Os Filhos de Veltron
3 2. Memórias
Notas iniciais
Fiquei surpreso com a mensagem de Menon:
Férias em Eugene, bora?
Respondi na mesma hora: ‘bora. Era a melhor ideia do mundo! Naquele instante tentava – já a beira do desespero – terminar o trabalho final de Antropologia para o dia seguinte. Era incrível como, embora soubesse tudo sobre o assunto, não conseguisse articular as informações de forma organizada e inteligível. Cada vez que tentava ler o texto que escrevi, ficava ainda mais desesperado e já não conseguia fazer mais nada. Parecia ter vomitado todas as informações no papel, sem nenhuma coerência. Olhei para os livros e textos xerocados cheios de grifos e anotações com desanimo.
Quando voltei de Eugene ano passado fui direto para Água Branca com meus primos e meu irmão Miguel. A batalha contra Nayer foi inesperada e embora tivessemos vencido não entendemos o que realmente aconteceu. A abertura pela qual Menon entrou aparentemente não existia mais. Não podiam explicar como os ferimentos da batalha haviam curado tão rapidamente e não faziamos ideia de quem eram o garoto e a menina de Mirialis. E afinal, o que era Mirialis? Amon não nos ajudou a entender, ao contrario, parecia se esforçar a nos fazer esquecer. Mas isso era impossível. Principalmente para mim, principalmente agora.
Mandei uma nova mensagem para Menon e aguardei sua confirmação. Assim que Menon respondeu, salvei o arquivo no pendrive e guardei-o na mochila, juntamente com os livros e pasta de textos. Vesti o casaco de Nylon, peguei o guarda-chuva e sai do CPD do instituto. Este estava cheio de outros alunos, tão ocupados e concentrados em seus próprios trabalhos finais que ignoraram a minha saída. Os corredores do instituto estavam vazios nesta última semana de Junho. As poucas aulas que ainda aconteciam eram no período da manhã, a maioria dos professores haviam liberado os alunos para se dedicarem aos seus trabalhos durante esta semana. Agora, às oito da noite, apenas alguns professores trabalhavam. Passei na biblioteca para entregar alguns livros e fui direto ao ponto de ônibus. Garoava e fazia muito frio. Fechei a minha jaqueta até o pescoço, coloquei o capuz e segurei firme o guarda-chuva.
Sair de São Paulo para Campinas a essa hora seria um inferno, mas a perspectiva de sair de férias era animadora. O ônibus para casa não demorou a passar, mas estava muito cheio. Fechei o guarda-chuva, entrei no ônibus e cheguei ao fundo com dificuldade. Não havia muito espaço para me mexer, o cheiro de suor e roupa molhada era forte, mas já estava acostumado. As janelas fechadas por causa da chuva e do vento tornava o ambiente ainda mais desagradável, no entanto ninguém parecia se importar, homens e mulheres de todas as idades a maioria com fones de ouvido ou absortos em seus celulares procuravam afastar-se o máximo dessa desconfortável realidade. Eram horas gastos semanalmente dentro de ônibus ou metros lotados. Nestas situações sempre me lembro das noites em Água Branca, do cheiro do mato, os sons dos bichos e insetos à noite e da comida da minha mãe.
Desci do ônibus embaixo de chuva. Tive que andar ainda três quarteirões antes de chegar a kitnet que morava. Assim que entrei, reparei na bagunça que a casa estava. Mas não perdi tempo arrumando, peguei tudo aquilo que precisava e joguei sobre a cama. Abri a mala e coloquei tudo mais ou menos dobrado dentro dela. Peguei ainda uns cinco ou seis livros e os joguei sobre as roupas. Fui ao banheiro para pegar o que faltava e fechei a mala.
Com a mala pronta, escolhi uma blusa de manga azul marinho, uma calça jeans seca, meias e cueca e joguei sobre a cama. Minha toalha pendurada no box do banheiro não estava completamente seca, mas separei-a para usar assim mesmo. Tomei um banho rápido, calculando o tempo de viagem para Campinas e pensando qual seria o percurso mais curto. Enxuguei meu cabelo o máximo que pude, passei a mão pelo espelho para desembaçá-lo e olhei minha imagem no espelho. Meus cabelos já chegavam aos ombros, levemente ondulados e sem corte. Estavam mais escuros também, castanhos como meu pai. A barba por fazer me deixa mais velho, o que ajuda muito com as garotas, mas sabia que minha mãe não ficaria nada satisfeita com essa aparência. Assim que terminei de me barbear, prendi o cabelo com um elástico e voltei ao quarto para me trocar.
Vesti a mesma jaqueta e uma toca de lã. Verifiquei o dinheiro e os documentos na carteira e passei o olho pelo apê, checando se havia esquecido algo. Fechei a janela da sala e abri a da cozinha e do banheiro para deixar o ar circular. Tranquei a porta e sai.
De metro para o terminal rodoviário e, de lá, para Campinas. Mandei uma mensagem para Menon assim que entrei no ônibus intermunicipal, avisando quando chegaria. Ao sair da marginal, o transito fluía, mas calculei pelo menos uma hora, pois sabia que haveria engarrafamento próximo ao pedágio da Anhanguera. Estava muito frio, puxei a toca da jaqueta e me encolhi na poltrona. Digitei o número da minha casa em Água Branca, meu irmão Miguel atendeu.
_ Alô.
_ E aí, Mig?
_ Fala, irmão... Tudo bem? – Miguel parecia animado, nem esperou minha resposta. Ele baixou o tom de voz para não ser ouvido. – Tia Patrícia acabou de ligar. Vamos mesmo pra Eugene?
_ Preciso falar com a mãe primeiro. Como vão as coisas por ai?
_Tirando o fato que a mãe está sempre zangada, o resto de boa.
_ E as dores? Melhoraram?
_ Um pouco, a mãe fez uma pomada que ajuda muito. Conseguiu terminar o trabalho?
_ Quase, tô indo pra Campinas. Talvez tia Patrícia me ajude.
_ Boa ideia. Vou chamar a mãe.
_ ok, depois volte ao telefone.
_ Beleza. – respondeu Miguel, depois gritou na boca do telefone. Tive que tirar o ouvido do celular.
_ Merda, Miguel! – ouvi as risadas dele enquanto minha mãe tirava o telefone da mão dele.
_ Oi, filho. Como você está? – Sua voz era preocupada, mas reconfortante.
_ Bem, mãe. Você falou com a tia Patrícia? Sobre a viagem para Eugene.
_ Falei, Rick. – mamãe fechou uma porta enquanto falava com ele. Desta vez foi ela quem baixou o tom de voz. – Estou preocupada com vocês, principalmente com seu irmão. Ele quase não consegue dormir. Essa última crise foi a pior. — silêncio — E você, como está?
_ Tudo bem, mãe. Às vezes é difícil de me concentrar, mas não é nada dolorido como com Miguel. Parece até idiota se comparar.
_ Não diga isso, filho. Deus me perdoe por dizer isso, mas o que parece uma benção pode se tornar um grande fardo. Mais cedo ou mais tarde você perceberá isso.
Na verdade eu já sabia. Lembrar-se de tudo poderia ser útil algumas vezes, mas esquecer o que era preciso se tornou difícil.
_ O que Patrícia falou para você?
_ Ela tem essa ideia que se Menon voltar para Eugene, ele pode descobrir o que acontecendo com vocês. Ele tem sonhos... eu não consigo explicar.
_ Eu sei ... Tudo bem pra você, eu e o Miguel irmos, mãe?
_ Ah, filho... O que eu posso fazer? Não aguento mais ver seu irmão sofrer. E o fato dele estar treinando sozinho com Amon não tem ajudado em nada. Ele não reclama, você sabe como ele é... Até diz que Amon está ajudando.
_ Amon sempre o tratou bem, mas tem puxado muito nos treinamentos, não é?
_ Sim. Seu irmão chega exausto. Às vezes nem come, vai direto para a banheira e fica lá por muito tempo. No dia seguinte, mal consegue levantar da cama. – Ela parou um pouco antes de voltar a falar – Se ir para Eugene é o que é preciso fazer para seu irmão sentir melhor, então eu concordo.
_ Você vai levá-lo para São Paulo esse fim de semana?
_ Avisei a Amon que o levaria ao médico amanhã de manhã e aproveitaria para fazer compras em Limeira. Mas vou levá-lo para a casa da Patrícia. Já organizei todos os documentos necessários para vocês viajarem. Sua tia comprou as passagens.
_ Obrigado, mãe. – Carina respirou fundo do outro lado, mas nada falou. – Tenho um bom pressentimento a respeito dessa viagem.
_ Meu filho, tenho certeza que você cuidará bem de seu irmão e de seus primos. Miguel falou que você já está indo pra Campinas.
_ Sim. Tia Patrícia me buscará na rodoviária.
_ Amanhã nos veremos então. Um beijo pra você, meu querido. Que Deus o abençoe.
_ Amém, mãe. Posso falar com o Miguel?
_ Claro, um minuto.
_ Brother... Eugene, here we go! – Miguel gritou o outro lado da linha.
_ Sim, mas seja discreto. A mãe não vai contar a Amon.
_ Claro, vou fazer minha mala agora. – Miguel falava rápido, como sempre brincalhão. Mas havia algo de diferente em sua voz, quase imperceptível. Essa mudança pesou em meu coração.
_ Vá lá. Te vejo amanhã. Não se esqueça de levar sua pomada.
_ Não vou. Até amanhã, irmão.
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