Os Filhos de Veltron

1 Prólogo - Um ano atrás


Era um dia ótimo para acampar. Era. O tempo havia mudado de repente. Embora fosse verão, um vento frio balançava as barracas. Havíamos recolhido tudo o que pudesse voar e estávamos dentro da barraca maior.

“Que tempo louco” comentou Fay. “Não costuma fazer esse frio nessa época do ano.”

“Vocês querem voltar? Podemos acampar outro dia?” Sugeriu Rick

“De jeito nenhum! Vai amarelar agora, irmão?” Reclamou Miguel

“Se liga moleque” falou Rick em quanto acertava uns cascudos no irmão. Fay e eu nos afastamos às gargalhadas, nos protegendo dos carinhos fraternais dos dois.

“Ok! Chega vocês dois.” Interrompeu Fay “Já esta bastante apertado aqui dentro! E ai o que vamos fazer?”

Apesar do tempo, ficamos até tarde jogando truco dentro da barraca maior. Quando Miguel deitou para esticar as pernas e não acordou mais, Rick e Fay decidiram ir cada um para sua barraca. Com dificuldade eu empurrei meu primo para cima de seu saco de dormir e também me deitei. Estava tão cansado que dormi quase que instantaneamente.

Não sei quanto tempo dormi, me pareceu muito pouco quando despertei com o som de passos. Primeiro pensei que fosse Fay ou Rick, mas os passos estavam mais distantes. Levantei para ouvir melhor. Estava muito frio, puxei o meu saco de dormir enquanto escutava. Era estranho, pois não ouvia o vento, nem os animais apenas passos sobre as folhas secas no chão. Fiquei hipnotizado por aquele som, que parecia estar dando a volta na clareira que estávamos. Quando se afastou tanto que mal o ouvia, ansiedade e adrenalina tomaram conta de mim e sai da barraca o mais silenciosamente possível. Não sentia medo algum, apenas curiosidade.

Durante nossos jogos de paintball em Água Branca, aprendi a andar silenciosamente pelos terrenos acidentados da fazenda. Não foi difícil sair do acampamento sem que me percebessem. Assim que estava longe o suficiente, parei para ouvir os passos novamente. Nada. Fiquei naquela posição durante alguns minutos, o frio cortando a minha pele acostumada ao clima tropical. Resolvi caminhar para não congelar ali. Embora não soubesse o caminho, meus pés pareciam seguir uma rota certa. Depois de algum tempo estava consciente que meu corpo caminhava para um lugaronde me esperavam. O lugar onde eu pertencia. Cheguei à outra clareira, cuja extremidade posterior era coberta por uma pedra enorme. E na pedra havia uma fenda, uma caverna. Era ali.

Ouvi vagamente chamarem meu nome atrás de mim. Não estavam longe, mas eu não podia voltar. Eu havia chegado onde deveria.

Tatiei a pedra da caverna. Tudo estava iluminado por luzes que estranhamente flutuavam no céu da caverna. Havia uma energia familiar ali dentro. Cada parte de meu corpo reconhecia aquela força. Quando cheguei até o final, ao invés de tocar a pedra fria e sólida, minha mão passou por ela. Retirei minha mão e a olhei. Normal. Deve ser um sonho. E com a coragem de quem sonha, entrei por aquela pedra fria.

Tudo estava escuro. Meus olhos demoraram em se acostumar. Quando percebi onde estava, prendi a respiração e tentei me equilibrar em poucos centímetros que meus pés se apoiavam. Não havia nada além de uma porta de madeira escura, com escritos estranhos translúcidos há uns dez metros à frente.O chão, se existisse, era invisível. Estiquei o pé na direção da porta e embaixo apareceu outra pedra. Quanto maior a pressão com que pisava maior era a pedra. Dei mais um passo. Outra pedra. Cheguei até a porta, ela abriu assim que me aproximei. Entrei em um salão bastante iluminado. Esperei mais uma vez que e os meus olhos se acostumassem com a luz. Era um salão circular, feito com uma pedra que parecia ter luz própria. Ela mudava de cor: azul, rosa claro, branco. O chão era desenhado como uma teia de fios dourados, cujo final havia colunas gregas. As paredes eram transparentes, fora delas, parecia ser o Espaço.

Ao tocar o centro do salão, fui envolvido por uma luz e quando pude enxergar novamente estava em outro salão parecido, mas muito maior. Esse diferentemente do outro não estava vazio. O mais rápido que possível me escondi atrás de uma das colunas aproveitando que a figura enorme estava de costas para mim. A figura ficou imóvel por bastante tempo, mas respirava rápida e ruidosamente. De repente ele se levantou e foi até o centro da sala para desaparecer envolto a luz. Antes de ele desaparecer vi que ele tinha uma fita ao redor da sua cabeça, feita do mesmo material das colunas. Olhando para onde o homem estava vi uma espécie de púlpito, sobre o qual estava uma gema de uma pedra brilhante cuja força parecia chamar-me. Mas antes que eu saísse em sua direção uma voz masculina ecoou por todo salão.

“Prima? Tois Ge dortu?”

Outra voz, fraca e doce, ecoou em resposta. “Voive lirai. Tois Nayer?”

“Tura Ge. Ge chirta on. Chiren...”

Sem poder me conter, olhei com o máximo de cuidado. O garoto era alto e vestia uma longa túnica azul escura. Tinha os cabelos longos e escuros. Seu rosto era comprido e seus olhos puxados diagonalmente. Sua pele era acinzentada, não se parecia com ninguém que já tinha visto. Não na vida real. Arriscando-me imensamente estiquei o pescoço para ver a outra pessoa. O que vi foi uma imagem de uma menina. Parecia mais um holograma. Deveria ter uns nove ou dez anos. Tinha longos cabelos castanhos claros e vestia uma coroa dourada de onde pendiampedras que acompanhavam toda a extensão de seu cabelo. O longo vestido verde claro combinava com a cor dos seus olhos. Um frio invadiu meu corpo quando aqueles olhos se encontraram com os meus.

“Primo dortu gira ta mirialis.”

“loi... Who is there?” O frio se espalhou por todo meu corpo. O garoto havia falado em inglês?

Não havia como escapar. Resolvi sair, afinal era apenas um sonho. Caminhei vagarosamente até onde estavam, mas mantendo uma distancia segura. Olhei de relance para o centro do salão, onde o homem havia desaparecido há pouco. Depois meus olhos caíram sobre a menina cuja imagem já não estava tão translúcida. Seus olhos se encontraram mais uma vez com os meus e se apertaram num olhar terrível e ouvi sua voz ecoar, não no salão, mas dentro de minha mente. “Quem é você?” Eu não precisei responder. Antes milhares de imagens começaram a passar diante de meus olhos. Minhas memórias. Ela estava lendo minha mente? Reuni toda minha força e com um grito afastei a dentro de minha cabeça. Com o esforço me vi no chão cansado e com a respiração irregular. Reuni toda coragem que pude para olhá-la novamente. Percebi que sua resposta não fora respondida. O garoto agora olhava dela para mim, com um ar de curiosidade.

“How did you get in?” ele queria saber como entrei. Não sabia como respondê-lo.

“Pela caverna.” Me vi respondendo enquanto ria de uma piada particular. Eu estava respondendo em português. Já estava bastante difícil de pensar em própria língua quanto mais em inglês.

“Mas você não poderia entrar. Você é humano.” Meu sangue gelou, quando ouvi a menina se dirigir a mim em português. Já tinha dúvidas que isso era um sonho. Um pesadelo, talvez.

“Como ele não é afetado pela Men?” O garoto agora também estava falando em português.

Subitamente os dois olharam para o centro do salão. Ouvi seu urro antes de virar. Corri para o canto da sala, e me virei para ver o guerreiro, gritando cheio de raiva e agonia. Seus braços e pernas estavam cheios de cortes. Depois tudo aconteceu muito rápido.

“O que estão fazendo lá fora?” o garoto perguntou para a menina.

“Eles estão com você? A menina me questionou. Ela evantou uma de suas mãos e uma imagem de meus primos feridos e apavorados passou por minha mente e levou alguns segundos para que eu percebesse que ela estava colocando em minha mente imagens que tirou do homem que urrava. Meus primos estavam em perigo! Antes que eu pudesse responder, o garoto chamava o homem para perto de si eda estranha pedra.

“Nayer! You have to defeat them, or we’ll fail...”

“Não!” eu gritei. Uma estranha energia se desprendia da pedra em direçãoa Nayer. O homem gritava enquanto suas feridas se fechavam. Ele estava o curando. Meus primos estavam em perigo.

Sem pensar, consumido pelo ódio, caminhei até a pedra e a peguei. Surpersos com minha loucura, o garoto e a menina não tiveram tempo de me impedir. Senti aquela energia se espalhar pelo meu corpo despertando todos os meus sentidos. Eu teria a força necessária para destruir essa pedra? Com certeza teria. Joguei-a no chão e a pedra espatifou-se. Nayer urrou ainda mais alto em sua agonia e veio para cima de mim. Uma dor alucinante começou atrás de minha cabeça e se espalhou pelo corpo. Antes de apagar completamente, descobri que não poderia estar sonhando.

***

“Acorde. Acorde.” A voz suave e aflita penetrou minha mente antes que eu pudesse abrir os olhos. Minha cabeça pulsava com a dorque começava em minha nuca. Abri os olhos. O salão estava destruído. Meus olhos focaram na menina que estava agachada ao meu lado. Sua imagem estava fraca novamente. “Você precisa levantar e ajudar sua família”

Tentei levantei rapidamente.Tudo girou e tive de deitar novamente para recuperar o foco.

“Pegue a pedra Men”. Ela jogou um fragmento da pedra que eu havia destruído em minha mão. “Essa pedra vai ajudá-los a eliminar Nayer. Ele não poderá controlar a sua própria mente enquanto a pedra estiver próxima a ele. É estranho que ela não te faça mal. E aparentemente também não faz mal aos seus primos”

“Quem é você? Por que esta me ajudando agora?”

“Não estou te ajudando” Ela se afastou com indiferença. “Não posso deixar que ele destrua completamente Mirialis. Agora vá!”

Com sua ordem, tudo ficou escuro e me vi novamente no túnel por qual eu entrei. Caminhei rapidamente até atravessar a barreira e sair de dentro da caverna. Urros horríveis e o grito desesperado de Fay fizeram meu sangue ferver, a dor desapareceu e senti a energia da pedra correr pelo meu corpo novamente. Corri para frente a tempo de apontar a pedra na direção de Nayer antes que este deferisse um golpe fatal em Rick, que estavainconsciente. Vi o rosto de Miguel, desfigurado pelo desespero enquanto avançava na direção de Nayer que agonizava com a força da pedra. Miguel acertou-o na perna com o machado que trouxemos para o acampamento. Nayer caiu imediatamente no chão. Mas antes acertouo peito de Miguelcom seu enorme punho fechado, que bateu contra uma árvore e caiu com um baque surdo no chão e não se levantou. Fay gritou novamente. Nayerapertou a perna onde Miguel o ferira e arrastou-sena direçãode Fay.

“Fay!” gritei e ela só então percebeu minha chegada. Lancei para elaa pedra e ela a agarrou. A pedra brilhou em sua mão e a força também passou por todo o seu corpo. Seus olhos se abriram de surpresa. “Aponte-a para o monstro!” gritei.

Fay fez o que pedi. Nayer se afastou dela e se virou. Seus olhos caíram sobre mim enquanto eu corria na direção de Rick para pegar o facão com o qual ele golpeara Nayer. Antes que eu pudesse me virar, Nayer puxou meu braço esquerdo deslocando-o completamente. Mas quando tentou apoiar-se na perna ferida perdeu o equilíbrio e caiu sobre mim.Instintivamente, peguei a faca de Rick eapoiei em meuabdomesegurando firme coma mão direita.O peso do corpo dele fez o resto do trabalho, afundando a faca em seu peito.

Meus sentidos estavam fracos. Meu cérebro só registrava a enorme dor em meu braçodeslocado, na barriga onde o facão apoiarava e minha nuca. Flashes de memória mostravam Fay me tirando debaixo da imensa forma de Nayer e colocando ao lado de Rick e Miguel. Ela chorava silenciosamente enquanto tocava cada um de nós. Foi com alívio que os vi acordados falando com ela antes de apagar completamente sem saber se iria acordar novamente.