do modo diferente com que tinham que lidar com banais em Nova York. Mesmo sem a companheira perguntar, ele explicou:
— Eu tenho que estudar num colégio banal da minha cidade. Mantemos uma floricultura para ganhar dinheiro e não levantar suspeitas.
Hebe faria algum comentário sobre a situação dos Thornton se o garçom não tivesse chegado. Pediram um prato especial, um tipo de cheeseburger grande, mas sem pão, como se fosse um prato completo e que ainda vinha acompanhado de arroz. Aguardaram em silêncio até que os pedidos fossem entregues, acompanhados por refrigerante de cola e dois copos sem gelo, mas o de Johann com uma rodela de laranja.
— Nós somos fornecedoras — Hebe reiniciou o assunto. Sua afirmação foi seguida por um resmungo de dúvida de Johann — Enviamos aqueles remédios como o que usamos na sua mão para o resto do mundo. Claro que uma dose concentrada como a que usei em você seria chamada de “poção milagrosa”, geraria alvoroço e problemas com outros guardiões das Portas, por isso fazemos doses mais diluídas.
— E como fazem isso? Quer dizer… Vocês não tem nem energia elétrica na casa de vocês.
— Nos comunicamos por carta com o comprador. Ele nos envia o dinheiro e nós enviamos de volta caixas com o que ele pediu. Não me pergunte como que nos comunicamos com ele da primeira vez, pois quem fez isso foi minha irmã.
Era realmente um mistério. Um dia, Eileen começou a enviar caixas de poções, pastas e remédios para algum lugar e Hebe foi obrigada a levar as caixas para o correio da cidade pois sua irmã tinha uma fobia misteriosa dos banais. Incumbida de ser a mensageira entre a produtora e seu consumidor, nunca descobriu a identidade do segundo, mas sabia que morava em algum lugar da Flórida, mesmo que as cartas fossem endereçadas para “Terra Mater – Farmácia Alternativa e Produtos Orgânicos”. Mesmo sabendo da empresa que recebia as encomendas, o indivíduo que tratava com as irmãs era um mistério para a mais moça.
Ao fim do almoço ela explicou tudo aquilo para o garoto. Depois de pagar a conta, passearam pela pequena zona comercial, compraram algumas roupas para Johann – que trouxera poucas mudas de roupa e precisaria mais já que sabiam que o problema novaiorquino não ia se resolver em menos de três meses – e então foram dar uma volta pela praça.
Sussurros e silvos maliciosos vieram das mulheres sentadas nos bancos de pedra e de madeira, as mães das crianças que brincavam ali, enquanto elas analisavam o casal. Era possível para os dois verem algumas mentirinhas-brancas se alimentarem dos boatos e intrigas criados naqueles cochichos, o que fazia os animaizinhos ficarem mais e mais cinzentos. Hebe tinha esquecido do evento daquela manhã e conversava com seu novo amigo de forma descontraída.
Falaram sobre família, treinamento, sobre a descoberta de seus elementos, gostos e afins. Passaram um bom tempo papeando até que perderam a noção do tempo e notaram a luz do crepúsculo no céu. Já estava a anoitecer e era quase uma hora de caminhada de onde estavam até a casa escondida pelas montanhas e pelo mato.
Em passadas rápidas, alcançaram um caminho de paralelepípedos no fim da estrada de asfalto e, mais tarde, uma passagem de terra e, por fim, sumiram entre as coníferas nevadas. Apesar de Johann não saber para onde iam naquela subida gradual lotada de árvores, Hebe seguiu um caminho já conhecido puxando seu par pela mão. A única coisa na cabeça era o medo de receber um xingão de Eileen por chegar muito tarde.
Uivos e berros os cercavam. Estrigos? Estrigos eram algo como um meio-termo entre feéricos e vricolakas; tinham a mesma facilidade para a magia que os primeiros, mas eram tão cruéis e enfadonhos quanto os segundos, mesmo sem a parte de sugar sangue para se alimentarem. Estrigos também eram chamados de banshees e berradores, mas consideravam essas maneiras de serem denominados vulgares e ofensivas. Usavam seus berros como meios de ataques naturais, podendo encantar, desmaiar ou propelir uma pessoa com os brados.
Temendo enfrentar um estrigo criminoso, o que originava aqueles gritos intimidadores, os dois apressaram o passo até o lar. A varanda já era visível num horizonte próximo, mas ainda teriam que fazer a volta pelo paredão sobre o qual a sacada ficava. Já estava escuro e só a lua iluminava seu caminho pois, mais uma vez, o céu estava oculto pelas nuvens. Os brados assustadores chegavam mais e mais perto, apavorando os jovens.
Assim que visualizaram a porta de entrada do casarão, o aperto em seus corações desapareceu. A tranquilidade não durou muito, afinal outro ruído surgiu de algum lugar atrás deles. O som de algumas árvores sendo derrubadas se seguiu. Ouvindo melhor, não podia ser um estrigo, já que não houve um eco sobrenatural acompanhando o ruído. O uivo era de um lobo mesmo, um licantropo.
Olhando para o céu para se certificar, era mesmo dia de lua cheia. Outros pinheiros caíram e, dessa vez, os dois podiam ver a vegetação tombando no chão atrás deles. Era óbvio que, seja lá o que fosse aquilo, estava cada vez mais perto.
Johann bateu à porta desesperado ouvindo os urros e estampidos ficando cada vez mais perto. Demorou um tempo para a dona da casa atender, mas quando essa surgiu na porta, silêncio. Eileen, por sua presença, pareceu ter expulsado o perseguidor do duo.
— Vocês não vão entrar? — Eileen questionou, olhando para as caras pálidas de medo de sua irmã e do hóspede.
Sem dizer nada, eles entraram. Antes de fechar a porta atrás de si, Hebe deu uma breve olhada para trás. O perseguidor estava ali, parado próximo às árvores derrubadas. Sua silhueta mostrava que vestia uma túnica ou um manto comprido e dois brilhos vermelhos mostravam seus olhos rubros olhando para a casa. Envolta dele, duas outras sombras, seres menores e deformados se mostravam os donos daquele grasno monstruoso. Puxada para dentro por sua irmã, a garota não viu mais as três figuras quando olhou pela janela. Seu coração acelerou e, naquela noite, nem ela nem Johann dormiram direito.
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