CHARLIE

O frio me incomodara muito. Flórida teria sido o melhor lugar para um filho de Apolo morar se não fosse pelo intruso presente no estado. O filho de Quione teria de ser encontrado antes de transformar a Flórida — ou os Estados Unidos — em seu reino de gelo.

Vislumbrei a filha de Ares há alguns metros de nós. Ela estava acompanhada de um garoto de cabelos castanho-avermelhados chamado Connor e um outro menino de cabelo castanho claro, que pelo que eu sabia, também era novo.

Adam e Lucy estavam do meu lado direito, andando calmamente, evitando chamar atenção. Em algum momento, virei-me rapidamente para trás, e avistei o filho de Poseidon e a garota que eu tinha salvado a vida protegendo a traseira. Ela já parecia bem melhor.

A neve já tinha voltado a cair. Era difícil distinguir a calçada da rua, mas isso já não importava, pois qualquer carro que tentasse andar pelas ruas cobertas de três camadas de neve ficaria atolado. Nossos passos eram lentos. Cada vez que eu tocava minhas botas na neve, ela afundava um pouco, como se eu pudesse ser engolido pelo chão a qualquer momento. Mas isso não aconteceu, pois meus poderes estavam começando a se apresentar. Soube disso graças a Adam, que em algum momento de nossa caminhada, notou o caminho que eu tinha passado.

– Ei, esperem. — Disse, subitamente, segurando o pulso de Lucy. Olhei para ele preocupado, pensando que eu teria feito algo de errado. Notei que o filho de Atena olhava para a neve no chão, então segui o caminho pelo qual seus olhos olhavam e também percebi o que ele queria nos mostrar.

– Eu fiz isso? — Perguntei, impressionado. A neve pelo qual eu havia pisado não tinha marcas de bota. Ela havia derretido, deixando grandes buracos que eram de minhas pegadas, revelando mais a baixo o asfalto que até então esteve coberto.

Adam me explicou o fato de isso ter acontecido: Apolo representava o sol, então, obviamente, eu deveria ser quente. Eu tinha necessidade do calor, e meu corpo estava pegando fogo — não literalmente. Infelizmente, ele não pode continuar a explicação. Dianna gritou furiosa para que nós prosseguíssemos antes que alguém pudesse nos pegar. Mas isso seria impossível, já que as ruas estavam vazias. De qualquer modo, não questionamos, apenas continuamos a andar.

– O que acontece se não encontrarmos o garoto em três dias? — Perguntei, em algum momento durante a caminhada.

– Toda nossa missão irá por água a baixo. — Respondeu Lucy, mexendo nos cabelos negros. As pontas estavam grisalhas, como se os flocos de nevem tivessem se amontado apenas naquele lugar e decidido morar lá. — As mortes não teriam um significado.

– Devemos completar a missão por eles. — Continuou Adam, dizendo como se eu conhecesse os antigos integrantes do grupo. — Por Gump, Lua e principalmente Annie, que já havia passado por isso antes.

Naquele momento, eu olhei fixamente nos olhos cinzentos de Adam. As pálpebras pareciam cansadas, como se ele pudesse cair num sono profundo a qualquer momento. Eu soube, ao olhar naqueles olhos, que ele já tinha vivenciado muitas coisas ruins para uma única vida.

– Vamos conseguir. — Afirmei, mesmo com um pouco de incerteza. Até então, o único perigo que eu havia realmente passado fora o leão de Nemeia. Desde pequeno eu soube que era meio-deus, e que minha mãe permanecera a vida toda com meu padrasto para me proteger.

Após aproximadamente 45 minutos de caminhada, chegamos ao nosso destino.

– Venham cá! — Berrou Dianna.

Nós três e o casal atrás de nós caminhamos com o máximo de velocidade que conseguimos na neve. Como era de se esperar, eu cheguei primeiro, ofegante. Connor e Collin olhavam para as marcas que eu havia deixado na neve, tentando compreender.

– Filho de Apolo. — Falei, com um sorriso tolo. Dei um risinho singelo, e mexi nos cabelos, tirando o amontoado de neve de cima. — Sabem como é, hehe.

– Não. — Replicou o filho de Nêmesis, Connor. — Não sabemos.

Os outros finalmente pararam ao nossos lados e observamos a bússola na mão de Dianna. Ela aponta diretamente para um prédio velho de dois andares à nossa frente. Havia uma grande placa com o desenho de uma casquinha com uma bola de sorvete de morango sorridente.

– Uma sorveteria? — Disse Lara. — Que irônico.

– Alastor, Lara e Connor, fiquem aqui fora. — Falou Dianna, após guardar a bússola no bolso da calça jeans. — É provável que monstros sintam nosso cheiro, só nos resta esperar que tenham dificuldade de se locomover na neve.

A garoto acenou para mim, Adam, Lucy e Collin. Ela abriu a porta e nós cinco entramos. O lugar estava gelado, e por incrível que pareça, o ar condicionado estava ligado. Dei de ombros, e acompanhei os outros. Dianna e Collin pararam em frente ao balcão, e ela se virou para nós. A garota apontou para uma porta do outro lado do local. Ela moveu os lábios, formando a palavra ''vão''.

Lucy, Adam e eu caminhamos silenciosamente até a portinha e a abrimos. Havia uma escada que dava caminho até o segundo andar. Antes de dar a porta por fechada, vi Dianna apertando um sino e uma mulher alta e loira vir ao seu encontro. A mulher olhou Dianna e Collin, e com uma voz grave, disse ''só temos sorvete de morango''. Fechei a porta e subimos as escadas.

O segundo andar era uma sala tão fria quanto o andar de baixo. Havia vários freezers nos cantos e um grande tapete de urso no centro. Por incrível que pareça, era um urso-polar.

– Com certeza estamos no lugar certo. — Murmurou Adam.

No fim da sala, notei uma porta de vidro, e do outro lado, consegui distinguir a neve caindo. Algo ou alguém parecia estar apoiado na mureta.

– Olhem, é uma varanda. — Falei.

Adam abriu o casaco, tirou a espada da bainha e deixou-a empunhada. Lucy já estava com uma adaga na mão. O filho de Atena abriu a porta com violência e estendeu a espada na direção de um garoto que subitamente se virou. A ponta da lâmina estava encostando em seu pomo de adão.

– Quem são vocês? — Perguntou o garoto. Ele devia ter uns 15 anos. Seus cabelos eram surpreendentemente chamativos: totalmente brancos com algumas mechas negras. Os olhos tinham um tom de azul pálido, como gelo.

Adam recuou, embainhando a espada novamente. O garoto continuou nos fitando sem entender.

– Lucy, guarde a adaga. — Disse ele. — Achamos o garoto.

– Vocês.. são semideuses.

– Assim como você. — O filho de Atena estendeu a mão. — Sou Adam. Esses são Lucy e Charlie.

– Eu me chamo.. — Descobrimos seu nome antes que ele pudesse terminar a frase.

– ETHAN, VENHA JÁ AQUI! — A mesma voz grave que ouvi um minuto atrás estava chamando pelo menino.

– Argh, é minha madrasta. — Ethan olhou aborrecido para a neve. — Recebi uma mensagem de minha mãe, Quione. Ela disse que vocês viriam me buscar para levar-me até um lugar seguro. O único jeito de chamar-lhes a atenção foi..

– Produzindo neve. — Lucy estava olhando Ethan com os olhos brilhantes. Eles estavam com duas cores diferentes: um cinza e outro azul. O filho de Quione assentiu.

– ETHAN! — Dessa vez, o voz foi mais grossa. Ouvimos passos se aproximando.

Nós recuamos, deixando Ethan próximo a porta. Ela se estilhaçou subitamente, e a mulher loira entrou. Mas, aos poucos, sua forma foi mudando: os cabelos ficaram vermelhos como fogo, as mãos ficaram peludas com garras afiadas, e suas pernas já não eram pernas. Era uma semelhante a de um burro e outra de bronze.

– Uma empousa! — Exclamou Adam.

A criatura deu um grito esganiçado e avançou contra mim com suas enormes garras afiadas. Adam preparou a espada. Antes que a empousa travasse uma batalha com a espada do garoto, uma rajada de neve caiu sobre nós cinco e senti o solo abaixo de nós desmoronar.

A varanda estava caindo.

Notas finais
Espero que tenham gostado. O próximo capítulo saíra amanhã.