Os Guardiões das Portas
3 Incertezas
— Um estrigo? — Eileen perguntou pela décima vez, ainda confusa com a história da irmã.
— Uma estriga! Era mulher, tenho certeza. — Hebe continuou. Tremedeiras tomavam conta de seu corpo e seus olhos estavam inchados pela noite maldormida — E tenham duas criaturas que vinham com ela.
Estavam sentados ao redor da mesa onde as lições arcanas eram dadas, mas não tinham nem começado o aulete daquela manhã porque os dois alunos decidiram iniciar aquela discussão sobre uma estriga e dois monstros terem perseguido eles na noite anterior. A professora, por sua vez, escutou a narração várias vezes até compreender completamente o evento.
Não achava que qualquer estrigo morasse na região, mas sabia que eles tinham uma inclinação irremediável para a maleficência. Apesar de não ter ouvido gritos ou uivos, tinha certeza que escutara as árvores caindo e chegou a ver uma delas quando abrira a porta para as crianças entrarem. Temia ter que lidar com estrigos e vricolacas, ambas linhagens da noite das quais os feéricos tinham certo medo.
Em um aceno, Eileen trouxe das estantes de livros do interior de sua casa um bestiário de capa negra. O alfarrábio cheio de pó e ácaros não tinha título ou decoração em seu invólucro de couro preto e, em suas páginas envelhecidas, apresentava ilustrações medonhas e escritos em hieroglifos rúnicos que pertenceram aos próprios vricolacas, mas que agora eram usados apenas por arcanos das trevas. Ela não mostrou aos seus discípulos o livro profano, não até achar uma página específica. Ao encontrar o trecho que lhe servia, deitou o grimório de bestas sobre a mesa, indicando para os dois companheiros verem o ser desenhado naquele papiro.
Hebe reconheceu aquele homenzinho, pois os dois acompanhantes de seu algoz da noite anterior pertenciam a mesma espécie do indivíduo na ilustração. Era uma pessoa magricela, pequena e que se apresentava andando de forma quadrúpede, com as mãos e com os joelhos. Sua pele, dentes e olhos eram claramente apodrecidos e suas unhas eram afiadas como lâminas. A imagem se moveu, arrastando-se e gemendo pela folha encardida.
— Os estrupício, mais conhecidos hoje em dia pela cultura popular dos banais como ghouls, são seres das trevas, almas profanas que ficaram presas em seus corpos mesmo depois da morte — tendo como base as escrituras na sua frente, Eileen começou a explicação. Seus ouvintes não sabiam se era o início da aula ou se ela tentava tirar algo de seus testemunhos — Eles nascem dos Rituais de Transfusão, técnicas que transformam qualquer ser em um “vampiróide”, uma versão mais fraca de um vricolaca. Acontece que, se um vampiróide morre de fome, ele continua vivo, mas nessa forma de estrupício. Os estrigos e vricolacas usam os estrupícios como peões e soldado.
Por mais que a dupla duvidasse, sua tutora acreditou no veredito que tinham dado. Ainda temendo as trevas e os seres sombrios, ela buscou passar aquelas informações mais rápido possível. Mesmo que pareça confuso, a ideia da criação dos estrupícios era simples e inteligível, útil para criar exércitos rapidamente.
— Desde o início dos tempos, vricolacas realizam o Ritual de Transfusão, onde secam o sangue do corpo de um ser para se alimentar, mas repõe uma parte com seu próprio fluido. — continuo Eileen, ainda lendo — Enquanto os doadores eram a raça de “pedigree”, os vampiróides resultantes eram os vira-latas. Esses monstros marginalizados, diferentes de deus criadores, tinham deformidades horríveis pelo corpo, perdiam qualquer dom mágico que tinham, mas sentidos aguçados, corpo mais forte e imortalidade, tudo pelo simples custo de ter de beber sangue frequentemente, algo que não é necessário aos sanguessugas de raça pura, que podem viver anos sem se alimentar. Fadados a viver por toda a eternidade, os vampiros impuros que não conseguissem sorver seu único sustento se putrefaziam, tornando-se em ghouls.
Os semblantes chocados da morena e do rapaz resumiam tudo o que sentiam. Já perceberam que tinham sido caçados por alguém maléfico, mas a explicação sobre seus aliados revelava que era um mago negro dos piores. Todo o feérico sabia que feiticeiros das sombras realmente poderosos não andavam sozinhos, muito menos na companhia de outros feiticeiros. Se um bruxo era verdadeiramente cruel, suas mascotes preferidas eram aquele tipo de aberração, algo que estava acorrentado às trevas e seguiria seu comando só por saber lidar com aquele elemento.
Não entendiam o motivo de qualquer um vir para Lavinea fora para proteção, como era o caso de Johann. Uma Porta que está em estado de desvanecimento, como era o caso daquela, não tinha nenhum valor etéreo ou místico. A mana daquela terra era cada dia mais fraca e chegaria um momento em que todos os seres mágicos dali, enfraquecidos pela falta da energia, migrariam para outro lugar e não haveriam mais motivos para ter guardiões ali. Eileen mesmo já tinha se conformado que não precisaria treinar Hebe para proteger aquele lugar em sua falta, pois uma hora ou outra aquilo tudo se desfaria e, como é o ciclo natural, outras Portas virão para serem protegidas enquanto houver vida no planeta.
A mais velha deu a lição por acabada, atônita com a chance de um ataque, e seguiu para dentro indo guardar a obra sobre entes mágicos. O casal na varanda se entreolhou, ambos com os olhos arregalados.
— Precisamos fazer alguma coisa — falaram em uníssono, corando pela coincidência.
— Mas o quê? — Hebe completou rápido antes que Johann se atrevesse a voltar a falar.
— Ainda é cedo demais para tomarmos conclusões precipitadas — Johann tomou a palavra, olhando para a entrada na expectativa de Eileen voltar — Ouvimos um lobisomem também, não ouvimos?
Ouviram? Hebe não se lembrava mais. No meio da correria, todos os ruídos pareciam igualmente horripilantes e não conseguia distinguir um do outro, todavia, forçando mais sua memória, pode reconhecer em suas lembranças um uivo e um latido canídeo. Podia mesmo ser um lobisomem, entretanto, cães eram os bichos de estimação favoritos dos lavineanos e tinha certeza que existiam alguns lobos que vinham do Canadá passear pela região. Não havia como dar certeza de que era um lobisomem.
— Até pode ser, mas e se não for? — Após muito se questionar, Hebe finalmente respondeu.
— Claro que era! — O garoto retrucou, zombando da menina — Meu pai disse que alguns bruxos caçam lobisomens porque, enquanto transformados, eles são quase um armazém de ingredientes para poções.
— Pois pior ainda. — A jovem começava a se irritar, mas continuou a conversa — Se for assim, temos que descobrir onde o licantropo está e salvar ele da bruxa.
— Não me diga que quer salvar um lican! — Johann se levantou, apontando o dedo para Hebe.
— Não me diga que não quer salvar um homem que está sendo perseguido. — Habe fez o mesmo, possessa.
— Pois, por culpa dele, uma estriga arcana e dois estrupícios quase nos mataram ontem.
— A culpa não é dele!
— É claro que é. Ele não tinha nada que vir para cá.
— CALADOS OS DOIS! — As crianças não perceberam, mas estavam discutindo aos berros. O brado de Eileen cortou sua conversa e fez os dois se calarem.
A feiticeira limpou a garganta. Até ela mesma se assustou com seu próprio grito, que saiu de forma autoritária e cruel. Por um segundo, ela fez menção de que pediria desculpas, mas se recompôs de forma abrupta colocando as mãos sobre os culotes e forjando uma expressão irritada. Seus pupilos não viram defesa além de simplesmente baixarem suas cabeças e ouvirem o que a mais madura tinha para falar.
— Vou tentar me comunicar com o Conselho de Corona — Eileen insistiu na cara de raiva e na entonação que mostrava o mesmo sentimento — Eles dirão se algum bruxo esteve vindo em nossa direção ultimamente e nos darão o auxílio necessário. Quanto ao licantropo, duvido muito que algum deles esteja realmente por aí. Devem ter ouvido um lobo ou coisa do tipo.
O Conselho de Corona era como a ONU, mas para os feéricos, estrigos, vricolacas, sereianos e outras estirpes sapientes de feitio mágico. Eles que decidiam sobre os guardiões das portas, criavam as leis e controlavam as sociedades ocultas ao redor do mundo.
A loira voltou para dentro após noticiar que contataria a entidade superior e esclarecer seus aprendizes sobre o que pensava do ocorrido. Assim que eles recomeçariam a conversa, enrubescidos de vergonha da discussão sem motivos, uma voz foi escutada do interior da casa.
— E não deixem seus hormônios tomarem conta de vocês.
Com a nova declaração de Eileen, nenhum deles se atreveu a falar e voltaram juntos, mas afastados, para o interior da mansão.
Aquela tarde se fez extremamente monótona para os dois garotos. Proibidos de ir à cidade pela sua responsável, ficaram eles, cada um em seu quarto, lendo livros e cochilando. A guardiã da Porta de Lavinea, por sua vez, vestiu botas marrons, uma túnica de lã de cor azul pastel um pouco mais escura, calças jeans brancas e, como cobertura para isso tudo, uma capa negra com um capuz que a cobriu por inteira e partiu para o bosque sem ser notada. O caminho que seguiu, ninguém viu. Ela desapareceu no meio das árvores coníferas e só voltou na outra manhã.
Hebe e Johann não notaram que sua mestra tinha sumido a noite inteira, já que ela voltou antes dos dois acordarem, contudo, estranharam que ela os dispensou de qualquer aula. Eileen pareceu assustada pelo resto do dia, falando sozinha e evitando conversar com os outros moradores da habitação, enchendo-os de desculpas assim que surgiam com o assunto do perseguidor, dos ghouls e do contato com o Conselho.
Passaram-se semanas e, pouco a pouco, os neófitos desistiram de saber o que tinha acontecido. Ao mesmo tempo, cada vez menos a irmã mais velha pedia para a caçula ir para a cidade. As caixas de suprimentos esvaziavam enquanto as de medicamentos que eram para ser enviados se empilhavam mais e mais pela casa. Mesmo passear na neve já era motivo de preocupação à mulher dos cabelos dourados.
Já terminava a primeira semana e as lições matinais ficavam mais monótonas. Desde a explicação sobre os estrupícios que nada de diferente era mostrado. Noções básicas repetitivas, feitiços simples com elementos e explicações cansativas sobre a mana enchiam os intervalos que tinham que passar juntos no mirante, onde os dois mais novos olhavam para a cidade sem poder tocar.
Johann era acostumado à vida agitada em Nova York, tinha uma vida social ativa com seus amigos banais e era um dos garotos populares da escola que frequentava. Viver numa cidade afastada de tudo e ainda se isolar mais ainda no meio de um matagal não era o tipo de coisa que ele gostava de fazer. Para completar, sua fome incessante era o que mais fazia com que os poucos estoques de comida que sobravam sumissem tão depressa, afinal as irmãs teriam durado com o que tinha por mais dois meses.
Hebe sabia que havia algo errado. Meses como aquele já tinham ocorrido duas vezes antes, pelo que se lembrava. A primeira vez foi numa primavera onde ela, ainda pequena, encontrou-se com uma infâmia que tentou massacrar seu corpo infantil, mas a primogênita surgiu para seu resgate. A segunda foi quando uma epidemia de um tipo violento de gripe se espalhou por Lavinea. Em todas as vezes, a garota foi presa na casa por sua responsável daquela mesma forma. Independente do que Eileen vira ou ouvira, se irmã sabia que era algo preocupante o suficiente para que aquilo acontecesse.
Foi no meio da segunda semana que passavam juntos que a comida realmente acabou, para desespero geral. Ainda havia dinheiro no cofre das Duprey até onde sabiam, no entanto, também era claro que a Duprey de cabelos cor de palha não deixaria ninguém sair da casa enquanto sua crise durasse. Em desespero e com fome, Hebe, durante a noite, chamou os outros dois habitantes do lugar para se reunirem na sala e todos discutirem a situação de seu lar.
— Eileen, está mais do que óbvio que vamos morrer de fome assim — Começou em tom desesperado.
— Não tem como ficarmos sem comida e enfurnados nessa casa — Johann complementou.
— Talvez se você fechasse a boca, garoto. — Eileen se irritou. Vendo qual seria o assunto, ergueu-se do sofá onde estava sentada e direcionou seus passos para o quarto, mas foi seguida pelos dois.
— Não pode nos ignorar. Vamos morrer de fome desse jeito — Hebe exclamou, mas recebeu eu resposta a porta quase batendo na sua cara.
Johann pareceu tomar o desaforo para si e tentou abrir a porta noamente e entrar no quarto, mas a maçaneta não girava. Eileen tinha congelado dobradiças e a maçaneta para que nenhum deles entrasse. Enfurecido, o rapaz começou a bater com o ombro no obstáculo da entrada, buscando invadir o cômodo por meio da força.
Dado que o gelo era muito forte para se rachar tão fácil, ele desistiu, mas cobriu as mão de um brilho magnífico. Era como se as estrelas formadas pelos fogos de artifício surgissem em suas mãos, rodopiando e girando de maneira caótica, convocadas pela mana do arcano.
Mesmo com uma tentativa de Hebe de impedir sua investida ela atirou uma esfera composta por aquele elemento contra a porta do quarto de Eileen. Tanto o som do projétil quanto a explosão que causara assemelhavam-se com os de um rojão.
— Pare com isso, vai por fogo na casa! — Hebe protestou.
— Ela tem que nos dar explicações — Johann berrou em resposta, atirando um novo foguete de luz contra a porta, que não cedia — Ela sabe de algo! Ela ouviu algo! Por isso não nos deixa sair daqui.
Um novo clarão estourou contra a madeira que compunha a porta. Independente do que Hebe falasse ou de quantas defesas Eileen inventasse, Johann continuava a atacar a porta que, mesmo depois de sete ataques não tinha uma única rachadura.
A garota mais moça sabia que o hóspede não fazia aquilo por ódio a Eileen, mas por ódio de estar ali, saudade de casa e de sua vida. Por todos aqueles dias, ele tinha guardado aquele rancor dentro de si e tudo se voltara contra a mais madura por ela agir de forma tão misteriosa, deixando todos confusos, famintos e os encarcerando no bosque, sem poder ir para a civilização – mesmo que a civilização mais próxima não estivesse tão longe de ser tão excluída do resto do mundo.
Johann estava tão cego por sua cólera que não viu Hebe convocar uma esfera do tamanho de uma bola de tênis feita de poeira comprimida e lançar o objeto contra sua cabeça. A moça fez aquela orbe de maneira que o volume fosse mínimo, a densidade menor ainda, mas a massa fosse grande. Atingido em cheio, o menino foi a nocaute.
Com o grito de dor do garoto e o término das explosões na porta, esta última se abriu, dando passagem para Eileen, que vinha preocupada com o que tinha acontecido.
As irmãs cercaram o garoto desmaiado e o arrastaram até seu quarto, deixando-o deitado com um creme esverdeado sobre seu ferimento. Pensando que os problemas daquela noite tinham acabado, reuniram-se na sala.
— Pode me contar o que está acontecendo? — Hebe insistiu.
— É realmente uma estriga. — Eileen cedeu — ela trouxe um grupo grande de estrupícios para cá e, pelo que o Conselho de Corona me falou, ela pode ter trazido um ogro junto.
Hebe se apavorou em pensar na figura de um ogro, um homem esverdeado gigante de membros deformados, maiores que o normal, e cabeça desproporcionalmente pequena, ainda assim quis saber mais.
— E o que ela quer? Por que nos perseguiu?
— É um mistério até para o Conselho — entregou Eileen, evitando olhar nos olhos da consanguínea — mas eles disseram que mandariam…
Uma batida na porta. Pensando que era o vento, Eileen tentou voltar a falar, mas o som se repetiu mais três vezes. Ela pôs a mão esquerda nas costas, conjurando uma esfera frígida em sua palma para o caso de atender a própria estriga e seu bando.
Os visitantes não eram perigosos. Eram quatro e, via-se por suas insígnias douradas na forma de um pássaro com asas abertas sendo atravessado por um raio que eram funcionários do Conselho de Corona. Três deles usavam um uniforme: casaco roxo com botões dourados, calças e sapatos pretos e um cinto branco com detalhes dourados que era acompanhado por uma bainha com uma espada. O último vestia-se de forma semelhante, mas seu casaco era vermelho.
— Herodes Carrew — disse um dos vestidos de roxo, um loiro de olhos azuis e pele clara. Seu rosto era muito jovem e parecia que uma barba nunca cresceria ali.
— Gaston Hancock — apresentou-se o outro, um homem barbado de cabelos enrolados e ruivos e olhos verdes. Era bem maior que os outros e, assim como Johann, Eileen o julgou com cara de idiota.
— Tenente Pio LeFey — continuou o último, de cabelos longos e lisos e olhos escuros como a noite.
— Capitã Clarice Rhodes — terminou a única mulher do grupo e a única de vermelho. Tinha os cabelos castanhos claros presos em um coque, usava óculos e seus olhos eram azuis — Estamos aqui a mando do Conselho de Corona.
Analisando as quatro visitas, os quatro possíveis novos hóspedes da casa, Eileen segurou um grito de ira.
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