Os Guardiões das Portas
1 Convidado Indesejado
A neve caia pela primeira vez naquele inverno. Numa cidade tão pequena quanto Lavinea, um vilarejo escondido em algum ponto nas terras montanhosas do estado de Vermont, algo tão bobo quanto a primeira vez no ano em que nevava era motivo de balburdia. As poucas ruas pavimentadas do município se lotavam de curiosos percorrendo o caminho para o centro da cidade.
A população inteira daquela cidade minúscula – em torno de seis mil pessoas – se reunia na praça em frente a velha prefeitura para admirar os fenômenos do início do inverno. O chafariz não jorrava mais água e estava coberto de uma fina camada de gelo, os canteiros apresentavam folhagens mortas e cobertas por geada e as árvores eram agora só galhos, com a mísera exceção de alguns pinheiros que agregavam flocos congelados sobre suas folhas perenes.
Enquanto o povo encasacado aproveitava aquele dia nevoento, duas cidadãs – e apenas elas duas – continuavam em casa. Eram irmãs e moravam juntas numa cabana de madeira que não poderia ser alcançada com facilidade. O casarão estava escondido entre os montes que contornavam Lavinea, em meio às árvores da Floresta Wickhart. A residência era considerada abandonada e assombrada e portanto ninguém ia atrás dela. Além do mais, não haviam caminhos pela floresta, estradas de terra e muito menos trajeto de asfalto que levasse alguém à casa. Suas duas residentes preferiam assim. Preferiam se exilar daquela gente rurícola e analfabeta. A verdade, porém, é que apenas a mais velha, Eileen, pensava assim. A caçula, Hebe, esperava algum dia descer para aquela vila e fazer amizade com todos que moravam ali, mas o olhar pungente de sua irmã a impedia de realizar aquele desejo.
Eileen era uma mulher feita, quase trinta anos, mesmo sem apresentar a idade em seu semblante. Eileen não era seu nome de nascimento, mas não suportava a ideia de se chamar Eileithyia, além da denominação adotada ser de pronúncia muito mais simples. Seus cabelos lisos e sedosos tinham cor de palha, os olhos cor do vidro de cobalto e sua pele era pálida como a neve que caía lá fora. Seus traços finos, incluindo o nariz e os lábios, a faziam parecer uma boneca de porcelana.
Hebe, por outro lado, era uma menina jovem que nem a maioridade tinha alcançado ainda. Sua pele era cor de oliva, cabelos castanhos escuros eram ondulados e secos e seus olhos brilhavam na cor de pedras de jade. Para completar as características que a tornavam uma contraparte de sua irmã, seus traços eram grosseiros e seus lábios carnudos. Inversa a irmã, que era serena e séria, Hebe levava tudo na brincadeira.
Ambas moravam ali a tanto tempo quanto podiam se recordar. Lavinea era um dos lugares que gente como as duas chamavam de Porta e as duas seriam as guardiãs daquela Porta. O trabalho antes era de seus pais, mas seu pai desaparecera antes da mais nova nascer e a mãe sairá em viajem assim que a primogênita alcançou seus dezoito anos e não voltou mais.
Eram da estirpe dos feéricos, o que não as definia como não-humanas. Assim como diferentes raças de cães, existem diferentes raças de humanos, mas a maioria dessas raças era desconhecida pelos banais – modo vulgar ao qual se referiam aos homens normais. Banais dificilmente sabiam sobre as outras linhagens pois não conseguiam engolir sobre elas, além de que os poucos que absorviam todo aquele “absurdo” usavam o que sabiam para razões particulares e egoístas.
Deitada na sala da casa na montanha, Hebe rolou sobre o carpete bege felpudo abraçada a uma bola de pelos brancos. O cômodo era decorado de dois sofás bordô e uma mesinha de centro, tinha uma lareira de pedra na parede oposta aos sofás e uma grande janela ornada de cortinas brancas atrás da mesma mobília. As paredes exteriores e interiores eram as mesmas e, portanto, eram feitas de madeira. O chão era inteiramente coberto pelo carpete veloso que deixava o quarto, que já tinha a lareira acesa, ainda mais quente.
— Uma mentirinha-branca? — Eileen adentrou a sala arregalando seus olhos, rechaçando o pompom alvo nos braços da irmã — Solte essa criatura imediatamente.
— É só uma mentirinha, mana! Não fará mal a ninguém. — Hebe relutou. As garotas começavam a brigar pelo animal exótico como se ele fosse um brinquedo.
Depois de uma vitória sobre a consanguínea, Eileen correu com o bichinho albino em sua mão até a janela e jogou-o para o exterior sem piedade alguma. Hebe não a culpava. Mentirinhas-brancas podiam ser fofinhas e inofensivas, no entanto cresciam para se tornarem monstros chamados de infâmias. A mais moça adorava caçar as mentirinhas que vinham da cidade para o mato e levá-las para casa como mascotes. A mais madura tomava conta de jogar todos os bichinhos para fora de casa assim que os encontrava. Sozinhas no mato, as mentiras provavelmente morreriam de fome – o único modo que morriam de verdade — e desapareceriam.
— Quantas vezes já disse para não andar pelo bosque sozinha? — Eileen colocou as mãos sobre a cintura, usando um tom proeminente de voz para reprimir sua irmã.
— Quer que eu perca minha vida inteira presa nessa casa que fede às suas ervas e a naftalina — retrucou Hebe em tom irônico.
— Estamos em uma Porta, não num lugar qualquer. Tem sorte de achar só mentirinhas-brancas — a outra revidou enfurecida — Qualquer dia vai achar uma infâmia, um miasma ou até pior!
— Moramos aqui desde que nascemos e nunca vi um miasma — Hebe continuou a enfrentar sua irmã. Somente agora ela se levantou do chão, limpando as roupas da poeira do carpete — Se quer falar sobre ghouls e lobisomens, sabe melhor do que eu que nem nossa mãe viu qualquer um deles aqui.
Hebe só se deu conta do que tinha falado depois de que foi dito. Falar sobre a mãe das duas era um assunto extremamente delicado para Eileen. A loira fez menção de ir para seu quarto, mas a outra lhe impediu, segurando sua mão.
— Certo, certo. Eu paro de sair sem sua permissão. — Hebe agarrou a mão da irmã, chamando a atenção da última para si. O sorriso bobo que decorava seu rosto era um pedido silencioso de perdão.
As garotas se abraçaram com força depois de terem se perdoado. A primogênita puxou a morena até uma varanda rústica, um mirante particular que dava visão de toda a cidade e das montanhas ao seu redor. Era uma paisagem aconchegante das casas iluminadas cobertas por mantos frígidos branquinhos. Uma semana antes a paisagem era adornada de cores amarelas, laranjas e marrons da vegetação de outono, mas agora o cinza e o branco do inverno tomavam conta.
Algumas pessoas ainda se reuniam na praça central, construindo bonecos e fazendo guerrinhas de bolas de neve, mas a escuridão que se aproximava forçava as mães preocupadas a levarem suas crianças para dentro das casas. A noite estrelada era oculta pelas nuvens que pairavam no céu, aquelas que originavam os flocos que caiam, e apenas a lua era visível entre todos os astros celestes que estavam em algum lugar lá no céu.
Dentre a vegetação quase morta pelo frio, uma sombra foi percebida pela dupla. Presumiram que era uma infâmia. Lavinea era uma cidade pequena, portanto as fofocas corriam de um lado para o outro. As intrigas eram o alimento favorito das mentirinhas que, bem alimentadas, evoluíam para sua próxima fase.
Uma mentira-branca é um pompom branco com dois olhos arregalados negros que se arrasta pelo chão como uma lesma ou um caracol. Infâmias, formas crescidas das criaturinhas inofensivas, eram gárgulas negras, ocasionalmente aladas, com um ou dois pares de braços e pernas curtinhas.
Eileen e Hebe observaram atônitas a silhueta se dividir em três. Perceberam que as três figuras batalhavam umas contra as outras. Enquanto uma tinha forma claramente humana, as outras duas eram deformadas e estavam a se aliar contra a terceira.
Flashes escaparam da mão do vulto humano, desintegrando um de seus adversários. O combatente tentava fazer o mesmo com o outro oponente, todavia a criatura abria duas asas quirópteras, revelando-se realmente uma infâmia, e escapava do raio.
O homem que batalhou contra os monstros ficou confuso quando um raio azul atingiu o ser alado e o fez virar um bloco de gelo. O bloco frígido, por sua vez, caiu no chão e se desfez em partículas, destruindo seu prisioneiro.
Tendo seus traços revelados por uma chama que acendera em sua mão esquerda, o rapaz seguiu pela floresta até a sacada de onde as duas irmãs observavam. Sua heroína, Eileen, estendeu a mão na sua direção. Através de sua vontade e com a ajuda de murmúrios incompreendíveis, a loira criou uma escada completamente feita de gelo. Para evitar que o visitante caísse ao tentar subir pelo novo caminho, os degraus eram ásperos para aumentar o atrito da matéria.
Enquanto subia pela passagem congelada, era analisado por suas anfitriãs. Tinha cabelos curtos castanhos claros e íris da mesma cor, lábios rosados e finos, um nariz um pouco grande e pontudo demais e uma aparência de tolo segundo os pensamentos de Eileen. Sua pele estava pálida, com exceção de suas bochechas que estavam rosadas, mas aquilo era por culpa do frio, pois depois que se esquentou, mostrou ter uma pele caucasiana média.
Comparando ele com as irmãs, não pareciam fazer parte de um mesmo mundo. Ele vestia uma camisa xadrez marrom de um tecido pesado, jeans azuis e um tênis de esqueitista que parecia já estar desconfortável de ser usado no meio do mato, com todo o frio, raízes e neve. A mochila de marca que carregava nas costas resumia seu estilo “garoto moderno”, “garoto modinha”.
Eileen vestia um vestido longo azul e um manto ainda mais comprido de pele branco com capuz, Hebe a mesma combinação, mas o vestido era verde e o manto marrom. Ambas calçava, botas pretas e meias-calças, mas essas peças eram escondidas pelos seus trajes. As joias que completavam o conjunto faziam as mulheres parecerem duas damas medievais.
O trio se uniu na varanda e, tão rápido quanto se juntaram, entraram na cabana. A única adulta entre os três – afinal o menino tinha a mesma idade que Hebe – bradou uma palavra que nenhum dos outros dois pode identificar, conjurando lufadas de ar que lacraram todas as portas e janelas daquele lar. Mais uma palavra enigmática e todas as velas da casa se acendiam. A casa não tinha luz elétrica, afinal todos do vilarejo alguns metros dali achavam que o lugar estava desabitado. Mesmo sem convite, Hebe e a visita correram para se sentar nos sofás, mas escolheram mobílias diferentes para se confortar.
— Que estranho — iniciou Eileen tentando iniciar o assunto — Nunca vi ninguém da sua idade usar um elemento composto.
O rapaz continuou em silêncio, mesmo que agora apresentasse confiança e orgulho em seu rosto pelo comentário positivo. Insatisfeita com a mudez do garoto, Eileen se sentou no sofá com Hebe e falou mais uma vez.
— Não sabe que combustão é um elemento perigoso? Não é porque é uma técnica que envolve a utilização de luz que é seguro abusar dela. O fogo envolvido continua tão perverso quanto em sua forma pura.
— Eu aprendi a lidar com esse tipo de coisa, senhora. — ele abriu a boca pela primeira vez. Assim que terminou a frase, apresentou as mãos calejadas e queimadas.
— Ora, já lhe arranjo algo para curar isso aí. — a mais moça se expressou ao passo que correu para os armários de sua irmã, buscando um vidro transparente repleto de uma pasta cor de noz.
— Qual seu nome, moço? — Eileen falou de maneira grosseira enquanto sua irmã retirou a pasta de seu recipiente e passou nas mãos do visitante — O que lhe traz pra cá?
— Pensei que já sabia — Ele sorriu. Seu sorriso idiota comprovou a teoria que o rapaz seria um tanto abobalhado — Você que me deixou entrar.
As risadinhas debochadas do menino fizeram um rastro sublime de raiva transparecer no semblante sereno da mais crescida, mas nada a faria perder a paciência com um neófito recém-chegado.
— Eu lhe fiz duas perguntas, quero as duas sendo respondidas. — A loira fez um sinal para a outra garota e foi correndo guardar o frasco que tinha trazido.
— Johann Thornton — Ele estendeu a mão cheia de medicamento para cumprimentar sua anfitriã, mas esta rejeitou com o olhar. Rapidamente, ele puxou o zíper de sua mochila e pegou dali um envelope, entregando para a dama com quem conversava — E esse é o motivo d'eu estar aqui.
A mulher arrancou a carta da mão do hóspede indesejado. O papel estava lacrado com cera vermelha onde um símbolo estava marcado em alto-relevo, uma flor-de-lis cercada por um anel feito de palavras que eram separadas umas das outras por pontos que eram usados no lugar de um espaço. Prestando bem atenção, todas as palavras eram a mesma, “EXCELSIOR”, gravada de modo que as letras pareciam ser runas nórdicas.
O brasão era conhecido pelas duas garotas, era algo realmente sério. Elas se juntaram em um canto da sala, separando-se do desconhecido, retiraram o carimbo de cera e começaram a ler o conteúdo do documento.
“Cara senhora Eileithyia Duprey,
Devido a problemas diplomáticos com os vricolacas na Porta de Nova York, fui obrigado deixar de lado o treinamento de meu filho, Johann. Confiante de que seja uma arcana tão poderosa e sábia quanto sua mãe, envio-te meu garoto para que os meses em que estarei na função de controlar essa catástrofe não sejam um intervalo de ócio. Sei que já é tutora de sua irmã e acho que um aluno a mais não fará diferença para você.
Esperando o melhor para vocês três,
Caesar Thornton”
Eileen não soube na hora do que sentira mais raiva. Mais uma boca para alimentar, mais um discípulo para treinar, seu nome escrito da forma que mais odiava e ainda um problema na Porta de Nova York, ainda mais com os vricolacas, vulgarmente conhecidos como “vampiros”.
Vricolacas são criaturas orgulhosas, maliciosas e asquerosas. Por anos não tinham quebrado os contratos que tinham feito com os guardiões das Portas, o que fazia com que aquilo agora – ainda mais em Nova York – virasse um caso que, no mínimo, demoraria três meses.
Nova York era a Porta mais difícil de se lidar e os Thornton eram figuras ilustres e famosas por cuidarem da região por tanto tempo. Uma Porta é um lugar que, de tanto concentrou mana, passou a gerar a energia. Manhattan inteira é um grande gerador que dá poder aos seres que circulam a metrópole e continuará daquele jeito até que a cidade desapareça. O caso de Lavinea é a floresta de coníferas da região que gerava uma quantidade exorbitante de magia nos tempos da colonização, mas que agora diminuía e, pelo que sabiam, até que os netos de Hebe chegassem ao mundo, aquela Porta já teria sumido.
A mais nova nem precisou de aviso e já correu para seu quarto assim que viu geada congelar os vidros da casa de maneira sobrenatural. Johann, por sua vez, ficou sentado no sofá até ouvir a voz de sua nova tutora murmurar, ainda perplexa:
— Segunda porta a esquerda.
Nenhum sobreaviso foi necessário. Ele correu com sua mochila para os aposentos de hóspedes. Assim que fechou a porta atrás de si, ouviu um berro de cólera do exterior.
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