Vamos, vamos... Era angustiante passar por entre as árvores da estranha floresta sem saber quando o cenário mudaria. Plantas tropicais misturavam-se a espécies de clima temperado e a outras, tão estranhas que eu duvido que existam realmente. O que seria depois? As ruas de pedra, escuras e tortuosas da antiga cidade? Um campo pantanoso? Não. Era novamente o pátio vazio do castelo e a velha sensação de estar sendo observado. Já sabia aonde ir: Mirialis. Um simples pensamento funcionava como um comando e imediatamente uma porta se materializou a minha frente. A madeira escura e marcada pelos escritos incompreensíveis, mas já familiares. A porta abriu e a silueta monstruosa de Nayer se formou contra a luz florescente. Meu sangue fervia, não mais pelo medo que me dominou quando o vi pela primeira vez, mas de pura raiva. Raiva de tudo que acontecera desde o último encontro. Por toda dor e sofrimento... Minha vontade era de destruir tudo o que estivesse ao alcance, fazê-los pagar... Pagar por nossa falta de paz, por tudo o que eles nos fizeram passar. Nayer avançou em minha direção, mas não recuei. Nayer deu-me um sorriso louco e contorcido. Meus braços ficaram cada vez mais pesados, uma estranha força fluía descendo da minha nuca pela espinha e depois para os braços. Minhas mãos tremiam...
Acordei com o barulho de vidro espatifando e saltei para trás como um gato, batendo com as costas na parte superior do armário. Com a força que bati fui jogado para frente e meu cotovelo bateu nas costas da cadeira giratória que tombou e foi arremessada contra a estante de livros. Senti todo o ar sair dos pulmões antes de cair com tudo no chão protegendo meu rosto instintivamente.
Levei uns minutos com os olhos fechados para processar toda dor que sentia. Costas, peito, joelhos, cotovelo direito, braço e mão direita. Um barulho de água batida me fez abrir os olhos e vi meu peixe agonizando em água e sangue espalhados no chão do quarto. Levantei rapidamente e levei uns segundos para engolir as dores. Peguei o peixe com cuidado, abri a porta do quarto e corri para a cozinha. Com o máximo de cuidado segurei o peixe com uma das mãos, com a outra abri o armário e peguei um pote de vidro para encher de água. Quando completou um palmo de água joguei o peixe dentro e abaixei para ver se o peixe estava bem.
_Desculpa ai pexinho! Acho que num vai ter jeito, você vai ter que se mudar pro quarto da minha mãe.
Escorreguei para o chão da cozinha, com as costas no armário e comecei a verificar os estragos. As costas doíam muito, mas as costelas pareciam inteiras. Gotas de sangue pingavam do meu braço esquerdo por toda a roupa e pelo chão. Examinei o braço e vi os minúsculos pedaços de vidro do aquário enterrados na minha carne.
_ Droga! Mamãe vai ficar furiosa!
Coloquei o aquário improvisado de lado o peixe parecia estar bem abri a torneira para deixar a água correr pelo braço. Mordi o lábio com a dor que a pressão da água provocou e vi o sangue correndo pelo ralo.
_Menon? Cheguei. mamãe colocou a chave sobre a mesinha do hall e jogou a bolsa no sofá ainda da porta de entrada. Moravam num apartamento bem pequeno. Como de costume deixaria seu material na escrivaninha do quarto dela e viria para cozinha preparar o jantar.
_Ei. Aqui na cozinha! Interrompi-a antes que entrasse no corredor que levava aos quartos. Minha voz saiu vergonhosamente fraca, quase infantil. Fiquei envergonhado, mas a dor era alucinante.
_O que foi que aconteceu? Mamãe jogou sua pesada pasta de livros sobre o balcão da cozinha, deixando cair alguns envelopes impressos com o símbolo da universidade onde trabalha. Ela nem olhou para eles. Seu rosto estava transtornado de raiva e preocupação. Apontou para o braço machucado puxando-me pelo ombro e rapidamente examinou meu braço, enquanto fechava a torneira.
_ O aquário explodiu... Eu cochilei, de novo, na escrivaninha.
_Você sonhou com aquele lugar novamente? Ela olhou nos meus olhos ao me perguntar isso e pude sentir a angústia que sentia. Há um ano episódios como esse aconteciam regularmente, mas ultimamente eram cada vez mais recorrentes e cada vez mais intensos. _ Isso está ficando sério! Você tem certeza que não quer... ela começou a falar, mas aparentemente pensou melhor. Claramente arrependida, percebeu a raiva que me tomou somente em pensar no que ela iria sugerir.
_ Você sabe que não vou falar com Amon. Somente pensar nele fez crescer uma força no meu peito, quase como no sonho. Ele não acredita em mim! Ele é um...
_Menon! Pare com isso! Mamãe me interrompeu, com os olhos arregalados, ela olhava para o lado, para o armário acima do balcão americano. Os talheres que estavam pendurados começaram a tremer perigosamente. Facas, garfos, espátulas tremiam ameaçadoramente nos ganchos. Fiz um esforço para afastar a imagem de Amon da minha mente e me concentrei em proteger minha mãe. Deixei a minha mente ser invadida por imagens da minha mãe machucada, sangue espalhado pela cozinha. Era um pensamento tão terrível, que me levava à náusea, mas apenas uma imagem assim me dava forças para parar. Ao perceber meu esforço, ela olhou para os talheres agora que gradativamente foram aquietando-se até ficarem parados e me abraçou apertado. Minha mãe tremia. _ Venha, vamos dar um jeito nisso. Ela falou baixinho e pegou com cuidado o braço machucado e me levou para seu quarto.
Levou-me para a sua suíte, sentei-me na cama enquanto ela buscava a caixa de remédios no gabinete do banheiro. Voltou com uma toalha com a qual cobriu a cama e abriu a caixa para procurar os instrumentos que precisava. Olhei para a janela quando começou a tirar cada um dos pequenos cacos com uma pinça, tentando esquecer a dor. Ela tinha razão. Estava ficando cada vez mais sério. Ele sentia que essa força crescia dia a dia e estava tendo dificuldades para controlar. Sabia que Amon guardava um segredo. Um segredo que explicaria o que estava acontecendo com ele desde a luta com Nayer. Talvez soubesse até mesmo como ajudá-lo, mas insistia em fingir que não havia nada de errado. Forcei-me outro pensamento antes que voltasse a me descontrolar, algo igualmente doloroso.
_ Mãe? Patrícia resmungou um o que foi? concentrada em retirar um dos cacos. Foi excepcionalmente dolorido e por um instante esqueci o que falava. Minha mãe precisou repetir a pergunta duas vezes antes que eu lembrasse o que estava pensando. O papai podia fazer alguma coisa parecida com isso... isso que faço?
Ela parou o que estava fazendo por um instante, mas não olhou para mim quando respondeu.
_ Já te disse que não. Pelo menos não na minha frente. Nós morávamos aqui, por causa das aulas na universidade, mas ele passava muito tempo pesquisando e treinando em Água Branca.
_Talvez então ele soubesse controlar... Por isso você nunca tenha visto.
_ Menon, eu não sei. Ninguém fala mais sobre o segredo de Veltron. Segundo sua avó Michelle, Amon acha que é perigoso demais. O que sei, é que seu pai e seu tio Doran descobriram algo pouco antes deles desaparecerem. Algo que os fez brigar com Amon. Mas ele nunca nos contou o que foi.
_Por que ele não contou?
_Como disse, ele nos diz que é muito perigoso. É algo que colocaria vocês você, Rick, Miguel e Fay em perigo. No entanto, seu pai estava animado com a notícia, mas antes de nos contar ele queria fazer esse ultimo estudo e foram para aquele maldito deserto... Lágrimas escorreram pelo seu rosto e fechei minha boca. Uma mistura de culpa, raiva e frustração batalhavam na minha cabeça enquanto me esforçava para ficar em silêncio.
_Terminei ela disse depois de enfaixar o meu braço com cuidado. Levantou, entrou no banheiro e fechou a porta. Esperei. Saiu de repente, o rosto seco, mas ainda com os olhos avermelhados. Sentou-se ao meu lado e acariciou o meu rosto. Não agüento vê-lo nesta situação, Menon. Você não sai de casa a não ser para ir à escola. Desde que você voltou de Água Branca, não fez nem um amigo, nem mesmo conheço seus colegas de classe.
_ Mãe, como vou explicar essas coisas que me acontecem. Sabe quanto eu me esforço pra ficar concentrado nos estudos e não pensar em mais nada? Imagine se uma coisa dessas acontece na escola?
_ Mas por que você tem evitado falar com seus primos? Eles também têm passado por transformações interessantes, Rick e Miguel...
_ Transformações naturais, mãe. Estão mais fortes e mais inteligentes, nada como essa coisa que eu tenho!
_ Talvez não sejam tão naturais como você pensa, ou como Amon quer que vocês pensem. Há quanto tempo você não vê Miguel e Rick?
Pensei em nosso último encontro, no Natal do ano anterior. Na terrível discussão com Amon, minha mãe e minha tia Carina chorando; na minha prima Fay gritando com seu avô Amon, como nunca havia feito antes; Rick arrumando sua mochila e voltando mais cedo pra campus da universidade em São Paulo. Miguel tentando me convencer a não voltar pra Campinas com minha mãe, enquanto Amon me expulsava de sua casa por ter destruído toda a sala de estar...
_ Falo sempre com Rick por telefone. Miguel ainda está chateado comigo... não falo com ele a... sei lá... dois meses? respondi, mas sabia que a conta estava errada.
_ três meses! Exatamente o tempo que seus poderes ficaram mais evidentes.
_ Poderes! Do jeito que você fala parece que eu sou um super herói!
_ Ah Menon! Como é que você quer que eu chame? Não me interessa o nome que se dá a isso, até preferia que isso não acontecesse, assim eu saberia que você estaria seguro. Mas não posso fingir que não vejo aquários explodindo, facas voando e meu filho definhando na minha casa. Só por que Amon quer fingir que nada disso está acontecendo, não vejo porque você e seus primos devam aceitar isso.
Patrícia estava agora soluçando. Odiava ver minha mãe chorar, mas isso tem se tornado tão comum que já estava me acostumando.
_ Converse com seus primos, Menon. Pensem em algo. Você sabe que eu temo que te aconteça o mesmo que aconteceu com seu pai. Mas, se ele sabia de algo, vocês precisam descobrir o que é.
_ O que você sugere? Que eu volte pra Água Branca? Você sabe que nem Rick, nem Fay voltariam para lá. E eles nem mesmos foram expulsos da casa grande como eu fui.
_ Não. Patrícia parou de soluçar e respirou fundo antes de continuar. Era evidentemente doloroso para ela Passem as férias em Eugene, foi lá onde tudo isso começou, será lá onde vocês encontrarão respostas.
Voltar para Eugene tinha sido uma obsessão antes mesmo de eu começar a perder o controle das minhas faculdades mentais. Eu precisava entender o que havia acontecido, mas quase não sobrevivemos àquela experiência e fomos proibidos de voltar para lá. Olhei bem fundo nos olhos de minha mãe e pude ver claramente o medo que esta idéia lhe causava, mas nós sabíamos que era o que deveria ser feito.
_ Fay continua morando lá, e nada aconteceu com ela. Patrícia continuou. Você sempre fala de voltar para lá e sonha com aquele lugar constantemente. E se esses sonhos que você tem querem dizer algo? Se voltar para lá fosse mesmo o certo a fazer?
_Eu sempre disse isso. Ainda não acreditava que minha mãe estava permitido uma viagem dessas. O que teria feito mudar de idéia? Fay visitou o local da batalha algumas vezes, e não encontrou nada.
_ Mas você entrou... Naquele lugar. Talvez somente você, consiga achar... Patrícia começou a chorar mais alto agora. Tentei acalmá-la, mas era impossível. Apenas passei a mão por suas costas e esperei. Ela não era a mesma ultimamente. Ela sempre foi chorona, excessivamente preocupada, mas costumava se controlar na minha frente. Agora, era difícil encontrar um dia em que ela não chorasse. Sempre imaginei como teria sido minha mãe antes de eu nascer, quando meu pai a conheceu. Eu sabia que ela era uma mulher inteligente, que se destacara muito cedo nos estudos e alcançou posições na universidade muito mais jovem do que de costume. E todos gostam dela de verdade. Lembro vagamente de seu sorriso fácil, com qualquer coisa que meu pai falasse. Era uma das poucas memórias antes de meu pai... desaparecer. Nunca dizíamos que ele morreu, pois nunca encontraram o seu corpo.
A crise de choro passou e minha mãe encostou a cabeça meu ombro e respirou profundamente.
Pensar nisso me dói o coração, filho. Mas você herdou algo de seu pai, algo que está além da minha compreensão. Antes de me pedir em casamento ele me contou toda a história de Veltron e como a família de seu bisavô Doran se envolveu. Contou-me do poder que vocês herdaram e da responsabilidade que tinham com esse segredo. Eu aceitei tudo isso, assim como aceitei seu pai como meu marido. Quando você nasceu, eu sabia que você estava destinado a esse poder. Eu não sabia que o preço seria tão alto, mas não tenho alternativa já aceitei.
Eu não sabia o que responder. Meu pai desapareceu quando tinha apenas cinco anos. Não o conheci de verdade. Olhei para o relógio de cabeceira. 18:35.
_ Mãe... Tenho que ir para o colégio. Hoje eu tenho prova.
_ Menon, você nem jantou Mamãe levantou enxugando os olhos Deixe -me esquentar...
_ Não. Não estou com fome agora, no intervalo eu como alguma coisa. Ao passar por ela peguei seu rosto com uma das mãos e beijei sua bochecha. Ela forçou um sorriso e me deixou passar.
Meu quarto era minúsculo, mas bem planejado. Minha cama ficava do lado esquerdo e aos pés da cama havia um pequeno armário embutido. A escrivaninha ficava junto à janela e uma estante cheia de livros e outros objetos pessoais cobria a parede a direita do quarto até a porta. Entrei no quarto, desviei dos cacos e sangue e sentei na cama para puxar minhas gavetas. Tirei uma camiseta do uniforme, e um par de meias e cueca. Fechei a gaveta e abri o armário para pegar uma calça jeans limpa e meu moletom preto. Fui até o banheiro e fiz malabarismo para conseguir tomar banho sem molhar o curativo que minha mãe fez. Ela gritou algumas sugestões pela porta levante o braço, use o chuveirinho mas em poucos minutos eu já havia terminado. Enxuguei-me e coloquei com cuidado a roupa escolhida. Quando voltei para o quarto para pegar meu tênis, o chão já estava limpo. Coloquei meu tênis e juntei os livros de Física que estavam espalhados pela escrivaninha. Estavam um pouco úmidos, mas a maior parte da água do aquário escorrera pelo chão. Coloquei os livros e cadernos dentro da mochila e sai.
Gritei tchau para minha mãe e em retorno ela gritou te amo de seu banheiro. Eu também gritei de volta e sai.
18:45. O colégio técnico ficava a poucas quadras de minha casa. Estava completamente escuro e o trânsito estava intenso. Coloquei os meus fones de ouvido e cobria a cabeça com o gorro. Selecionei o álbum Meteora do Linkin Park em meu celular e caminhei até a avenida principal e esperei o sinal abrir para os pedestres. Minha mente voltou a Água Branca e como Amon me mandara embora de sua casa. Sair de lá foi um alívio, mas lembrar de Miguel sempre era dolorido. Miguel, além de meu primo, sempre fora meu melhor amigo. Temos a mesma idade, nascemos no mesmo mês e sempre frequentamos a mesma classe enquanto eu morava em Água Branca. Quando completei 7 anos mudei-me para Água Branca para poder treinar junto com meus primos. Antes disso, meu pai me treinava em casa e passávamos longas temporadas treinando nas férias e feriados prolongados. Aprendemos todo tipo de artes marciais e até mesmo como manejar algumas armas brancas. Amon era rigoroso com nossa rotina de treinamentos. A mesma rotina que fora montada pelo próprio Veltron e pela qual nossos avós e pais também passaram.
Nem sempre essa rotina fez sentido. Miguel e Rick eram muito bons nos treinamentos, mas eu nunca tive tanta habilidade quanto eles. Meu talento foi sempre na escola. Mas isso só fez com que Amon fosse ainda mais duro comigo. Tenho que admitir que os treinamentos nos salvaram um ano atrás, mas quando a telecinésia começou a ficar mais evidente, o simples treinamento físico não fazia mais sentido. E Amon insistia em ignorar o fato disso estará acontecendo. No final do ano anterior, prestei concurso para fazer a escola técnica e passei. Viria morar com minha mãe em Campinas, mas continuaria treinando em Água Branca nas férias. Mas isso não aconteceu depois da briga no Natal. Somente Miguel ficou em Água Branca nos últimos seis meses.
Subi as escadarias do prédio antigo do colégio e entrei direto na sala de aula. 19:00, o professor entrou logo em seguida. Tirei o gorro e retirei os fones de ouvido com um olhar de reprovação do professor.
_ Não é permitido o uso de celulares em sala, Menon. professor me reprovou desnecessariamente. Será que ele não percebeu que eu já estava guardando? É incrível a necessidade dos adultos de nos reprovar mesmo quando estamos fazendo o certo. Seria só pelo prazer de deixar clara a sua autoridade? Ridículo.
Os alunos levaram mais alguns minutos para se organizarem para a prova. O professor precisou gritar duas vezes antes que os alunos sentarem-se em seus lugares. Muitos riam e debocharam uns para os outros do professor ao fazer isso. Um sorriso sarcástico apareceu no rosto do professor ao entregar as provas. Essa era a sua vingança.
Peguei minha prova e passei o olho pelas questões antes de começar a resolver-las. Nada difícil. Embora a prova estivesse longa e os alunos reclamassem muito do grau de dificuldade da prova, concentrei-me e terminei a prova às 19:45. O professor não estranhou minha saída tão cedo. Passou os olhos rapidamente pelas minhas respostas e balançou a cabeça apologeticamente. Seria o quarto dez desse ano.
Assim que sai da sala, voltei os fones ao lugar. Ao som de Somewhere I belong fui direto para o refeitório do Colégio, sentei e peguei meu celular. Conectei-me a rede e mandei uma mensagem. Dona Lúcia, gritou meu nome por cima do balcão e perguntou o que comeria hoje. Ela não foi rude, ao contrário, era mais como se tivesse cuidando de mim. Era amiga de minha mãe, que foi professora do colégio por muitos anos. Pedi um suco natural de laranja e um pão de queijo. Fui ao balcão e paguei o pedido. Quando voltei para a mesa, Rick respondeu a mensagem.
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