Notas iniciais
Agora sim, a história começa. Enjoy ;D

Eu não tinha a mínima ideia de que criatura estranha Luther poderia ser; eu só sabia que ele era o meu amigo. O meu único amigo.

Meu nome é Michael Gerrin, tenho quinze anos e sou órfão. Eu morava num internato público em Los Angeles, e eu tinha certeza de que alguém iria me tirar daquele lugar.

Veja bem, meus pais morreram quando eu tinha uns sete, oito anos e eu jurava que alguém da minha família viria para me buscar. Me enganei — nenhum tio, nenhum primo, nenhum avô ou avó. Apenas eu sozinho na família, o que eu acho muito estranho.

Como eu vim parar aqui, então? Olhe, eu fui deixado com alguém mais próximo da família, que era a Prof.ª Julia Perry, a única que tinha contato direto com meus pais. Apesar de eu nunca ter visto ela diretamente nas minhas vagas lembranças da minha curta infância, ela se diz que era muito intima dos meus pais. Ela é a minha professora de História nesse internato idiota e me trata como se fosse um filho dela, o que acho muito legal de sua parte, por acolher alguém como eu, tão complexo e estranho.

Enfim, lá estava eu e meu único amigo Luther Crawford.

Luther tinha a mesma idade, mas eu nunca adivinho seu aniversário e nem mesmo sei se ele tem quinze anos de verdade; ele tinha uma expressão velha num corpo que não parecia ser dele. Era um pouco musculoso, mais alto que eu, moreno, cabelos curtos e de olhos... bem, aí eu fico em dúvida, pois na verdade eu nunca soube a verdadeira cor de seus olhos já que eles mudam de cor toda a hora. Um dia eu jurava que eram verdes; outro era azul. Mas de qualquer forma ele voltava para o vermelho, o que é estranho.

Ele havia chegado ao internato ano passado e fora o único em anos a falar comigo. Então eu me simpatizei com ele, e então tornamos amigos.

— Ainda não melhorou da alergia? — perguntei.

— Não, é claro. — Ele respondeu. Esqueci-me de mencionar: Luther tem alergia à sol; se alguma parte de seu corpo ficar exposta ao sol, ele começa a se coçar e fumegar. Já brinquei com ele falando que parecia coisa de vampiro. Ele não achou graça alguma. — Já não disse que ela é pra sempre?

Estávamos no pátio do internato, na parte escura, aonde não batia sol algum. Não queria ver meu amigo sofrendo por uma alergia que nem eu conhecia. Era hora do intervalo, e no tempo seguinte teríamos aula com a professora Julia, as aulas de história mais legais que tenho; era doida a forma que ela explicava a coisa, não deixava você com sono de modo algum. Era a melhor professora dali.

Eu olhei para a cara de Luther, que devia estar alegre — pois ele adora tão a aula tanto quanto eu —, porém a expressão dele era diferente... uma expressão de pensamento que só ocorre quando Luther diz que sente algo estranho.

Houve dois casos desde que eu conheço Luther que ele fala de “algo estranho” (a não ser ele mesmo!) — um foi quando ele logo chegou, que já é estranho demais: ele havia chegado num temporal de verão no ano passado, cheio de machucados e murmurando coisas como “ele veio” e “não há como escapar”. A sra. Perry levou à enfermaria e levou cerca da dois meses até ele voltar a si, ou quase, pois ele mal lembra do seu passado.

A segunda vez foi no começo desse ano, quando ele jurava que vultos negros passavam ao meu redor, tentando me alcançar. Eu sempre olhava pros lados e não encontrava nada, daí eu levei a conclusão de que tenho um amigo pirado. O único.

Era a última semana de aulas no internato, e como havia adolescentes que ainda tinham pais, muitos deles já planejavam as férias de verão. Eu ia fazer a mesma coisa que faço há sete anos — ficar com a sra. Perry estudando e algumas vezes alugamos filmes e assistimos na biblioteca. Sinceramente, ela é a única pontinha de felicidade que eu já tive na minha vida.

O sinal tocou.

— Vamos, — eu disse. — temos que pegar lugares senão se ferramos...

Luther bufou, ele não gostava muito de assistir aulas. Se não fosse por mim, ele ficava contido no quarto, olhando vagamente para o nada e escutando Nirvana. Eu motivo ele a viver, e vice-versa.

Andávamos lado a lado, até que um garoto — ou melhor, um valentão — empatou a gente no meio do corredor. Era Pete, um gordo com cara de buldogue que me enchia o saco. Isso era até Luther chegar; Pete tinha medo dele, mas não de mim. Quem ia ter medo de um garoto magrelo loiro e baixinho?

— Olá principezinho — era assim que ele me chamava. — Correndo de mim?

Ele desatou a rir, assim como os seus amigos que andavam ao seu lado. Nunca soube o nome deles, nem os conhecia, mas conhecia os seus punhos.

— Cala a boca, Munck — cortou-o Luther. — Vá roubar uma loja de salgadinhos.

Eu ia rir, mas Pete se estressou e agarrou Luther pela garganta. Depois que Pete terminasse com Luther, eu ia sofrer o dobro.

— Vá se ferrar, esquisitinho. Não quer que eu rale seu traseiro no arame farpado? — ameaçou.

Os capangas de Pete já ficaram ao meu redor. Estávamos encurralados...

Daí aconteceu algo que até hoje eu tenho medo de explicar, pois não sei o que realmente aconteceu.

Pete tinha aquela expressão de psicopata quando queria ferrar alguém, mas foi transformada em medo, logo após seu corpo se rodeado por vultos negros... aqueles vultos que eu já vira. Eles tentavam tomar seu corpo, enquanto Luther olhava calmamente para Pete, mas não parecia ser Luther... sua cara estava mais pálida do que nunca e mais... sei lá. Sombria? Devia ser. Mas ainda sim, era uma naturalidade bizarra.

Pete berrava mais alto que tudo. Mas os seus amigos não pareciam notar o que estava acontecendo.

— Pete o que foi? — perguntou o que estava me segurando na esquerda. — Pare de gritar, está parecendo uma menina...

— Me... ajudem! — A voz de Pete parecia estar engolfada, como se ele estivesse afogando... afogando-se em trevas.

Eu tinha que parar aquilo. Luther não estava ali; de jeito algum era Luther naquele corpo, e o que estava ali não ia parar de torturar Pete. Desvencilhei-me dos garotos que me seguravam e empurrei Luther para o chão.

— Luther pare! — berrei.

Luther pareceu me ouvir e saiu do estado de transe, no mesmo tempo em que Pete desabou, pálido e sem vida. Pensei que tinha morrido, mas quando os dois garotos vieram socorrê-lo, ele ganiu. Ainda estava vivo, o que eu não sabia se era uma má ou boa notícia.

— Que diabos foi aquilo? — perguntei, voltando para Luther. Os olhos dele estavam vermelhos intensos.

— É isso que eu devo perguntar, não? — disse uma voz atrás de nós: sra. Perry. Vi seu corpo esquio, seus longos cabelos e olhos castanhos profundos que te dão medo quando você os fita muito tempo. E eles estavam dando muito medo agora.

— Hã... professora, eu... eu não sei. — tentei explicar, mas ela não estava prestando atenção em mim, mas sim em Luther.

— Na minha sala, os três. — apontando para nós, caídos no pátio coberto. Estávamos em uma grande encrenca.

Notas finais
Gostaram? :)