Notas iniciais
Esse capítulo foi o mais rápido que fiz, assim que terminei de postar os outros, terminei esse. Enjoy ;D

Andávamosapressados pelo corredor do segundo andar, seguindo a Sra. Perry até a sua sala. Pete se arrastava apoiado de seus amigos, lado a lado; enquanto Luther cambaleava um pouco debilmente ao meu lado.

Encontramos com a secretária do internato: a Sra. Jules, uma mulher de meia-idade com uma verruga no meio do bigode que parecia ter vida quando ela se irritava (não queiram ver isso).

— Lena, por favor, leve o Sr. Munck para a enfermaria — pediu a Sra. Perry.

Nós paramos, enquanto a Sra. Jules, Pete e seus amigos rumavam para o corredor da direita, que levava para a enfermaria.

— E esses aí, o que vai ser? — perguntou a Sra. Jules, parando no corredor.

— Esses são da minha conta, obrigada — disse a Sra. Perry, decidida e assustadoramente, me fazendo engolir seco.

Definitivamente estávamos ferrados.

...

O tique taque do relógio no canto da sala da Sra. Perry ajudava naquele clima de medo e tensão, me fazendo tentar me distrair com qualquer coisa, menos que ter que olhar para a Sra. Perry.

Tá bom, eu sei que vocês tiveram uma boa impressão dela antes, mas isso era quando ela estava de bom humor. Quando a coisa é ao contrário... bem, vocês sabem qual o contrário do bom humor. Mas no caso da Sra. Perry esse mau humor é multiplicado por dez. E ela se tornava uma mulher severa que deixa você com medo de tudo, até de sua própria sombra.

Mesmo eu olhando de raspão para ela, os olhos dela iam além do que eu conseguia pensar.

— Expliquem-se. — A professora pareceu intimidar do que pedir a explicação.

Eu tomei as rédeas, ou tentei tomar.

— Profª Perry, bem... Pete veio nos atacar, nós íamos para a aula e... — disse, mas logo ela me cortou.

— Não Michael, o que você viu?

Eu parei.

— Hã... você não ia entender. — Cara, eu devia estar em devaneios, pirando, doido de pedra... não podia ter visto o que eu vi. Era impossível. Ainda mais quando percebi que os outros garotos não viam os vultos. Eu pirei, fato. E ninguém ia acreditar.

— Bem, — suspirou a Sra. Perry. — não entenderei se você não me disser.

— Julia, não o pressione — disse Luther, pela primeira vez desde o transe, numa voz embargada.

— Luther, calma. Deixe o menino se explicar. — Ela parou e me encarou, esperando minha resposta.

Eu medi cada palavra para tentar explicar.

— Luther... bem, ele tentou evitar qualquer briga, não o culpe, professora. Mas quando... quando Pete o agarrou, Luther não fez nada e ao mesmo tempo fez. — Eu tive medo de dizer algo que incomodasse Luther e me agredisse da mesma forma que Pete. — E de repente... hã, não sei se foi maluquice minha. Mas vi vultos. Como vapor, só que mais denso e negro. Dava medo, muito mesmo. Daí, eles tentaram... sei lá, invadir Pete. Foi o que eu entendi, pelo menos. Pete ficou estranho e... — olhei para Luther. — Luther também. Mas não, não era Luther. Ele não estava ali. Foi estranho.

Somente o tique taque do relógio soava naquela sala. Tirando isso, um inquietante silêncio pairava. Eu sabia o que ele queria dizer — os dois não acreditaram em mim.

Luther me olhava como se ele esperasse eu falar mais alguma coisa dele para avançar em mim.

— Michael, você tem certeza do que está dizendo? — questionou a Sra. Perry. Será que eles estavam zoando de mim?

Eu assenti. E Luther ainda querendo me matar com aquele olhar sinistro dele. Eu estava doido pra sair dali.

— Mike, você tá bem? — disse Luther. Ele tentou dizer isso num tom preocupado, mas pra mim saiu num tom de extrema ameaça. Pelo amor de Deus, me tirem daqui!

Eu não consegui olhar para ele, mas menti dizendo que sim. A Sra. Perry (louvada seja!) notou.

— Pode ir, Michael, vá descansar. Está liberado do resto das aulas hoje. — Ela disse. E eu entrei em festa por dentro!

Me levantei e fui andando. Dei uma olhadela para trás e pude notar que ambos me observavam... e que os olhos de Luther estavam vermelhos. Do mesmo jeito que estava quando ele atacou Pete.

...


Eu sou fofoqueiro.

Eu sei, eu sei. Mas é que de alguma forma eu estava no meio disso. E eu não ia deixar que dissessem algo de mim pelas minhas costas.

Fui até o bebedouro, me refresquei bebendo um pouco de água e voltei, sem fazer barulho algum, para a parede da porta, tentando ouvir alguma coisa. A porta estava entreaberta, o que facilitou. Não havia ninguém no corredor além de um garoto bisbilhoteiro como eu. Não podia deixar de ouvir algo.

—... talvez não percebam. — ia dizendo a voz de Luther. — Tá bom que eu dei o sinal: “Estou aqui, me matem”. Mas não estou preocupado comigo. E sim com Mike.

O meu coração palpitou. Por que Luther estaria preocupado comigo?

— Você sabe que errou — ponderou a Sra. Perry. — Agora além de você, Michael também corre perigo. Oras! Um Servo bem aqui no internato! O único lugar onde vocês dois podiam estar seguros.

— Mas ele não sabe de tudo. Ele não tem noção do que ele é. Não vai chamar tanta atenção. Agora... eu? Devo partir o mais cedo possível. Sou inaceitável. Devia saber quando me... transformaram. — Luther esticou o pescoço para a Sra. Perry. Eu não pude ver o que tinha ali.

— Não precisa me mostrar, querido — disse ela. — Eu sei como isso é. Mas não se martirize. Você pode ficar aqui, não sabe disso? Eu coloquei uma proteção...

— Uma proteção ao Conselho? Está louca. Nada e ninguém se escondem deles. É apenas uma questão de tempo até eles me encontrarem. E Mike também.

A Sra. Perry se recostou na cadeira.

— Talvez eles não percebam que Michael pertence às Trevas. Se isso acontecer, estamos salvos... pelo menos por ora.

Eu arfei. O que eu pertencia mesmo?

Ouvi passos adiante, os passos da Sra. Jules.

— Tem alguém chegando? — ouvi Luther dizendo, enquanto eu me distanciava.

Eu não queria mais ouvir aquilo. Me afastei o mais rápido possível para que eles não me vissem. Rumei para ao meu quarto correndo, passando por todos e tudo, sem querer olhar para trás.

Como todos estavam em aulas, o quarto da ala masculina do segundo andar estava vazio. Eu compartilhava o quarto com mais três garotos, assim como a regra do internato, então era eu, mais dois garotos e Luther em dois beliches.

Luther. Eu não queria lembrá-lo agora.

Lembrei-me do que disse: “Mas ele não sabe de tudo. Ele não tem noção do que é.”.

O que eu era que eles sabiam e que eu não sabia? E se eu tivesse noção do que eu sou, o que aconteceria? Quem diabo é o Conselho? E como a Sra. Perry, de alguma forma, também sabia de mim? E o que ela disse... “Talvez eles não percebam que Michael pertence às Trevas”... Eu pertenço às Trevas? Como assim? O que diabos estava acontecendo que eu não sabia?

Eu não queria saber de nada. E nem de horas, pois quando foi me dar conta, ainda eram quatro da tarde. E eu queria dormir. Apenas dormir e refletir, me isolar. Não demorou muito até eu pegar no sono.

...


A floresta era densa, negra. Perversa. Luther andava cambaleando pelo caminho até o meu encontro. Ele andava com a cabeça abaixada, todo arranhado. E nas suas costas... haviam asas. Asas de dragão, estranhas e sombrias.

Quando ele levantou a cabeça, me deu um sorriso. Um sorriso ameaçador. E um sorriso com presas. Afiadas e assustadoras.

Eu devia sentir medo. Mas não. Eu sentia ódio, rancor, aversão. Queria esfolá-lo, acabar definitivamente com ele. Queria matar o meu melhor amigo.

Era natural de mim. Um sentimento ancestral.

“Não há como impedir, não?” quis saber.

Eu rosnei. Sim, rosnei.

Eu não era eu. Não era eu, simplesmente não era. Pelo menos não no meu corpo. Eu olhei para meu pés... hã... espere. Garras. Peludas e grandes. Não um cachorro.

Um lobo.

Olhei ao redor e vi uma enorme lua cheia. Ela me mantinha vivo, forte. Era inquestionável.

Eu não pensei duas vezes e ataquei Luther...

...


Acordei num salto. Assim como o meu sonho.

Foi tão real que cheguei a pensar que fosse real. Sentia aquele poder. Sentia aquela raiva. Era intensa...

Eu arfei. Tentei voltar a si — olhei que já era noite, uma chuva forte caia. Eu sentado na minha cama, percebi que não havia ninguém. Levantei para ver se estava certo. Hum... Tudo limpo. Mas tinha algo ali. Alguém.

Levei um brusco empurrão e fui imprensado na parede. Alguém forte, muito forte.

Luther.

Seu rosto entrou em foco depois que me recompus do baque. E... ele estava com aquela expressão de assassino. E eu entrei em pânico. Ele queria me matar naquela hora, só não fez porque a Sra. Perry estava ali.

Mas podia, já que ela sabia o que ele era. Um monstro.

Era como se o meu sonho (ou pesadelo) se tornasse realidade, e isso não era legal. E eu não estava como lobo para me defender.

Luther arreganhou um sorriso... mostrando suas presas. Ele era... era um...

— Não há como impedir, não? — disse ele, naquele mesmo tom de voz do meu sonho. — Eu devia te matar...

Ele foi se aproximando. Eu me debatia, tentando escapar, mas sem sombra de dúvidas, Luther era mais forte. Era o fim. Ele iria me fazer como ele.

Luther de alguma forma relutou. Queria me morder e ao mesmo tempo não. “Não há como impedir”, foi o que dissera. E o meu medo aumentou.

Tão rapidamente como ele me atacou, ele se afastou para o oposto do quarto. Arquejando e ao mesmo tempo querendo me matar.

Eu não sabia o que fazer; se gritasse, corresse ou me escondia. Ele iria me achar e me destroçar.

Luther me deu uma última olhada. Abriu a janela e saltou para fora, desbravando aquela chuva forte de verão.

— Luther! — gritei, esperando que me ouvisse. Quando fui até o parapeito da janela, ele havia sumido por completo.

Agora eu entendia. Tudo. Da sua falsa alergia, da conversa com a Sra. Perry, dos vultos que surgiram... ele era das Trevas.

Luther era um vampiro.


Notas finais
Humm... e aí? Gostaram? :)