Os Filhos do Olimpo
25 Winter is coming.
Notas iniciais
ADAM
Na névoa tremulante, o centauro e a deusa nos olhavam aflitos. Lucy parecia não saber como continuar. Alastor e Lara trocavam olhares, como se estivessem decidindo quem daria as más noticias.
Annie não era muita coisa, mas era o que eu tinha mais próximo de uma família. Por um único instante, momentos de brigas em minha casa com meu pai e minha madrasta vieram a tona. Eu era tratado como um filho adotivo pelo meu pai. O que fez Atena gostar desse homem? Talvez ele pudesse ter sido alguém bom em tempos passados. Talvez.
O garoto chamado Charlie me olhou com indiferença. Enquanto todos estavam em volta de Lucy observando a mensagem de Íris, o semideus me fitava com certa curiosidade. Estava sentado em uma das espreguiçadeiras empoeiradas e com um pouco de neve do parque abandonado. Os flocos de neve já pararam, mas ainda sim podia sentir o vento frio percorrendo meu corpo.
Ele caminhou até a mim e olhei bem sua fisionomia. Cabelos loiros e radiantes, diferentes dos meus: desgrenhados e pálidos. Sua pele era bronzeada. Tinha quase a mesma altura que eu, mas era magro demais comparado a mim. Charlie sorriu e sentou-se na espreguiçadeira ao meu lado.
— Charlie Rosier. — O garoto estendeu a mão fina, e entortou a boca num sorriso tenso. — Esqueci de me apresentar aos outros. Sou filho de Apolo, e fico feliz que tenham confiado a vida daquela garota a mim. — Ele estava se referindo a Lara, certamente.
— Devia adivinhar que você é filho de Apolo pela sua aparência. — Por um instante, permanecemos em um silêncio constrangedor. Perto de nós, ouvi Alastor se explicando: ''não pude vê-la depois que o porco caiu, só consegui pensar em Lara''.
— Ela era sua meia-irmã. — Charlie havia acabado de tocar no assunto que eu preferia evitar. Arqueei as sobrancelhas e o fitei, como se tivesse algo como visão de raio-x. Tentei pensar em algo para responder, mas não havia mais nada a ser dito sobre aquele acontecimento.
— Creio que esteja sendo desagradável para você esse clima, levando em consideração que é filho de Apolo. — O garoto comprimiu um sorriso, exibindo só uma pequena parte de seus branquíssimos dentes. Ele juntou as mãos e começou a entrelaçar os dedos nos outros. Depois de um tempo ele balançou a cabeça, assentindo.
Reparei que Quíron estava falando, então acenei para Charlie e nos levantamos, dirigindo-nos até os outros.
— Vocês perderam dois meio-sangues, e o sátiro, que era o único meio de encontrarem um semideus com facilidade. — Dizia Quíron.
— Vocês tinham um sátiro? — Sussurrou Charlie para mim, e assenti com um aceno de cabeça. — Que massa.
— Estão em pouco número, como pretendem completar a missão desse jeito? — Prosseguiu o centauro. — Alastor, assuma sua posição de líder, sinto muito dizer mas essa sua relação com Lara está atrapalhando o objetivo de vocês.
— Perdoe-me, Quíron. — Falou Alastor, envergonhado.
— Não precisamos de um sátiro. — Disse Dianna subitamente, retirando um objeto dourado do bolso. Parecia uma bússola. — Obrigado, Deméter. — A deusa retribuiu com um sorrisinho singelo. — Serve para encontrarmos um semideus.
— Podemos ter perdido dois meio-sangues, mas já temos um novo e estamos prestes a encontrar mais um. — Lucy se virou em minha direção e acenou para Charlie. Coloquei a mão em suas costas, conduzindo-o para frente. Caminhamos até ficarmos próximos o suficiente da névoa tremulante.
— Este é Charlie, filho de Apolo. — O garoto sorriu timidamente, e recuou um passo. Balançou a mão com um simples aceno representando um ''oi''. — Logo encontraremos o filho de Quione, sem problemas. — Garanti.
— Não. Há um problema. — Quíron semicerrou os olhos e passou a mão lentamente pela barba rala em seu queixo. — O solstício acontece em três dias. Em três dias vocês poderão chegar no Olimpo. Em três dias os deuses decidirão o destino que a vida de vocês irá tomar.
Três dias. O número se multiplicou em minha cabeça. Três. Três dias para rodar a Flórida em busca de um semideus. A última peça para fazer dama. A última peça para o xeque-mate. A última peça para nosso quebra-cabeça ficar completo. A última peça para nossas vidas tomarem um rumo.
— Se apressem, o tempo está passando. — Quíron balançou as mãos freneticamente e a névoa se desfez, fazendo-nos retornar ao mundo real, onde possivelmente diversos monstros estariam a procura de nós.
— Vocês ouviram o cara, se apressem. — Dianna rodou a bússola-de-semideuses nos dedos e olhou para Alastor com desgosto. — Agora eu estou no comando.
Na hora seguinte, voltamos para casa de Charlie e nos preparamos para a nevasca que estava prestes a vir. O garoto nos concedeu grandes agasalhos que ele disse ser de seu padrasto, e nos vestimos depressa. Charlie disse que seu padrasto chegaria do trabalho em poucos minutos, então fomos rápidos. Do lado de fora, a neve só aumentava.
— Em três dias nossas vidas irão mudar. — Dizia Dianna, trajando um grande casaco de pele preto que chegava até suas botas de couro. — Não há necessidade de levarmos o peso conosco, portanto, deixaremos as mochilas por aqui.
A garota havia se eleito para ser a nova líder do grupo, e nenhum de nós argumentou, muito menos Alastor, que permaneceu quieto, sempre ao lado de Lara.
— Você, pombinha branca. — Chamou Dianna, se referindo a Lara. A filha de Ares retirou uma adaga prata do cinto e jogou para a filha de Afrodite. — Seu arco será inútil na neve. Você e o seu namorado surfista irão nos acompanhar logo atrás, protegendo a retaguarda. — Dianna se virou para mim, olhando-me com desprezo. — Sabichão, você, o novato e a garota arco-íris ficarão entre meu grupo e o casal idiota. Connor e Collin me acompanharão na frente. Todos de acordo?
Assentimos, sem hesitação. Permaneci com minha espada na bainha presa ao cinto em um lado, e Vocavit, minha trompa, presa do outro lado do cinto. Fechei meu casaco cinza com intenção de cobrir o cinto armado, e respirei fundo. Todos estávamos prontos para partir. Exceto alguém.
— Está tudo bem? — Charlie deslizava os dedos finos e bronzeados sobre um vaso de porcelana decorado com radiantes raios de sol sobre a lareira.
— Foi presente de Apolo. — Disse o garoto. — Mamãe disse que ele foi um ótimo namorado, e que.. também seria um ótimo pai.
— Tenho certeza que sim. — Sorri para ele, e acenei para que se aproximasse. — Se formos rápidos, em breve estaremos no Olimpo, e você poderá conhecer o seu pai. — E eu, minha mãe.
— Mantenham uma distância razoável de pelo menos 100 metros, não podemos chamar a atenção. — Dianna respirou fundo. Até mesmo ela parecia tensa. Três dias. E então, ela abriu a porta.
Do lado de fora, o branco dominava todo lugar. Percorri os olhos por tudo até finalmente dizer:
— O inverno está chegando.
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