Os Guardiões do Chaos
6 A Grande Onda
Notas iniciais
Não muito longe da orla, sobre o brilho forte do sol, os coqueiros valsavam sobre a forte brisa . As águas, um dia belas , agitavam-se junto a maré em seu tom esverdeado . A areia continuava macia, apesar de trazer todo o lixo urbano . As ondas iam e vinham periodicamente . Apesar de algumas mudanças, tudo estava ali, como ele gostava de lembrar .
Leo crescera naquela ilhota . Afastado da orla de Copacabana , o lugar era invisível a olhos normais .
Naquela tarde, estava quente como em nenhum outro dia . Ele estava sentado, sua prancha ao lado, apenas esperando . " Só mais um pouco " .
No fim da tarde, quando o sol deu lugar para o brilho das estrelas, Leo levantou-se . Com a prancha em mãos, caminhou para as águas ainda frias . Quando deitou-se na prancha e pôs-se a remar, sentiu-se feliz . O ritmo das ondas aumentava Sentiu seus pelos eriçarem .
" Está Aqui "
Leo levantou-se, equilibrando-se . O mar levantou-se, turbulento, as suas costas . A onda superava os trinta metros facilmente . Até o mais bravo já entregaria-lhe a vida . Mas Leo a apreciava . Não era medo que percorria seu corpo .
Ele sentia o mar levantá-lo . Inclinou o corpo para manter o equilíbrio . Bastou os primeiros dez metros para ver toda a dimensão da ilha . As luzes do vilarejo pareciam pontos e as pessoas , um amontoado de formigas . Pôde ver também as defesas começarem a levantar-se .
O chão da ilha ergue-se frente a fúria do mar . As rochas juntavam-se, criando uma enorme cúpula que cercava a vila .
Nos vinte metros, Leo pôde ver as luzes da cidade ao longe . Pensava se, de lá, poderiam ver a bela obra que a natureza, de tempos, presenteava seu povo .
A prancha tremia com a força da correnteza . Leo inclinou-se para frente, evitando que ela rompesse .
" Falta Pouco "
Quando chegou aos trinta metros, ele jurou poder encostar nas nuvens . Já não via mais a vila, pois essa foi engolida pela água e deixada para trás . Tão pouco a cidade grande, que ficara reduzida a um ponto . A sua frente, só havia a imensidão do oceano .
A onda estendeu-se mais um pouco até começar a diminuir de tamanho . Naquele ponto, Leo já havia se afastado demais da vila . Estava cansado e sonolento . Por ele, dormia ali mesmo em cima da prancha, mas lendas diziam que o Kraken pegava surfistas desavisados a essa hora . Quando juntou forças, remou de volta à ilha e dormiu ali mesmo na praia .
Quando o dia amanheceu, sentiu o sol queimando-lhe a carne . A praia mantinha seu brilho . Os coqueiros ainda de pé . Caminhou até a vila para conferir se todos estavam bem .
– Ele conseguiu ! — Gritavam os aldeões, perguntando como fora . Leo contou cada sensação, a vista que teve, a beleza da onda . os aplausos acompanharam-no até a chegada do ancião .
Ele era um homem velho e definhado . Sua pele era escura como o carvalho e seus olhos, sábios olhos amarelados, tão frios como os de uma lince . Andava de muleta, pois perdera a perna direita a muito
– Velha — Ele não precisava dizer muito . Leo sabia do que se tratava .
Caminharam até uma cabana afastada do vilarejo . Estava mal cuidada, mas tinha um jardim belo, com rosas, tulipas e orquídeas colorindo o verde do ambiente .Quando Leo entrou, viu uma senhora deitada . Seu rosto era tão velho e cansado quanto o do Ancião do vilarejo . Seus olhos eram brancos e velhos, tomados pela cegueira . Seus cabelos grisalhos caiam-lhe sobre a pele pálida e fria .
– Leo, meu querido !
Leo foi ao seu encontro, tomando a sua mão as dela . Estava fria e molhada . Ele queria chorar, mas não queria que o seu último momento ao lado dela fosse moldado em lágrimas .
– Eu consegui, vó ! Eu superei a Grande Onda . Pude tocar as nuvens acima dela .
Com esforço, a velha senhora abriu um sorriso desdentado para o neto .
– Ele teria muito orgulho.
Sua voz falhara . Ele já não sentia o pulsar em suas mãos . A velha senhora morreu a seu lado, com um sorriso desbotado . Leo levantou-se . O ancião orava por sua velha vó .
– Faremos na praia — Ele disse, dando as costas para o velho senhor, indo em direção a porta — A praia foi o nosso lar por todos esses anos .
O Ancião pensou em dizer algo, mas o silêncio foi a única resposta que achou para o sofrimento do rapaz . Acenou com a cabeça, vendo Leo sumir pela porta .
Leo caminhou até o outro lado da ilha, onde as águas eram mais claras e calmas . Lá, cravado no chão, havia uma prancha velha . Sua base, coberta de rachaduras , tinha muitas histórias . Histórias essas s quais ele adorava lembrar .
– Hoje ela fez a sua última Grande Onda — Leo sentou-se ao lado da velha prancha . Seus olhos já inchados pelas lágrimas — Eu consegui ! Você tinha que ver . É lindo lá em cima ...
O resto da tarde, Leo falou para o vento, junto ao túmulo de seu irmão, coma esperança que suas palavras pudessem ser ouvidas por ele .
A noite trouxe os aldeões para a costa, junto a suas tochas e preces . As chamas lavavam seu espírito , purificavam seu corpo . As cinzas perdiam-se no mar .
No dia seguinte, a vila voltava a sua monótona tranquilidade . Leo permanecera na orla, encarando a triste maré .
O ancião sabia que o encontraria junto a seu irmão . Para a sua surpresa, ao lado da velha prancha, agora havia a de Leo .
– Foi ela que a fez . Nada melhor que devolvê-la .
O ancião caminhou, postando-se ao seu lado .
– Vais partir hoje ? — Leo acenou que sim — Não devia ser assim.
– Eu vou protegê-los, velho . Faço isso por vocês . Por eles .
O velho ancião passou o resto do dia com Leo . Serviu-lhe a macarronada que tanto gostava no almoço . A noite ,levou-o até o cais, onde o barqueiro já esperava .
– Voltarei depois de tudo .
– Sei que assim o fará .
Conforme o barco afastava-se, o líder via a figura de uma criança tornar-se bruscamente um homem . Via dor, medo, raiva . Sabia que os ventos estavam agitados . Sabia que tempos de trevas estavam chegando .
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